Apesar de se apresentar como um campo de atuação profissional e científico pragmático e não teórico, um entendimento de que o conhecimento sempre possui pressupostos teóricos como ponto de partida é útil para que o senso crítico a respeito de estruturas conceituais subjacentes a práticas de manipulação biológica sejam pensáveis. Pressupostos teóricos incluem não apenas valores cognitivos de neutralidade e imparcialidade, capacidade preditiva, parcimônia, fecundidade, expediência entre outros, mas também valores sociais, políticos e econômicos constitutivos da produção de ciência. Ao se apresentar como núcleo teórico de neutralidade e imparcialidade, a medicina não transparece seus constituintes nem admite pensar o direcionamento de produção de conhecimento e intervenções de forma crítica. Basta uma apresentação de alternativas teóricas e sociais, e um conhecimento das reações das pessoas implicadas no conhecimento pragmático para ver que há escolhas de valores tanto na circulação como na produção de conhecimento mesmo que seja apenas por escrúpulos e restrição de possibilidades de comportamentos epistêmicos alternativos ou opção pela reprodução social conformista.
Limitações da psiquiatria biomédica Controvérsias entre psiquiatras conservadores e reforma psiquiátrica Psiquiatria não comercial e íntegra Suporte para desmame de drogas psiquiátricas Concepções psicossociais Gerenciamento de benefícios/riscos dos psicoativos Acessibilidade para Deficiência psicossocial Psiquiatria com senso crítico Temas em Saúde Mental Prevenção quaternária Consumo informado Decisão compartilhada Autonomia "Movimento" de ex-usuários Alta psiquiátrica Justiça epistêmica
Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)
Aviso!
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Medicina pragmática, neutra e imparcial
quinta-feira, 18 de junho de 2026
A tolerância inadmissível e a reforma psiquiátrica
A rigidez a respeito do que é intolerável e inadmissível é uma das atitudes incompatíveis com a reforma psiquiátrica antimanicomial. O fato de que seja proposto a tolerância a grupos com variabilidade social, cultural e biológica é um determinante da rejeição à reforma psiquiátrica. As humanidades são áreas que principalmente problematizam a variabilidade social, cultural e biológica e também tem grupos detratores, dentre os quais os ideologicamente indispostos.
sábado, 4 de abril de 2026
Medicalização, padronização e controle
Ao assumir:
1) o conceito técnico de controle de que todo comportamento é explicável por variáveis.
2) o controle do comportamento conforme padronização não ocorre de forma universal, regular, uniforme e ubíquo na sociedade
3) há contingências de reforçamento, conceitos sociais, valores cognitivos e sociais que estabelecem e mantém o interesse, a pressão ou a possível coerção para padronização do comportamento.
4) que sistemas sociais descritos com tipificações de conceitos sociais, culturais, históricos e econômicos são cristalizações de formas consolidadas de controle.
5) nem todo controle do comportamento no sentido técnico, ou como conceito ou como comportamento mal formado precisa estar descrito e consolidado como um sistema social,
6) as configurações de condições sociais se manifestam de forma variável na vida das pessoas em conjunto com contingências de reforçamento presentes ou ausentes,
7) controle no sentido técnico não se reduz ao fenômeno coerção nem a recomendação de coerção,
então seria possível descrever a medicalização de transtornos mentais como bolsões de interesse em padronização e controle independentemente de formulação teórica enquanto comportamentalismo como hipoteticamente responsável por esse tipo de contingência de reforçamento e nem como hipoteticamente participante subalterno, ativo e compromissado com o projeto biomédico da psiquiatria biológica, manicomial e conservadora.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
"Saúde mental" e "doença mental" como condição social
A condição de "normalidade mental" é definida geralmente como ausência de doença. A condição de "anormalidade mental" é definida como um evento fechado em si mesmo, no caso uma "patologia biológica". No entanto, definir "normalidade mental" como uma condição social de status social confortável, estável e seguro tem implicações descritivas interessantes como um experimento de pensamento. Ao pensarmos em "doença mental" como uma ausência de condição social de status social confortável, estável e seguro alguns tipos de eventos tornam-se visíveis e relevantes como condições determinantes de saúde mental e de saúde social. Apesar de ser uma definição em termos sociais não há necessidade de exclusão de variáveis biológicas uma vez que alterações biológicas, independentemente de origem causal, estabelecem alguma forma de perda de "condição social de status social confortável, estável e seguro". Portanto, uma definição positiva e social de "normalidade mental" permite uma leitura multifatorial de condições determinantes de "estigma" ou de atribuição de "valor social negativo" tratados como equivalentes de "doença mental". A partir desse conceito de "saúde mental", o fato de que haja estigma a respeito da "doença mental" é uma consequência de uma perda de condição social e a "doença mental" não necessariamente é o primeiro antecedente causal da sequência de eventos classificados como próprios desse domínio empírico. Uma condição social favorável tem como consequência a reorganização de eventos na direção de efeitos facilitadores e uma condição social desfavorável a reorganização de eventos na direção de efeitos dificultadores. Logo, a recuperação de "saúde mental" tem como desafio ou barreira a conquista de condição social, sendo essa conquista de condição social imersa em relações de poder que perpassam o funcionamento social.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Genética de Hitler
Os aliados tinham bases de pensamento semelhantes antes e continuaram tendo depois da 2a guerra. É mais um resultado ridículo da historiografia psiquiátrica. Esses trabalhos com casos históricos extremos funcionam como testes de modelo científico. O documentário apresenta a ciência de base como infalível. É uma inversão política anacrônica que mostra como a biologia também é política e ideológica.
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Discurso anti-ABA e mudança de ênfase
O discurso político e clínico contra a análise do comportamento aplicada considera que condições ótimas de aprendizagem que a área implementa são compensações para condições sociais adversas. Um fato da análise experimental do comportamento é que quanto mais adversa uma circunstância maior é a probabilidade de surgirem "comportamentos-problema". Em sociedades de pensamento biomédico em saúde mental hegemônico a primeira reação e primeira linha de tratamento são a medicação psiquiátrica. Então o discurso crítico é uma defesa da mudança de ênfase explicativa de forma semelhante a defesa da mudança epistemológica para as ciências humanas e sociais segundo o tradicional em reforma psiquiátrica. O que parece ser uma crítica a análise experimental do comportamento, e essa crítica é feita por pessoas que desconhecem a área, é uma defesa de outras áreas que promoveriam condições sociais menos adversas. Nada impediria que, dadas as condições sociais sejam favoráveis para uso da análise experimental do comportamento, essa fosse utilizada também para reduzir condições sociais adversas. A área é associada erroneamente a um subproduto da neurociência de base para a psiquiatra biológica ou modelo médico em saúde mental. No entanto, essa associação é um estereótipo pois a base mais tradicionalmente correta da análise experimental do comportamento é a crítica ao modelo médico (ver em Ullman e Krasner e textos de medicina comportamental).
A natureza político-ideológica desse discurso é a defesa de uma mudança política da organização da sociedade. O discurso anti-ABA seria na verdade uma crítica ideológica à sociedade de mercado e ao potencial de uso que a área tem para a adaptação ideológica. Então a área de conhecimento não é, mais uma vez, a foco da crítica. Para fins de defesa antecipada, essa análise não é uma defesa da neutralidade ideológica e política da sociedade de mercado e da ciência.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
Medicina, a natureza e o lucro
A medicina é atividade privativa de alteração de variáveis da natureza (o corpo). Isso é um produto altamente valorizado. Ser o único mediador da natureza no que se refere ao corpo dá poder aos médicos. Adicione a isso uma lógica industrial e comercial e você tem lucros multibilionários.
Por que fiz essa descrição? Por essa descrição permite brechas de descrições alternativas. É possível superar concepções de saúde ingênuas que acreditam que a única mediação possível da natureza se dá por exemplo por meio de tratamentos com lógica industrial e comercial e sem protagonismo ativo e entendimento da pessoa. Superar concepções ingênuas de saúde que consideram que o comportamento no que se refere a natureza é apenas determinado pelo cérebro como processo ativo, autônomo e central ao invés de um processo de interação com o ambiente que se altera com precisão por parâmetros. Ou concepções ingênuas de saúde que ignoram a determinação social do adoecimento mesmo que ele seja físico.
O domínio do fenômeno biológico (da natureza) é altamente valorizado, mas pode ser alterado de diversas maneiras por vezes até mais eficientes e com menos riscos se superarmos a passividade, as concepções ingênuas e o desejo por ignorância.
domingo, 23 de outubro de 2022
Psiquiatria e cultura aristocrática/autoritária
Li a conclusão de 20 páginas de "Os donos do poder" de Raymundo Faoro mencionado no livro de antropologia "Você sabe com quem está falando? Um estudo sobre o autoritarismo brasileiro" de Roberto DaMatta, para compreender melhor o livro de antropologia.
domingo, 17 de julho de 2022
Direito à vida vs. sociais e econômicos
Em sua formulação do conceito de biolegitimidade, Didier Fassin parte da constatação de que o direito à vida se tornou prioritário na pauta dos direitos humanos, em relação aos direitos sociais e econômicos. Fassin situa e problematiza a potência moral desse “direito à vida” (expresso no artigo 3 o da Declaração dos Direitos Humanos de 1948), contraposta a uma crescente “debilidade moral” dos direitos sociais e econômicos (previstos no artigo 22 da mesma Declaração), como uma contingência histórica e contemporânea. Desse modo, haveria uma inversão de prioridades no campo político e moral contemporâneo, em que o direito à vida se tornaria mais importante que os direitos sociais e econômicos e se imporia inclusive em detrimento destes. Essa diferença entre as duas perspectivas ele denomina de “conflito de duas comunidades éticas que têm uma legitimidade desigual” (FASSIN, 2010, p. 193).
A questão central para o autor é que “a vida humana se tornou o valor mais legítimo sobre o qual o mundo contemporâneo fundamenta o pensamento dos direitos humanos” (FASSIN, 2010, p. 201).
Considero o conceito de biolegitimidade particularmente útil para pensar sobre alguns aspectos das políticas sociais no Brasil e sobre os modos como o Estado se coloca frente às demandas sociais e sobre como as demandas sociais incorporam essas novas formas de legitimação. Entre alguns exemplos ligados às pesquisas que venho coordenando ou orientando, cabe citar o alargamento dos campos do patológico e da medicamentalização no contexto das políticas de saúde mental e da Reforma Psiquiátrica no Brasil.
No texto Biolegitimidade, direitos e políticas sociais: novos regimes biopolíticos no campo da saúde mental no Brasil 1 (antropologia)
Doenças e acesso a direitos
sexta-feira, 17 de junho de 2022
Função moral e política da psiquiatria
[...] os médicos são treinados para tratar de doenças corporais - e não de "doenças" econômicas, raciais, religiosas ou políticas. [...] e não de inveja e ódio, medo e loucura, pobreza e estupidez, e todas as outras misérias que cercam o ser humano [...] a psiquiatria não é um empreendimento médico, mas um empreendimento moral e político [...]. Embora o paciente fosse possivelmente tratado de um modo mais ou menos gentil quando era considerado doente, ele era, ao mesmo tempo, destituído da oportunidade especial de se rebelar contra as exigências a ele imposta. Essa forma de protesto
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Biopolítica, biossegurança e cérebro (trechos)
Marcos Adegas de Azambuja e
Neuza Maria de Fátima Guareschi
http://www.mediafire.com/file/6nj0aqztj8d1v3m/Biopol%25C3%25ADtica_e_bioseguran%25C3%25A7a-_c%25C3%25A9rebro_como_dispositivo_de_gest%25C3%25A3o_da_vida_e_dos_riscos.pdf/file
O dispositivo do cérebro parece ser o grande agregador, o enlace e a força de mudança entre esses atravessamentos em nossa sociedade, tornando-se um alvo privilegiado tanto das biopolíticas, quanto das tecnologias específicas de modelagem subjetiva. Hoje o cérebro determina ‘o que você é’. Mesmo que se busquem no código genético as respostas sobre a vida, é no cérebro que encontramos a porta da revelação. O aclarar dos segredos de todas as determinações – nos corpos, nas almas e nas populações – estava muito mais ligado às técnicas analógicas do exame e da observação nas Ciências Humanas e Sociais. Porém, o cérebro encontra seus engates na era digital, na biomedicina, na biologia molecular, na aparelhagem teleinformática e toma conta da verdade e condução do sujeito. O que Foucault já indicava com a produção biopolítica parece se aguçar na atualidade: os avanços tecnocientíficos levam às possibilidades de se reprogramar e de se fabricar o novo. Trata-se, sem dúvida, de importantes redefinições em termos de normalidade, saúde e doença (Rose, 2007; Sibilia, 2002).
Dos muitos momentos históricos do século oitocentista apresentados por Francisco Ortega (2009) em seu artigo “Elementos para uma história da neuroascese”, fica marcado o entrelaçamento do plano moral e médico, como também o reaparecimento dessas práticas em nosso cotidiano nos livros de autoajuda, com suas propostas de reprogramações de pensamentos negativos para positivos, e na ginástica para o cérebro, denominada neuróbica. Apesar das diferenças nos processos contemporâneos de subjetivação, nesse caso é possível acompanhar certa continuidade histórica. “Trata-se de processo duplo: por um lado, a ciência produz fatos que definem objetivamente quem somos; por outro, os indivíduos formam seus próprios modelos de self a partir dos fatos científicos” (Ortega, 2009, p. 634).
A variável ‘humano’ parece sempre ser o grande problema científico. Desfazer o eu humano para fabricar um eu científico e, nesse caso, um eu biodigital torna-se um dos tipos de produções das ciências do cérebro.
domingo, 8 de março de 2020
A aniquilação simbólica de inimigos através de diagnósticos
A psiquiatria biológica ou mesmo o campo psi promove ou ao menos reconhece a intolerância social àquilo que é diferente do esperado. A pessoa é considerada doente mental porque é difícil defende-la ou ter alguém disposto a defende-la. Ela é um inimigo social mas não necessariamente de todos mas de alguns grupos sociais com intenção de se tornar o padrão social através da desqualificação de inimigos.
quarta-feira, 20 de junho de 2018
biopolítica do psicoativo
Carolina Geneyro: " usar um psicoativo para resolver uma descompesación espiritual e / ou do pensamento, é transformar um problema político em um problema técnico. Seu uso põe em destaque o exercício biopolítico que a psiquiatria por intermédio dos psicofármacos leva a cabo "
quarta-feira, 19 de julho de 2017
sobrediagnóstico
"na dúvida sejamos rigorosos. e no fim o médico sempre vai ter razão. dai você entra numa coisa que é o sobrediagnóstico
por excesso de precaução surge uma iatrogenia (dano)
daí surge a prevenção quaternária"
"sejamos destemidos"
"ninguém está autorizado a correr qualquer tipo de risco" (brincadeira)
Autocontrole e biopolítica: a gerência do risco na saúde (Luis David Castiel)
https://www.youtube.com/watch?v=K7nIoSOn-uQ
certezas, incertezas, ciência, prevenção, medicalização
http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/ideias/188cadernosihuideias.pdf
sexta-feira, 9 de junho de 2017
In praise of defiance
In praise of defiance
Labelling someone crazy and difficult is a way to resist justice and change – and psychiatrists are complicit
terça-feira, 31 de março de 2015
Política e medicina
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Biopolítica
A Biopolítica em Michel Foucault e Giorgio Agamben [2/4]
https://www.youtube.com/watch?v=pemzcKnZH6Y
