Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Número de 'crises cerebrais' e prognóstico

 Os psiquiatras fazem um cálculo matemático do número de 'crises' e o grau de progressão de degeneração cerebral. Cada situação de 'vexame' é somente uma 'crise cerebral'. E se a pessoa tenta parar com o tratamento psiquiátrico e não consegue, o psiquiatra conta mais uma crise e piora o prognóstico. Então você quer se libertar do tratamento e ele te aprisiona mais ainda.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Tdah e análise do comportamento

Eu fui fazer um curso de verao em neurociencias porque estava barato e porque tenho medo de estar afirmando algo sem nocao.

O que aprendi ou a impressao que tive a partir de minha formacao e que as funcoes cognitivas podem ser descritas em formato  de classes de comportamento ou de maneira nao mentalista. Os neuropsicologos podem nao ter formacao em analise do comportamento e recorrer a explicacoes estruturais e negligenciar as funcoes dos comportamento. E possivel fortalecer classes de comportamento equivaolentes ao que a psicologia cognitiva chama de funcoes cognitivas.

Quanto ao uso de estimulantes farmacologicos eu tenho duvidas pois parece que a enfase e em mostrar de forma cor de rosa como isso funciona atraves de validade preditiva.

Fiquei surpreso com a afirmacao de que a educacao nao da conta de lidar com pessoas  com esse perfil e sobra para o medico. Parece compativel com o discurso sobre a medicalizacao da educacao.

Tive contato com uma pessoa com tdah na familia. A explicacao estrutural e vista como tudo no tratamento. Seria necessario tratar o cerebro, para aumentar o QI, para entao poder estudar. Mas ha outro aspecto a ser considerado que e a consequenciacao dos comportamentos relacionados a estudar (funcao) ou a instalacao desses comportamentos e a diminuicao de comportamentos incompativeis. Tambem deve ser considerado que um historico de sucesso torna o estudar mais motivador e mais facil. Um historico de fracasso pode estar sendo atribuido exageradamende a aspectos estruturais.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Decomposição da expressão 'saúde mental'

 No final de um dos eventos chamado Epidemia das drogas psiquiátricas, Paulo Amarante diz que a palavra saúde na expressão saúde mental deveria ser substituída por outra forma de se expressar.

Mas há um problema: seria preciso decompor conceitualmente ou operacionalizar em diversos indicadores de "saúde mental". Tenho uma proposta: saúde mental significa conforto emocional, acesso a direitos e comportamento apropriado segundo valores sociais.

O que mais significa o conceito de saúde mental? Ou qual expressão poderia substituir saúde mental? Bem-estar mental?

Ou bom funcionamento físico, bom funcionamento cerebral e bom funcionamento social? Mas isso tornaria necessário um estado orgânico intacto ou uma valorização social que nem sempre está relacionado com o bem-estar mental.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Ficções mentais e fisiológicas: assassinato em massa

Um estudante na Universidade de Austin levou um rifle numa torre e atirou nas pessoas nas ruas. Ele matou 13 e feriu 30. Tem surgido explicações imprudentes. O pai do rapaz falou de tensões e descontrole emocional. O ponto de ruptura foi alcançado. O psiquiatra da universidade falou de ambições e realizações frustradas. Médicos encontraram um tumor pequeno perto do tronco encefálico.
    O pai do rapaz sem perspicácia chegou mais perto das causas reais. Ele descreveu a si mesmo como um viciado em armas - sempre caçando - criando seus garotos para atirar. O garoto estava na Marinha - ensinado a atirar novamente. Atirar de uma torre relembra do assassinato do presidente Kennedy, também em Texas.
    Mas a história ambiental recebe pouca atenção. As ficções mentais e fisiológicas prevalecem. Qualquer que seja o efeito, se algum, que o tumor teve, não causou o comportamento de pegar um arsenal de armas e munição para a torre, fazer um barricada nas portas, e atirar em pessoas inocentes. Não pôde nem interferir com a "inibição cortical normalmente suprimindo tal comportamento", ou se interferiu, nós ainda temos que explicar o comportamento.

Notebooks, Skinner (1980) 

Mensuração mental, racismo e seleção de pessoas

 Traços

Capítulo 13 em Ciência e comportamento humano, "Função versus aspecto," pode oferecer uma saída contra as implicações racistas da mensuração mental. Seleção das pessoas certas se torna menos importante quando começamos a olhar para o controle. É o problema encontrar melhores estudantes - ou prover melhor ensino? Encontrar trabalhadores mais energéticos - ou arranjar melhores sistemas de incentivo? Se nós pudéssemos parar de olhar para a pessoa e olhar ao invés disso para histórias antecedentes, genética ou individual, nós poderíamos começar a agir mais efetivamente.

Notebooks, Skinner (1980)


Observações sobre curso de neurociência

Observações:

- Consideram que efeitos de psicofármacos provam a causa biológica. É como provar que a causa da timidez é biológica pelo uso do álcool. Certamente há um mediador fisiológico. Mas isso não prova que a origem ou etiologia é uma deficiência ou doença biológica. O que parece ser assumido pelo programa de pesquisa: o foco todo é em como a pessoa é degenerada biologicamente e em como justificar as intervenções psiquiátricas. Dizer que se prova causa de maneira indireta por provar um mediador fisiológico sem fazer estudos etiológicos é uma questão de justificar o programa de pesquisa reducionista.

- Ao mesmo tempo o tempo todo o palestrante enfatiza como os modelo animais de transtornos mentais são limitados e que precisam ser múltiplos para enfatizar aspectos limitados. Também enfatiza a necessidade de conversar com outras áreas para compor o mosaico causal. Mas isso não é feito por muitos psiquiatras. Não há necessariamente um problema com o reducionismo como método de pesquisa. Mas o conhecimento é usado na prática de forma reducionista.

- Um comentador afirma que ansiolíticos e antidepressivos "resolvem" a ansiedade por ter ficado provado nas pesquisas animais que há algum efeito dos psicofármacos para lidar com situações novas e ameaçadoras. Uma extrapolação ingênua e exagerada. Pois olhado de forma holística e em casos clínicos humanos a ansiedade não se resolve com ansiolíticos e antidepressivos pois ainda há uma relação com o ambiente alimentando a ansiedade.

- Um palestrante afirmou que psicofármacos também aumentam "sintomas" ou problemas.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Biólogos negando análise do comportamento

Usando internet de vez em quando eu me deparo com biólogos negando o valor do conhecimento da análise do comportamento. Esses biólogos nunca estudaram o assunto e seguem as linhas com maior visibilidade social em psiquiatria e psicologia como se isso fosse prova de superioridade científica. Esses biólogos que me refiro são eles próprios pessoas preocupadas com visibilidade social como sinônimo de sucesso.

Diagnósticos não são tipos naturais

 Conselho Superior de Saúde da Bélgica desaconselha o uso do DSM

" (...) Portanto, em 2016, o Conselho Superior de Saúde do Governo Belga estabeleceu um grupo de especialistas composto por acadêmicos e profissionais da psicologia clínica, psiquiatria, sociologia e filosofia, bem como um usuário do serviço para avaliar a literatura e evidências relevantes (Conselho Superior de Saúde ,2019). Epistemologicamente, o grupo de especialistas concluiu que as categorias de transtornos mentais não devem ser tratadas como categorias de tipo natural, mas como construtos que têm impacto causal nos indivíduos que são diagnosticados de acordo com suas classificações."
Na Newsletter do AtualizaPSI

Melhorar casos refratários com eletrochoque

Um paciente considerado refratário provavelmente está tomando coquetel pesado de drogas psiquiátricas. O médico limitado pela própria lógica médica acha que isso deveria funcionar e que portanto o caso é gravíssimo. O eletrochoque pode fazer o tratamento do paciente refratário mudar de lógica. Ele pode quem sabe reduzir o coquetel de drogas psiquiátricas. Isso deve ser levado em consideração como uma variável adicional. Coquetéis de drogas tornam a pessoa praticamente um zumbi.

Se o paciente é considerado refratário provavelmente todo o seu ambiente social é medicalizador. O que não ajuda muito no tratamento. Ou o médico psiquiatra acredita que terapia cognitiva é o melhor tratamento que existe somente porque é um método próximo da lógica médica e que usa raciocínio estatístico. Provavelmente o médico psiquiatra não sabe o que é contingências de reforçamento ou menospreza análise do comportamento. Portanto, nem tudo foi tentado.

Voltando a prática médica, drogas psiquiátricas não tem grande eficácia. Muito menos com coquetéis pesados. Não alteram comportamentos através de contingências de reforçamento. Como o médico não sabe o que é contingência de reforçamento, não imagina que a pessoa pode começar a fazer o que é esperado dela para evitar o tratamento com o eletrochoque. Outra variável é se a ansiedade do ambiente social sobre a saúde do paciente se reduz e o ambiente social tem expectativa de melhora. 

Falar em desfibrilador para o cérebro não faz muito sentido. Somente para o médico que quer simular a lógica médica da cardiologia. O cérebro age diferente do coração com a eletricidade. No cérebro a eletricidade lobotomiza as células nervosas. O coração apenas se contrai.

Dentro da lógica médica ou manicomial, o médico põe viseira teórica. Se fosse capaz de sair da lógica médica ou manicomial viria os pacientes refratários, ou que considera incuráveis e irrecuperáveis, melhorar. O pessoal da lógica manicomial ou médica acredita que não há solução fora da lógica médica e por isso defende que é negligência criticar o tratamento médico ("omissão de socorro"). Provavelmente o entusiasmo com o eletrochoque vem de reduzir a frustração dos médicos em relação aos "transtornos incapacitantes". 

Obs: A única proximidade que tive com casos assim quando escrevi esse texto foi um paciente bipolar no CAPS que recebeu indicação de eletrochoque. O único problema que ele aparentava ter era que a vida profissional dele não começava.

Melhorar fora da lógica médica

Os psiquiatras biológicos falam sobre melhorar com eletrochoque como se isso fosse um fato impressionante.

Pois melhorar fugindo à lógica médica ou desconstruindo-a depois de ser considerado irrecuperável é mais impressionante.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Repertório especial de pais e parceiros e psiquiatria

Pais e parceiros apresentam repertório especial com filhos e parceiros. Nesse sentido, um psiquiatra pode julgar que se o filho está incomodado ou sofrendo deve haver algo errado com o organismo do filho. Pois os pais vão parecer bem ajustados e adaptados à sociedade enquanto o filho vai parecer mal ajustado e mal adaptado. Mesmo se os pais apresentarem comportamentos complicados em outras situações isso dificilmente vai ser levado em consideração.

Inspirado em Skinner - Notebooks (1980). (Seria melhor colocar essa citação)

Obs: A maior chance é que o psiquiatra fique do lado de quem paga a consulta e contra a pessoa com menos poder.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Autopermissão para danificar até estado crítico

A abordagem psiquiátrica em relação aos danos dos tratamento na saúde física e cerebral:

Autopermissão para ferrar com a saúde até ela ficar em estado crítico. Então nesse momento é necessário precaução.

Danos no fígado e psicofármacos

 Uma das causas de insuficiência hepática aguda que podem originar encefalopatia hepática é a hepatite medicamentosa. Contudo, em algumas situações não é possível evitar a doença hepática, sendo que quando ela já estiver instalada, deve-se tomar algumas precauções ao prescrever medicamentos à esses pacientes. CONCLUSÃO: Conclui-se, portanto, que o uso de psicofármacos tem a possibilidade de causar hepatopatias, necessitando então de grande discernimento para prescrevê-los, cuidado para associá-los e precaução com a realização de exames, tanto antes do início da terapia quanto durante ela, para monitorização do funcionamento do organismo do paciente. Caso já haja doença hepática instalada, os cuidados com a administração devem ser ainda maiores, para que o quadro do paciente não progrida, levando ao aumento da morbimortalidade.

PESQUISA GENÉTICA SOBRE 'ESQUIZOFRENIA'

Google tradutor: 

https://translate.google.com/translate?sl=auto&tl=pt&u=https://blogs.canterbury.ac.uk/discursive/genetic-research-into-schizophrenia-how-much-can-it-actually-tell-us/

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Razão definida (para Skinner/comportamentalmente)

 "Como C.S. Lewis afirmou, a razão é um desses traços não analisáveis, porque na tentativa de derivá-la de fatores irracionais nós destruímos suas reivindicações de correspondência com a verdade objetiva." (Carta para o editor, The sciences, Janeiro/Fevereiro 1976.)

    "Um traço derivado de fatores reivindicando correspondência com a verdade objetiva" - o que isso pode ser?

    O raciocínio como uma atividade pode ser definido. Não é um traço, um fator, ou um correspondedor com a verdade objetiva. É a análise de contingências de reforçamento, com a ajuda do qual o raciocinador pode satisfazer as contingências sem ser diretamente afetado por elas. Ao invés de jogar dados com uma probabilidade surgindo das frequências encontradas numa longa história jogando, a pessoa "examina o espaço da amostra" e age "racionalmente" a respeito de um dado cenário.

Livro Notebooks (1980), Skinner  

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Skinner sobre o eletrochoque

"Melhore ou então!"

Terapia de eletrochoque parece ter começado como controle aversivo puro. O paciente se recuperava para evitar continuar o tratamento. Jones (A vida e obra de Sigmund Freud, v. III, p. 22) discute um memorial de Freud sobre isso em relação a neuroses de guerra dessa maneira:
    "A terapia que tinha evoluído para lidar com essa situação, acima de tudo no exército alemão, era aplicar tratamento elétrico em tais doses de maneira a ser ainda mais desagradável do que o pensamento de retornar ao fronte." (Por que "o pensamento de retornar ao fronte" ao invés de "retornar ao fronte"?)
    Quando o tratamento começou a falhar, a corrente [elétrica] foi aumentada. "O fato nunca foi negado de que nos hospitais alemães havia casos de morte durante o tratamento e suicídios como resultado disso."
    Um psiquiatra uma vez me disse uma vez que ele tinha usado "terapia operante" no hospital do exército estadunidense no Vietnã. Ele tinha chamado os pacientes e dito para eles que se eles não fossem trabalhar eles iriam receber terapia de eletrochoque! Isso, ele disse, é o tipo de terapia que as pessoas entendem.

Notebooks, B.F. Skinner (1980)

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A linguagem psiquiátrica é avaliativa/normativa

A linguagem psiquiátrica é discurso avaliativo e normativo em relação a ideais, costumes, valores, normas e preferências e portanto expressa mais um julgamento social do que uma descrição. É possível descrever a partir de modelos conceituais diferentes e prescindindo do modelo médico em saúde mental. A observação não ocorre sem a formação prévia de conceitos, ou seja, é mediada por conceitos. A linguagem psiquiátrica é uma abstração que define a forma de lidar com fatos diversificados entre si que poderiam ser descritos sob outras abstrações. A sociedade se ilude achando que está lidando com a realidade da condição médica das pessoas. Na verdade está abstraindo a condição humana como condições médicas.

Banalização e abusos de psicofármacos (resumo)

Artigo de farmacêuticos mostra práticas irregulares comuns de médicos como problema de saúde pública


"A experiência trazida pelos anos de contato com a dispensação de psicofármacos no serviço público possibilitou a constatação de que há um uso indiscriminado dessa classe de medicamentos. Na busca por uma maior resolutividade para os problemas que envolvem a saúde mental dos pacientes, os médicos mantêm muitas vezes tratamentos que se estendem por anos a fio. Outras vezes, na clínica médica, prescrevem medicamentos psicoativos sem sequer escutar de forma mais atenciosa as queixas dos pacientes. Percebeu-se que, entre farmacêuticos consultados em conversas informais, o relato desse uso indiscriminado não é raro.

A carência de soluções que possibilitem alívio aos sintomas de pacientes portadores de transtornos psicológicos ou psiquiátricos tem contribuído sobremaneira para o uso de medicamentos psicoativos. Da vivência com a dispensação de medicamentos no serviço público surgiu a constatação de que, apesar dos bons resultados nos tratamentos propostos, esse tipo de medicamento nem sempre é prescrito com base na relação risco-benefício e isso aponta para seu uso indiscriminado.

Desse total, há uma maior incidência sobre as mulheres e também com elas está o maior número de utilização de psicofármacos. Isso pode ser atribuído, segundo eles, a uma maior preocupação feminina com relação à sua saúde e, consequentemente, maior frequência nas visitas médicas.

 Nos atendimentos realizados na Atenção Primária à Saúde, responsável pelo tratamento dos Transtornos Mentais Comuns, não raro são encontradas prescrições repetidas de atendimentos anteriores, muitas vezes feitas por outros especialistas, sem que se revisem as causas ligadas ao diagnóstico. Essa poderia ser apontada também como uma causa que explique a utilização indevida.

Silva (2001), no sentido de abordar o paciente em seu contexto holístico, aponta para a prática da medicalização sem que sejam contempladas questões outras que interferem na saúde mental do paciente, sobre as quais muitas vezes ele não tem a oportunidade de se expressar: Ao passo que a medicina busca instantaneamente medicar o mal-estar, ou seja, a dor de existir, a psicanálise abre a possibilidade de o sujeito remediar o próprio sofrimento com a palavra, fazendo emergir a falta que o constitui enquanto sujeito. Atualmente, o uso indiscriminado de medicamentos está colocando o sujeito como espectador dos fatos em que ele transita a cada dia. Estes servem como uma tampa para remediar o que acredita não ter mais a oportunidade e a disponibilidade para solucionar. O sujeito não agride só fisicamente o seu corpo, mas também a sua alma, porque permanece em uma angústia existencial que o estabiliza e não corresponde a seus anseios.

Dentre esses “impactos” de que trata a autora na citação acima, encontram-se o consumo de drogas e medicamentos psicoativos que tratam os sintomas já apresentados, mas limitam a vida dos jovens.

Para Teixeira (2010) a prevalência do uso de substâncias psicoativas entre jovens de 18 a 25 anos tem aumentado, o que faz desse assunto uma questão de saúde pública. Nos casos em que esses jovens são estudantes de cursos na área de saúde, o comprometimento pode ser ainda maior, em função da facilidade de acesso a esse tipo de droga, tornando esse grupo ainda mais vulnerável. A preocupação deve aumentar quando se observa que estes estudantes serão profissionais responsáveis por orientações básicas de saúde. Kimura (2005), discorrendo sobre a visão de psicólogos no tratamento com psicofármacos, aponta para uma espécie de mudança de rumo que a terapêutica medicamentosa sofreu. 

O que antes seria uma alternativa de tratamento para o sofrimento psíquico e seus sintomas de difícil  manejo, transformou-se com o passar do tempo em “pílula da felicidade”, prometendo acabar com todos os incômodos psicológicos da existência humana. Para a autora, existe um forte apelo da propaganda para promover os medicamentos, passando a falsa ideia de solução mágica para os conflitos, desprezando, inclusive, o atendimento psicanalítico.

O uso de metáforas – paisagens, natureza, animais – e cenas de família ideal são bastante presentes na promoção dos psicofármacos. Estas imagens sugerem a possibilidade da medicação propiciar até mesmo a reintegração familiar e dissolução de conflitos.

Não menos preocupante, com o avanço dos diagnósticos em psiquiatria e neurologia, surge a necessidade da medicalização de crianças e adolescentes. Nesse contexto, Brasil (2000) esclarece: A indicação de psicofármacos para o tratamento de problemas de saúde mental em crianças e adolescentes traz preocupação mas também esperanças. Preocupação pelo risco dessas indicações tenderem a banalizar o uso como solução imediata e não como um recurso possível a partir da avaliação risco-benefício.

Sobre a questão da dependência, Forsan (2010) aponta para uma abordagem interessante em que, o uso de benzodiazepínicos para tratar sintomas da ansiedade não trata a ansiedade. O que acontece é uma falsa sensação de dependência, assim explicada pela autora: Os casos de dependência aos Benzodiazepínicos relatados na literatura ou constatados na clínica se prendem, na grande maioria das vezes, ao uso muito prolongado e com doses acima das habituais.

Antes de se considerar a dependência, pura e simples, deve-se ter em mente que, se o Benzodiazepínico não foi bem indicado e estiver sendo usado como paliativo de uma situação emocional não resolvida, como atenuante de uma situação vivencial problemática, como corretivo de uma maneira ansiosa de viver, enfim, como um “tapa-buracos” para alguma circunstância existencial anômala, então a sua supressão colocará à tona a penúria situacional em que se encontra a pessoa, dando assim a falsa impressão de dependência ou até de síndrome de abstinência. 

Os autores apresentam sinais e sintomas que podem apontar para crises de abstinência, dividindo-os em físicos e psíquicos (sinais menores). Como sinais físicos os pacientes podem apresentar, tremores, sudorese, palpitações, letargia, náuseas, vômitos, anorexia, sintomas gripais, cefaléia e dores musculares. Os sinais psíquicos aparentes na crise de abstinência são insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, inquietação, agitação, pesadelos disforia, prejuízo da memória, despersonalização/desrealização. Os sinais maiores são convulsões, alucinações e delirium. Diante do exposto, os autores orientam no sentido da necessidade da retirada dos benzodiazepínicos, apesar da abstinência. 

Não se deve esperar que o paciente preencha todos os critérios da síndrome de dependência para começar a retirada, uma vez que o quadro típico de dependência química – com marcada tolerância, escalonamento de doses e comportamento de busca pronunciado - não ocorre na maioria dos usuários de benzodiazepínicos, a não ser naqueles que usam altas dosagens. É importante salientar que mesmo doses terapêuticas podem levar à dependência. 

A partir da experiência adquirida ao longo dos anos através do contato com pacientes do serviço público, a ideia de que a prática da medicação com psicofármacos se dava de forma indiscriminada tomou consistência. O comparecimento frequente de pacientes ao serviço, por um período de tempo prolongado, em busca dos mesmos medicamentos despertou a curiosidade sobre a abordagem desse fenômeno na literatura. Muitos são os trabalhos e pesquisas realizados neste sentido e, ao final das leituras realizadas, pode-se perceber que o uso indiscriminado de psicofármacos não é privilégio do serviço público ou apenas de consultórios psiquiátricos.

Médicos generalistas, de atenção básica ou não, prescrevem psicofármacos para tratar as mais variadas queixas dos pacientes relacionadas ao seu bem estar psíquico. Sensações como medo, angústia, ansiedade, insônia pós-traumática, tão próprios da natureza humana passaram a ser tratados como sintomas de alguma patologia, sobre a qual não se realiza uma boa anamnese, não se faz uma investigação mais profunda, nem o devido acompanhamento, seja clínico ou farmacoterapêutico. Com isso, os indivíduos que, momentaneamente, façam uso de medicamentos sedativos ou hipnóticos seguirão como usuários vida afora, até que decidam ou sejam instruídos por outro profissional a retirarem o psicofármaco utilizado. 

Outra questão que pôde ser confirmada, após o confrontamento dos textos, é o uso de psicofármacos entre os idosos. Numa faixa etária em que a saúde já necessita de intervenções medicamentosas de várias ordens, a chamada polifarmácia, medicamentos com ação sobre o SNC podem, em certos casos, piorar ainda mais o estado geral do paciente, seja por interação com outros, seja por diminuir o ritmo de suas atividades, provocar mudanças na fala, nos reflexos, na marcha. Sem considerar os riscos de quedas decorrentes de tonturas, vertigens e hipotensão ortostática. Contudo, os medicamentos seguem sendo prescritos nessa população sem que haja cuidado e acompanhamento.

No que concerne à Atenção Básica à Saúde, vários são os programas de atendimento a determinados grupos, inclusive os de saúde mental, sem que sejam, contanto, elaboradas estratégias para redução do uso dessa classe de medicamentos. Os pacientes seguem sendo tratados e não há revisão das causas do diagnóstico e medicamentos prescritos por outros médicos, ou seja, os prescritores tendem a manter o medicamento se o paciente já usa, mesmo não conhecendo exatamente em que se circunstâncias ele foi prescrito, não se dando ao trabalho de reavaliar as condições do paciente e tentar uma nova conduta, caso necessário. Em se tratando de consultórios de atendimento a convênios ou particulares a utilização indevida dos psicofármacos é fruto também da pressão que a indústria farmacêutica exerce sobre os médicos. Um forte apelo nas propagandas, conhecimento das atualizações que muitas vezes o médico não possui são suficientes para a adesão dos prescritores às novidades apresentadas.

Diante de todas as situações apresentadas, é notório que há um problema grave, que pode inclusive ser considerado de saúde pública, para o qual os profissionais da área precisam lançar um olhar mais cuidadoso. É necessário mais empenho e cuidado com o manejo dessa classe de medicamentos que tanto pode solucionar problemas para quem usa como ser uma fonte de problemas. Uma ação conjunta de vários profissionais de saúde poderia ser um passo rumo ao uso racional de psicofármacos. O farmacêutico habilitado para a Atenção Farmacêutica e Farmácia Clínica pode dar o suporte farmacoterapêutico necessário a essa prática, colaborando com outras ações de saúde, inclusive medidas não farmacológicas. Substâncias psicoativas são cada vez mais utilizadas e tornam-se, na proporção de seu uso, cada vez mais imprescindíveis para os pacientes quando se busca um equilíbrio satisfatório dasaúde psíquica e manutenção do bem estar dos indivíduos. Resta aos profissionais de saúde buscarem conhecimento para promover seu uso racional, garantindo sua segurança e eficácia nos tratamentos a que se submete o paciente."

Abusos e banalização na prescrição de psicofármacos - uma revisão da literatura

https://assets.ipog.edu.br/wp-content/uploads/2019/12/07015627/valquiria-lucia-araujo-brito-11161116.pdf

Cuidados com saúde e psicofármacos

Além do número de medicamentos prescritos, a ocorrência e a gravidade das interações estão relacionadas com a duração do tratamento, idade e sexo do paciente, estado da doença, fatores genéticos, consumo de álcool, tabagismo, tipo de dieta e fatores ambientais. 


https://www.polbr.med.br/ano15/prat0215.php 

Prejuízos psicofármacos

"As referidas alterações do componente morfológico podem se tornar preocupantes, pois, além de acarretarem a diminuição da sensação de bem-estar, favorecendo a deterioração progressiva dos mecanismos de controle, e reduzindo a capacidade de adaptação ao meio, promovendo a perda da auto-estima, também representam um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônico degenerativas9."

  Prejudica mas como tem um nome médico inventado e um nome de um antídoto inventado na verdade faz bem.

https://www.polbr.med.br/ano15/prat0215.php

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Psicofármacos são psicológicos?!

"Os psico-fármacos (também chamados de fármacos psicotrópicos ou psicoativos), são medicamentos com predomínio de ações sobre o psiquismo, as emoções, as atitudes mentais e o comportamento dos seres humanos, resultando, dessa forma, as suas potencialidades terapêuticas."

 O que isso que os psicofármacos afetam tem de natureza médica necessariamente? Apenas um nome inventado e vendido por razões comerciais.

https://www.polbr.med.br/ano15/prat0215.php

Exames de sangue e psicofármacos

Sabe aqueles exames de sangue inocentes para ver como está a saúde e fazer prevenção? Na verdade se chama acompanhamento clínico-psiquiátrico e serve para evitar crises graves por conta do prejuízo com psicofármacos. Boa parte dos exames realmente são necessários.

Discinesia tardia - Só questão de tempo

 A discinesia tardia é uma síndrome extrapiramidal de início tardio que pode ser desde reversível a parcialmente reversível a irreversível. A observação clínica sugere que, se os pacientes tomam essas medicações por tempo suficiente, a maioria desenvolve o distúrbio. A discinesia tardia é caracterizada por movimentos repetitivos e estereotipados das estruturas orofaciais. Pode haver protrusão ocasional da língua, batida dos lábios, caretas faciais e coreoatetose do tronco e dos membros.

Embora a discinesia tardia possa ocorrer com qualquer agente antipsicótico, é mais comum com os agentes típicos. Em jovens, a taxa de ocorrência anual de discinesia tardia é de 3 a 5% com os antipsicóticos típicos. Em idosos, a discinesia tardia pode desenvolver-se em até 25% dos casos durante o primeiro ano de terapia com haloperidol. A taxa de ocorrência de discinesia tardia com os agentes atípicos é cerca de um décimo da dos antipsicóticos de primeira geração.


http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/7402/intoxicacao_por_medicacoes_anti_psicoticas.htm

Síndrome neuroléptica maligna - risco real

"A síndrome neuroléptica maligna (SNM) é uma complicação rara, mas potencialmente fatal da terapia com fármacos antipsicóticos. Na maioria das vezes, ocorre logo após o início da terapia ou depois de um ajuste de dose, e a concentração sérica da medicação antipsicótica está, geralmente, dentro da faixa terapêutica, não sendo, portanto, causada por dose excessiva. A incidência é de, aproximadamente, 1 a 2 casos por 10 mil pacientes tratados."

http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/7402/intoxicacao_por_medicacoes_anti_psicoticas.htm

1 a 2 casos por 10 mil pacientes tratados de algo potencialmente fatal não me parece tão raro assim. Os médicos prescrevem como se não acontecesse e as pessoas tomam acreditando que nada acontece.


Alterações no fígado por psicofármacos

 https://www.polbr.med.br/ano15/prat0215.php

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Representações mentais como causa e diagnósticos absurdos

O uso do conceito de representação mental como causa da ação (mentalismo) leva a diagnósticos absurdos da parte de psiquiatras por se supor que o comportamento desajustado tem que ter como causa uma cognição bizarra e logo a inferência de um cérebro deficiente incapaz de produzir representações mentais fidedignas com a realidade. Essa cognição bizarra pode nem ter sido identificada ou observada mas é suposta e portanto assumida como presente e real.

O diagnóstico de esquizofrenia, por exemplo, pode ter sido feito por razões pouco justificáveis fora desse quadro conceitual. Isso desconsidera uma descrição do contexto e dos comportamentos descritos como verbos. Pressupondo-se que os comportamentos descritos como verbos sempre tem funções, os acontecimentos se tornam mais claros sem precisar recorrer ao conceito de representações mentais bizarras mediando a ação.

O transtorno de pânico ou a ansiedade generalizada é outro exemplo.


Loucos desaparecidos - Análise do discurso

Rapper de São José, Leonardo Irian é encontrado após cinco dias desaparecido

Trechos:

Sofre de esquizofrenia

(linguagem passiva)

está bem de saúde, em casa e medicado

(É preciso medicar para evitar a progressão da doença. Deve estar com a família sem autonomia. Só pode estar bem seguindo o tratamento psiquiátrico.)

Ele teria se perdido na volta.

(Ele se perdeu por estar desorientado)

Análise: A linguagem da matéria toda é na linguagem passiva, com o paciente psiquiátrico sofrendo de algo passivamente, sem capacidade de decisão e sem agência. Outras pessoas fazem algo ativamente mas  o paciente não. Ele precisa que algo seja feito a ele. Ele é basicamente um objeto em deterioração e desorientado.


Paciente com esquizofrenia desaparece após fugir de hospital na Serra

Trechos:

Fugiu e desapareceu. 

já que, em função do transtorno psiquiátrico, caracterizado principalmente por alucinações visuais e auditivas, Marcos tornou-se muito agressivo. Por isso, ele pode representar um risco não só para si próprio como também para outras pessoas. 

Ela mostrou que ele era incapaz. Ou seja, todos ali corriam perigo. Eu falei pra médica que eles foram irresponsáveis porque todos estavam correndo perigo, porque ele é capaz de matar. Isso é um perigo para a população

Eu tenho medo de ficar com ele. Ele vive em uma casa gradeada e, quando ele está bem, com a medicação, a gente solta ele, então ele circula pelo quintal, dentro da casa dele, faz o que ele quer

Análise: família com linguagem completamente manicomial (“incapaz e perigoso”) e a família é tão manicomial que até faz cárcere privado. A única razão para agressividade é a entidade patológica e a  única razão para ele ficar bem e ter um pouco de liberdade é a medicação. Quem não segue tratamento é um grande risco para si e para os outros. 

Linguagem na voz ativa mas agressivo. Não tem condições de ser autônomo por ser incapaz e perigoso (linguagem manicomial). Afirmar a própria autonomia é uma afronta agressiva. É possuído passivamente por uma entidade patológica que desorienta. A família lida com a entidade patológica e não com a pessoa por inteiro enquanto humana (desumanização). Com essa linguagem a família parece estar invalidando as necessidades do paciente enquanto ser humano pois não respeita os direitos humanos do paciente como mostra a linguagem manicomial e o cárcere privado.


Mulher está desaparecida em Marcelino Ramos

Trechos:

Senhora com esquizofrenia (A senhora tem uma entidade patológica externa a ela que a possui).

já saiu outras vezes, devido sua doenças (A moradora de residência terapêutica só usufrui da própria autonomia sem avisar outras pessoas por conta de uma entidade patológica).

Fugiu (Então devia estar muito bom na residência terapêutica mas como ela tem uma entidade patológica externa a ela não conseguiu perceber isso. A linguagem desresponsabiliza os responsáveis pela qualidade de vida na residência terapêutica.)


Marcos Alexandre Cruz, de 38 anos, saiu de casa no sábado (9) e não voltou mais; segundo a família, homem tem esquizofrenia

Trechos:

Ainda segundo Leila, essa não é a primeira vez que Marcos sai de casa. Em outros episódios ele chegou a ir para as cidades de Valinhos e Porto Feliz. No entanto, diferente desta vez, Marcos sempre retornava para a casa no mesmo dia. 

Ainda de acordo com ela, os desaparecimentos acontecem em virtude da esquizofrenia. "Ele tem que tomar remédio, mas nega o tratamento. Foi diagnosticado ainda na adolescência. Ele está há 4 meses sem tomar a injeção", disse. 

Análise: Sem seguir o tratamento psiquiátrico não é seguro sair de casa e ter autonomia.

Jovem com esquizofrenia que estava desaparecido é encontrado em Alumínio

Trechos:

"Ele estava muito confuso e só soube responder falando da clínica aonde ele estava em tratamento. Foi o que morador fez, pesquisou nas redes sociais e encontrou o telefone da clínica, eles já estavam ciente do desaparecimento dele", explicou. 

O rapaz foi resgatado pelos funcionários da clínica e, segundo a irmã, vai retomar o tratamento. 

Análise: A única razão pela qual ele fugiu da clinica (a palavra fugiu nem é usada) é porque ele estava confuso. A qualidade da clínica não tem relação nenhuma com os pacientes fugirem. A internação também foi apenas devido a confusão e a família não tem relação nenhuma com isso.

Os heróis da clínica resgataram o rapaz e ele voltou a fazer tratamento involuntário/forçado. O que é irregular segundo a Convenção da ONU de pessoas com deficiência.


Jovem com esquizofrenia é encontrada após desaparecer por oito dias

Trechos:

Ela teria fugido de casa após sofrer um surto.

Em casa, Érica deixou uma carta para a família, dizendo que estava indo para o interior, à procura de emprego, e que voltaria quando estivesse estabilizada.

Análise: A única razão pela qual ela fugiu de casa foi a entidade patológica. A entidade patológica mesmo que seja duvidosa na pesquisa psiquiátrica possui realidade social. Aparentemente tentar ser independente é sinal de surto psicótico para a família (paciente psiquiátrica desacreditada socialmente).


Família procura por mulher com esquizofrenia que desapareceu em Belo Horizonte

Trechos:

Estudante, Mariana é portadora de esquizofrenia e recebe tratamento psiquiátrico no Hospital Espírita André Luiz na região Oeste de Belo Horizonte, como conta a tia dela, Vânia de Freitas Drumond. “Ela ficou internada por dois meses no André Luiz e recebeu alta uma semana antes de desaparecer, no dia 17. No dia em que ela desapareceu, ela estava falando coisas desconexas com o pai e com a mãe. Saiu e não voltou mais, era o dia do atendimento com o psiquiatra”. À data em que desapareceu, Mariana chegou a dizer à família que iria até a polícia e saiu sem levar quaisquer documentos e até mesmo o celular.

Análise: Por ter falado que ia na polícia e ter sido internada provavelmente estava ruim a situação com a família. Mencionar coisas desconexas é relativo à interpretação da família. Alguém que sabe escutar consegue encontrar algum significado contextual. Provavelmente estava insatisfeita com o tratamento psiquiátrico involuntário – o que é irregular segundo a Convenção da ONU sobre pessoas com deficiência.


Família procura por idosa desaparecida há 12 dias em Sorocaba

Trecho:

Sem os remédios, se comporta de forma agressiva.

Análise: A única razão possível para ela ficar agressiva é a falta de remédios, isto é, o desequilíbrio químico. Desequilíbrio químico é uma hipótese que nunca foi provada.


Conclusão geral

Poucas reportagens se referem à perspectiva do paciente e todas enfatizam o discurso médico e da família. Portanto, isso indica o silenciamento da perspectiva do paciente psiquiátrico. Conclui-se que seria necessário fazer reportagens com foco em discurso psicossocial e que o discurso psiquiátrico empregado torna uma questão sensível e potencialmente constrangedora num assunto aparentemente impessoal: a condição médica da pessoa. É tanto possível ter um repertório inapropriado generalizado quanto melhorar de saúde mental em um contexto menos complicado. Mas as reportagens assumem que os comportamentos inapropriados nomeados como a entidade esquizofrenia tem origem dentro da pessoa (internalismo). Isso é modelo médico em saúde mental. Jornalistas comprometidos com a reforma psiquiátrica enfatizariam o lado humano e contextual/cultural.


domingo, 31 de janeiro de 2021

Medicalização estrutural e sociedade

Tudo na sociedade leva à mentalidade ingênua sobre saúde: Desde o nascimento até a morte as condições são medicalizadas e recorre-se aos tratamentos químicos. Tudo o que é negativo é uma doença médica (é possível medicalizar tudo o que é negativo infinitamente). Se é uma doença médica então precisa de um remédio. Não há alternativas de tratamentos, nem tratamentos desnecessários.
Seguir o tratamento é uma obrigação moral para ser uma pessoa aceitável. É preciso entregar o próprio corpo religiosamente para o médico. A autonomia não é aceitável, é preciso entregar as decisões e reflexões para o médico. Aceitar o tratamento cegamente.

A doença é vista como um fato natural da vida, como a fome e o frio. Para isso é necessário medicamentos como é necessário comida. Deixa-se de lado a doença como situações de exceção.

Dentro de uma concepção de saúde como direito (não mercadológica) a saúde seria o natural.

O livro medicamento como mercadoria simbólica abriu meus olhos de que a medicalização é um projeto mercadológico que está posto de forma estrutural na sociedade.

Obs: Eu ia colocar citações do livro mas preferi escrever as impressões que tive do livro.

O ladro negro dos antipsicóticos

 https://www.realclearscience.com/articles/201https://www.realclearscience.com/articles/2013/09/24/the_dark_side_of_antipsychotics_106686.html


Nota do Editor: Este artigo foi fornecido por The Conversation UK . O original está aqui .

Os medicamentos antipsicóticos são geralmente considerados um dos maiores avanços médicos do século XX. Freqüentemente, acredita-se que eles sejam tão eficazes que ocasionaram o fechamento de antigos asilos para doentes mentais e permitiram que os doentes mentais retornassem à comunidade.

Mas os antipsicóticos mais novos, como o Zyprexa e o Seroquel, não são mais usados ​​apenas para tratar distúrbios mentais graves, mas entraram no mercado e se tornaram alguns dos medicamentos mais lucrativos da história.

Eles agora rivalizam com as estatinas (usadas para reduzir o colesterol) e os antidepressivos em termos da receita que geram. E na Inglaterra, seu uso aumentou em dois terços nos últimos anos. O mercado mais lucrativo é o do tratamento do diagnóstico recentemente em voga do transtorno bipolar.

Mas, longe de normalizar essas drogas, devemos nos preocupar com seu uso crescente. Embora os antipsicóticos possam ser úteis para aqueles que são gravemente psicóticos, essas drogas perigosas devem ser consideradas com uma grande dose de cautela.

Práticas Bizarras

A primeira droga considerada antipsicótica foi a clorpromazina, também conhecida como Largactil ou Thorazine, introduzida na psiquiatria no início dos anos 1950.

Mesmo desde os primeiros dias, quase nada sobre a história dos antipsicóticos é como contado.

Henri Laborit, o cirurgião francês proclamado herói por apresentá-lo a colegas psiquiatras, o estava usando em um procedimento altamente perigoso que idealizou chamado de “hibernação artificial” ou “sedação sem narcose”. Mas o procedimento matou a maioria dos cães em que foi demonstrado durante a viagem do Laborit aos Estados Unidos.

Os psiquiatras que usaram clorpromazina e outros antipsicóticos nos primeiros dias os consideraram como tipos especiais de sedativos e documentaram a capacidade de resposta reduzida e as reações que faziam parte do estado artificial que produziam. Eles sugeriram que as drogas funcionavam induzindo uma inibição do sistema nervoso e que reduziam as preocupações psicóticas ao desacelerar os processos de pensamento e achatar as emoções.

Pessoas (com doenças mentais e voluntários) que tomaram antipsicóticos também relatam um estado de supressão física, mental e emocional. Aqueles que sofrem de transtornos mentais descrevem como as drogas podem ajudar a diminuir pensamentos e experiências perturbadoras, mas ao custo de sufocar aspectos importantes de sua personalidade, como iniciativa, motivação, criatividade e impulso sexual.

Como Richard Bentall, um especialista em psicose e um voluntário em um estudo de Droperidol, descreveu:

Durante a primeira hora, não me senti muito mal. Eu pensei que talvez estivesse tudo bem. Eu posso aguentar isso. Eu me senti um pouco tonto ... [Depois de ser solicitado a preencher um formulário] Eu não poderia ter preenchido para salvar minha vida. Teria sido mais fácil escalar o Monte Everest ... Foi acompanhado por uma sensação de que eu não podia fazer nada, o que é realmente angustiante. Eu me senti profundamente deprimido. Eles tentaram me persuadir a fazer esses testes cognitivos no computador e eu simplesmente comecei a chorar.

Os antipsicóticos ganharam fama de “camisa de força química” e ainda são usados ​​para o controle de comportamento perturbado e agressivo em unidades de saúde mental - e como tranquilizantes animais em medicina veterinária.

Efeitos colaterais

Tem havido muito debate mais recentemente sobre o valor do tratamento antipsicótico, mas há evidências razoáveis ​​de que eles podem reduzir os sintomas de um episódio psicótico agudo em curto prazo. É mais difícil julgar seus benefícios de longo prazo.

Por outro lado, as drogas podem suprimir os processos mentais em pessoas presas a um estado psicótico persistente, apenas o suficiente para permitir que recuperem um ponto de apoio na realidade. Mas, para alguns, os benefícios podem não superar os consideráveis ​​prejuízos mentais e físicos que as drogas podem produzir: danos neurológicos, diabetes, doenças cardíacas, impotência e diminuição do cérebro.

Os efeitos graves foram obscurecidos porque as descrições francas fornecidas pelos primeiros médicos foram substituídas por uma visão das drogas como um tratamento inteligente, sofisticado e essencialmente benigno. E apesar de nenhuma evidência convincente para apoiar a teoria, surgiu a visão de que eles funcionam revertendo um “desequilíbrio químico” subjacente ou outra anormalidade, em vez de induzir um estado anormal ou alterado.

Essa ideia tem um enorme apelo para psiquiatras, políticos, consumidores e a indústria farmacêutica. A crença de que eles revertem um desequilíbrio químico tem sido particularmente útil para desviar a atenção dos graves danos que podem causar.

Também permitiu que os antipsicóticos fossem comercializados para um segmento mais amplo da população e fomentou um movimento de que os antipsicóticos deveriam ser iniciados o mais cedo possível, sem esperar por um diagnóstico definitivo. Ainda mais preocupante, tem havido uma tendência de prescrevê-los como medida preventiva em jovens que não são psicóticos, mas podem estar “em risco”.

O Mercado Bipolar

A popularidade dos antipsicóticos ocorreu em parte por meio da transformação do conceito de transtorno bipolar nos últimos anos. Antes considerado raro, episódico e gravemente incapacitante, o transtorno bipolar se expandiu - sob a influência da indústria farmacêutica - na vaga noção de “oscilações de humor” que pode se aplicar a quase qualquer pessoa.

Embora medicamentos como os antipsicóticos só tenham sido testados adequadamente em pessoas com bipolaridade clássica (anteriormente conhecida como depressão maníaca) e nunca tenham se mostrado úteis para as variações cotidianas do humor, as pessoas que antes podiam ser caracterizadas como "deprimidas" podem agora ser encorajados a se verem como bipolares. Desse modo, os antipsicóticos podem monopolizar parte do vasto mercado de medicamentos antidepressivos.

A maneira como os antipsicóticos foram mal representados - seus benefícios aumentados, seus perigos minimizados - ilustra como o que é apresentado como “ciência” neutra e objetiva pode de fato ocultar toda uma gama de interesses políticos e comerciais. A profissão psiquiátrica queria apresentar uma nova imagem à sociedade e os políticos desejavam substituir as instituições mentais caras por cuidados comunitários mais baratos.

Tudo isso ajudou a transformar os medicamentos antipsicóticos das temidas camisas de força químicas em chupetas modernas, enchendo os cofres da indústria farmacêutica ao longo do caminho. É hora de acordarmos.

Joanna Moncrieff é conferencista clínica sênior na University College London. Ela recebe financiamento do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e é afiliada à Rede de Psiquiatria Crítica.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Crença ingênua e mística nas pílulas

Ao discutir o aspecto simbólico da homeopatia em comparação com o aspecto simbólico da alopatia no livro Medicamento como mercadoria simbólica o autor conclui:

Fora deste quadro de referência, permanece-se preso à crença ingênua e mística de que é possível resolver as complexíssimas questões da saúde e da doença no mundo contemporâneo através de uma pílula, qualquer que seja ela.

 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Indústria farmacêutica, exploração e nobres propósitos

"A indústria farmacêutica é a única em que é possível fazer com que a exploração pareça um nobre propósito." 

Dr. Dale Causale: ex-diretor  médico da Squibb in Bodenheimer, T.S. La indústria farmacéutica internacional y la salud de la población mundial. In: Cuadernos Médico Sociales, 1983.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Medicina ocidental e poder totalitário

Paradoxalmente, a medicina ocidental, que sempre afirmou querer manter seu poder separado da religião e da lei, agora o estendeu para além de todos os precedentes. Em algumas sociedades industriais, a classificação social foi tão medicalizada que qualquer desvio deve ter um rótulo médico. O eclipse do componente explicitamente moral do diagnóstico médico conferiu, assim, poder totalitário à autoridade asclepiana.

Ivan Illich, Medical Nemesis, 1976

 

Do grupo italiano no Telegram Antipsy Resistance

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sobresocialização (e áreas psi)

[Comentário: No começo do blogue eu recebi uma mensagem sobre esse manifesto. Na época eu não entendi pois tinha preconceito ou visão limitada. Eu me preocupava em ser aceito pelo ditos normais. Mas o blogue acabou deixando de ser um espaço para pessoas consideradas desajustadas para se tornar um espaço de legitimação de práticas alternativas em saúde mental. A sobresocialização descreve bem o que acontece nas áreas psi no sentido de serem a psicoterapia e a psiquiatria uma adaptação à ideologia social. Eu tenho uma preocupação com a compreensão antropológica de discursos marginalizados e este texto bem formalizado parece fazer isso de alguma maneira.]

26.06.2017

“ Sugerimos que a super-socialização está entre as crueldades mais sérias que os seres humanos infligem uns aos outros. ” T. Kaczynski, Unabomber Manifesto. Sociedade industrial e seu futuro [1], 26.

“ Nos outros momentos o ser é identificado com as modificações (de consciência). ” Yogasuttras , I, 4.

Anteriormente, fizemos referência ao termo supersocialização, termo cunhado por T. Kaczynski (mais conhecido como Unabomber) em seu Manifesto e que se refere a uma realidade que ele magistralmente alertou em seu estudo sobre o que chamou de tipo psicológico de 'esquerdismo. '.

A seguir, tentaremos analisar a importância capital que o fenômeno da super-socialização desempenha atualmente no avançado estado de decadência da pós-modernidade.

Progressismo e sociedade líquida.

"Quase todos concordarão que vivemos em uma sociedade profundamente perturbadora. Uma das manifestações mais difundidas de insanidade em nosso mundo é o esquerdismo, então uma discussão sobre a psicologia do esquerdismo pode servir como uma introdução ao debate de os problemas da sociedade moderna em geral. " T. Kaczynski, Manifesto , 6.

Primeiramente, uma breve reflexão terminológica. O que Kaczynski chamou de "esquerdismo" em seu Manifesto coincide exatamente com o que é popularmente incluído no termo "progressista". O termo 'progressista', embora de uso comum, não parece o mais preciso, pois obedece a uma percepção simplista e errônea da realidade sociopolítica atual, como a consideração de que existe uma série de forças políticas 'progressistas' - como elas gostam de se definir eles próprios - e outros "conservadores", que tentariam resistir aos primeiros.

Essa percepção está errada. Primeiro, porque não existe tal resistência à agenda "progressista" além das aparências - e se houvesse, deve-se reconhecer que ela faz seu trabalho muito mal porque só colhe fracassos. Em segundo lugar, porque todas as ideologias modernas são de fato progressivas , em um sentido etimológico, em que todas elas assumem e compartilham a 'superstição do progresso', uma superstição de origem iluminada e inseparável dos mitos materialistas, evolucionários e desenvolvimentistas, todos os quais podem ser resumidos com o termo revolucionário , porque é disso que se trata.

Esse esquerdismo ou progressismo, como você prefere chamá-lo, nada mais é do que a ponta de lança da chamada 'esquerda indiferenciada'. Uma 'esquerda' caracterizada por seu ativismo de rua, suas demandas por direitos e liberdades (muitas vezes loucas) e seu estado permanente de tensão social.

Mas seu papel vai além de estreitar a convivência e dar à sociedade motivos para escândalos ou temas de discussão. Em um nível mais profundo, o trabalho da 'esquerda indiferenciada' é apontar os 'objetivos' sociais a serem incorporados à agenda globalista e preparar a opinião pública para aceitá-los, o que é alcançado através da implementação oportuna de idéias e atitudes apropriadas. . Em última análise, estamos falando de um setor da sociedade que é um dos principais braços executores da engenharia social.

Como Kaczynski aponta em seu Manifesto , sob seu disfarce de anti-sistema eles realmente abraçam as causas ideológicas mais profundas do próprio sistema - materialismo, individualismo, desenvolvimentismo, conforto, hedonismo e acima de tudo a acédia anti-tradicional onipresente - de modo que o que eles realmente afirmam não é é uma 'mudança de direção', mas antes uma aceleração do processo de modernização e uma implementação mais completa do programa ilustrado.

Em outras palavras, o que o 'esquerdismo' reivindica é um avanço mais rápido no processo de dissolução que é a pós-modernidade em direção ao estabelecimento definitivo da 'sociedade líquida' (Bauman), uma sociedade sem contexto cultural próprio e na qual só haverá indivíduos atomizados, ou no jargão que é mais seus próprios 'cidadãos'.

Por isso, o esquerdismo ou o progressivismo nunca podem fazer parte da solução, pois é uma parte indissociável do problema que nos conduziu ao estado atual.

Sobredosocialização e engenharia social.

"A sociedade de hoje tenta nos socializar mais do que qualquer sociedade anterior. Até mesmo os especialistas nos dizem como comer, como fazer amor, como educar nossos filhos e assim por diante."

T. Kaczynski, Manifesto, 32.

Feita a reflexão anterior a título de introdução, consideramos que a super-socialização é algo mais do que um simples “excesso” quantitativo de socialização. Em vez disso, é um tipo especial de socialização voltada mais para o psicológico do que para o comportamental, razão pela qual é legítimo pensar que estamos lidando com uma estratégia cuidadosamente planejada introduzida na sociedade. Estratégias desse tipo nos remetem para além da ideia de engenharia social, à Escola de Frankfurt, na qual foram dados os primeiros passos em direção à reprogramação psicológica do indivíduo e ao controle da mudança de atitudes.

A supersocialização pode então ser definida como um processo de recondicionamento psicológico que envolve uma profunda reeducação ou reprogramação (desde que atinge o nível subconsciente) e que envolve mudanças na personalidade e na própria natureza psíquica do sujeito.

Para ver o quadro epistemológico em que nos situamos, deve-se notar que enquanto a Tradição mostra ao sujeito um caminho de descondicionamento ou desprogramação por meio do desapego -o caminho que leva a uma eventual realização-; A modernidade, como arquétipo do ponto de vista profano e "síntese de todas as heresias" [2], impõe ao sujeito condições novas, mais refinadas e sutis, cada vez mais interiores e invisíveis, que o fazem se aprofundar e se vincular mais profundamente ao manifestação, e especificamente nos níveis mais baixos dela. Daí a óbvia virada do pós-modernismo para a emocionalidade e o sentimentalismo, negando cada vez mais a racionalidade.

Em relação a este último, o trabalho da engenharia social sobre certas emoções destrutivas e tóxicas - culpa, medo, angústia, impotência, etc. - é decisivo, pois se trata de emoções que despojam o sujeito de sua percepção de controle sobre o meio ambiente e de sua percepção de autonomia.

Isso é relevante uma vez que o sujeito supersocializado, como Kaczynski também advertiu, tem uma autopercepção de poder muito diminuída, apresentando características próximas - principalmente emocionalmente, daí a extrema suscetibilidade do indivíduo pós-moderno, sempre em guarda e pronto para se ofender. para tudo - para aqueles de seres de laboratório a quem a síndrome do desamparo aprendido foi induzida.

O processo pelo qual tal estado é alcançado baseia-se sobretudo no "esquecimento de si mesmo", que leva a uma despersonalização gradual e sutil. Nesse esquecimento de si, o uso de novas tecnologias também desempenha um papel decisivo ao centrifugar a atenção do sujeito e continuamente despejá-la para fora.

Em seus graus mais avançados, o indivíduo supersocializado torna-se sua própria polícia do pensamento, sempre à procura de censurar seus próprios pensamentos e emoções. Um ser que internalizou a autovigilância, a culpa e o masoquismo a tal ponto que adquiriu o hábito de demolir sua própria psique. Não se pode descartar então que, análogo ao desamparo aprendido, a super-socialização é uma síndrome induzida.

E esta é uma das características mais marcantes do processo de super-socialização: o sujeito super-socializado é treinado para desconfiar automaticamente de si mesmo, a ponto de levar em conta a opinião alheia, essa é a opinião socialmente dominante e aceita, preferencialmente para possuir; e mesmo em preferência ao que ele mesmo vê e percebe por si mesmo . A conseqüência é um sujeito que delega permanentemente todas as opiniões, julgamentos e decisões à "sociedade".

É verdade que antes isso era possível e essas características foram encontradas em certos indivíduos que sofriam de uma personalidade fraca, geralmente devido a uma história pessoal problemática que não lhes permitia o pleno desenvolvimento de sua individualidade. O que chama a atenção é sua atual generalização na sociedade: o cidadão com personalidade fraca não é mais a exceção, mas a regra.

Se a supersocialização supõe um processo de desapropriação e desconstrução do sujeito, ou mais precisamente de seu psiquismo, o que estamos expondo aqui é a aplicação em escala social de técnicas de desestruturação de si e da personalidade típicas das seitas. Portanto, não acreditamos que estejamos exagerando quando dizemos que um processo gradual de desqualificação e perda de poder dos sujeitos, bem como o colapso de sua personalidade, está sendo implementado em escala massiva e sem precedentes, e que esse processo tem paralelos óbvios com a conhecida síndrome de desamparo aprendido.

Resumindo e para acabar com essas reflexões: através da super-socialização o indivíduo aprende a negar-se a si mesmo, a viver fora de sua natureza e de suas próprias qualificações e a sempre desempenhar um papel, a ser sempre uma máscara, com a particularidade que ele não sabe qual é o seu rosto real.

Um fenômeno refere-se ao que muitas mitologias tradicionais designam como 'perda da alma', o que dá margem a questionamentos sobre os limites do humano e do infra-humano.

Esta descrição pode ter lembrado alguns leitores do filme de animação Spirited Away (2001), especificamente o personagem Kaonashi ou 'Faceless', que ilustra perfeitamente o estado infra-humano que estamos descrevendo aqui: um ser sem personalidade - natureza - própria e agindo meramente por imitação. Sendo desqualificado , ele de alguma forma incorpora tanto o ideal do avarna hindu quanto a tabula rasa .

E a falta de rosto também é um símbolo muito pertinente, pois lembramos que 'o rosto é o espelho da alma', sendo também pessoal e único.

A principal consequência política da existência desses seres supersocializados é que, como nunca respondem de acordo com sua natureza real ou de forma imediata, mas de forma mediada , são facilmente influenciados e manipulados. Nunca é imprevisível ou perigoso para a ordem social, uma vez que delega seu poder - sua capacidade política - ao ente estatal, o que o torna um ser não problemático.

É o modelo de cidadão sonhado por qualquer potência totalitária: submisso, inseguro, dependente, que entrega voluntariamente o seu poder, mentalmente débil quando não está diretamente doente, sem nenhum cuidado com a sua alma -que ele nega- e inconsciente da sua verdadeira natureza e qualidades. .

A sociedade super-socializada e o politicamente correto.

"Para evitar sentimentos de culpa, eles continuamente têm que se iludir sobre seus próprios motivos e encontrar explicações morais para sentimentos e ações que não têm realmente uma origem moral. Usamos o termo super-socializado para descrever essas pessoas ."

T. Kaczynski, Manifesto , 25. "O politicamente correto é o fim do humor." Jorge de los Santos (em entrevista à televisão).

Não queremos ignorar uma característica da sociedade excessivamente socializada que nos parece especialmente significativa e que se manifestou em toda a sua rigidez na última década: seu caráter extremamente moralista e puritano.

Isso é fácil de observar na intolerância cada vez mais frequente e acusada que se exibe diante de diferentes opiniões, pois corresponde a um ambiente psíquico tenso e rarefeito por essa tendência à autocensura e treinado para procurar culpados por toda parte, ofensas e vítimas.

Encontramos um exemplo claro disso no tratamento do humor ultimamente: na sociedade de hoje é mais fácil para alguém se ofender com uma piada ou paródia (quase tudo já pode ser rotulado de sexista, racista, xenófobo ou ofender alguém coletivo) do que com a pornografia. Assim, ao mesmo tempo que se normalizam comportamentos antes típicos de ambientes subterrâneos , a livre expressão de ideias e opiniões é perseguida e problematizada.

Tal hipocrisia é apenas um aparente paradoxo: uma sociedade tão rigorosamente moralista que nem mesmo percebe a censura como tal, precisa se convencer de que é livre para transgredir permanentemente certos limites, precisamente aqueles que antes foram considerados desejáveis ​​e saudáveis, e muito particularmente aqueles que têm a ver com a Beleza, contra a qual a pós-modernidade, seguindo sua obsessão igualitária de igualar pelo inferior, trava uma batalha feroz [3]. É assim que essa infra-sociedade se ilude que além de ser livre, é rebelde.

Nesse tipo de moralismo invertido, é importante ressaltar que o objeto da censura não é tanto o comportamento - já que comportamentos desviantes e anômalos são admitidos em grande parte - quanto o pensamento. Estamos, portanto, diante de uma espécie de puritanismo ideológico mais sutil que o do passado, uma vez que ideias e modos de pensar são censurados, em particular todos aqueles que escapam ao relativismo. Trata-se de impor um controle interior e psíquico que obriga o sujeito a ser seu próprio guardião e censor.

Super-socialização e a mídia.

"Existem três formas de conhecimento correto: percepção, inferência e testemunho válido de quem tem conhecimento. Ilusão é conhecimento falso, não estabelecido na natureza real de uma coisa." Yogasuttras , I, 6-7.

Não há dúvida de que a escolarização inicial e a educação formal cada vez mais prolongada no tempo desempenham um papel essencial na supersocialização do cidadão moderno, mas após o período de formação, a manutenção da mentalidade supersocializada exige, por assim dizer, uma formação constante para evitar uma 'recrescimento' da personalidade autêntica daquele ser. Esse papel de manutenção é desempenhado principalmente pela mídia de massa (a mídia de massa ).

Pode-se dizer que grande parte do processo de desconstrução e recondicionamento psíquico a que chamamos de supersocialização ocorre em situações informais e de forma insidiosa, imperceptível ao sujeito e ao mesmo tempo presente em quase todos os momentos de sua vida. Estas duas características: o seu aspecto informal e a sua presença constante na vida quotidiana, são as principais razões do seu sucesso. Mais uma vez, não é possível pensar que seja algo acidental ou acidental.

Uma vez que a principal função dos meios de comunicação é manter a atenção do cidadão sob estrito controle, podemos resumir seu modus operandi por meio de duas linhas principais de ação: uma positiva (diretiva, que informa) e outra negativa (ocultação ou mascaramento, que rouba informações ) O primeiro torna visível e o segundo torna invisível. Os dois são inseparáveis ​​e funcionam em paralelo. [4]

Dentro da estratégia positiva, os meios de comunicação são responsáveis ​​por gerar boa parte do ambiente psíquico em que vivem os cidadãos, influência geralmente ignorada, mas que tem profundos efeitos psicológicos e que muitas vezes serve de substrato preparatório para operações de engenharia social de maior alcance. .

Se nos referimos à estratégia negativa da invisibilidade, há um trabalho de sanção muito importante, marcando muito estritamente - em um mundo baseado na rejeição de todos os limites, aliás - os limites do que é legítimo dizer. Mas aqui é preciso uma nuance: ao apontar para a mídia o que não deve ser dito publicamente, ela está na verdade apontando para o cidadão o que ele não deve pensar . Em outras palavras, as linhas de pensamento vermelhas são apontadas ao cidadão que nunca devem ultrapassar.

Acreditamos que este exercício de apontar os limites do pensável e do realizável é realmente o papel mais decisivo da mídia na super-socialização do cidadão moderno.

Campanhas na mídia para mudança de atitude e super-socialização.

Relativamente ao ponto anterior, importa referir que existem campanhas nos meios de comunicação que utilizam a supersocialização como corretivo das atitudes e comportamentos da população, de forma a encaminhá-la para o comportamento considerado desejável. Essas campanhas são distinguíveis pela presença de duas constantes:

  • Eles visam a emocionalidade do receptor, geralmente provocando emoções negativas e desagradáveis: frustração, culpa, tristeza, desamparo, desamparo.
  • Os fatos são apresentados sob a aparência de inevitabilidade , seja como fato consumado ou naturalizando-os. Lembremo-nos de que isso costuma ser feito com fatos sociais e políticos, ou seja, nada naturais ou inevitáveis, mas planejados e premeditados.

Quando encontramos essas duas características em uma campanha podemos razoavelmente suspeitar que se trata de uma campanha de engenharia social que visa "preparar" ou "conscientizar" (em suas palavras) a opinião pública, ou seja, estamos tratando de campanhas de manipulação.

Existem abundantes exemplos do uso de ambas as estratégias nos últimos anos. A inevitabilidade foi usada para explicar a (falsa) crise financeira de 2008 e para justificar as políticas que foram postas em prática como resultado dela.

Sua emocionalidade foi revelada, atingindo níveis de manipulação emocional nunca vistos antes, na guerra na Síria ou na chamada erroneamente de 'crise de refugiados'. Essas campanhas são cada vez mais baseadas no sentimentalismo mais grosseiro e são acompanhadas por uma total ausência de argumentos racionais, argumentos que caem do lado da conduta punível (incorreta) por parte dos mesmos meios de comunicação.

Geralmente, ambas as estratégias super-socializantes de manipulação da consciência operam em uníssono com o objetivo de conseguir a aceitação pelos cidadãos de uma realidade que lhes é imposta unilateralmente. São estratégias, como já dissemos, de cunho castrador, que procuram, por um lado, aumentar o sentimento de impotência e ineficácia do cidadão (efeito a nível psicológico) e, por outro lado, conduzir à inação (efeito a nível comportamental).

Chegamos, assim, novamente àquele modelo de cidadão de que falamos, o tipo de sujeito passivo, manipulável e fragmentado por dentro que a ordem política exige nas atuais circunstâncias de poder e controle.

A supersocialização e o homem do fim dos tempos.

"Seu controle (das modificações da consciência) é alcançado através da prática e do desapego. A prática é o esforço que produz um estado estável e calmo. É firmemente estabelecido por esforços prolongados feitos com devoção sincera." Yogasuttras I, 12-14.

A humanidade dos últimos tempos é uma espécie de reflexo especular do que esteve no início do ciclo da manifestação humana - a Idade de Ouro - e isso em virtude de razões poderosas de ordem superior como já advertia R. Guénon. Uma humanidade que será uma mera sombra do que era em seu estado primordial - antes da queda - por exemplo no que diz respeito às potências de sua alma, que se encontrarão no final do ciclo irrevogavelmente esgotadas e perturbadas.

Quando analisamos esse processo histórico como uma alteração das diferentes qualidades da alma, podemos descrevê-lo como parte da conhecida descida cíclica a que a humanidade como um todo está sujeita: um processo gradual de alienação e heteronomia. Ao longo deste processo, o principal ponto de referência do ser humano -simbolicamente o seu Centro-, no qual reside a sua capacidade de análise e decisão, bem como o seu livre arbítrio, vai deixando de ser interior a si mesmo - enraizando-se na própria consciência - e passa a estar fora dele, residindo no ambiente cultural e social. Isso supõe uma redução séria de sua liberdade e responsabilidade e, portanto, também de sua capacidade moral.

Como se pode perceber, essa interpretação - que segue a Tradição, já que nada mais é do que um desenvolvimento da ideia de descendência cíclica - refuta categoricamente as falácias modernistas tão difundidas entre nossos contemporâneos que supõem uma espécie de progresso moral e intelectual. Progresso que, na verdade, basta ser um observador imparcial para negar veementemente. O homem profano gosta de acreditar em tais superstições, em primeiro lugar, porque elas bajulam seu ego individual, fazendo-o sonhar que é mais inteligente, livre e melhor do que seus ancestrais. Infelizmente, a realidade é exatamente o oposto do que a propaganda moderna difunde com o objetivo de sugerir aos nossos contemporâneos.

Voltando à análise do declínio cíclico da humanidade e sua progressiva desqualificação, dissemos que o homem super-socializado nunca age intuitivamente, vejamos por que deve ser inevitavelmente assim.

No homem primordial, a intuição pura - fruto de seu Intelecto - era sua qualidade principal, sua fonte mais forte de conhecimento, que dotou os homens da Idade de Ouro com a virtude do discernimento.

Mas a potência intelectual fica embotada ou cega no homem ao final do ciclo, de tal forma que ele é incapaz de se manifestar como tal em sua vida diária. Ao perder esse discernimento natural do ser humano, ele vê como a capacidade de se orientar adequadamente no mundo desaparece. Por isso, o homem passa a orientar-se antes de tudo por outras fontes que não ele mesmo: o testemunho alheio, a informação acumulada e, em última instância, tudo o que chama de 'cultura'.

Estamos, portanto, diante de um sujeito cuja capacidade de análise, discernimento e decisão está completamente perturbada e repousa sobre o que pomposamente chamaria de 'sociedade'. Um modelo de sujeito completamente centrifugado.

Queremos terminar ressaltando a importância que, para empreender um processo de purificação e descondicionamento que tente reverter essas tendências psíquicas, toda prática espiritual regular e ordenada se cumpre. Um papel de limpeza e cura para a alma obtusa do indivíduo pós-moderno. Uma metanóia em que o movimento da alma muda do exterior para o interior, a fim de corrigir esse 'esquecimento de si mesmo' e focar o indivíduo em sua verdadeira natureza. Claro que não é uma tarefa fácil, depende de múltiplos fatores de ordem pessoal e você deve estar sempre atento para não cair nos ambientes pseudo-espirituais da nova era .

 

[1] Doravante, ele será citado como um Manifesto.

[2] Pastora Encíclica PASCENDI SS San Pio 10 (1907).

[3] Pode-se falar aqui da feiúra como tendência estética da pós-modernidade, que já atingiu o universo infantil, e do seu papel nesta grande obra de engenharia social.

[4] O leitor pode dar exemplos do que dizemos sobre sua escolha tirados da imprensa diária, por exemplo, a questão agora onipresente da violência doméstica e como sua visibilidade ou invisibilidade é seletiva.

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