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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

mãe esquizofrenogenica


Hoje em dia, em que a psiquiatria está tão voltada para as pesquisas químicas dos neurotransmissores cerebrais, é interessante lembrarmos que bem recentemente, até meados dos anos 70, havia uma grande linha de pesquisas sobre a influência da família na gênese das doenças mentais, especialmente das psicoses.

Nos Estados Unidos, a partir da década de 40, Harry Stack Sullivan insistia na importância das primeiras relações do bebê com seus pais como fatores determinantes em sua posterior patologia, especialmente a esquizofrenia. Estabeleceu-se uma grande curiosidade em torno da "mães esquizofrenogênicas", expressão cunhada em 1948 por Frieda Fromm-Reichman. Em linhas gerais, a "mãe esquizofrenogênica" se caracterizaria por uma atitude ambivalente com a qual simultaneamente superprotegeria e rejeitaria seu filho.

Muitos estudos foram feitos na década de 50 sobre esse tema, como mostra a abrangente revisão feita por Gordon Parker no artigo RE-SEARCHING THE SCHIZOPHRENOGENIC MOTHER, (The Journal of Nervous and Mental Disease - vol. 170 - 8 - 1982). Estes trabalhos se revelaram muito esclarecedores, mas foram questionados em função de sua pobre metodologia, da ausência de grupos de controle, de uma estatística deficitária, um problema, a meu ver, próprio da pesquisa psiquiátrica quando se afasta de sua vertente mais orgânica

Trabalhos subsequentes deslocaram o eixo da patologia, que estava centrado na mãe, para o relacionamento patológico do casal parental e depois o estudo dos padrões de comunicação dos pais e da família dos esquizofrênicos. Neste campo, os trabalhos de Bateson, Haley, Weakland e Laing , com a teoria do "duplo vínculo", marcaram época

É compreensível a posição de John Neill, em seu artigo WHATEVER BECAME OF THE SCHIZOPHRENOGENIC MOTHER? (American Journal of Psychotherapy, vol. XLIV, 4, Oct. 1990), quando ataca o conceito de "mãe esquizofrenogênica", considerando-o equivocado e extremamente danoso por culpabilizar as mães, demonizando-as.
Esse é um problema muito sério. Em primeiro lugar, se as mães são "esquizofrenogênicas" – ou seja, se determinadas mães estabelecem relações especialmente patógenas com seus filhos, posteriormente causadoras de psicoses ou outras perturbações - elas não devem ser demonizadas e sim tratadas, entendidas em suas patologias. Em segundo lugar, o enfoque familiar da doença mental implica numa grande mudança na prática psiquiátrica. Na medida em que os recursos terapeuticos se descentram do "paciente" e se voltam para a família, é de se esperar que isto gere efeitos e o mais imediato deles é o aparecimento de culpa e ansiedade em pessoas que até então não se viam como "pacientes". Isso causaria problemas logísticos incontornáveis, desde que a demanda pelos serviços psiquiátricos aumentaria de forma dramática.
Apesar de praticamente abandonado o obsoleto, parece-me que trabalhos mais recentes dão ao conceito de "mãe esquizofrenogênica" uma formalização teórico-clínica mais acurada e pertinente
Refiro-me os trabalhos de Stoller com as mães de transexuais (A EXPERIÊNCIA TRANSEXUAL - Imago Editora), e as elaborações teóricas de Piera Aulagnier sobre a gênese da psicose (OBSERVACIONES SOBRE LA ESTRUCTURA PSICÓTICA - PSICOANALISIS DE LA PSICOSIS - CARPETA DE PSICOANALISIS 1 - LetraViva). É interessante sublinhar que, apesar de partirem de corpos teóricos muito distantes - um psicanalista americano, outra lacaniana - as conclusões às quais chegam têm grande semelhança. Para estes autores, a relação patógena fica caracterizada uma ligação narcísica da mãe com o filho, que não é rompida pela intervenção do pai enquanto terceiro representante da lei. A psicose (ou travestismo) é decorrência da não castração da mãe através da equação bebê (filho)-pênis.
Foi este o modelo que seguimos para entender os enígmas do filme "CARÁTER". Joba poderia ser vista como um exemplo de "mãe esquizofrenogênica", (aqui entendida como aquela que produz uma relação patógena com o filho não necessariamente esquizofrênico) muito embora, como ali fica também esclarecido, não existe apenas a problemática da mãe e sim toda uma complexa e complementar relação com o pai de seu filho.
Essa linha de pesquisa sobre o funcionamento familiar, que esteve em grande voga nos anos 70, teve continuidade com o trabalho dos terapeutas de família, que usam hoje basicamente dois referenciais teóricos mais importantes, o psicanalítico e o sistêmico.
Ainda hoje, lembro do grande impacto que senti ao ler SANITY, MADNESS AND FAMILY, de Laing e Esterson. São transcrições de fitas gravadas com entrevistas de esquizofrêncos e suas familias. É uma leitura que recomendo aos mais entusiasmados com a "decada do cérebro".

http://www.priory.com/psych/carater.htm

Ler mais:

Mães/relações familiares esquizofrenogenicas

Em fabricação da loucura de Szasz há uma nota de rodapé sobre a hipótese da mãe esquizofrenogenica. Ele afirma que as relações familiares são o aspecto mais claro mas que o exame do papel da psiquiatria e do Estado é confortavelmente deixado de lado.


https://crisedapsiquiatria.blogspot.com/2019/01/mae-devoradora.html

https://crisedapsiquiatria.blogspot.com/2020/01/verdadeiro-mito-da-mae.html



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