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Antidepressivos: cura ou causa?
Vários estudos relacionam o uso de psicotrópicos ao desenvolvimento crônico da depressão
Fluoxetina
está ficando quase tão popular quanto a aspirina. Quem nunca tomou pode
apostar que convive com muitos que não vivem sem. A fama de droga
inofensiva abriu sua passagem para diversas áreas da medicina. É
receitada aos deprimidos e também aos que sofrem de dores crônicas, aos
que apresentam qualquer queixa que possa ter origem emocional e aos que
confundem tristeza com depressão.
E declarações como a que
Chico Anysio fez em sua última entrevista
- concedida à Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) pouco antes de
sua morte, em 2012 - são usadas para reforçar a necessidade que a
sociedade está criando de buscar seu bem estar mental nas farmácias. Com
a intenção de desmistificar a depressão e o uso antidepressivos, chegou
a afirmar que
não teria feito 20% do que fez sem os remédios.
Resta saber se, assim como o comediante, tantos brasileiros
estariam com sua capacidade de produção tão baixa caso não tivessem
buscado auxílio químico. O fato é que depressão não é uma doença nova,
mas sua cura por meio de drogas é. Com a popularização do Prozac na
década de 90, as pessoas ganharam o conforto de resolver de forma
prática e relativamente rápida o que aprenderam ser um "desequilíbrio
químico" no cérebro.
E o mercado de psicotrópicos não para de
crescer desde então. A venda de estabilizadores de humor e
antidepressivos aumentou 8,4% nos últimos quatro anos no país. Mas o
verdadeiro salto foi nos quatro anos anteriores - entre 2005 e 2009 -
quando cresceu 44,8%, de acordo com dados do
IMS Health, instituto que faz auditoria para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Foi
também depois do surgimento do Prozac que o número de depressivos
começou a crescer em proporções epidêmicas. Em 2007, uma década depois
de aprovada a comercialização da fluoxetina pelo
Food and Drugs Administration
(FDA), o número de americanos incapacitados pela doença era de 1 em 76,
seis vezes mais que a taxa registrada em 1955, conforme cita Robert
Whitaker no livro
"Anatomy Of An Epidemic" (sem edição no
Brasil). Esse índice contribui de forma proporcional ao aumento do uso
de antidepressivos em todos os países. Na Inglaterra, segundo o autor, o
número de dias de incapacidade relacionados à depressão triplicou logo
na primeira década de comercialização do Prozac. Com tantos medicamentos
acessíveis, não deveriam essas taxas estarem caindo?
O fato é que
se Chico Anysio tivesse vivido seu período produtivo na primeira metade
do século 20, ele teria uma chance grande de ter se livrado da
depressão para sempre depois de superada a primeira crise. Em um estudo
com 2,7 mil internados com depressão no estado de Nova York entre os
anos de 1909 e 1920, o
New York Department of Mental Hygiene
registrou que apenas 17% dos pacientes tiveram mais de três crises
subsequentes, enquanto mais da metade dos depressivos não tiveram
recorrência. Atenção para o fato e se tratar de depressão severa, com
necessidade de internação.
O Instituto Nacional de Saúde Mental
dos Estados Unidos (NIMF) considerava, na época, a depressão uma
condição com os melhores prognósticos de recuperação. Com o uso da
medicação até mesmo em casos leves - ou, para muitos, como recurso para
se sentirem "melhor que bem" - hoje uma parcela cada vez maior da
população depende dessas drogas sob o risco de relapsos constantes. De
problema relativamente incomum se transformou em uma condição crônica,
quarta principal causa de incapacitação no mundo. Dados da Organização
Mundial da Saúde (ONU) mostram que no Brasil 18,4% da população já teve
um episódio de depressão, o maior índice entre os países emergentes.
Ataque
de pânico, irritabilidade, insônia, agressividade e alteração de humor
são alguns dos sintomas mais comuns observados em quem deixa de usar os
remédios. A síndrome da descontinuação faz com que os pacientes
acreditem que não podem viver sem o medicamento. Afinal, foram
convencidos de que sua depressão seria resultado de um desequilíbrio de
neurotransmissores.
Essa teoria, no entanto, já foi derrubada por
inúmeras pesquisas. Não existe comprovação de que níveis baixos de
serotonina levem à depressão. O número de não depressivos com níveis
baixos de serotonina é semelhante ao de depressivos, o que mostra que
variações são normais. O que provoca desequilíbrio químico é, na
verdade, a própria medicação - assim como outras drogas que agem
alterando os níveis de neurotransmissores.
Ainda não se sabe por
que medicamentos como fluoxetina e outros inibidores seletivos de
recaptação de serotonina (ISRS) apresentam melhora da depressão, ao
menos em um primeiro momento. Há teorias ainda não comprovadas de que o
acúmulo de serotonina promoveria a neurogênese (nascimento de células
nervosas) no hipocampo, enquanto fatores como o stress provocam efeito
oposto - a morte de neurônios nessa área, associada à memória e ao
aprendizado. O tempo de amadurecimento dessas novas células é de três a
seis semanas, o mesmo período necessário para se perceber o efeito
dessas medicações.
O problema é que esse efeito tende a
desaparecer em aproximadamente um ano de uso. Estudo comandado pelo
professor de psiquiatria e pesquisador da Universidade de Massachusetts,
Maurizio Fava, concluiu que esse é o tempo de tolerância ao medicamento
para cerca de um terço dos pacientes. Além disso, já está comprovado em
amplos e sólidos estudos que esses psicotrópicos só funcionam melhor
que placebos em casos de depressão severa. "Entretanto, até mesmo essa
evidência estaria relacionada a uma redução na resposta ao placebo
nesses pacientes e não a um aumento na eficácia de antidepressivos",
citaram os autores do STAR*D (The Sequenced Treatment Alternatives to
Relieve Depression), o maior estudo sobre a eficácia dos antidepressivos
já realizado. O poder de acreditar na eficácia do tratamento da
depressão é inquestionável e certamente provoca importantes alterações
no cérebro.
Há recursos para combater a depressão e promover
neurogênese sem os efeitos colaterais dos remédios. Exercícios aeróbicos
e terapia são os mais comuns e não vêm acompanhados de problemas como
disfunção sexual, insônia, apatia, fatiga e espasmos musculares -
causados pela queda compensatória de dopamina ao se elevar os níveis de
serotonina - sem falar nos possíveis e ainda desconhecidos efeitos de
longo prazo.
Infelizmente, com o fácil acesso a formas mais
práticas de lidar com o problema - os comprimidos - a psicoterapia vem
deixando de ser a opção mais razoável. Segundo pesquisadores da
Universidade de Columbia, no início da década de 1990, a terapia era a
primeira opção no tratamento da depressão para 71,1% das pessoas. Quase
duas décadas depois, em 2007, apenas 43% dos deprimidos optaram por esse
tratamento, enquanto remédios eram a opção de 75,3%.