Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/
Mostrando postagens com marcador modelo social da deficiência. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Obrigações sociais funcionais e diagnóstico psiquiátrico

A avaliação clínica pela psiquiatria recorre ao critério de obrigações sociais funcionais independentemente de quaisquer condições ambientais, já que o pressuposto é internalista e organicista, que facilitem, considerando uma isonomia entre normais e anormais1, ou dificultem a satisfação de exigências de contingências de reforçamento. A atribuição de sistema dopaminérgico excessivamente ativo é, em interpretação com pressupostos alternados, um julgamento negativo da presença e apresentação frequente de comportamento divergentes, e portanto a inferência de reforço positivo disfuncional, com as expectativas de obrigações sociais funcionais. Os significados contextuais de obrigações sociais funcionais equivalem a se encaixar de alguma forma no que está posto pelas condições ambientais. É socialmente custoso ao invés de vantajoso problematizar o que está posto por condições ambientais prévias. Logo, a solução oferecida é a classificação social tipificada como pessoa com perfil impróprio para cumprir obrigações sociais funcionais: o diagnóstico com validade jurídica.

Fontes:
1. Sidman, M. (1960). Normal sources of pathological behavior. Science, 132, 61–68. Link: https://doi.org/10.1126/science.132.3419.61

terça-feira, 23 de junho de 2026

Modelos normais e não normais de mundo

No mundo normalmente comportado o sinal é que nada é e nem deve ser insólito. Qualquer coisa insólita, fato, informação ou conhecimento por isso devem ser descartados como ruído.

Nos modelos de comportamento de mundo normalmente comportado, as probabilidades estatisticamente normais são sinal e as probabilidades baixas são ruído. Nos modelos de mundo não normalmente comportados, as baixas probabilidades não são necessariamente ruído. Logo, os mundos ou fatos acessíveis e mundos ou fatos inacessíveis são diferentes. A relação entre ambos os tipos de modelos de comportamento de mundo são definíveis contingentemente. Teorias assumiriam um dos tipos de modelos de comportamento de mundo como sua definição e interpretação de dados que contam como sinal e como ruído.

Modele isso a partir de lógica modal e estipule as relações possíveis entre os dois tipos de modelos de comportamento do mundo e acesso a mundos (fatos normais ou não normais).

Resultado de IA:

O resultado é acessibilidade somente ao mundo normal para o modelo de comportamento de mundo normal e acessibilidade aos dois tipos de mundo no modelo de comportamento de mundo não normal.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Medicina pragmática, neutra e imparcial

Apesar de se apresentar como um campo de atuação profissional e científico pragmático e não teórico, um entendimento de que o conhecimento sempre possui pressupostos teóricos como ponto de partida é útil para que o senso crítico a respeito de estruturas conceituais subjacentes a práticas de manipulação biológica sejam pensáveis. Pressupostos teóricos incluem não apenas valores cognitivos de neutralidade e imparcialidade, capacidade preditiva, parcimônia, fecundidade, expediência entre outros, mas também valores sociais, políticos e econômicos constitutivos da produção de ciência. Ao se apresentar como núcleo teórico de neutralidade e imparcialidade, a medicina não transparece seus constituintes nem admite pensar o direcionamento de produção de conhecimento e intervenções de forma crítica. Basta uma apresentação de alternativas teóricas e sociais, e um conhecimento das reações das pessoas implicadas no conhecimento pragmático para ver que há escolhas de valores tanto na circulação como na produção de conhecimento mesmo que seja apenas por escrúpulos e restrição de possibilidades de comportamentos epistêmicos alternativos ou opção pela reprodução social conformista.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A tolerância inadmissível e a reforma psiquiátrica

A rigidez a respeito do que é intolerável e inadmissível é uma das atitudes incompatíveis com a reforma psiquiátrica antimanicomial. O fato de que seja proposto a tolerância a grupos com variabilidade social, cultural e biológica é um determinante da rejeição à reforma psiquiátrica. As humanidades são áreas que principalmente problematizam a variabilidade social, cultural e biológica e também tem grupos detratores, dentre os quais os ideologicamente indispostos. 

domingo, 24 de maio de 2026

Emancipação em discurso e efetiva

A assimilação de discursos emancipatórios não é suficiente para emancipação efetiva uma vez que tais discursos tem a característica de pensamento livre e comportamento conceitual não sujeito a condições materiais que, apesar de ter potencial de alteração de circunstâncias a partir de iniciativas do sujeito interessado na emancipação, a apresentação concreta de exigências ambientais, necessidades prioritárias e inviabilidades de alteração de repertório de comportamentos reduz o espectro de possibilidades de emissão de comportamentos concretos que alterem as contingências de reforçamento caracterizadas como de interesse de emancipação.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

AEC, reforma psiquiátrica e trabalho

Um ponto de incompatibilidade do behaviorismo e análise experimental do comportamento com a reforma psiquiátrica antimanicomial é não presumir inviabilidade de trabalho na sociedade capitalista, o que implica em adaptação ideológica, e não assumir que o único caminho para o trabalho é mediação institucional com formas de trabalho não competitivas. Como há necessidade de adaptação ideológica e comportamental para inserção na sociedade de mercado, não há porque direcionar esforços para modificar "estruturas sociais" manicomiais.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Capacitismo, eugenia, habitat e arbitrariedade

Capacitismo e eugenia tem como semelhança que ambos elegem características arbitrariamente usadas como critério de seleção e valorização ou o seu inverso negativo. Dentro de uma ampliação e variação de contextos, é possível dizer que toda pessoa tem sensibilidade aumentada das características do próprio habitat e tendem a ser desadaptadas e ineficientes em habitats diferentes. Nesse sentido, surgem etnocentrismo a respeito de diferenças de habitat e hierarquização entre ajustes a habitats com graus diferentes de valorização e de privilégios.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

"Saúde mental" e "doença mental" como condição social

A condição de "normalidade mental" é definida geralmente como ausência de doença. A condição de "anormalidade mental" é definida como um evento fechado em si mesmo, no caso uma "patologia biológica". No entanto, definir "normalidade mental" como uma condição social de status social confortável, estável e seguro tem implicações descritivas interessantes como um experimento de pensamento. Ao pensarmos em "doença mental" como uma ausência de condição social de status social confortável, estável e seguro alguns tipos de eventos tornam-se visíveis e relevantes como condições determinantes de saúde mental e de saúde social. Apesar de ser uma definição em termos sociais não há necessidade de exclusão de variáveis biológicas uma vez que alterações biológicas, independentemente de origem causal, estabelecem alguma forma de perda de "condição social de status social confortável, estável e seguro". Portanto, uma definição positiva e social de "normalidade mental" permite uma leitura multifatorial de condições determinantes de "estigma" ou de atribuição de "valor social negativo" tratados como equivalentes de "doença mental". A partir desse conceito de "saúde mental", o fato de que haja estigma a respeito da "doença mental" é uma consequência de uma perda de condição social e a "doença mental" não necessariamente é o primeiro antecedente causal da sequência de eventos classificados como próprios desse domínio empírico. Uma condição social favorável tem como consequência a reorganização de eventos na direção de efeitos facilitadores e uma condição social desfavorável a reorganização de eventos na direção de efeitos dificultadores. Logo, a recuperação de "saúde mental" tem como desafio ou barreira a conquista de condição social, sendo essa conquista de condição social imersa em relações de poder que perpassam o funcionamento social.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Neurolépticos e deficiência: definição de processos

Nível biológico: indução de danos orgânicos e funcionais por uso de neurolépticos e negação sistemática dos mesmos por fundo motivacional emocional e comercial

Nível operante: redução de aprendizagem pela redução de interações constante com o ambiente ao longo do desenvolvimento, aumento de custo fisiológico de resposta e indução de extinção fisiológica global constante de repertório operante demonstrado por experimentos em farmacologia comportamental. Ambiente de condições de desenvolvimento de comportamentos operantes (aprendizagem) de baixa qualidade e eficácia de acordo com os princípios da análise experimental do comportamento

Nível social: imposição de dificuldades e exigências sistêmicas e complexas adicionais oriundas da implicação de negação sistemática de funcionalidade e adaptabilidade de comportamentos operantes da pessoa sob tratamento com antipsicóticos resultantes de explicação internalista do modelo médico (organicismo hierárquico) que implica logicamente em negação de princípios biológicos do comportamento operante. Imposição e validação sistemática e incondicional de exigências unilaterais à pessoa sob tratamento com antipsicóticos.

domingo, 31 de agosto de 2025

Definição de capacitismo

"O que é capacitismo?

Capacitismo é um conjunto de crenças, processos e práticas que produzem — com base nas habilidades que alguém apresenta ou valoriza — um entendimento específico de si mesmo, do próprio corpo e da relação com outros seres humanos, outras espécies e o meio ambiente, incluindo também como a pessoa é julgada pelos outros (Wolbring, 2006a, 2007a, b, c, d). O capacitismo reflete o sentimento de certos grupos sociais e estruturas sociais que valorizam e promovem determinadas habilidades — por exemplo, produtividade e competitividade — em detrimento de outras, como empatia, compaixão e bondade. Essa preferência por certas habilidades em vez de outras leva à rotulação de desvios reais ou percebidos, ou da falta de habilidades consideradas “essenciais”, como um estado diminuído de existência, contribuindo para justificar diversos outros “ismos” (Wolbring, 2006a, 2007a, b, c, d).

O capacitismo é um “ismo” guarda-chuva para outros “ismos”, como racismo, sexismo, castismo, etarismo, especismo, antiambientalismo, produtivismo (baseado no PIB) e consumismo. É possível identificar muitas formas diferentes de capacitismo, como o capacitismo baseado na estrutura biológica (B), o baseado na cognição (C), o baseado na estrutura social (S) e o capacitismo inerente a um determinado sistema econômico (E).

O capacitismo e a preferência por determinadas habilidades têm sido predominantes ao longo da história. Ele moldou — e continua moldando — áreas como segurança humana (Wolbring, 2006c), coesão social (Wolbring, 2007f), políticas sociais, relações entre grupos sociais, indivíduos e países, relações entre humanos e não humanos, e entre humanos e o meio ambiente (Wolbring, 2007a, b, c). O capacitismo é um dos “ismos” mais profundamente enraizados e aceitos socialmente.

Historicamente, o capacitismo tem sido usado por diversos grupos sociais para justificar seu nível elevado de direitos e status em relação a outros grupos. Por exemplo, as mulheres eram vistas como biologicamente frágeis e emocionais e, portanto, incapazes de assumir responsabilidades como votar, possuir propriedades ou manter a guarda dos próprios filhos (capacitismo levando ao sexismo; Silvers et al., 1998; Wolbring, 2003).

Além do racismo e do especismo, a valorização de certas habilidades cognitivas também se manifesta nos estágios de desenvolvimento humano. Fetos e crianças pequenas são frequentemente vistos como não detentores de direitos humanos plenos devido à falta de determinadas habilidades. Da mesma forma, a ausência de certas habilidades cognitivas é usada como argumento para negar certos direitos a “humanos com deficiência cognitiva”.

O capacitismo é um dos “ismos” mais socialmente enraizados e aceitos, e um dos maiores facilitadores de outros preconceitos (por exemplo, o nacionalismo se expressa por meio dos esportes, especismo, sexismo, racismo, antiambientalismo etc.). O capacitismo relacionado à produtividade e à competitividade econômica é a base de muitas sociedades e de suas relações com outras sociedades, sendo frequentemente visto como um pré-requisito para o progresso.

O julgamento baseado em habilidades está tão enraizado na sociedade que seu uso para fins de exclusão dificilmente é questionado ou mesmo percebido. Pelo contrário, grupos marginalizados por alguma forma de capacitismo ou “disableismo” frequentemente utilizam esse mesmo sentimento para reivindicar mudanças de status (“nós somos tão capazes quanto vocês”; “podemos ser tão capazes quanto vocês com as devidas adaptações”).

Precisamos reconhecer que a aceitação e o apoio à “diversidade de habilidades” é tão importante quanto outras formas de diversidade, e que o capacitismo é tão limitador quanto — e muitas vezes a base de — outros preconceitos."

Referência
WOLBRING, Gregor. The politics of ableism. Development, [S. l.], v. 51, n. 2, p. 252-258, jun. 2008.

“Consideramos também que as capacidades normativas que sustentam o capacitismo são produzidas com base nos discursos biomédicos que, sustentados pelo binarismo norma/desvio, têm levado à busca de que todos os corpos reproduzam a capacidade de se afastar do que é considerado abjeção (corpos abjetos são aqueles que, por divergirem do que é considerado típico da espécie, busca-se distanciar a todo custo).”

Fonte: Como construir uma escola que acolha a todas as pessoas?LAPEE/UFSC.

O capacitismo é “Uma rede de crenças, processos e práticas que produzum determinado tipo de corpo (o padrão corporal) que é projetado como perfeito, típico da espécie e, portanto, essencial e totalmente humano. A deficiência é então moldada como um estado diminuído de ser humano” (Campbell, 2001, p.44).

Mesa: Acessibilidade e Barreiras Atitudinais para a Inclusão da Pessoa com Deficiência Fala: O capacitismo e a produção de barreiras na universidade. IX Semana de Saúde Mental e Inclusão Social. Núcleo de Estudos sobre Deficiência. UFMG

terça-feira, 17 de junho de 2025

A crítica ao complexo industrial do autismo

Nunca impliquei com psicanalistas mas quando desenvolvem uma tese sobre a perniciosidade das contribuições da análise experimental do comportamento para o desenvolvimento de crianças com autismo temos um problema grave. A psicanálise tem um hábito arraigado de fazer críticas sociais em interface com áreas das ciências humanas e sociais como uma forma de propaganda velada dos méritos da psicanálise. Portanto, a crítica ao complexo industrial do autismo na verdade é um discurso de campanha a favor dos méritos da psicanálise. O problema da crítica ao complexo industrial do autismo é a natureza de textualidade que aceita qualquer configuração de articulação de conceitos com pressupostos nem sempre explícitos. Enquanto que na análise experimental do comportamento o critério é o sucesso da aprendizagem e isso não significa aceitar qualquer coisa. As ideologias de tratamento e de sociedade não são uma responsabilidade da análise experimental do comportamento. São uma realidade social. O exame das ideologias é bem vindo mas é complemento. A crítica às ideologias sociais não deve ser o centro do tratamento em saúde mental se o tratamento não for bem sucedido a partir do critério de sucesso de aprendizagem. Negar a capacidade de contrafactualidade da análise experimental do comportamento é o maior prejuízo desse tipo de campanha comercial com pretenso objetivo de interesse social.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Concepções de desenvolvimento

https://pedagogiaaopedaletra.com/a-abordagem-inatista-maturacionista/ 
A Abordagem Inatista Maturacionista 

A abordagem inatista-maturacionista parte do princípio de que fatores hereditários ou de maturação são mais importantes para o desenvolvimento da criança. Hereditariedade refere-se à herança genética que a criança recebe de seus pais. Maturação refere-se a um padrão de mudanças comum a todos os membros de determinada espécie. Apesar das diferenças, Binet e Gesell estabeleceram padrões de comportamento para avaliar a inteligência ou o desenvolvimento da criança. Os fatores biológicos são os mais decisivos na determinação da inteligência e desenvolvimento; tais padrões comportamentais são independentes de fatores externos ou do contexto social em que a criança vive. Não importa o lugar e a época em que a criança viva. Se o ritmo e o desenvolvimento são biologicamente determinados, espera-se que certos comportamentos apareçam na mesma idade. De acordo com a perspectiva inatista-maturacionista, a aprendizagem depende do desenvolvimento. Ou seja, o que a criança é capaz ou não de aprender é determinado pelo seu nível de inteligência. Para mais informações sobre como a psicologia pode ajudar no aprendizado, veja a psicologia escolar. 

https://www.willassuncao.com.br/2022/02/inatismo-ambientalismo-e-interacionismo.html 

INATISMO

A abordagem Inatista traz a concepção de que a prática pedagógica não advém de circunstâncias contextualizadas, ela baseia-­se nas capacidades básicas do ser humano. Ou seja, a personalidade, a forma de pensar, seus hábitos, seus valores, as reações emocionais e o comportamento são inatos, isto é, nascem com o indivíduo e seu destino já vem pré­-determinado. Os eventos que ocorrem após o nascimento não são essenciais ou importantes para o desenvolvimento. Destaca-se como teórico, Arnold Gessel. 

AMBIENTALISMO 

 A abordagem ambientalista, também chamada de behaviorista ou comportamentalista, privilegia a experiência como fonte do conhecimento e formação de hábitos, atribuindo um grande poder ao ambiente no desenvolvimento e na constituição das características humanas. 

O ambiente para B.F. Skinner é muito mais importante do que a maturação biológica. São os estímulos presentes numa dada situação que levam ao aparecimento de um determinado comportamento. 

INTERACIONISTA 

Segundo os interacionistas, o organismo e o meio exercem ações recíprocas, ou seja, um influencia o outro acarretando mudanças sobre o indivíduo. Eles discordam das teorias inatistas por desprezarem o papel do ambiente e das concepções ambientalistas por ignorarem fatores maturacionais. 

É na interação da criança com o mundo físico e social que características deste mundo vão sendo conhecidas e assim ela poderá, através de sua ação sobre ele, ir construindo seus conhecimentos. 

Portanto, a concepção interacionista de desenvolvimento acredita na ideia de interação entre o organismo e o meio, na qual resulta a aquisição de conhecimentos, como um processo construído pelo indivíduo que dura a vida toda. 

O bebê constrói suas características, ou seja, seu modo de agir, pensar, sentir e sua visão de mundo, através da interação com outras pessoas, adultos e crianças. Podemos destacar duas correntes teóricas que defendem a visão interacionista de desenvolvimento: a elaborada por Piaget e seus seguidores e a defendida por teóricos soviéticos, em especial por Vygotsky. Destaca-se como teórico também Wallon.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Estigma e capacidade social de solução técnica

É possível afirmar a relação quantitativa de que quanto menos uma sociedade é capaz de uma solução técnica efetiva de uma condição de saúde maior é o estigma alimentado e quanto mais uma sociedade é capaz de uma solução técnica efetiva para uma condição de saúde menor é o estigma. Historicamente, a contracultura valorizou a loucura por aperfeiçoar maneiras de lidar com a divergência. Em termos de uma linguagem comportamental, a experiência social ampla da capacidade social ou da incapacidade de oferecer uma solução técnica efetiva estabelece fatos para que se construam equivalências simbólicas (de estímulos) positivas ou negativas sobre uma condição de saúde tomada como uma classe de comportamento verbal. 

terça-feira, 30 de julho de 2024

Capacidade do autista: natural ou adquirida pela "ABA"?

Contemporaneamente foi criado um imaginário de que pessoas com características de autismo tem um grande potencial de realização em suas áreas de atuação. Ao mesmo tempo, uma realidade paralela do autismo é a deficiência profunda. O senso comum médico é de que o potencial e a deficiência profunda são características que ocorrem naturalmente a partir de uma predisposição em termos do pensamento de Kraeplin. O tratamento padrão-ouro do autismo é a análise do comportamento aplicada, o qual em termos simples é uma forma de aceleração da aprendizagem. Portanto, o imaginário de capacidade da pessoa com características de autismo foi criado a partir da aceleração da aprendizagem da análise do comportamento aplicada, mas entendido de forma Kraepliana. O fenômeno cultural da pessoa com características de autismo com potencial de realização deveria ser entendido como um resultado da qualidade do tratamento padrão-ouro em análise aplicada do comportamento. Como acontece habitualmente, os bons resultados da análise experimental do comportamento perdem a ligação com sua origem quando se inserem no senso comum.

sábado, 23 de setembro de 2023

Incapac. e irrespons.: teoria manicomial e concretude

O conceito manicomial de incapacidade deveria ser decomposto e especificado se for para se referir à condições existentes no mundo e haver possibilidade de confrontação com os fatos. Incapacidade de emitir juízos válidos, incapacidade laboral e incapacidade de decidir, por exemplo, são circunstâncias específicas que precisam ser descritas como comportamentos objetivos e caso a caso ao invés de a partir de construtos diagnósticos indiretos com insuficiente referência a comportamentos. A incapacidade de emitir juízos válidos é postulada para por exemplo poderia deslegitimar falas incômodas aos interesses de pessoas envolvidas, a incapacidade de decidir poderia permitir a tutela da pessoa segundo prescrições de acordo com interesses de pessoas envolvidas e a incapacidade laboral poderia justificar a incapacidade de emitir juízos válidos e de decisão. Dessa maneira, não bastaria um raciocínio diagnóstico Kraepeliano (que nega o espaço e tempo concretos) para atribuir essas características à pessoa avaliada mas seria preciso descrever repertórios comportamentais e condições concretas no mundo (os quais não são irreversíveis nem inevitavelmente progressivos).

O conceito manicomial de irresponsabilidade poderia ser especificado como não responder de acordo com prescrições dos médicos, familiares e sociedade (o que também são condições específicas no mundo concreto). O raciocínio Kraepeliano já referido tem o efeito de deslegitimar considerações e descrições das condições específicas envolvidas nas prescrições dos médicos, familiares e sociedade. As prescrições se tornam imunes à avaliação crítica já que há uma assimetria de poder.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Capitalismo e loucura

Basaglia, autores da reforma psiquiátrica e da antipsiquiatria fizeram leituras sobre o papel do capitalismo na experiência social de loucura. Os psiquiatras tradicionais defendem que a habilidade para a produção e renda é sinal de aptidão ou saúde biológica. Livros de história da economia descrevem como as práticas do capitalismo tiveram que ser inculcadas no ambiente social e no repertório das pessoas e o custo social que foi retirar o apoio que os camponeses tinham durante o período feudal. Sociólogos descrevem como a cultura brasileira teve certa dificuldade de adotar as práticas de produção capitalista e como isso faz com que o desenvolvimento econômico seja reduzido. A industrialização e a urbanização aumentam as exigências sobre os comportamentos esperados e aumentam a necessidade de conquistar autonomia financeira (reduzem o apoio comunitário). Alguns modos de vida estão mais alinhados com as práticas de produção e consumo capitalistas enquanto outros modos de vida tangenciam a produção e consumo. Modos de vida que consistem em ambiente sociais, práticas e culturas. O preparo para os modos de vida mais compatíveis com a produção e consumo consiste numa aprendizagem progressiva de comportamentos os quais não são nada simples e quanto mais produtivo se deseja ser menos simples são essas aprendizagens. Por outro lado, observação social indica que existem atalhos para se inserir no modo de produção e consumo capitalista enquanto também existem modos mais difíceis de inserção nas práticas capitalistas. Um aspecto da avaliação psiquiátrica ou psicológica envolve o quanto a pessoa se comporta de acordo com certos padrões de adequação às práticas capitalistas os quais são entendidos como sinais de grau de aptidão/inaptidão e grau de saúde/doença. Além disso, o modo de pensar psiquiátrico presente em toda a sociedade sugere que automaticamente uma pessoa que recebe uma nomeação diagnóstica para seus comportamentos se torna incapaz. As condições sociais e institucionais que são construídas e mantidas em torno da noção de doença mental incapacitante também contribuem para o grau de dificuldade das pessoas nomeadas com um rótulo diagnóstico se inserirem na produção capitalista. O modo de pensar psiquiátrico assume que a incapacidade para o trabalho é uma característica intrínseca do organismo e que o espaço/tempo das circunstâncias sociais e suas consequências nas trajetórias de vida são irrelevantes. Essas problematizações anteriores indicam que a aptidão para o trabalho não deve ser reduzidas ao suposto aspecto orgânico (mesmo as caracterizações orgânicas específicas são discutíveis). Barreiras sociais atitudinais às pessoas diferentes do padrão normocêntrico indicam que a sociedade contribui na produção da experiência de deficiência (de dificuldade) e na privação de direitos sociais.

sábado, 3 de junho de 2023

Ensaio OMS [...] doenças crônicas e pes. com deficiência

Referência:

Wagner, Marsden G. (‎1991)‎. Does he take sugar?. World health forum 1991 ; 12(‎1)‎ : 87-89 https://apps.who.int/iris/handle/10665/49206

Revista World health forum 1991 ; 12(‎1)‎ : 87-89

Ponto de vista

Marsden Wagner

"Ele toma açúcar?"

Ao falar sobre as pessoas com deficiência, revelamos nossas crenças e suposições subjacentes sobre a perfeição mental e física. Devemos desafiar tais crenças se quisermos apreciar a importante contribuição que os deficientes fazem para a sociedade e devemos fornecer serviços para eles que os respeitem e capacitem, em vez de incapacitá-los ainda mais.

A promoção da saúde examina os vários pressupostos e crenças subjacentes aos cuidados médicos. Uma suposição é que a saúde é desejável e que a doença crônica ou deficiência é indesejável. A saúde é considerada normal, a doença ou deficiência como anormal. A doença crônica, segundo essa visão, representa falha tanto do indivíduo quanto do sistema de saúde, pois um sistema de saúde perfeito seria capaz de curar tudo. A doença crônica é até considerada um fracasso social, porque em uma sociedade ideal todos seriam perfeitamente saudáveis. Essa maneira de pensar às vezes é chamada de "saúdismo". A OMS, com sua definição de saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, é parcialmente responsável por esta opinião. Com base nisso, é apenas um pequeno passo para acreditar que os fortes e fisicamente aptos são pessoas melhores do que os fracos e inaptos. Essa atitude generalizada na sociedade ocidental explica por que há tantos corredores em nossas ruas e fisiculturistas em nossas academias.

Outro princípio decorre do primeiro: qualquer desvio de saúde, doença ou deficiência deve ser corrigido na medida do possível. Se uma pessoa tem uma doença crônica ou é deficiente, o foco está na doença ou deficiência e um grande esforço é feito para restaurar ou criar o que é definido como normal. Eu costumava trabalhar em clínicas para crianças deficientes físicas. Enormes quantias de dinheiro, tempo e energia foram gastas em "anormalidades" físicas. Por exemplo, tínhamos crianças que sofriam de espasmos e não conseguiam andar, e trabalhávamos anos tentando fazê-las dar alguns passos.

Quando o foco está no problema, a pessoa é identificada pelo problema. Os médicos que fazem suas rondas hospitalares podem pensar em alguém como, digamos, um diabético, em vez de um indivíduo com um nome. A pessoa inteira pode ser vista como uma doença ou deficiência. No Reino Unido, pessoas com doenças crônicas e deficientes produzem um programa de televisão com o objetivo de explicar o que há de errado com a maneira como a sociedade as vê. Chama-se "Ele aceita açúcar?", uma referência oblíqua à maneira como as pessoas "normais" tendem a falar por cima das cabeças dos deficientes, que na maioria das vezes são capazes de responder a essas perguntas sem ajuda. Não se segue que, por exemplo, uma incapacidade de andar deva ser acompanhada por uma incapacidade de ouvir, compreender e articular.

Uma terceira crença relacionada ao manejo de doenças crônicas e deficiências é que trabalhar é saudável e é sempre desejável estar envolvido em um trabalho útil; e esse valor, de fato, depende do trabalho, uma ética proeminente na cultura ocidental.

Uma pessoa ou organização que trabalha com doentes crônicos pode aceitar ou desafiar essas crenças. No entanto, meu próprio sentimento é que se deve tentar entender e se ajustar ao modo como as coisas são, enquanto se começa a questionar o estado de coisas existente. A normalidade não é representada pela saúde, mas pela doença e incapacidade. A questão não é qual porcentagem da população é deficiente, mas qual porcentagem de cada pessoa é deficiente. Todos nós temos problemas e doenças, e muitos de nós temos condições crônicas. Isso sugere uma definição de saúde diferente daquela formulada pela OMS. Prefiro encarar a saúde não como um estado de ser, mas como um processo que consiste em fazer o que se deseja com a menor interferência possível de imperfeições ou desvios. Meu pai de 90 anos, que tem dificuldade para atravessar uma sala, não permite que suas limitações interfiram no que quer fazer, por isso o considero extremamente saudável. Outra pessoa que coloco nesta categoria é um alto funcionário da saúde canadense, cujo imenso entusiasmo pela vida torna sua condição severamente espástica quase imperceptível.

Além disso, imperfeições como doenças crônicas ou deficiências não são apenas normais, mas podem ser consideradas desejáveis. No nível individual, podemos olhar para nossas deficiências e tentar ver como elas contribuem para nossas vidas. Um dos meus filhos tem uma doença crônica e não consigo explicar o quanto aprendi com ele. Sua deficiência contribuiu para o desenvolvimento de cada pessoa da minha família. No nível social, seria não apenas chato, mas também perigoso se todos fossem extremamente saudáveis no sentido convencional. Qualquer sociedade é enriquecida pela diversidade. Isso é entendido em algumas culturas. Existem, por exemplo, culturas nas quais os "deficientes mentais" realmente se tornam líderes espirituais. Não tenho dúvidas de que muito pode ser aprendido com pessoas que sofrem de doenças crônicas ou de alguma forma deficientes.

No que diz respeito à preocupação em corrigir a anormalidade, talvez, como alternativa, se deva focar não no desvio, mas sim na normalidade do indivíduo. A doença ou deficiência é quase sempre apenas uma pequena parte de todo o ser humano. Vamos nos concentrar na parte maior e normal.

Um próximo passo deve ser focar na deficiência ou doença, não apenas para se livrar dela, mas para redefini-la e transformá-la de modo que possa ser vista como algo positivo e útil na vida dessa pessoa. Por exemplo, por causa de seus problemas especiais, adolescentes com doenças crônicas tendem a ser mais sábios do que seus pares. Devemos encontrar maneiras de permitir deficientes ou doentes a contribuir para o amplo enriquecimento da sociedade.

Sobre o tema do trabalho, cabe perguntar quem deve se beneficiar dele. Talvez o indivíduo deva ser útil principalmente para si mesmo. Se a utilidade para a sociedade também for alcançada, isso seria um bônus. Isso pode ser particularmente aceitável em sociedades pós-industriais, onde não há trabalho suficiente para que todos tenham empregos em tempo integral. Nesta situação, devemos reexaminar o significado do trabalho. Talvez devêssemos redefinir o trabalho de pessoas com doenças crônicas e deficientes em termos de auto-ajuda e contribuição para a sociedade de maneiras diferentes das tradicionais.

No contexto atual, é importante examinar a natureza dos serviços de saúde de hoje. Medicalizamos o nascimento e a morte e, em grande medida, medicalizamos a doença crônica. Desenhamos uma espécie de ajuda incapacitante que cria dependência. Médicos, enfermeiros e assistentes sociais tendem a ver a doença crônica de uma forma que é prejudicial para as pessoas que estão tentando ajudar.

Como podemos superar a ajuda incapacitante? Pessoas com doenças crônicas ou deficiências devem estar no controle do que está acontecendo com elas. Eles devem definir seus problemas e, em conjunto com profissionais de saúde e outros, elaborar soluções, ou seja, devem ter uma escolha totalmente informada sobre seus cuidados. Para fazer isso, eles precisam ter acesso a todas as informações necessárias. Há uma barreira a superar aqui porque os profissionais de saúde tendem a não compartilhar informações.

Pessoas com deficiências ou doenças crônicas devem ser encorajadas a ajudar a si mesmas e umas às outras por meio de grupos de autoajuda.

E essas pessoas devem receber toda a gama de opções. Por exemplo, a orientação vocacional deve reconhecer a possibilidade de algumas pessoas nunca trabalharem, pelo menos da maneira tradicional. Por último, devem ser encontradas formas de proteger as pessoas dos sistemas de saúde a que são obrigadas a recorrer, uma vez que estes tendem a medicalizar os problemas e criar dependência. Toda pessoa com deficiência deve ter um advogado de defesa durante os contatos com os sistemas de assistência.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Diagnóstico tardio de autismo

Fiquei sabendo que um diagnóstico tardio de autismo está custando uns 3 ou 4 mil reais. Isso se não pedir um exame de exoma para o familiar que custa 8 mil. Não entendi para que serve. Se é autismo leve, não seria a aprendizagem que traria algum benefício? Por acaso a pessoa não sabe que tem certas dificuldades? Para que ela precisa de um certificado? Para ser reconhecida socialmente como diferente e ter o direito de ser diferente?

Direitos? Ver conceito de biolegitimidade na antropologia da saúde

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Funcionalidade: manicomial e antimanicomial

Uma estratégia retórica da psiquiatria biológica é o uso de pacientes modelo com sucesso profissional. O tratamento seria incrível pois uma pessoa gravemente doente consegue fazer sucesso profissional.

Minha impressão é que a personalidade (conservadora em relação à psiquiatria biológica e o capitalismo) de quem segue o tratamento conforme prescrito (seguir as regras esperadas por exemplo) é um fator em comum que leva ao sucesso profissional eventual. Além disso, uma pessoa que segue o tratamento prescrito é mais acreditada como capaz e relativamente saudável e sofre menos estigma. Além disso, o usuário do tratamento privado costuma ser de classe média. Há uma necessidade menor de Estado.

Já o pessoal da reforma psiquiátrica costuma querer apoio estatal e vive um estilo de vida correspondente. Há mais abertura para críticas aos efeitos debilitantes dos tratamentos mas menos interesse em produção econômica também por críticas ao capitalismo e percepção de opressão social difícil de superar. O usuário do sistema público costuma ser de classe socioeconômica baixa. Há uma necessidade maior de Estado.

Por outro lado, se trabalhar for acessível isso se torna mais atrativo. Também há os pacientes da psiquiatria tradicional buscando aposentadoria e os usuários modelos antimanicomais que são economicamente produtivos e mais comuns no exterior.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Desempenho e hierarquia/igualdade (Brasil)

Mas, se tudo está classificado numa ordem hierárquica, o desfile é um momento em que os grupos (os indivíduos) estão em franca competição. Desejo observar que a ideia de competição (isto é, concurso entre iguais) é algo banido do universo hierarquizado. Nele, ninguém deve subir por meio de provas, o que colocaria o desempenho adiante de outros critérios muito mais importantes, como o nascimento, a residência, a cor da pele etc. (os critérios substantivos). Mas no carnaval tudo e feito por meio de concursos, de modo que o idioma da sociedade se transforma. De uma linguagem hierarquizada, passamos a uma linguagem competitiva e igualitária, já que se procura promover uma oportunidade para todos.

Carnavais, malandros e heróis. Roberto DaMatta (p. 148)