Limitações da psiquiatria biomédica Controvérsias entre psiquiatras conservadores e reforma psiquiátrica Psiquiatria não comercial e íntegra Suporte para desmame de drogas psiquiátricas Concepções psicossociais Gerenciamento de benefícios/riscos dos psicoativos Acessibilidade para Deficiência psicossocial Psiquiatria com senso crítico Temas em Saúde Mental Prevenção quaternária Consumo informado Decisão compartilhada Autonomia "Movimento" de ex-usuários Alta psiquiátrica Justiça epistêmica
Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)
Aviso!
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Testes projetivos: evidências muitos fracas
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
Comportamento politicamente indesejável
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Capacidades humanas, medicalização e estimulação
O que a psiquiatria chama de sintomas são exacerbações de características humanas ou capacidades humanas. O que a medicalização tenta fazer é reduzir a capacidade para sentir ansiedade por exemplo. Também é possível atuar na estimulação que ativa essa capacidade. Quando a medicina não se mostra eficaz para reduzir uma capacidade biológica se tenta vender uma tecnologia mais avançada como a farmacogenética. A insistência numa solução médica é grande da parte de médicos, pacientes e familiares. Já trabalhar a estimulação que ativa a capacidade mesmo que seja aumentada geneticamente e que mantém a ativação corporal é desconsiderada ou menos conhecida. É preciso uma boa dose de trabalho conceitual para levar em conta essa outra alternativa. O problema do entendimento estritamente médico é desconsiderar a estimulação e considerar a capacidade um mero lixo biológico. Se fosse apenas um lixo biológico para ser trabalhado as intervenções biomédicas solucionariam tais "sintomas". Mas a dificuldade continua e continua a fé nas soluções biomédicas transpondo a fé para o futuro que nunca chega.
sábado, 19 de setembro de 2020
A babaquice normopata: você representa um louco
A maneira mais fácil de identificar um normopata: ele comenta do nada que você é louco porque ele ouviu falar que você recebeu um diagnóstico e você não fez nada inapropriado. Tudo o que ele enxerga é que você representa um louco. Ele não consegue ver você como uma pessoa e nem como uma pessoa que merece respeito ou que tem alguma humanidade. Para ele você merece ser depreciado toda vez que ele entra em contato com você. Ele faz questão de se dirigir a você apenas para chamar você de louco. A única resposta apropriada a isso é ignorar a pessoa. Já que você não tem moral nenhuma para rebater pois vai faltar respaldo social.
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
setembro amarelo
Há um grande desejo, manifesto em parte da sociedade, de que as pessoas não tirem suas vidas. Uma expressão disso é o crescimento, ano após ano, do interesse em estudar, discutir, divulgar e principalmente prevenir o suicídio, que no mês de setembro torna-se ainda mais evidente, por conta de uma campanha internacional que ficou conhecida como setembro amarelo.
Ano após ano o setembro amarelo vem ganhando força e expressividade, mais e mais pessoas vêm aderindo às propostas desenvolvidas por entidades diversas, como o CVV (Centro de Valorização è Vida), grupos de caráter mais acadêmico e/ou vinculados à universidade, organizações não governamentais e, principalmente, a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), que se arroga a responsabilidade de ter trazido a campanha para o Brasil (o que parece dizer-nos algo sobre o caráter dessa campanha).
É certo que dar visibilidade ao fenômeno é necessário, todavia, de que maneira e qual visibilidade se pretende dar?
Sempre que se fala em suicídio (termo que para a grande parte das pessoas já traz, em si, uma conotação negativa, pejorativa), isso é feito a partir de uma determinada perspectiva, de uma certa concepção, que muitas vezes – principalmente quando estamos falando da popularização de um tema – não fica explícita, o que tem implicações para a própria compreensão desse tema.
Há várias formas de se compreender o suicídio, todas elas marcadas por momentos históricos e características sociais distintas, ou seja, todas elas produtos de uma cultura, numa dada sociedade, em um certo momento histórico, defendendo determinados interesses, queiram ou não, saibam ou não, explicitem ou não; aqueles que manifestam essas compreensões.
O que é mais visível nessas manifestações referentes ao setembro amarelo é que há, em grande parte das pessoas, principalmente aquelas que são leigas (ou quase) sobre o assunto, uma profunda boa vontade e intenção de ajudar, de forma voluntária e espontânea, partindo de suas crenças e concepções de mundo, de humano, de vida e de morte; sem pararem para pensar, muitas vezes, o que significa aquilo que estão defendendo e outras tantas vezes, fazendo coro com ideias que sequer sabem de onde vieram e a quais interesses compõem.
Vivemos em uma sociedade em que a morte em geral (e não só o suicídio) é um fenômeno do qual uma parte considerável das pessoas quer manter distância. Apesar de sua inevitabilidade, as pessoas querem que ela seja o mais tarde possível, para si e para seus próximos. Nessa sociedade, em que se quer ter distância da morte, busca-se, ao mesmo tempo, a manutenção da saúde e da vida a qualquer custo. Em uma sociedade em que a grande maioria quer viver o máximo possível e ser saudável, o que significa alguém tirar a própria vida? A interdição do suicídio aparece como algo premente, a valorização da vida deve ser a qualquer custo, agora, de qual vida!?
Deseja-se que as pessoas permaneçam vivas, não que elas possam ter uma vida que não lhes faça desejar a morte, a preocupação está muito mais em que elas não se matem do que nelas terem uma vida que seja digna de ser vivida.
O suicídio é historicamente um tabu porque ele faz emergir um conjunto de informações sobre a sociedade que não se deseja que venha à tona, já que explicita os melindres daquela sociedade. Assim, para se falar abertamente sobre o suicídio, sem expor esse conjunto de informações, é necessário atribuir-lhe determinadas características, que costumam reforçar um conjunto de concepções ideológicas acerca desse fenômeno, em geral aquelas que costumam encontrar nos próprios indivíduos as causas e os determinantes para que busquem suas próprias mortes, seja por conta de transtornos psíquicos (em geral explicados a partir de determinantes biológicos) ou de características psicológicas, reforçando assim o caráter individual desse fenômeno e velando o que nas relações que esses sujeitos estabelecem lhes produz o desejo de tirar suas próprias vidas.
Ao aparecer, ideologicamente, como uma questão de ordem individual (como uma parte considerável dos fenômenos sociais costumam aparecer), frequentemente patologizada, a forma de se lidar com o fato também toma esse mesmo caráter, assim, a questão deve ser resolvida no próprio indivíduo, por ele ou por quem possa impedi-lo, entretanto, as condições que lhe fazem desejar e buscar a própria morte permanecem intactas e ocultas.
Utilizam-se a terapia, os remédios e até mesmo as internações, produzem-se cartilhas para a prevenção, busca-se das mais diversas formas impedir que os sujeitos atentem contra si mesmos, mas a vida, as relações, as condições de existência, de saúde, de educação, afetivas,... Todas elas permanecem não apenas intocadas, como ocultas, causando naquele mesmo indivíduo e em um conjunto de outros indivíduos os mesmos desejos de não quererem vivê-las.
Nesse ano de 2016 a discussão tem tomado grandes proporções (significativamente maiores que nos anos anteriores), muitas matérias de jornal, muitas atividades nos mais diversos locais, muita gente envolvida, participando dessas atividades e compartilhando nas redes sociais o conjunto dessas iniciativas, muito apelo, tudo isso, na maior parte das vezes, motivado por um voluntarismo espontaneísta de fazer com que as pessoas permaneçam vivas, mas sem refletir criticamente sobre isso e sem se colocarem as questões acima expostas. São reproduzidas as visões hegemônicas sem qualquer questionamento, algumas vezes um tanto de informações que sequer são convergentes, mas o importante é dar visibilidade, é falar sobre, é fazer algo, não importa exatamente o quê, chegando ao ponto de um enorme conjunto de pessoas começar a disponibilizar seus celulares, whatsapp’s, chats privados e afins para escutarem e acolherem aqueles que estão sofrendo de alguma maneira, como se isso fosse, de fato, resolver alguma coisa. Essas concepções e compreensões acríticas, voluntaristas e espontaneístas, no final das contas, apenas contribuem para que a sociedade se mantenha como é, para que tudo permaneça como está, para que os problemas sigam sendo localizados nos indivíduos.
Na medida em que a mídia assumisse um papel crítico e parasse de reproduzir as concepções hegemônicas, em que os profissionais da saúde avançassem aos determinismos (principalmente biológico e psicológico) e explicitassem as contradições dessa sociedade, que as pessoas começassem a refletir sobre essas mortes para além dos indivíduos, que houvesse uma disposição em mudar radicalmente as condições de saúde e de vida das pessoas, então começaríamos a dar alguma visibilidade de fato a essa questão tão delicada e importante, não mais no sentido de ideologizar a realidade, mas no sentido de explicitá-la, para explicitar a necessidade de superação dessa sociedade em que a imensa maioria das pessoas vive em condições miseráveis para que uma ínfima quantidade tenha uma vida desejável. Entretanto, esperar que isso ocorra me parece um tanto ingênuo, a mídia está cumprindo seu papel, as ciências particulares estão cumprindo seus papéis, a ideologia está cumprindo seu papel... O setembro amarelo é isso, uma estratégia de visibilidade para ocultar onde de fato os problemas se encontram, com ampla participação das pessoas, para que todas se sintam colaborando... e estão... só não sabem exatamente para quê!
Não deve nos bastar manter as pessoas vivas, vivendo uma vida indesejável, que para se tornar suportável exige que, muitas vezes, lancem mão de vitaminas, fármacos e outras drogas, lícitas ou ilícitas. Ou nós extinguimos o capitalismo, ou ele seguirá nos matando, das mais diversas formas, entre as quais o suicídio.
Setembro amarelo: lembre-se que a vida muda
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
Restrição química como crueldade
Este raciocínio eqüivale a justificar o uso de drogas no lugar
das camisas de força, cordas ou correntes para imobilizar um pa-
ciente rebelde. A crueldade encontra-se menos no método do que no
resultado. O isolamento, a restrição física e a restrição química (com
neurolépticos) tiram as vítimas do contato com todos os reforçadores
que tornam a vida significativa e preciosa; as drogas os transformam
em zumbis e as celas acolchoadas os transformam em maníacos selvagens.
Os dois tipos de punição colocam um fim a toda a aprendizagem, exceto
por várias formas de fuga e esquiva que servem como mecanismos
de contracontrole. Quando o poder das autoridades é grande demais
para represália ou fraude, a depressão assume o lugar.
Coerção e suas implicações - Sidman
terça-feira, 15 de setembro de 2020
A estética da degeneração mental
Juntando-se a avaliação estética de atitudes sociais com o modelo médico é comum socialmente se julgar uma pessoa mentalmente degenerada (doente mental) por não adotar atitudes esteticamente bonitas. Tamanho o grau de medicalização que ninguém mais pode desagradar, ser desaprovado, ir contra a corrente, adotar atitudes socialmente feias sem isso ser considerado o sintoma de algum defeito no cérebro. Uma atitude feia socialmente é apenas uma atitude feia socialmente. Não é necessário uma avaliação nazista da estética da degeneração mental no pacote. O grau de normalização exigido é altíssimo. Isso é resultado da cultura psi e de engenharia social.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?
http://www.pnmedycznych.pl/wp-content/uploads/2014/08/pnm_2013_010-021.pdf
Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?
Medicalization of Depression, Anxiety, Schizophrenia, ADHD, Childhood Bipolar Disorder and Tantrums: Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?
Department of Psychology, Marshall University, USA Head of Department: Steven P. Mewaldt, PhDSummary
Clearly, a number of psychological and behavioral disorders arise within our biology. These include autism, Down’s syn-drome, those due to toxin exposure, metabolic and endocrine difficulties, and several others. In contrast, there is minimal re-search evidence to support biological origins of the vast number of common disorders such as depression, anxiety disorders, schizophrenia or child problems such as conduct disorders, attention deficit hyperactivity disorder (ADHD), childhood bipolar disorder, oppositional behaviors or tantrums. These disorders have been medicalized when, in the absence of supportive research evidence, they are said to be caused by genetic defects, chemical imbalances or other biological phenomena.The roots of contemporary medicalization in the U.S. are traced to two primary factors – psychiatry’s efforts to re-gain lost sta-tus, and profit motive in the pharmaceutical industry. Given that both psychiatry and the drug industry are global enterprises, medicalization threatens to escape the boundaries of the U.S. and spread to other nations. There are a number of unfortunate by-products of medicalization including patients’ feelings that there is less hope for improvement and increased community prejudice, when disorders are thought to be rooted in biology. Another by-product is that validated behavioral treatments may be overlooked, as drugs with unfortunate side effects become the treatment of choice. Research in support of biological causa-tion is discussed and found to be relatively weak. Efforts at pushback against medicalization are discussed.
Key words: medicalization, psychiatry, pharmaceutical industry, drug industry
Psychopathology According to Behaviorism: A Radical Restatement
Psychopathology According to Behaviorism: A Radical Restatement
https://revistas.ucm.es/index.php/SJOP/article/download/SJOP0404220171A/29234
Abstract
This article is a radical restatement of the predominant psychopathology, which is characterized by nosological systems and by its approach towards a neurobiological conception of the so-called mental disorders. The “radical” sense of this restatement is that of radical behaviorism itself. As readers will recall, “radical” applied to behaviorism means total (not ignoring anything that interests psychology), pragmatic (referring to the practical sense of knowledge), and it also derives from the Latin word for “root” (and thus implies change beginning at a system's roots or getting to the root of things, in this case, of psychological disorders). Based on this, I introduce the Aristotelian distinction of material and form, which, besides being behaviorist avant la lettre, is used here as a critical instrument to unmask the hoax of psychopathology as it is presented. The implications of this restatement are discussed, some of them already prepared for clinical practice.
[Artigo incrível]
domingo, 13 de setembro de 2020
The Marketing of the New Bipolar Disorder
The medicalisation of “ups and downs”: The marketing of the new bipolar disorder
Abstract
The concept of bipolar disorder has undergone a transformation over the last two decades. Once considered a rare and serious mental disorder, bipolar disorder is being diagnosed with increasing frequency in Europe and North America, and is suggested to replace many other diagnoses. The current article shows how the modern concept of bipolar disorder has been created in the course of efforts to market new antipsychotics and other drugs for bipolar disorder, to enable these drugs to migrate out of the arena of serious mental disorder and into the more profitable realm of everyday emotional problems. A new and flexible notion of the condition has been created that bears little resemblance to the classical condition, and that can easily be applied to ordinary variations in temperament. The assertion that bipolar disorder is a brain disease arising from a biochemical imbalance helps justify this expansion by portraying drug treatment as targeted and specific, and by diverting attention from the adverse effects and mind-altering properties of the drugs themselves. Childhood behavioural problems have also been metamorphosed into “paediatric bipolar disorder,” under the leadership of academic psychiatry, with the assistance of drug company financing. The expansion of bipolar disorder, like depression before it, medicalises personal and social difficulties, and profoundly affects the way people in Western nations conceive of what it means to be human.
sábado, 12 de setembro de 2020
Pacote suspeito sem nome (correios)
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
A reforma psiquiátrica e seus críticos: doença mental
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
O que seleciona a psiquiatria biológica?
Algumas reflexões tentando relacionar as práticas da psiquiatria biológica com o conceito de metacontingências:
Conceito de metacontingência: (contingências entrelaçadas recorrentes + produto agregado) -> Seleção
Contingências entrelaçadas recorrentes: práticas da indústria farmacêutica, dos hospitais psiquiátricos e da indústria de equipamentos médicos.
Produto agregado: serviços médicos, medicalização, ingestão de drogas psiquiátricas, internações psiquiátricas e sessões de eletroconvulsoterapia.
[Seria preciso uma análise muito mais minuciosa das relações contingentes entre eventos]
Acredito que as intervenções relacionadas à psiquiatria biológica ou modelo biomédico na saúde mental são práticas sociais selecionadas (consumida por pessoas) porque os problemas de sofrimento psicológico ou de comportamento não são resolvidos de outras maneiras e no desespero as pessoas fazem qualquer coisa para tentar resolver seus problemas. A assimetria de informação (conceito da economia) sobre os possíveis riscos de medicalizar o sofrimento psicológico ou comportamentos e da ineficácia das drogas psiquiátricas também é um fator importante no consumo de serviços médicos psiquiátricos.
Mesmo quando os problemas são resolvidos o discurso psiquiátrico ainda ameaça de ruína quem não seguir cegamente os conselhos dos médicos psiquiatras (ameaça de cronificação, morte e marginalização). Essa prática social é organizada devido à renda previsível e estável fornecida pelo cliente a longo prazo e é selecionada porque há assimetria de informação (conceito da economia) sobre a necessidade de uso contínuo do serviço médico.
Aquilo que leva a ganhar dinheiro tem forte impacto selecionador de práticas sociais. Logo, práticas sociais são organizadas visando o lucro em primeiro lugar em detrimento de práticas mais sóbrias e éticas.
A organização de práticas sociais sociais visando o lucro por parte dos psiquiatras biológicos é demonstrada no livro Psiquiatria sob influência do autor Robert Whitaker.
A prática de medicar ao invés de fazer psicoterapia é selecionada pois é possível fazer consultas mais curtas e em maior quantidade e também cobrar mais pelas consultas. Também porque com a prática privativa de prescrever medicamentos, internações psiquiátricas e eletroconvulsoterapia sendo uma atribuição somente do médico é possível fortalecer e manter a assimetria de informação (conceito da economia).
A prática de banalizar internações psiquiátricas é selecionada devido ao alto custo do procedimento. Também a prática da eletroconvulsoterapia é selecionada devido ao alto custo do procedimento e do equipamento.
A corrupção envolvida na organização dessas práticas e o resultado ineficaz/prejudicial está sendo atualmente bastante denunciado por profissionais e pessoas prejudicadas. Esses resultados ineficazes e prejudiciais constituem uma ferida social não resolvida. Profissionais ou pessoas afetadas buscam justiça e trabalham para que essas práticas sejam menos consumidas ou para que a organização das práticas sejam mais éticas. A tendência histórica é fazer o mesmo que foi feito com a indústria do tabaco (fumo).Observação:
As práticas psi (psiquiátricas e psicológicas) de controle social são selecionadas (consumidas) porque é do interesse de pessoas envolvidas (os pacientes, os familiares ou outra subcategoria da classe pessoas) ajam de maneira socialmente esperada segundo os critérios dessas pessoas ou critérios gerais da sociedade.
As práticas psi (psiquiátricas e psicológicas) também são selecionadas (consumidas) visando eficiência e competência no manejo de situações e emoções.
domingo, 6 de setembro de 2020
Possíveis usos do blogue
- Formação de profissionais e diálogo entre profissionais de diferentes áreas
- Superar assimetria de informação entre profissionais e clientes; melhor escolha de profissionais
- Faça você mesmo: entender os assuntos por si mesmo para resolver problemas sozinho; lidar com familiares e profissionais
- Aumento de influência política e social desse tipo de conhecimento; formação de usuários e ex-usuários
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
terça-feira, 1 de setembro de 2020
O reforçamento positivo em instituições
Aqueles que representam ameaças para si mesmos ou para a
sociedade em geral, freqüentemente, são entregues às instituições.
Ali, permitimos a eles apenas relações sociais limitadas, privamos os
mesmos de liberdade de movimento e de oportunidades de tomar
decisões; proibimos, ainda, a maioria das comodidades que eles
desfrutariam no mundo exterior. Freqüentemente justificamos estas
instituições como instrumentos para mudanças benéficas: "escolas"
para deficientes supostamente ensinam a seus alunos novas habili-
dades para ajudá-los a superar suas limitações, "hospitais" para
doentes mentais supostamente curam-nos, "instituições" correcio-
nais supostamente reabilitam infratores.
Entretanto, a localização destas instalações em áreas relati-
vamente despovoadas e de difícil acesso (pelo menos inicialmente,
antes que as cidades ou subúrbios tenham crescido à sua volta)
indicam o que realmente pretendemos com elas. Espera-se que elas
mantenham o retardado, o louco e o criminoso fora de circulação.
Entregamos estas instalações "humanas" a membros de profissões
assistenciais — médicos, enfermeiros, psicólogos, analistas do com-
portamento, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, professores, assistentes
sociais e funcionários penitenciários — e lavamos nossas mãos dos
problemas.
Seu isolamento geográfico, seus muros, grades, portões e
torres de segurança e a tendência pública de ignorar o simples fato
de sua existência deixam essas instituições quase que completamen-
te sem controle externo. Sejam quais forem os impulsos humanitá-
rios que possam de início ter gerado seu estabelecimento, sua isen-
ção da obrigatoriedade de prestar contas ao público transforma a256
Murray Sidrrvan
maioria delas em um pouco mais dos que depósitos para os social-
mente desajustados. As prioridades imediatas das equipes de fun-
cionários, a conveniência administrativa, a docilidade do interno e a
obediência às normas e regulamentos substituem os objetivos edu-
cacionais, terapêuticos ou correcionais de longo prazo. A coerção
torna-se a técnica preferida para fazer os internos "se comportarem".
Uma instituição que funciona principalmente para o benefí-
cio do corpo de funcionários dá pouca importância aos nocivos efei-
tos colaterais da coerção. Desta forma, encontramos a predominân-
cia da coerção no tratamento de pessoas retardadas, dos doentes
mentais e de criminosos de todos os tipos. Quando a pressão públi-
ca ou judicial por reforma surge efetivamente, ela é efêmera e geral-
mente ineficaz, já que concentra a atenção nas instalações físicas e
nos procedimentos administrativos. Raramente uma investigação
avalia de fato a racionalidade e a aplicação das técnicas de controle
do comportamento. Por causa da incompreensão e da incompetên-
cia, alguns dirigentes institucionais e membros das profissões assis-
tenciais deturpam e alteram o conceito de reforçamento, tornando-o
irreconhecível, tentando transformar até mesmo o reforçamento po-
sitivo em um instrumento de coerção.
Coerção e suas implicações - Sidman
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
Caridade prejudicial / incapacidade / socialismo
Caridade. A inerente coercitividade da competição está sufi-
cientemente clara. Um resultado de competitividade desenfreada é o
nosso mundo partido em possuidores e despossuídos, uma estrutu-
ra que agora se prova instável. A caridade institucionalizada e priva-
da e as "redes de segurança" governamentais tentam prover níveis
mínimos de apoio para os mais severamente privados, mas eles nem
impediram o alargamento da lacuna econômica nem reduziram a
ameaça de instabilidade social.
Uma solução muito defendida para o problema de uma socie-
dade dividida em dois é impor a igualdade por meio da redistribui-
ção de toda a riqueza e recursos. Esta proposta toma uma de duas
formas, ambas coercitivas: uma é simplesmente tomar todas as pos-
ses das duas metades e dividi-las entre os despossuídos; a outra é a
pesada taxação pelo governo, o suficiente para prover estabilidade
para todos. Aqueles que exigem uma destas soluções não as pensa-
ram até seus resultados finais.
Redirecionar o desequilíbrio atual confiscando e redistribuin-
do, embora possa apelar para o sentido de justiça de alguns, não
produzirá estabilidade. Dada a continuidade da competitividade,
apenas veríamos ciclos repetitivos de concentração e subseqüente
redistribuição forçada de riqueza. Quais são as contingências aqui?
Vencer, embora seja recompensado de início, é finalmente punido;
perder, embora punido de início, é finalmente recompensado. Uma
conseqüência destas contingências serão ondas crescentes de opressão severa
crescente por parte daqueles que ganharam tudo e desejam mantê-lo e
contramedidas crescentemente violentas por parte daqueles que nada têm a
perder.
Tais ciclos de ganho e perda, perda e ganho simplesmente manteriam
eternamente os grupos em disputa, primeiro um dominando e, então, o outro.
Quão freqüentemente vimos este processo se repetindo no terreno da
propriedade? O governo se apropria de toda a terra e a devolve para "o
povo" — os pequenos agricultores. Não demora muito e alguns agricultores
ganharam tudo para si e mais uma vez o governo e os ricos experienciam
ataques violentos de proponentes revolucionários da reforma agrária.
Podemos ver um processo semelhante se iniciando em nossas cidades, onde
a falta de moradia popular está levando governos locais a impor pressões
confiscatórias contra proprietários de terra. A ferramenta coercitiva produzirá
apenas uma nova geração de monopolistas, aqueles que pegaram as menores
parcelas e a juntam novamente para seu próprio beneficio.
A política governamental de bem-estar, que pretende eliminar pelo
menos os extremos de riqueza e pobreza, acabará em uma sociedade dividida
em dois de um outro tipo, não mais satisfatória e produtiva e provavelmente
não mais estável que a atual. Já podemos ver os primeiros resultados da
segurança econômica, habitacional e de saúde que é provida
independentemente de qualquer coisa que o indivíduo faça ou deixe de fazer
— o que quer dizer, sem relação contingente entre conduta e conseqüência.
O que se supõe vir a ser uma sociedade sem classes está a meio caminho de
tornar-se uma nova estrutura de dois níveis, hospedeiro e parasita,
freqüentemente visto na natureza, mas raro, em grande escala, entre humanos.
Isto não é um julgamento de valor, nem um ataque ao liberalismo (nome do esquerdismo nos EUA).
É uma conclusão que a análise do comportamento torna inevitável. Um estado
de bem-estar viola a primeira lei da conduta: o que as pessoas fazem é ditado
pêlo que acontece. Naturalmente, outros fatores modulam esta primeira lei;
conseqüências não agem isoladamente. Mas, é freqüentemente revelador
examinar projeções que não reconhecem como fontes de interferência os
processos básicos de reforçamento. Tais análises podem ser úteis por nos
mostrar para onde nos dirigimos se não modificarmos as contingências.
N o futuro , sem intervenção , quais são os dois níveis a serem
esperados do compartilhar não-contingente de todos os recursos da
comunidade e como surairão estes dois níveis? Um lado da socieda
de do bem-estar conterá produtores, ou outro, parasitas. Pessoas da
classe trabalhadora irão se engajar interativamente em seu ambien-
te, mudando-o, deixando nele sua marca, construindo repertórios de
conduta variados em resposta às contingências naturais e sociais;
os trabalhadores levarão vidas produtivas e potencialmente satisfa-
tórias. Aqueles da classe de parasitas receberão tudo em troca de
nada, recostados com suas bocas abertas à espera de alimento, não
interagindo com e, até mesmo, alienados de seus ambientes; os
parasitas permanecerão infantis e não-produtivos. Este bem conhe-
cido problema familiar, a criança mimada, há de se generalizar para
toda uma sociedade.
Parasitas, com suas necessidades básicas satisfeitas, têm
pouco incentivo para mudar. Por que ser um produtor quando ou-
tros estão dispostos a fazê-lo por você? Por quanto tempo os produ-
tores vão se manter produtivos nestas circunstâncias? Por quanto
tempo vão se manter dispostos a dividir, quando virem os frutos de
seu trabalho desviado para aqueles que os obtêm simplesmente pa-
rando e esperando? A relação é inerentemente instável.
Problemas que se originam de acesso desigual aos recursos
do mundo não serão resolvidos aplicando-se medidas cada vez mais
severas para manter os despossuídos em seu lugar ou, simplesmen-
te, entregando-lhes uma parte. Ambas as soluções abordam o pro-
blema ao contrário, tentando impedir contra-reações, seja eliminan-
do os despossuídos, seja reforçando a passividade. Vimos que tenta-
tivas para eliminar comportamento são finalmente autoderrotadas.
Caridade não-contingente pode ser igualmente devastadora, tornan-
do doadores em hipócritas e recebedores em seres vegetativos.
A satisfação de nossas necessidades independentemente do
que quer que seja que façamos ou deixemos de fazer tornar-nos-á
essencialmente sem comportamento. Contingências ambientais ge-
ram novo comportamento; quando nossos atos produzem conse-
qüências, nós aprendemos. Quando essas conseqüências vêm inde-
pendentemente do que quer que seja que façamos ou deixemos de
fazer, nós ou não conseguimos aprender ou aprendemos, na realida-
de, a fazer nada.
Embora seja sensato e, freqüentemente, satisfatório compar-
tilhar os frutos do sucesso com os menos afortunados, está longe de
ser càritativo tornar este compartilhar não-contingente. Doar cega-
mente, em nome do humanitarismo, garante que aqueles que preci-
sam de caridade porque não têm capacidades produtivas manter-se-
ão incapazes. Não importa quão desagradável consideremos a noção
de controlar os outros por meio de doação contingente, nós os con-
trolamos de qualquer modo—inadvertidamente, mas da mesma forma efetivamente
—por meio de caridade que não está relacionada a qualquer coisa que eles aprendam
ou consigam fazer. A caridade não-contingente produz e perpetua a pobreza.
Portanto, a caridade em si mesma não prove solução para os problemas
que a coerção competitiva coloca. Manter as pessoas sem comportamento não é
um favor para elas, as destrói. Uma classe social definida por incompetência e
ignorância, com a conseqüente inabilidade de seus membros para deixar essa classe
ou mesmo para se sustentarem a si mesmos dentro dela, finalmente tornará o
restante da sociedade ressentido. Tendo sido forçados, em nome da humanidade, a
se manterem no mesmo estado que os torna objetos de caridade, eles finalmente se
tornam alvo de hostilidade e repressão.
Coerção e suas implicações - Sidman
Drogas psiquiátricas e restrição química (coerção)
A sociedade também pratica ou sustenta outras formas de contracon-
trole, nem todas elas justificáveis como medidas protetoras. Nas
instituições, onde a pressão pública reduziu enormemente o uso de
restrição física para controlar o retardado ou o psicótico, restrição
química é ainda praticada extensivamente. Drogas têm substituído a
camisa de força como uma maneira de controlar pacientes que não
colaboram.
Pacientes institucionalizados que mostram distúrbio visível
— talvez justificado — com relação à alimentação, a programas
terapêuticos ou à dignidade de suas interações com a equipe prova-
velmente receberão drogas "para acalmá-los". E uma vez que uma
droga se demonstre bem-sucedida em tornar o paciente cooperativo
é improvável que alguém faça mais tarde um teste para determinar
se a dose é muito alta ou se a droga ainda é, de todo, necessária.
Drogas psiquiátricas são, elas mesmas, uma técnica de contracon-
trole particularmente útil para terapeutas que são incapazes de ou
que não estão dispostos a identificar as causas ambientais da con-
duta que supostamente devem tratar.
Não-cientes de que técnicas comportamentais estão
disponíveis, médicos desesperados recorrem à restrição química
como uma última medida de contracontrole.
Coerção e suas implicações - Sidman
domingo, 30 de agosto de 2020
Consciência forte, conservadorismo e rejeição da singularidade/criatividade
Assim como o animal de laboratório, que gasta todo seu tem-
po esquivando-se de choques, pessoas que têm uma consciência forte
podem andar em um curso estreito. Elas obedientemente fazem o
que é esperado, raramente tentando algo novo. Elas são confiáveis,
corajosas, transparentes e reverentes. Junto com estas inquestioná-
veis virtudes pessoais, entretanto, elas freqüentemente consideram
criatividade uma coisa perigosa, desaprovando-a em si mesmas e nos
outros. Elas freqüentemente consideram a singularidade perturbadora;
ação, crença ou aparência não-convencionais ameaçam sua seguran-
ça. E quando as condições mudam, quando a sociedade relaxa algu-
mas contingências e estreita outras, elas freqüentemente são incapa-
zes de adaptar-se; mudanças as ultrapassam. Estes subprodutos
infelizes de coerção "efetiva" também devem ser esperados quando a
comunidade constrói consciências individuais por meio de punição.
Se frutos proibidos continuam a nos atrair, a comunidade
haverá de nos considerar como tendo consciência fraca e sendo,
portanto, perigosos. Mesmo sem burlar a lei, podemos nos descobrir
com problemas. Simplesmente adotar um estilo de vida incomum
pode nos colocar em conflito com a comunidade mais ampla; ela
considera o diferente como não-confiável. Também podemos nos
sentir em guerra conosco quando somos fortemente tentados a fazer
coisas que aprendemos a chamar de "ruins" ou "perigosas", ou
quando nos descobrimos realmente "indo contra nossa consciência".
Não apenas a comunidade deixa de confiar em nós porque não
podemos nos controlar, mas é provável que não confiemos ou que
desprezemos a nós mesmos. Estas características distintivas de de-
sordens de personalidade e de neuroses são subprodutos adicionais
das práticas coercitivas que a comunidade usa para estabelecer a
consciência individual.
Coerção e suas implicações - Sidman
Loucura dos não loucos (Foucault)
"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco significaria ser louco de um outro tipo de loucura." Pascal, Pensamentos, apud Foucault, História da loucura.
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Ajustar relógio biológico com exercício
https://www.runnersworld.com/news/a26590745/exercise-body-clock/
Eles descobriram que o exercício é às 7h ou entre 13h e 16h00 avançou o relógio biológico o suficiente para que as pessoas pudessem iniciar as atividades no dia seguinte. Isso significa que eles se sentiram mais revigorados e prontos para malhar mais cedo depois de acordar. Em contraste, exercitar-se à noite entre 19h00 e 22:00 atrasou o relógio biológico, o que significa que eles tiveram mais dificuldade em chegar ao modo de desempenho máximo até mais tarde no dia seguinte. Então, eles se sentiram mais lentos e propensos à soneca ao acordar pela primeira vez, mas tiveram energia depois.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
O que é "anormal"?
O que é "anormal"?
Já deveria ser evidente que a crise comportamental é um
resultado direto de processos de controle normais; conduta anormal,
também, é regida por leis. Assim como a pesquisa sobre reações
corporais normais a ataques virais levou à possibilidade de prevenir
a influenza, a pesquisa sobre ajustamentos comportamentais nor-
mais ao controle coercitivo tem levado à possibilidade de melhorar
algumas formas de doença mental.
Claramente, muitos fatores podem contribuir para a doença
mental e qualquer caso particular requer a consideração de todas as
possibilidades: sociais e individuais, internas e externas. Mas no
final, vemos doença mental na conduta. Compreender e fazer algo
sobre a anormalidade requer análise comportamental. Quando efe-
tuamos essa análise, freqüentemente descobrimos que as leis do
controle coercitivo, atuando por meio de contingências de punição,
fuga e esquiva, fornecem bases efetivas para tratamento.
Embora uma compreensão do caráter ordenado do comporta-
mento possa trazer a prevenção e a cura de muitas doenças men-
tais, muitos psiquiatras e psicólogos agem como se tal compreensão
não fosse possível. Para definir anormalidade eles não especificam
processos comportamentais mas, em vez disso, usam grosseiros cri-
térios estatísticos. Eles vêem com suspeita e tentam curar qualquer
ação que se desvie do usual.
Para onde nos teria trazido a medicina científica se tivesse
considerado a influenza anormal apenas porque era relativamente
rara? A lógica teria nos dito, então, que o problema da influenza
poderia ter sido resolvido do modo mais duro — livrando-se dela —
ou do modo mais fácil — passando-a para todo mundo e, assim,
tornando-a "normal". A doença mental, também, definida estatistica-
mente, poderia logicamente ser eliminada como um problema tor-
nando todo mundo mentalmente doente.
A definição estatística de anormalidade levanta mais do que
um problema simplesmente lógico. Vivemos em uma sociedade com-
plexa e o que uma comunidade admira ou tolera, uma outra conde-
na ou proíbe. Conduta que seria ricamente recompensada em Los
Angeles, envia os cidadãos de Boston para terapia. Sob a capa do
cuidado acadêmico, encontros universitários encorajam detalhismo
e sofisticação que não seriam tolerados em qualquer reunião de
negócios entre executivos; universidades e empresas atraem pessoas
que não poderiam aceitar ou sobreviver aos costumes uns dos ou-
tros. Quem deve dizer que ambiente, que grupo, é anormal — se
algum o é? Na prisão a sociedade releva e até mesmo encoraja a
mesma violência — pelos que a guardam e a habitam, igualmente —
que condena em todos os outros lugares; ações que são anormais
fora da prisão são normais dentro dela.
Porque não conseguimos nos conformar aos costumes de um
segmento particular da sociedade, isto torna nosso comportamento
doente? Precisamos de tratamento? Seguir estritamente este critério
eliminaria toda criatividade; por definição, criatividade é a produção
do não-usual. Infelizmente, a rotulação da criatividade como anor-
mal realmente ocorre mais freqüentemente na arte, literatura e ciên-
cias do que é comumente assumido. Isto também rotularia todo
desempenho superior como anormal. Mais uma vez, infelizmente, os
mais competentes são freqüentemente rotulados como anormais:
atletas excepcionais freqüentemente são vistos como estranhos, per-
formers para nosso divertimento; os mais capazes dentre os alunos
de segundo grau são colocados no ostracismo e até mesmo persegui-
dos por seus colegas menos intelectualizados; o gênio científico é
estereotipado como superespecializado, limitado na sua adaptabili-
dade geral — um tipo de sábio desligado e idiota.
Tentativas de quebrar o raciocínio circular não-produtivo.
que rotula qualquer coisa não-usual como anormal, têm levado a
outras definições de anormalidade. Algumas organizações profissio-
nais listam critérios absolutos para o que é normal. Usando seus
critérios, elas estabelecem padrões de saúde mental. Estes padrões
absolütos de normalidade, embora baseados nos vocabulários da
medicina e da psicologia, não são, freqüentemente, menos arbitrá-
rios que os critérios estatísticos. Eles quase sempre requerem con-
formidade a crenças que são pouco mais que preconceitos pessoais
sobre o que é e o que não é saudável. Embora banhados em respei-
tabilidade profissional, eles raramente têm validade científica ou
clínica.
Muitos psiquiatras estão descobrindo que suas teorias sobre
relações "normais" entre sexos, estão sendo desafiadas por mulheres
que se recusam a desempenhar papéis tradicionais. E assim, eles
rotulam o feminismo moderno como não-saudável, necessitando de
tratamento, precisando ser curado. A própria coerção que a socieda-
de coloca sobre as mulheres que seguem caminhos diferentes da-
queles que foram mapeados para elas é citada como prova da anor-
malidade feminista: "Elas estão apenas procurando problemas." Os
padrões absolutos de normalidade feminina são baseados em tradi-
ção cultural, não em análise científica.
Uma situação semelhante existe com relação à preferência
sexual. Muitos psicólogos, refletindo a hostilidade pública em rela-
ção à homossexualidade, a pronunciam como desviante e oferecem
curas. Tentativas de impor critérios absolutos de normalidade se-
xual não consideram que muitos homossexuais se sentem perfeita-
mente bem consigo mesmos e que muitos outros iriam se sentir bem
se não fosse pelas pressões coercitivas que são exercidas sobre eles.
Dizer que as fontes de todo comportamento, normal ou anor-
mal, são elas mesmas normais, não é negar a existência da anorma-
lidade. Algumas condutas chamadas de anormais, ou doentes, po-
dem ser valiosas para a comunidade, ou podem simplesmente ser
diferentes. Nesses casos, o rótulo "doença" mais provavelmente cau-
sará sofrimento, do que curará sofrimento. No entanto, muitas for-
mas incomuns de comportamento nos incomodam não apenas por-
que são diferentes, mas porque realmente causam sofrimento. Ainda
que elas sejam freqüentemente difíceis de classificar, não podemos
negar a realidade da depressão, das fobias e de outros "mecanismos
de defesa" e de vários tipos de esquizofrenia; todas elas precisam ser
tratadas tão efetivamente quanto saibamos.
E, algumas vezes, a segurança da comunidade está em jogo.
Assassinos de massa, espancadores de mulheres, molestadores de
crianças, criminosos sexuais e outros casos de violência patológica
são seguramente anormais com bases outras do que sua relativa
raridade. Também precisamos tratá-los, mesmo que eles não dese-
jem aceitar tratamento. Se não sabemos como chegar às fontes de
suas anormalidades, apenas podemos admitir nossa ignorância e
colocá-los onde eles não possam nos machucar.
Mas se uma anormalidade é desejável ou não, e se deveria
ser tratada, sempre envolve julgamentos de valor. E o mais efetivo
dos tratamentos sempre surgirá de uma compreensão do estado
normal. Na medicina, a definição de uma doença requer a identifica-
ção de processos internos que estão produzindo os sintomas exter-
nos. Na análise do comportamento, a definição de doença requer a
identificação de processos que estão produzindo e mantendo quais-
quer ações que consideremos como nos incomodando. Identificando
as contingências normais que sustentam o que decidimos ser um
comportamento-problema, abrimos a possibilidade de ir além de
nossos julgamentos de valor.
Coerção e suas implicações - Sidman
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Vida alternativa como esquiva da vida normal
Permanecendo fora do mundo
Uma vez que desistentes tenham fugido de suas famílias,
escolas, ou comunidades coercitivas, eles mantêm sua distância.
Tendo se libertado de um ambiente aversivo, eles então fazem tudo
que estiver ao seu alcance para impedir que esse ambiente restabe-
leça seu domínio. Manter-se sem envolvimento é um ato de esquiva.
Jovens desistentes podem adotar um estilo de vida tão dife-
rente daquele do qual fugiram que sua comunidade original os julga
como tendo se tornado indesejáveis e até mesmo perigosos. Ambien-
tes pobremente mantidos e insalubres trazem perigos para os fugiti-
vos mas servem para uma importante função; eles mantêm o resto
da sociedade a uma certa distância. Famílias, considerando a nova
filosofia, os novos costumes, o novo ambiente e a aparência física de
seus filhos objetáveis e assustadores, abandonam tentativas de tra-
zer de volta a ovelha desgarrada.
Tendo fugido de indivíduos e instituições sociais coercitivos,
desistentes freqüentemente são atraídos para comunidades "margi-
nais" que afirmam que reforçadores mundanos, como pagamento
por trabalho ou talento, são incompatíveis com reforçadores como o
amor, a afeição e o compartilhar que se originam de relações pes-
soais não-egoístas. Juntando-se a uma comunidade com estilo de
vida alternativo, eles se oferecem a um líder carismático para explo-
ração, em troca de proteção contra a sociedade que rejeitaram. Toda
a renda vai para o guru que é, presumivelmente, incorruptível por
dinheiro e pelos confortos que ele torna disponíveis.
O que isto significa é que a sua abdicação de responsabilida-
de e de tomada de decisões permite aos membros de cultos ignorar
e, portanto, se esquivar de pressões para voltar à cena da qual eles
desistiram. Uma atração importante de comunidades e seitas margi-
nais é seu sucesso em proteger membros daquele outro mundo onde
suas vidas foram dominadas por fuga e esquiva. Pode levar tempo
pafa que eles descubram que seus novos reforçadores também são,
na sua maioria, negativos.
Quando a dor de um choque é atrasada, a aprendizagem da
esquiva será lenta; podemos ter de aceitar muitos choques antes de
aprender a evitá-los. Com drogas, também, um longo tempo pode se
passar entre causa e efeito. Drogas que causam adição têm compo-
nentes reforçadores que tornam ainda mais difícil aprender a se
esquivar delas. Também relações pessoais destrutivas freqüente-
mente contêm elementos positivos que por algum tempo sobrepujam
nossas inclinações de nos esquivarmos de situações aversivas. Viver
utria vida de isolamento social ou intelectual pode impor privações,168
Murray Sidrnan
desconfortos físicos e estresses biológicos que terminam em doença
e inabilidade para manter nossa independência. Desistentes do veio
central da sociedade freqüentemente sofrem desses resultados atra-
sados. Eles descobrem que seu novo ambiente desaprova curiosida-
de intelectual, faz com que se sintam culpados por qualquer sinal de
individualidade e considera desconforto e doença como formas de
distinção. Aquilo que primeiro pareceu afetuoso paternalismo torna-
se uma outra forma de exploração. Quando os elementos destrutivos
de seus novos estilos de vida se tornam óbvios o suficiente para
gerar um novo ciclo de esquiva, jovens desistentes podem já ter se
prejudicado irrecuperavelmente.
Mesmo que se mantenham saudáveis, portas terão se fecha-
do para eles, fechando seu acesso à oportunidade para inde-
pendência intelectual, econômica ou política mais convencionais,
ainda assim mais construtivas. Os componentes aversivos de suas
novas vidas podem finalmente tomar-se suficientemente fortes para
sobrepujar os atrativos originais, mas freqüentemente é muito tarde
para ação efetiva.
O reconhecimento dos componentes de esquiva na conduta
dos desistentes da sociedade torna-se mais importante quando que-
remos trazê-los de volta. Tendemos a colocar a culpa nas comunida-
des ou contraculturas que atraem os desistentes, ou em seus estilos
de vida alternativos. Mas a falha está na coerção que permeia as
interações sociais "normais". Ainda que um observador não-envolvido
possa ver as novas formas de coerção a que muitos desistentes se
submetem, permanece o fato de que eles consideram a nova coerção,
pelo menos temporariamente, menos aversiva que a antiga.
Se a sociedade pretender ter uma abordagem construtiva
para o problema de ganhar de volta seus membros perdidos, parti-
cularmente seus jovens, um primeiro passo necessário é admitir que
o comportamento de desistir é esquiva. Compreender as origens da
esquiva iria nos levar a examinar nosso próprio ambiente. Então,
poderemos identificar os choques que tornam as barrar de "desistir"
efetivas. A falha corrigível não está na aparente atratividade dos
alternativos, mas na relativa coercitividade da linha de base "nor-
mal". Em vez de perguntar "para onde foram os desistentes?", deve-
mos perguntar: "De onde eles vieram?"
Coerção e suas implicações - Sidman
Saúde mental, direitos humanos e modelo biomédico
Os sistemas de saúde mental no mundo todo são dominados por um modelo biomédico reducionista que usa a medicalização para justificar a coerção como uma prática sistêmica e qualifica as diversas respostas humanas a determinantes sociais prejudiciais (tais como desigualdades, discriminação e violência) como sendo “transtornos psiquiátricos” que precisam de tratamento. Neste contexto, os mais importantes princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência são ativamente minados e negligenciados. Esta abordagem ignora as evidências de que investimentos efetivos devem visar populações, relacionamentos e outros determinantes, em vez de indivíduos e seus cérebros.
Modelo integrativo da deficiência (na saúde mental)
Nota-se, ainda, segundo Sassaki (2002, p.35), ao caracterizar as condições de integração das pessoas com deficiência:
No modelo integrativo, a sociedade, praticamente de braços cruzados, aceita receber portadores de deficiência desde que estes sejam capazes de:
- moldar-se aos requisitos dos serviços especiais separados (classe especial, escola especial, etc.); 43
- acompanhar os procedimentos tradicionais (de trabalho, escolarização, convivência social, etc.);
- lidar com as atitudes discriminatórias da sociedade, resultantes de estereótipos, preconceitos e estigmas,
- desempenhar papéis sociais individuais (aluno, trabalhador, usuário, pai, mãe, consumidor, etc.) com autonomia, mas não necessariamente com independência.
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/12971/1/Pr%C3%A9-textuais%20revisados%20final.pdf
[Comentário: O modelo integrativo se define pela responsabilidade de a pessoa com deficiência parecer o mais normal possível e pelos esforços exagerados que isso acarreta. Na saúde mental o modelo integrativo é muito usado. O paciente é visto como o problema, o doente mental, que precisa se desdobrar e fazer esforços especiais que uma pessoa "normal" não precisaria fazer para se adaptar/se ajustar às barreiras atitudinais na sociedade (na psiquiatria tradicional, família e sociedade). A sociedade não quer se implicar nos problemas do paciente pois julga que é natural que as coisas sejam assim, tem seus interesses e acredita que o problema de quem não se ajusta está dentro da própria pessoa (modelo médico em saúde mental). Essas exigências especiais podem desanimar o paciente de querer participar da sociedade e podem gerar a impressão de deficiência psicossocial. A deficiência psicossocial é uma percepção social de que um indivíduo é deficiente em termos mentais e no modelo integrativo vai lá o paciente humilhado servir as pessoas normais por mais que elas façam absurdos. Essas pessoas "normais" podem impor tantas barreiras atitudinais que o diagnóstico psiquiátrico pode ter sido feito totalmente por conta dessas barreiras e a sociedade e psiquiatria tradicional culpa a lesão cerebral ou o organismo dessa pessoa.]
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Adolescência e cuidado dos pais
Atenção, por exemplo, usualmente um reforçador positivo para uma criança, pode
colocar problemas delicados depois que a criança tornou-se um
adolescente. Pais que cuidam demais, ou muito intensamente, podem
ser vistos como intrometidos e controladores. Atenção, então,
funcionará como um reforçador negativo; é provável que os pais
notem que sua filha de 16 anos não parece mais querer falar com
eles, fica fora de casa tanto quanto possível e, quando em casa,
permanece calada.
Tendemos a ver o que queremos ver. Portanto, os pais podem precisar
da ajuda de um observador não-envolvido.
O observador pode recomendar que eles respondam às confidencias
de sua filha com afetuoso interesse, mas sem bisbilhotar; que eles
mostrem não apenas seus temores em relação ao seu bem-estar,
mas sua confiança em sua integridade e capacidade de julgar. Se
modular sua atenção a transformar um reforçador negativo em um
reforçador positivo, eles descobrirão que a conduta de sua filha
muda. Desligar-se de seus pais, afastar-se deles e evitar comunicação
não mais será reforçador. Em vez disso, ela interagirá mais
freqüentemente, compartilhando experiências, confidenciando, confiando,
mudando de fuga e esquiva para aproximação.
Coerção e suas implicações - Sidman
