Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Acesso nos últimos 12 meses por país

Acessos em 12 meses por país ao blog ligado a esse grupo. O Google agora privilegia conteúdo pago. De 8 mil e 400 acessos apenas 661 foram no Brasil. Minha intenção era o Brasil. No total o Brasil está em segundo lugar atrás dos Estados Unidos. Minha motivação não está tão ligada ao número de acessos. Tem mais a ver com desenvolver o tema (o que eu conseguir) já que a maioria das pessoas não saem com boa formação em reforma psiquiátrica nas universidades. Quando iniciei a ideia era fortalecer um tema sub-representado não só apesar de não ter incentivo econômico para isso mas justamente por esse motivo. Os psiquiatras não se importam com argumentos científicos. Pelos menos dá para entender porque as coisas acontecem ou não funcionam em termos de sistema. Isso acaba ajudando a não pisar em falso e a encontrar possibilidades que seriam condicionalmente viáveis (que dependem de satisfazer condições).







segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Modelo asilar - classe geral de comportamento



Classe geral tratar de modo asilar

Contexto antecedente

Ação

Contexto consequente

Tactos abstratos:


aspecto orgânico


sintomas


psicose como doença


determinações orgânicas


indivíduo como doente


pouco ou nenhum tacto da existência

hipertrofiar


medicalizar


hospitalizar


medicar


objetificar


depositar


interditar


individualizar



emudecer


imobilizar


adaptar


remover



estratificar


hierarquizar


fragmentar


heterogerir


disciplinar


reproduzir

Defeitos do tratamento (cronificação asilar, benzodiazipinização)


sofrimento removido a qualquer custo (danos de alta magnitude)











mutismo


imobilidade


indivíduo passivo


indivíduo fragmentado





estratificação da atenção por

níveis


atenção especializada e hierarquizada


outros saberes acessórios

relações de poder e saber


estratificadas entre trabalhadores e entre eles e a população


relações verticais entre trabalhadores e entre eles e a população

Fonte: quadro elaborado pela autora a partir do texto de Costa-Rosa, 2000.



 

domingo, 24 de setembro de 2023

Estimulantes para TDAH e comportamento

Os efeitos dos estimulantes para TDAH, numa perspectiva de farmacologia comportamental, se baseiam no efeito paradoxal dos estimulantes no comportamento, o que significa que comportamentos concorrentes com a atividade desejada de ficar parado, não incomodar e se concentrar em tarefas sem graça são paradoxalmente suprimidos. Esse é o tal do efeito no conceito supercientífico de mente/cérebro (funções executivas).

sábado, 23 de setembro de 2023

Incapac. e irrespons.: teoria manicomial e concretude

O conceito manicomial de incapacidade deveria ser decomposto e especificado se for para se referir à condições existentes no mundo e haver possibilidade de confrontação com os fatos. Incapacidade de emitir juízos válidos, incapacidade laboral e incapacidade de decidir, por exemplo, são circunstâncias específicas que precisam ser descritas como comportamentos objetivos e caso a caso ao invés de a partir de construtos diagnósticos indiretos com insuficiente referência a comportamentos. A incapacidade de emitir juízos válidos é postulada para por exemplo poderia deslegitimar falas incômodas aos interesses de pessoas envolvidas, a incapacidade de decidir poderia permitir a tutela da pessoa segundo prescrições de acordo com interesses de pessoas envolvidas e a incapacidade laboral poderia justificar a incapacidade de emitir juízos válidos e de decisão. Dessa maneira, não bastaria um raciocínio diagnóstico Kraepeliano (que nega o espaço e tempo concretos) para atribuir essas características à pessoa avaliada mas seria preciso descrever repertórios comportamentais e condições concretas no mundo (os quais não são irreversíveis nem inevitavelmente progressivos).

O conceito manicomial de irresponsabilidade poderia ser especificado como não responder de acordo com prescrições dos médicos, familiares e sociedade (o que também são condições específicas no mundo concreto). O raciocínio Kraepeliano já referido tem o efeito de deslegitimar considerações e descrições das condições específicas envolvidas nas prescrições dos médicos, familiares e sociedade. As prescrições se tornam imunes à avaliação crítica já que há uma assimetria de poder.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Os "terapeutas intactos" e o organicismo

Há um discurso social que é reflexo do pensamento organicista que se aplica a psicólogos que já consultaram com psiquiatras. Na mesma linha de pensamento de nascer com "dom" para uma atividade, é comum pensarem que os bons psicólogos são organicamente intactos. Se for para ser coerente com essa linha, se uma pessoa já consultou um psiquiatra não há mais o que fazer ou aprender pois "psicologia não altera doenças orgânicas" ou os tratamentos psicológicos e sociais "não são as intervenções cerebrais necessárias". Em linha semelhante, do dualismo mente e corpo, "a terapia pela fala" trata de abstrações não materiais e por isso não alteram o orgânico. 

Então é compreensível que essa forma de pensamento sendo comum e até coerente, a psicologia não seja valorizada e que não seja percebido como possível substituir tratamento psiquiátrico com aprendizagem.

A crítica ao "controle" na reforma psiquiátrica

A crítica ao "controle" na reforma psiquiátrica parece ter o sentido de que apenas as pessoas que tem poder controlam. Logo, uma proposta científica que recorre ao valor baconiano (Francis Bacon, primeiro filósofo a defender a experimentação) atuaria em favor dos poderosos (da opressão). Um dos significados de controle é "coerção". Práticas que envolvem aversividade em geral, como punição, também são incluídas como "controle". É compreensível essa perspectiva ou percepção já que são mais evidentes as situações em que poderosos tem meios de "controle" de recursos ou comportamentos de pessoas. É até interessante pensar até que ponto as pessoas vulneráveis e sem poder (diferentes tipos de poder) tem meios de se defender contra o "controle" dos poderosos. Nessa perspectiva, o controle só existe quando há poder.

Mas isso é um entendimento incompleto e insuficiente da noção de controle em filosofia e ciência e que não precisa nem ser circunscrito à área de comportamentalismo. O controle em filosofia e em ciência significa representar as possibilidades materiais dos fenômenos e seus comportamentos; e adicionalmente a sua utilização social. A análise do comportamento investiga esse aspecto material da natureza e sociedade. Sem investigações desse tipo, as possibilidades ou limites do controle da natureza se tornam reduzidas. Um entendimento mais completo como no pensamento de Hugh Lacey, envolveria o estudo interdisciplinar do aspecto da experiência ordinária e humana (ciências humanas e sociais; e outras áreas) como é proposto pela reforma psiquiátrica. Mesmo assim, ainda seria possível utilizar a investigação sobre as possibilidades materiais dos fenômenos da natureza tendo em vista outras perspectivas de valores sociais, ou em termos de ciência, utilizar estratégias de seleção de perspectivas e restrição de dados aceitáveis em conformidade com os valores da reforma psiquiátrica.

Referência:

Atividade científica e valores 1. Hugh Lacey

domingo, 17 de setembro de 2023

Diferença e patologia (atualizado 2)

Há uma sutileza na relação entre diferença e patologia. Há duas relações simples possíveis:

1 - o patológico é diferente (equivalente a aberrante, anômalo)

ou

2 - o diferente é patológico (leitura sociocultural equivalente a crítica da medicalização e patologização)

O modelo biomédico recorre ao critério de anomalia estatística para definir o patológico. Já as ciências sociais buscam legitimar as diferenças enquanto elementos legítimos da sociedade e cultura.

Para tornar um pouco mais claro:

Em 1, a diferença é uma propriedade (característica) do patológico (o qual é o fenômeno de interesse). 

Em 2, o patológico é propriedade (característica) atribuída socioculturalmente ao diferente (o qual é fenômeno de interesse das ciências humanas e sociais).

Desenvolvendo (especificando o aspecto natural e normativo):

1 - o patológico é diferente (equivalente a aberrante, anômalo), sendo a diferença propriedade natural (disfunção) e de natureza normativa (desvio da norma).

ou

2 - o diferente (ou a variabilidade biológica, comportamental e sociocultural dentro de sociedades ou entre sociedades) é patológico (leitura sociocultural equivalente a crítica da medicalização e patologização)

O desvio da norma em 1 é relativo às normas estipuladas contingencialmente e que variam em conteúdo de acordo com circunstâncias, sociedades, culturas, etc. Por outro lado, é possível que a patologia como fato natural em 1 não seja reconhecida culturalmente enquanto tal em certas circunstâncias. 

Já a variabilidade de diferentes naturezas em 2 é fato básico da realidade natural e social. Logo, atribuição de patologia em 2 utilizaria valores de tipos diferentes e variáveis aplicados a fatos naturais e sociais. A atribuição de patologia à diferença ou variabilidade portanto teria um interesse normativo. Em linguagem explícita, o interesse normativo precisaria ter suas condições especificadas como: o que, qual, quando, onde, como, por quê, com que finalidade, para quem, etc.

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Relação com a natureza circunscrita pelo social

As interações com a natureza podem ser circunscritas pelos seus vínculos com uma ordem social, ecológica ou cósmica, e por uma concepção particular do florescimento humano. Então, a forma do entendimento prático adotado refletirá o modo como a interação com a natureza contribui positiva ou negativamente para a ordem desejada e explorará as possibilidades da natureza em relação com aquelas interações que essa ordem admite. O entendimento prático será compelido a apreender as coisas como categorias relacionadas à ordem social, ecológica e cósmica, e a servir a uma concepção particular do florescimento humano. Onde tais concepções e práticas estão presentes, a postura distintivamente humana com respeito à natureza é bem representada por noções tais como harmonização, adaptação, participação e unidade dialética. O controle é subordinado a essas relações e limitado em seu escopo, sendo valorizado apenas na medida em que contribui para os fins circunscritos pela ordem social desejada e o ideal de florescimento humano. Explorar as possibilidade de controle além desses limites não possui nenhuma inteligibilidade moral (ou racional).

Entendimento científico e controle da natureza. No livro Atividade científica e valores 1.  Hugh Lacey



domingo, 10 de setembro de 2023

Alternativa à definição negativa de diferença

Uma possível alternativa para a definição negativa de diferença (hierarquizante) é a definição extensional (por enumeração). O conjunto dos diferentes seriam enumerados como indivíduos (um por um). A relação com o diferente se daria por contato direto, olhar disciplinado e reflexão conceitual. Essa forma de lidar com a diferença leva à muitos deslocamentos de ideias pré-concebidas herdadas da cultura (estereótipos).

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Definição negativa de diferença

Uma definição negativa de diferença para pessoas identificadas com padrões é que a diferença é o não-padrão / desvio do padrão. Há uma hierarquização entre padrões (superiores) e diferença (inferior).

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Comportamento manicomial (atualizado 2)

Provavelmente central nos comportamentos nomeados manicomiais seriam crenças rígidas todas associadas a riscos e por isso tornadas coerção dirigida a outras pessoas. Isso vai além de características de sistema de saúde e está no repertório das pessoas.

Com os processos comportamentais de regras verbais rígidas sobre como funciona o mundo com implicações do que deve ser feito e esquiva de riscos relacionada a essas regras rígidas, a aprendizagem se torna quase estagnada pois não haverá contato direto com o modo como funciona o mundo (contingências de reforçamento) devido à atuação dos dois processos. O comportamento ativo diretamente em relação aos eventos que poderiam testar as regras rígidas e a esquiva não ocorre. Por isso, modificar os comportamentos manicomiais individualmente e socialmente se torna mais desafiador. Um exemplo de alteração é quando políticas de reforma psiquiátrica antimanicomial mostram que pessoas antes consideradas irrecuperáveis, incapazes, irresponsáveis e perigosas se recuperam e vivem em sociedade de forma livre.

[Adicionar citação sobre alegações médicas de risco de ruína]

[Completar título: Comportamento manicomial em relação à risco e ruína]

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Aprendizagem estado-dependente (fisiologia)

Aprendizagem estado-dependente: aprendizagem que tem maior probabilidade de ser demonstrada quando o aprendiz está no mesmo contexto em que ocorreu a aprendizagem original. O termo geralmente é reservado para a aprendizagem sob condições fisiológicas especí­ficas, tais como os estados induzidos por drogas (p. ex., o aprendiz que aprendeu um item, enquanto embriaga­do, terá maior probabilidade de se lembrar dele quando estiver novamente embriagado, do que quando sóbrio).

Aprendizagem - Catania [Glossário]

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Neurolépticos para agressividade: animais e linguagem

[Achômetro] Obter redução da agressividade em experimentos com administração de neurolépticos em animais tem uma diferença em relação a seres humanos: linguagem (comportamento verbal) e padrões sociais. A agressividade no ser humano tem a diferença de consistir em expressividade não esperada que quebre padrões sociais e uma linguagem legítima. Logo, se aplicar neurolépticos num ser humano é de certa forma impor que suporte um ambiente hostil ou desafiador e se submeta a um tratamento desagradável, danoso e estigmatizante. E se é provável que se a pessoa expresse isso em palavras (argumentos) e não queira se submeter a isso seja rotulada como agressiva. A pessoa provavelmente aumenta sua linguagem verbal e não verbal "agressiva". O que acontece é ganhar a submissão da pessoa pelo cansaço. Já um animal é capaz de reagir a eventos hostis externos para os quais a espécie está preparada.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Sobre o uso da expressão "negacionismo"

Escrevo esse comentário sobre o uso da expressão "negacionismo¨ não porque sou anticiência (contra padrões científicos de rigor) mas porque percebe uma simplificação excessiva no uso dessa expressão e pelo potencial de mau uso. O uso da expressão tem implícito na minha interpretação um apelo à confiança na autoridade de alguns pesquisadores selecionados e eleitos como representantes do padrão mainstream. A expressão "negacionismo" assume que a pessoa que discursa já conhece o assunto e então deduz que qualquer coisa que desvie disso é simplesmente uma negação. O que quero ressaltar é que descrição do conteúdo dessa negação costuma ser descrito de forma superficial e justificado apenas pela dedução de algo que se assume saber. Uma atitude antropológica seria mais interessante pois permitiria entrar em contato e compreender complexos sociais que mantém uma posição na sociedade. A expressão "negacionismo" permite aproveitar o que a pessoa que discursa já sabe sem necessidade de esforço para compreender os complexos sociais ou no caso de mau uso a diversidade de posicionamentos dos padrões científicos e dos valores sociais impregnados em cada posicionamento.

sábado, 26 de agosto de 2023

Conclusão fundamental: tudo é remédio

Tales de Mileto foi o primeiro filósofo da Grécia (da história). Ao afirmar que tudo é água, deu a primeira explicação do mundo de cunho não mítico. No caso dos discursos sobre a saúde uma analogia pode ser feita. As pessoas crescem tomando remédios para seus problemas de saúde e então chegam a uma conclusão fundamental: em matéria de saúde, tudo é remédio. Isto é, qualquer benefício à saúde é explicado por remédios, os quais são as únicas estratégias factíveis e sempre necessários. Qualquer malefícios à saúde são explicados pela falta de remédio. Uma pessoa com formação em saúde sabe como isso é ingênuo, estrutural e planejado por forças econômicas. Esse tema se chama representação simbólica do medicamento na cultura. É tema difícil de intervir. Descrições desse tema em termos de espaço e tempo e pragmatismo seriam úteis [contingências de reforçamento / análise do comportamento].

Uma interpretação possível de liberdade

Uma interpretação possível de liberdade segundo a reforma psiquiátrica é rejeitar a ordenação natural do comportamento e sua objetividade (discurso anticomportamento é comum) e defender o social como âmbito da liberdade a ser construído (discurso anticontrole ou anticoercao) e a epistomologia da subjetividade correspondente. Uma definição de liberdade assim é na verdade uma defesa do respeito aos determinantes atuais dos comportamentos (e talvez sua imutabilidade) e uma defesa das práticas não coercitivas e de reforço positivo ou ameno. A linguagem é diferente mas as defesas semelhantes já que os comportalistas não defendem coerção a não ser nas interpretações equivocadas e mal informadas do pessoal das humanas e sociais. Uma integração das áreas em relação às intervenções é desejável e possível. O determinismo é posição metafísica (natureza da realidade) do âmbito da filosofia.

Valores e "Privilégio epistêmico"

"2.4 Valores e "Privilégio epistêmico"

Os valores sociais têm ainda um terceiro impacto (que tem sido com freqüência apontado nas críticas feministas da ciência moderna) decorrente do fato de a ciência ser produzida principalmente em instituições, tais como universidades e institutos de pesquisa, que são parte integral do sistema socioeconômico dominante. Tais instituições reforçam certos valores, os quais incluem o primado do intelecto, o individualismo, a competitividade e o comprometimento virtualmente exclusivo de cada um com sua disciplina científica. Elas exigem do cientista treinamento intensivo, e portanto certas prioridades de tempo e compromisso. Ser um cientista requer dedicação em tempo integral, à qual os envolvimentos familiares, sociais e outros devem se adaptar; caso contrário, não se pode ser vitorioso na competição cientifica. Ser cientista implica um estilo de vida que torna difícil a coexistência com outros que expressem certos valores diferentes, p. ex., os expressos por meio da participação em programas de transformação social (com exceção dos programas de "desenvolvimento", segundo as definições das elites modernizadoras). Não apenas isso, mas é um estilo de vida ao qual se tende a atribuir um tipo de "privilégio epistêmico", um lugar privilegiado para emitir juízos de autoridade sobre o que é e o que não é possível, sendo tão amplamente aceito que a teoria científica moderna fornece as melhores sinopses do que é possível; um lugar privilegiado que dá origem a relações assimétricas, que levam a práticas de dominação entre aqueles cujas práticas são informadas pelo conhecimento dos cientistas,  e aqueles de quem se espera que adaptem suas vidas para ficar de acordo com os imperativos do conhecimento científico. Quem não adota tais valores não pode participar das práticas experimentais e teóricas da ciência moderna, e assim não seguirá as experiências necessárias para se tornar um "especialista" no domínio do conhecimento científico.

Quem os adota, por outro lado, provavelmente não será capaz de reconhecer as práticas a partir das quais formas alternativas de transformação social podem se desenvolver. A adoção dos valores, então, permite obter acesso a cada vez mais possibilidades materiais que podem ser realizadas mediante práticas tecnológicas, mas deixa virtualmente no escuro novas possibilidades sociais (e as possibilidades materiais que elas possam introduzir) que a realidade efetivamente existente pode permitir. À luz das conexões dialéticas a que me referi, quero sugerir como um item para discussão - que não há estilo de vida, e não há instituições que permitam a exploração tanto da mais completa gama de possibilidades tecnológicas quanto das possibilidades de transformação social que atenderiam adequadamente às maiorias carentes dos países empobrecidos (quer sendo tal atendimento entendido em termos de satisfação de necessidades básicas, quer de expansão de capacidades, ou de respeito a todo o espectro de direitos humanos)."

Hugh Lacey. Livro: Atividade científica e valores 1. Artigo: A dialética da ciência e da tecnologia avançada: uma alternativa? p.198-199

sábado, 19 de agosto de 2023

Psicol.: ciência fundamental irredutível à fisiologia

"5. PROBLEMAS DE PREVISÃO


Encontro-me muito de acordo com o que Nelson tem a dizer sobre a psicologia ser possivelmente um assunto bem diferente da física. Podemos esperar precisar de uma teoria de previsão individual em vez de uma teoria de como a maioria dos organismos funciona na maior parte do tempo da mesma maneira. Não tentarei resumir seus argumentos, mas expor meus próprios pontos de vista de um ponto de vista ligeiramente diferente. A partir da inspeção do hardware do computador, é claramente ridículo pensar que alguém pode prever os tipos de programas de computador que serão escritos para o sistema de computador. É claro que certas declarações muito grosseiras e desinteressantes podem ser feitas, mas declarações que preveem em detalhes os programas reais que serão escritos estão obviamente fora de questão. Em termos científicos comuns, o conhecimento do hardware de forma alguma determina o conhecimento do software. Parece-me que há boas evidências de que a mesma situação é aproximadamente verdadeira para os seres humanos. O conhecimento de como o hardware físico do cérebro funciona não nos dirá necessariamente muito sobre os aspectos psicológicos das atividades humanas, especialmente as mais complexas. Por exemplo, é bom saber que a atividade da linguagem é normalmente centrada no hemisfério esquerdo do cérebro, mas parece bastante evidente que em nenhum futuro previsível a dissecação do hemisfério esquerdo de uma pessoa desconhecida será capaz de identificar a linguagem que ele realmente falou, seja inglês, russo, chinês ou qualquer outra coisa. A localização e identificação de habilidades ou memórias mais específicas por parte de humanos específicos é claramente uma tarefa ainda mais impossível. O software do cérebro [ou o repertório comportamental] não será reduzido ao hardware de nenhuma maneira que pareça viável no momento, e nesse sentido parece-me que pode ser feita uma forte afirmação de que a psicologia não será reduzida à fisiologia e à biologia.

É essa linha de argumentação que torna a psicologia uma ciência tão fundamental quanto a física. Em várias ocasiões, visões errôneas foram sustentadas sobre a redução da psicologia à fisiologia ou, em termos ainda mais ousados, a redução da psicologia à física. Nada, parece-me, está mais longe de ser o caso, e é por causa dessa ausência de qualquer evidência de que qualquer redução possa ocorrer que as teses sobre o behaviorismo permanecem importantes. Conceitos psicológicos, habilidades complexas e, em uma terminologia ainda mais tradicional, eventos mentais que ocorrem pelo menos em outras pessoas e outros animais podem ser conhecidos apenas a partir de evidências comportamentais. Não obteremos essa evidência por exame químico ou físico das células do corpo. Não o obteremos por métodos racionalistas de conhecimento. O behaviorismo como metodologia fundamental da psicologia veio para ficar [...]"

Suppes, P. (1993). From Behaviorism to Neobehaviorism. In: Models and Methods in the Philosophy of Science: Selected Essays. Synthese Library, vol 226. Springer, Dordrecht. https://doi.org/10.1007/978-94-017-2300-8_24

terça-feira, 15 de agosto de 2023

"Interferências na ciência pura" - Ciência e valores

Nota de rodapé: 

Algumas vezes se argumenta que tais pessoas estão tentando impor restrições sociais ou valorativas sobre a pesquisa "pura" - ou seja, pesquisa impulsionada e avaliada apenas por valores cognitivos. Ou pode parecer um conflito entre a expressão de valores cognitivos, ou de certos valores sociais. Na verdade, na minha concepção não existe pesquisa "pura" no sentido definido. Os valores cognitivos desempenham um papel crucial na pesquisa, porém sua interpretação é sempre estruturada por alguns valores sociais, e o apoio à sua expressão é ligado à expressão de certos valores sociais. O tipo de conflito em discussão é no fundo um conflito de valores sociais. Isto não é fácil de ser percebido numa sociedade que tende a tomar a primazia do controle da natureza como um valor universal. 

Ciência e valores 1 - Hugh Lacey

domingo, 13 de agosto de 2023

Antidepres., ansiedade, depressão e predisp. a compto

Um mecanismo de ação dos antidepressivos que considere a predisposição alterada para se comportar como efeito do psicofármaco, a respeito de seus efeitos na ansiedade e depressão e portanto não trata o mecanismo de neurotransmissão como a natureza total do fenômeno, levaria à possibilidade de que os antidepressivos aumentem a predisposição ao comportamento ativo que é condição favorecedora de aprendizagem. Aprendizagem que consiste em comportamentos de fuga e esquiva para o desamparo aprendido (extinção da fuga) que é modelo de depressão e a aprendizagem de comportamentos de fuga e esquiva para ansiedade que reduziria a ansiedade definida como aversividade condicionada. Um estudo estatístico indicaria um efeito de diferença entre médias de grupo placebo e com o fármaco, mas que não necessariamente seria replicado sempre ou teria um tamanho de efeito até certo ponto, porque nem sempre a predisposição ao comportamento ativo leva às aprendizagens necessárias de comportamentos de fuga e esquiva ou comportamentos de reforço positivo incompatíveis.

Obs: A intenção do texto é mostrar a relevância do comportamento ativo e dos processos comportamentais de aprendizagem e interação com o ambiente. Possíveis imprecisões poderão ser corrigidas no futuro.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

SC, o estado regrado, e a fabricação do desvio (atualizado)

Livros sobre a colonização e a cultura de santa catarina descrevem como o estado tem uma identidade cultural de se orgulhar de valorizar a ordem, o regramento e outros valores semelhantes. Bom, essa característica cultural produz uma experiência diferenciada de atitudes frente à saúde mental que beira à fabricação do desvio/loucura. Um estilo de vida diferente muito provavelmente é lido como ilegítimo, absurdo e patológico.

Observação: Regras em si mesmas não são um problema mas a inconsistência sociocultural de discursos sobre a legitimidade de regras que variam muito em seu conteúdo; assim como aplicação de coerção para seguimento de regras sem uma capacidade de abertura de entendimento antropológico de outras possibilidades socioculturais.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

"Práticas baseadas em evidências" é ciência atuarial

"Práticas baseadas em evidências", expressão intuitivamente convincente, são pesquisas com afinidade com as ciências atuariais.

"A ciência atuarial, também conhecida como atuária, trata da análise de riscos e expectativas, principalmente na administração de seguros e fundos de pensão, através de técnicas da estatística e da matemática financeira."

sábado, 5 de agosto de 2023

Modelo médico e psicológico (crítica a Ullman & Krasner)

É realmente um problema até que ponto devemos abordar certos distúrbios de comportamento sob uma perspectiva médica orgânica ou dinâmica; na realidade, todas as formulações teóricas da aprendizagem são de natureza dinâmica. Da mesma forma, existem muitos modelos médicos, e o ataque generalizado ao modelo médico só se aplica ao modelo de doenças infecciosas e é justificado contra a psicanálise apenas na medida em que se baseia, de forma inadequada, nas declarações infelizes de Freud (1961), onde ele projetava uma demonologia nas mentes das pessoas. Os behavioristas skinnerianos deveriam se sentir atraídos pelos modelos médicos epidemiológicos, já que eles atribuem tanta importância aos fatores ambientais nas perturbações; assim como os modelos psicológicos de formação de hábitos de resposta ajudam a entender o curso de algumas condições médicas de desenvolvimento ou processos degenerativos, como doenças cardíacas. A controvérsia sobre as condições de origem (aprendidas vs. estruturais) dos distúrbios de comportamento é em grande parte irrelevante, pois tem praticamente nenhum impacto no tratamento. Por trás da crítica dos behavioristas, geralmente está a ideia de que os conceitos de origem genética ou bioquímica são ruins porque, se o comportamento problemático é aprendido, a terapia também deve ser um processo de aprendizagem. Isso é absurdo. A etiologia e a terapia não estão logicamente relacionadas, nem em uma direção nem em outra. Por exemplo, o medo pode ser resultado de experiências anteriores, mas ainda assim pode ser reduzido por meio de intervenções químicas. Ou pode ter sido desencadeado principalmente por circunstâncias químicas (como fadiga combinada com leve excitação diante do perigo) e ser atenuado por meio de intervenções físicas ou verbais (Davison, 1968).

[No parágrafo seguinte o autor afirma que transtornos psiquiátricos são semelhantes às doenças físicas crônicas]

Referência: O fim da ideologia na modificação do comportamento, Perry London

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Valores econômicos vs. populares na ciência

No momento atual, as práticas de controle da natureza estão nas mãos do neoliberalismo e, assim, servem a determinados valores e não a outros. Servem ao individualismo em vez de à solidariedade: à propriedade particular e ao lucro em vez de aos bens sociais: ao mercado em vez de ao bem-estar de todas as pessoas; à utilidade em vez de ao fortalecimento da pluralidade de valores: à liberdade individual e à eficácia econômica em vez de à libertação humana; aos interesses dos ricos em vez de aos direitos dos pobres: à democracia formal em vez de à democracia participativa; aos direitos civis e políticos sem qualquer relação dialética com os direitos sociais, econômicos e culturais. A primeira é uma lista de valores neoliberais; a segunda, de valores do movimento popular. Hoje em dia, a ciência moderna - e o aumento da nossa capacidade de controlar a natureza-serve aos interesses do neoliberalismo. Ela poderia servir também a valores alternativos? As possibilidades de interesse para as perspectivas alternativas estão aptas a serem descobertas na pesquisa materialista?

Valores e atividade científica 1. Hugh Lacey (p.43)

Modelo de crença excessiva nos tratamentos psiquiátricos

A crença dos familiares nos tratamento psiquiátricos se estabelecem a partir de correlações parciais que ocorrem em alguns momentos entre comportamentos esperados (obtenção de reforçadores positivos e minimização de estímulos aversivos) e a diferenciação saliente de condições ambientais (circunstanciais) de alguns momentos em que o paciente/usuário estava com a substância administrada (luz na caixa experimental sinalizando reforço positivo: Sd) e se comportava como esperado e alguns momentos nos quais o paciente/usuário não se comportava como esperado (A luz apagada na caixa experimental que sinaliza o não reforço ou extinção: Sdelta) durante a não administração da substância de acordo com desejo do usuário/paciente. As classes de comportamentos com características de não fazer o esperado incluem tanto os comportamentos de não ingerir a substância quanto o resto das classes de comportamentos com características de função comum. Momentos em que a administração da substância não sinalizava comportamentos esperados e que a não administração da substância não sinalizava comportamentos indesejados são desconsiderados. Uma vez estabelecida as correlações entre obtenção do desejado pelos familiares e sociedade, emoções fortes e motivações se estabelecem que levam à insistência na eficácia dos tratamentos psiquiátricos ou forte resistência contra conhecimentos que indiquem o oposto, já que levariam à perda do desejado ou a obtenção do indesejado. Substituições do desejado obtido por meio de tratamentos psiquiátricos seriam possíveis e necessárias, em grau superior, caso se queira estabelecer crenças em tratamentos não psiquiátricos.

O aspecto neurobiológico é considerado suficiente para explicar porque algumas pessoas agem conforme esperado (acertam o controle de estímulos para emitir comportamentos reforçadores positivos ou amenos/poucos aversivos) e porque outras pessoas não agem conforme esperado (erro no controle de estímulos que tem a consequência de não reforçamento e aversividade). Essa crença é excessiva dado que a área de conhecimento de neurociência e comportamento sustenta que a neurobiologia é insuficiente como explicação e os processos comportamentais, os quais são desconhecidos do público, são elementos necessários nas explicações.

A correlação parcial entre momentos de acertos de controle de estímulos e momentos de erro de controle de estímulos associadas às condições fisiológicas do cérebro portanto atribui excessivamente disfunções biológicas como explicação para os erros e poderes ou propriedades (características) excessivos os quais as substâncias psicoativas ou os tratamentos cerebrais não possuem. Momentos salientes de erros associados a condições fisiológicas específicas e momentos salientes de acertos associados a condições fisiológicas habituais estabelece a diferenciação.

Uma vez que o discurso psiquiátrico implica na irrelevância das condições do espaço e tempo (circunstâncias concretas), a neurobiologia é considerada explicação suficiente que torna as pessoas (repertórios) quem elas são e os processos comportamentais de aprendizagem, que são elementos necessários desconsiderados nas explicações, são desconhecidos e difíceis de aprender, a força excessiva da crença nos tratamentos psiquiátricos se estabelece. Crenças fortes as quais se estabelecem a partir de curva de aprendizagem muito pequena (poucas e simples aprendizagens).

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Reforma psiquiátrica e a natureza dos transtornos mentais

O conflito entre a abordagem reducionista da psiquiatria biológica e a perspectiva psicossocial pode ser considerado uma disputa relacionada ao substrato do transtorno mental. Essas duas perspectivas oferecem explicações diferentes sobre a origem e a natureza dos transtornos mentais.

Na psiquiatria biológica, a ênfase está nos aspectos biológicos e neuroquímicos do cérebro, buscando entender os transtornos mentais como disfunções físicas do órgão cerebral. Essa abordagem considera que a mente e os processos mentais são produtos do funcionamento do cérebro e do sistema nervoso.

Por outro lado, a perspectiva psicossocial abrange uma abordagem mais ampla e interdisciplinar, considerando os fatores sociais, psicológicos e culturais que também influenciam a saúde mental.

Portanto, a disputa entre essas abordagens pode ser compreendida como uma discussão sobre como se explica o substrato do transtorno mental: se é principalmente através de processos biológicos no cérebro ou se requer uma compreensão mais integrada que envolva aspectos psicossociais. É importante ressaltar que essas questões são complexas e ainda objeto de debates contínuos no campo da saúde mental.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Alta médica a pedido e pensamento manicomial

https://www.youtube.com/watch?v=RwESV7RxCrs

O código de ética médica diz que alta a pedido é anti-ético em certas condições e que para pacientes mentais é abuso de direito. O pensamento manicomial se conjuga com o código de ética médico. O médico pode ser responsabilizado for desfechos ruins.

Por isso é tão difícil a alta psiquiátrica. 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Capitalismo e loucura

Basaglia, autores da reforma psiquiátrica e da antipsiquiatria fizeram leituras sobre o papel do capitalismo na experiência social de loucura. Os psiquiatras tradicionais defendem que a habilidade para a produção e renda é sinal de aptidão ou saúde biológica. Livros de história da economia descrevem como as práticas do capitalismo tiveram que ser inculcadas no ambiente social e no repertório das pessoas e o custo social que foi retirar o apoio que os camponeses tinham durante o período feudal. Sociólogos descrevem como a cultura brasileira teve certa dificuldade de adotar as práticas de produção capitalista e como isso faz com que o desenvolvimento econômico seja reduzido. A industrialização e a urbanização aumentam as exigências sobre os comportamentos esperados e aumentam a necessidade de conquistar autonomia financeira (reduzem o apoio comunitário). Alguns modos de vida estão mais alinhados com as práticas de produção e consumo capitalistas enquanto outros modos de vida tangenciam a produção e consumo. Modos de vida que consistem em ambiente sociais, práticas e culturas. O preparo para os modos de vida mais compatíveis com a produção e consumo consiste numa aprendizagem progressiva de comportamentos os quais não são nada simples e quanto mais produtivo se deseja ser menos simples são essas aprendizagens. Por outro lado, observação social indica que existem atalhos para se inserir no modo de produção e consumo capitalista enquanto também existem modos mais difíceis de inserção nas práticas capitalistas. Um aspecto da avaliação psiquiátrica ou psicológica envolve o quanto a pessoa se comporta de acordo com certos padrões de adequação às práticas capitalistas os quais são entendidos como sinais de grau de aptidão/inaptidão e grau de saúde/doença. Além disso, o modo de pensar psiquiátrico presente em toda a sociedade sugere que automaticamente uma pessoa que recebe uma nomeação diagnóstica para seus comportamentos se torna incapaz. As condições sociais e institucionais que são construídas e mantidas em torno da noção de doença mental incapacitante também contribuem para o grau de dificuldade das pessoas nomeadas com um rótulo diagnóstico se inserirem na produção capitalista. O modo de pensar psiquiátrico assume que a incapacidade para o trabalho é uma característica intrínseca do organismo e que o espaço/tempo das circunstâncias sociais e suas consequências nas trajetórias de vida são irrelevantes. Essas problematizações anteriores indicam que a aptidão para o trabalho não deve ser reduzidas ao suposto aspecto orgânico (mesmo as caracterizações orgânicas específicas são discutíveis). Barreiras sociais atitudinais às pessoas diferentes do padrão normocêntrico indicam que a sociedade contribui na produção da experiência de deficiência (de dificuldade) e na privação de direitos sociais.

domingo, 16 de julho de 2023

Lógica e behaviorismo (psicologismo) (Pt/Eng)


G. E. Zuriff - Behaviorism_ A Conceptual Reconstruction-Columbia Univ Pr (1985)

Behaviorismo Psicologista

As três epistemologias comportamentais revisadas, aquelas de Skinner, Hull e Tolman, assim como aquelas desenvolvidas por outros behavioristas, demonstram uma característica comum, apesar das diferenças em terminologia e teoria do condicionamento. Cada uma delas considera o conhecimento em termos do comportamento do conhecedor e a ciência, em particular, em termos do comportamento do cientista. Portanto, o conhecimento pode ser analisado e explicado por teorias desenvolvidas por uma ciência do comportamento, e a epistemologia se torna a psicologia do conhecimento. Em contraste com essa abordagem psicologista, em uma análise puramente formal do conhecimento, a estrutura e o conteúdo do conhecimento são considerados independentes do comportamento que os gerou e são separados de suas origens orgânicas. A análise formal tenta construir regras formais para a manipulação e interpretação dos produtos do comportamento epistêmico, regras que podem diferir consideravelmente das leis e princípios de uma teoria comportamental. Ao fazer isso, a análise formal ignora não apenas o comportamento epistêmico responsável pelos produtos, mas também o comportamento governado por regras do analista formal.

Lógica. Essas diferenças entre uma epistemologia formal e uma epistemologia empírica, ou comportamental, aparecem com mais clareza em relação às teorias da lógica.

Em uma epistemologia comportamental, a lógica é uma propriedade do comportamento verbal. É um conjunto de regras que descrevem certas relações extraídas do discurso de organismos humanos. Assim como todos os outros aspectos do comportamento, essas relações especiais aparecem por causa de certas leis do comportamento. Da mesma forma, o comportamento do lógico ao explicar as regras da lógica também deve ser explicado por uma teoria comportamental. Em um nível mais avançado, a teoria deve, além disso, explicar o comportamento do lógico na construção e na adoção de regras para lógicas não padrão.
De acordo com Hull, por exemplo, as regras da lógica padrão são adquiridas como comportamento verbal de maneira semelhante aos postulados científicos. Conforme explicado anteriormente, os postulados teóricos são adquiridos como comportamento verbal, ou são confirmados, quando um teorema é deduzido a partir de um conjunto de postulados e também é uma descrição de uma observação experimental. Da mesma forma, argumenta Hull, as regras de dedução lógica usadas para derivar o teorema também são confirmadas pela correspondência entre uma observação empírica e o teorema deduzido. Portanto, Hull conclui:

"Apesar da crença em contrário, é provável que os princípios lógicos (matemáticos) sejam essencialmente os mesmos em seu modo de validação [como os sistemas científicos]; eles parecem ser apenas regras de manipulação simbólica que foram encontradas por tentativa em uma grande variedade de situações para mediar a dedução de consequências existenciais verificadas por observação... cada teorema confirmado por observação aumenta a confiança justificada nas regras lógicas que mediaram a dedução, assim como nos próprios postulados 'empíricos'" (Hull et al., 1940, p. 7).

Assim, de acordo com Hull, os princípios da lógica, como aspectos do comportamento verbal, são adquiridos porque são reforçados pela dedução de observações experimentalmente confirmadas.

A interpretação de Hull parece deficiente em dois aspectos. Primeiro, ela não explica o comportamento dos lógicos que inventam e usam lógicas não padrão que nunca mediaram a dedução de teoremas observacionalmente confirmados. Segundo, também não explica a lógica da própria confirmação. Considere como uma lógica, L, é testada no esquema hulliano. Usando L, um teorema observacional, T, é deduzido a partir de um conjunto de postulados. Para testar T, os resultados observacionais, R, são comparados a T. De acordo com Hull, tanto L quanto o conjunto de postulados ganham confirmação se R = T. Mas isso pressupõe a lógica padrão. Considere uma lógica não padrão, L*, na qual a descoberta R = T desconfirmaria o conjunto de postulados. Portanto, uma lógica é confirmada na explicação de Hull apenas pressupondo a lógica padrão, que por si só não é confirmada pelo método hipotético-dedutivo. Em geral, para qualquer lógica L testada pelo método de Hull e qualquer conjunto de observações, sempre haverá uma lógica de confirmação na qual as observações confirmam L e outra lógica de confirmação na qual as observações desconfirmam L. Se toda forma de lógica precisasse ser confirmada da maneira prescrita por Hull, um regresso infinito seria gerado, uma vez que cada teste pressupõe uma lógica de confirmação que também precisa ser confirmada. O regresso infinito é evitado apenas porque certas formas de lógica são adotadas sem confirmação. Essas formas são o análogo formal das operações comportamentais primitivas (capítulos 6 e 7) que estabelecem as condições sob as quais o comportamento é alterado. Esses princípios primitivos podem ser reformulados como regras primitivas que governam o comportamento do organismo, embora o comportamento não seja governado por regras no sentido do capítulo 7. O princípio comportamental primitivo "Sob condições C, ocorre o comportamento D" pode ser interpretado como "A partir de um conjunto de declarações que descrevem C, o organismo passa a acreditar B, conforme expresso no comportamento D" (capítulo 8). Assim, os princípios comportamentais primitivos podem ser reformulados como uma lógica primitiva que se mantém devido à natureza do organismo, não porque seja formalmente confirmada. O único sentido em que se pode dizer que ela é confirmada é que ela presumivelmente evoluiu por meio da seleção natural.

 

Behaviorist Psychologism

The three behavioral epistemologies reviewed, those of Skinner, Hull, and Tolman, as well as those developed by other behaviorists,13 demonstrate a common characteristic, despite their differences in terminology and conditioning theory. Each views knowledge in terms of the behavior of the knower, and science, in particular, in terms of the behavior of the scientist. Therefore, knowledge can be analyzed and explained by theories developed by a science of behavior, and epistemology becomes the psychology of knowing. In contrast to this psychologistic approach, in a purely formal analysis of knowledge, the structure and contents of knowledge are considered independent of the behavior that generated them and are detached from their organismic origins. The formal analysis tries to construct formal rules for the manipulation and interpretation of the products of epistemic behavior, rules which may differ considerably from the laws and principles of a behavioral theory. In doing so, the formal analysis ignores not only the epistemic behavior responsible for the products but also the rule governed behavior of the formal analyst.14

Logic. These differences between a formal epistemology and an empirical, or behavioral, epistemology appear mostly clearly with regard to theories of logic.
In a purely formal analysis, logic is conceptualized as independent of human activity. Either it is considered a set of transcendental truths, not at all dependent on human experience for their validity, or it is viewed as one vast tautology, a set of conventions with no empirical contents. Rules of logic can be constructed in various ways, all of which are equally valid since logic is unrelated to the empirical realm.

In a behavioral epistemology, logic is a property of verbal behavior. It is a set of rules describing certain relationships extracted from the speech of human organisms. Just like all other aspects of behavior, these special relationships appear because of certain laws of behavior.15 Similarly, the behavior of the logician in explicating the rules of logic must also be explained by a behavioral theory. At a more advanced level, the theory must, in addition, account for the behavior of the logician in constructing and following rules for nonstandard logics.
According to Hull, for example, the rules of standard logic are acquired as verbal behavior in much the same way as scientific postulates are.16 As explained above, theoretical postulates are acquired as verbal behavior, or are confirmed, when a theorem is both deduced from a postulate set and is also a description of an experimental observation. Similarly, Hull argues, the rules of logical deduction used in deriving the theorem are also confirmed by the correspondence between an empirical observation and the deduced theorem. Therefore, Hull concludes:
Despite much belief to the contrary, it seems likely that logical (mathematical) principles are essentially the same in their mode of validation [as scientific systems]; they appear to be merely rules of symbolic manipulation which have been found by trial in a great variety of situations to mediate the deduction of existential sequels verified by observation. . . . each observationally confirmed theorem increases the justified confidence in the logical rules which mediated the deduction, as well as in the “empirical” postulates themselves. (Hull et ah, 1940, p. 7) Thus, according to Hull, the principles of logic, as aspects of verbal behavior, are acquired because they are reinforced by the deduction of experimentally confirmed observations.

Hull’s interpretation seems deficient on two counts. First, it does not account for the behavior ot logicians who invent and use nonstandard logics which have never mediated the deduction of observationally confirmed theorems. Second, it also fails to explain the logic of confirmation itself. Consider how a logic, L, is tested under the Hullian scheme. Using L, an observational theorem, T, is deduced from a postulate set. To test T, observational results, R, are compared to T. According to Hull, both L and the postulate set gam in confirmation if R = T. But this presupposes standard logic. Consider a nonstandard logic, L*, in which the finding R = T would dbconfirm the postulate set. Therefore, a logic is confirmed in Hull’s account only by presupposing standard logic, which is itself not confirmed by the hypothetico-deductive method. In general, tor any logic L tested by Hull’s method, and any set of observations, there is always a logic of confirmation by which the observations confirm L and another logic of confirmation by which the obsevations disconfirm L. If every form of logic needed to be confirmed in the way Hull prescribes, an infinite regress would be generated since every test presupposes a logic of confirmation itself in need of confirmation. The infinite regress is avoided only because certain forms of logic are adopted without confirmation. These forms are the formal analog of the primitive behavioral operations (chapters 6 and 7) which state the conditions under which behavior is changed. These primitive principles can be reformulated as the primitive rules governing the organism’s behavior although the behavior is not rule governed in the sense of chapter 7. The primitive behavior principle, “Under conditions C, behavior D occurs,’’ can be interpreted as, “From a set of statements describing C, the organism comes to believe B as expressed in behavior D” (chapter 8). Thus, primitive behavioral principles can be reformulated as a primitive logic which holds because of the nature of the organism, not because it is formally confirmed. The only sense in which it may be said to be confirmed is that it presumably evolved through natural selection.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Neurotransmissores Não São Toda a Biologia

Os Neurotransmissores Não São Toda a Biologia

Referência: Elliot S. Valenstein (Au.) Blaming the brain: The truth about drugs and mental health. New York: Free Press, 1998, 292 pp.

[Um dos pioneiros da psicofarmacologia faz suas críticas ao campo]

É comumente assumido que qualquer pessoa que critique as teorias químicas dos transtornos mentais deve ser contra todas as explicações biológicas do comportamento. É claro que isso não precisa ser o caso e certamente não é a visão deste neurocientista. Apontar as fraquezas nas evidências usadas para apoiar a teoria de que os transtornos mentais são causados por desequilíbrios bioquímicos e até mesmo argumentar que parte da lógica utilizada é falha não é anti-biológico. A bioquímica não é tudo o que há na biologia. Existem, por exemplo, várias teorias sobre as causas dos transtornos mentais que enfatizam anomalias estruturais ou funcionais do cérebro, em vez de fatores bioquímicos. Embora às vezes seja argumentado que qualquer anomalia cerebral deve ter consequências bioquímicas, isso realmente levanta a questão sobre o que é uma causa e o que é um efeito. Pode não ser mais justificável considerar uma anomalia bioquímica como a causa de um transtorno mental do que considerar músculos tensos como a causa da ansiedade.

Durante a segunda metade do século XIX e continuando até a primeira metade deste século, houve um grande número de afirmações de que a anomalia cerebral que causa a esquizofrenia havia sido encontrada. Típico dessas afirmações foi a do patologista Alois Alzheimer, mais lembrado hoje por descrever a demência que leva seu nome. Alzheimer acreditava que havia encontrado a causa da esquizofrenia em uma anormalidade no córtex frontal do cérebro.32 Este relato não pôde ser confirmado, mas, em justiça, deve-se observar que as técnicas disponíveis para Alzheimer e outros na época eram rudimentares pelos padrões atuais, e os estudos só podiam ser feitos em material de autópsia, comumente de pacientes crônicos mais idosos. Muitos dos primeiros relatos de anomalias encontradas nos cérebros de pacientes mentais não puderam ser confirmados por outros, e esse período foi chamado de "a era da mitologia cerebral". Em muitos casos, posteriormente, descobriu-se que as anomalias eram causadas por institucionalização prolongada ou pela forma como os cérebros haviam sido preservados, em vez de serem a causa da esquizofrenia.

Porque tantos neuropatologistas passaram suas vidas procurando a anomalia cerebral que causava a esquizofrenia, foi dito que "a esquizofrenia foi o túmulo dos neuropatologistas".33
Até 1940, o entusiasmo pela busca de anomalias cerebrais em pacientes mentais havia diminuído, pois havia se tornado amplamente aceito que a causa dos transtornos mentais deveria ser encontrada nas experiências de vida daqueles afetados. Por volta de 1960, no entanto, o vento predominante começou a mudar de volta para a busca de causas biológicas. A mudança de volta para explicações biológicas foi resultado de vários fatores, entre eles a disponibilidade de estudos epidemiológicos melhor controlados que demonstravam uma possível causa genética de alguns transtornos mentais, a crescente aceitação de que medicamentos poderiam aliviar alguns transtornos mentais e a crescente suspeita de que a psicoterapia não estava cumprindo suas promessas.

Existem muitas teorias atuais sobre o que causa transtornos mentais que enfatizam outros fatores biológicos além dos neurotransmissores. Entre os muitos fatores propostos como causadores de transtornos mentais estão a perda de células cerebrais, "ritmos biológicos" defeituosos, lateralização anormal dos hemisférios cerebrais, erros pré-natais no desenvolvimento do cérebro, trauma no nascimento, sistemas imunológicos incompatíveis entre o feto e a mãe, exposição à influenza materna, vírus de ação lenta e vários fatores genéticos.34 Com o desenvolvimento de técnicas de mapeamento cerebral, anomalias estruturais e funcionais foram relatadas como sendo encontradas no córtex pré-frontal, nos gânglios basais, no hipocampo, no tálamo, no cerebelo e em outras estruturas cerebrais em diferentes populações de pacientes mentais, mas especialmente nos cérebros de esquizofrênicos.35 Daniel Weinberger e seus colegas no Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) relataram tanto anomalias funcionais quanto estruturais em esquizofrênicos. Eles afirmaram, por exemplo, que a região dorsolateral do córtex pré-frontal em esquizofrênicos não é normalmente ativada quando estão realizando certas tarefas cognitivas que requerem a participação do lobo frontal.36 Patricia Goldman-Rakic da Universidade Yale sugeriu que esquizofrênicos podem ter um déficit na parte dorsolateral do córtex pré-frontal que prejudica a memória de curto prazo necessária para guiar o comportamento e os processos de pensamento de maneira racional.37 Também existem vários relatos de que esquizofrênicos tendem a ter algumas anormalidades anatômicas nos lobos temporais do cérebro.38 Nancy Andreasen e seus colegas do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Iowa relataram que o tálamo em cérebros esquizofrênicos tende a ser menor do que o normal. Eles sugerem que, devido às suas muitas conexões com outras áreas do cérebro, uma anomalia no tálamo pode explicar todos os sintomas da esquizofrenia com base em um único fator - uma explicação que consideram preferível à abordagem fragmentada "pouco econômica e conceitualmente insatisfatória" de procurar uma estrutura cerebral diferente para explicar cada sintoma.39 Também há vários relatos de anomalias cerebrais encontradas em pacientes com depressão, e os relatos de que pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo exibem hiperatividade no córtex pré-frontal, nos gânglios basais e no tálamo foram discutidos anteriormente neste capítulo.40

Existem alguns dados de apoio para cada uma dessas teorias biológicas, e em nosso estado atual de ignorância sobre as causas dos transtornos mentais, não há alternativa senão lançar uma rede ampla em nossos esforços de pesquisa. No entanto, é preocupante que haja tão poucas replicabilidades de qualquer uma das descobertas cerebrais relatadas até o momento, e que tantas diferentes anomalias cerebrais tenham sido propostas como a causa do mesmo transtorno mental, enquanto as mesmas estruturas têm sido relatadas como envolvidas em diferentes transtornos. Em relação à esquizofrenia, Nancy Andreasen sugeriu, apesar de suas alegações de um papel central da anomalia do tálamo na esquizofrenia, que todas as pesquisas concordam "que deve envolver circuitos distribuídos em vez de uma única 'localização' específica, e todas sugerem um papel-chave para as inter-relações entre o córtex pré-frontal, outras regiões corticais interconectadas, especialmente o tálamo e o estriado".41 A ideia de que pode haver um circuito distribuído com mau funcionamento em vez de uma localização específica única não é irracional, mas também pode ser uma maneira conveniente de colocar a melhor "interpretação" nas muitas anomalias cerebrais diferentes relatadas em pessoas com o mesmo transtorno. Também não está claro até que ponto o aumento do número de relatos de anomalias estruturais ou funcionais no córtex pré-frontal, no estriado e no tálamo em diferentes transtornos mentais indica um prejuízo subjacente comum em todos esses transtornos, como frequentemente afirmado, ou se simplesmente reflete o interesse atual nessas estruturas específicas. Isso nos lembra do antigo ditado: "Diga-me quais perguntas você está fazendo e eu lhe direi o que você encontrará". Além disso, ao avaliar esses vários relatos de anomalias cerebrais, é importante ter em mente que são apenas tendências com base em dados médios, e nenhuma das alegações se aplica a todos os pacientes com o mesmo transtorno mental. Por fim, não está claro, como já discutido, se qualquer fisiopatologia cerebral relatada é a causa ou o efeito de um transtorno mental.

Apesar de a evidência e os argumentos alegados para apoiar as várias teorias químicas dos transtornos mentais estarem longe de serem convincentes, essas teorias têm muito mais apoiadores do que qualquer outra teoria biológica. Muitas das razões para isso são discutidas no próximo capítulo, mas uma delas é que muitas pessoas acreditam que a pesquisa com medicamentos oferece a maior promessa de um tratamento eficaz e fácil de administrar. Em contraste, mesmo que uma anomalia cerebral estrutural fosse convincentemente demonstrada como a causa de algum transtorno mental, não está claro o que poderia ser feito para corrigir essa condição neste momento.

Essas observações críticas não têm a intenção de menosprezar a especulação, que estou ciente de que muitas vezes fornece a motivação para realizar pesquisas, mas sim retratar a fraqueza de todas as explicações biológicas atuais sobre as causas dos transtornos mentais. A crítica às alegações de que várias deficiências ou excessos da atividade dos neurotransmissores são a causa das doenças mentais não é antibiologia, anticientífica ou pró psicoterapia, mas sim o resultado de uma avaliação objetiva das evidências e dos argumentos alegados para apoiar a teoria.

Um Exame Crítico da Teoria da Dopamina

Referência: Elliot S. Valenstein (Au.) Blaming the brain: The truth about drugs and mental health. New York: Free Press, 1998, 292 pp.

[Um dos pioneiros da psicofarmacologia faz suas críticas ao campo]

Um Exame Crítico da Teoria da Dopamina

Ao selecionar as evidências a serem incluídas, um argumento aparentemente convincente pode ser feito de que a esquizofrenia é causada por algum comprometimento do sistema de dopamina no cérebro. No entanto, uma análise mais crítica da evidência total disponível revela que está longe de ser estabelecido que um comprometimento da dopamina esteja subjacente à esquizofrenia. Embora seja frequentemente dito que os esquizofrênicos foram encontrados com um número anormalmente alto de receptores de dopamina, a evidência para essa afirmação não é de todo convincente. Mesmo nos estudos que encontraram mais receptores de dopamina em esquizofrênicos em comparação com pessoas normais, a diferença foi apenas em média e não se aplicava a muitos esquizofrênicos. Além disso, a maioria dos pesquisadores não conseguiu encontrar nenhuma evidência de anormalidade nos receptores de dopamina em esquizofrênicos. Um esforço de pesquisa multinacional envolvendo pacientes e pesquisadores da Alemanha, Reino Unido e Áustria concluiu que qualquer diferença encontrada nos receptores D2 (ou qualquer outro receptor de dopamina) nos cérebros de esquizofrênicos é "inteiramente iatrogênica", ou seja, qualquer diferença encontrada foi totalmente causada pelo tratamento prévio com medicamentos antipsicóticos. Em outro relatório, Arvid Carlsson, um dos principais contribuintes para o campo da psicofarmacologia em geral e para a nossa compreensão dos mecanismos da dopamina em particular, concluiu que

não há "evidências convincentes" de qualquer perturbação da função da dopamina na esquizofrenia. Foi relatada uma densidade aumentada de receptores de dopamina D2 nos cérebros de pacientes esquizofrênicos analisados post-mortem, e um estudo com dados de exames de PET [Tomografia por Emissão de Pósitrons] mostrou a mesma coisa, mas os dados do Instituto Karolinska, por Farde e Sedvall, não mostram absolutamente nenhuma diferença.

Outros estudos (com PET) não encontraram um número elevado de receptores de dopamina em esquizofrênicos. Assim, está longe de haver acordo de que a maioria dos esquizofrênicos tenha um excesso de receptores de dopamina, exceto aqueles causados pelo tratamento com drogas antipsicóticas. Além disso, como será discutido no próximo capítulo, não está claro nem mesmo nos esquizofrênicos que parecem ter um número elevado de receptores de dopamina, não relacionado ao tratamento com drogas, se a anormalidade da dopamina foi a causa ou o efeito do transtorno.

Os estudos sobre os receptores de dopamina se tornaram mais complexos devido à descoberta de que existem mais receptores de dopamina além dos tipos D1 e D2. Por exemplo, quando Pierre Sokoloff e seus colegas em Paris relataram em 1990 que eles haviam identificado o receptor D3, o interesse no relatório foi tão grande que seu artigo logo entrou na lista dos Dez Artigos Mais Quentes da Biologia, conforme tabulado pelo Science Watch. Cinco diferentes receptores de dopamina (D1-D5) foram identificados até agora, e cada um deles possui uma distribuição anatômica um tanto diferente no cérebro.

As drogas antipsicóticas afirmam se ligar principalmente aos receptores D2 e D3 e em menor medida aos receptores D1, D4 e D5. Isso pode parecer implicar os receptores D2 e D3 como o local ativo para as drogas antipsicóticas, exceto que algumas das chamadas "antipsicóticos atípicos", como a clozapina, não se ligam (ou se ligam muito pouco) a esses receptores. (Os "antipsicóticos atípicos" são medicamentos que não causam os sintomas motores frequentemente irreversíveis e desfigurantes conhecidos como "discinesia tardia".) Os "antipsicóticos atípicos" são pelo menos tão eficazes no tratamento da esquizofrenia quanto os antipsicóticos mais tradicionais que atuam principalmente nos receptores D2 e D3. Foi demonstrado que 30% dos pacientes que não responderam ao tratamento com três diferentes antipsicóticos padrão responderam aos "antipsicóticos atípicos". Vários investigadores clínicos argumentaram que os pacientes que não respondem podem representar um subgrupo de esquizofrênicos que não apresentam o problema usual de dopamina. No entanto, esse argumento não pode ser válido, pois os "antipsicóticos atípicos" também são eficazes em pacientes que respondem a medicamentos que bloqueiam os receptores de dopamina D2. Portanto, é difícil sustentar que os antipsicóticos funcionam porque corrigem a anormalidade do receptor D2 que é a causa da esquizofrenia quando um grupo diversificado de pacientes com essa doença responde aos "antipsicóticos atípicos" que não atuam nesse receptor. Além disso, o fato de que alguns "antipsicóticos atípicos" têm seu efeito principal nos receptores de serotonina, e não de dopamina, lança mais dúvidas sobre a participação crítica de qualquer receptor de dopamina na eficácia das drogas antipsicóticas.

Um relatório recente do Japão descreveu uma diminuição (não um aumento) nos receptores de dopamina D1 no córtex pré-frontal de esquizofrênicos, e seus autores especularam que isso pode ser a causa de algum comprometimento cognitivo observado nesse transtorno. Por mais interessante que essa descoberta possa ser, parece ainda mais difícil explicar por que bloquear os receptores de dopamina seria útil para esquizofrênicos. Talvez alguma clareza eventualmente surja de todas essas descobertas preliminares e especulações, mas no momento as evidências não implicam nenhum receptor de dopamina como a causa da esquizofrenia ou o local crítico onde um antipsicótico deve atuar para ser eficaz.

Outro grande problema para a teoria de que a esquizofrenia é causada por uma atividade excessiva de dopamina é que os medicamentos antipsicóticos, assim como os antidepressivos, geralmente levam várias semanas antes de apresentarem qualquer efeito terapêutico significativo. Isso é verdade mesmo considerando o fato de que foi demonstrado que os medicamentos bloqueiam os receptores de dopamina em questão de horas. Após várias semanas de tratamento medicamentoso, ocorre um aumento compensatório no número de receptores de dopamina e um aumento na taxa de disparo dos neurônios de dopamina. O aumento no número de receptores deveria aumentar a capacidade dos neurônios de responderem à dopamina e, quando combinado com um aumento na taxa de disparo dos neurônios de dopamina e um consequente aumento na quantidade de dopamina liberada, a atividade de dopamina poderia ser esperada aumentar, em vez de diminuir, no momento em que os medicamentos antipsicóticos parecem começar a funcionar - dificilmente uma mudança que deveria corrigir uma atividade excessiva de dopamina.

Alguns esforços têm sido feitos para resolver essa contradição recorrendo a explicações baseadas no conhecimento sobre a distribuição anatômica de muitos receptores D2. Muitos dos receptores D2, que têm sido postulados como envolvidos criticamente na esquizofrenia, são "autorreceptores". Um autorreceptor, que está localizado no corpo dos neurônios que liberam dopamina, age como um freio, diminuindo a taxa de disparo dos neurônios de dopamina e reduzindo a quantidade de dopamina liberada. Se esses autorreceptores forem bloqueados por um medicamento, isso tem o efeito de remover um freio (ou pisar no acelerador), e a taxa de disparo do neurônio é aumentada. Como a maioria dos medicamentos antipsicóticos bloqueia os autorreceptores D2, isso deveria produzir um aumento na taxa de disparo dos neurônios de dopamina e um aumento na quantidade de dopamina liberada nas sinapses. Mais uma vez, surge uma contradição, já que um aumento na taxa de disparo dos neurônios de dopamina parece ser justamente o oposto do que um medicamento deveria fazer para aliviar uma suposta hiperatividade de dopamina.

Na tentativa de resolver essa contradição, foi sugerido que quando os neurônios disparam em uma taxa anormalmente alta por cerca de três semanas, suas membranas celulares "despolarizam". A despolarização se refere a uma redução na diferença de voltagem entre a membrana celular e o citoplasma dentro do neurônio, uma condição que bloqueia a capacidade de um neurônio disparar e liberar seu transmissor. Foi relatado em um estudo recente que a capacidade da administração crônica de diferentes medicamentos antipsicóticos de produzir bloqueio de despolarização dos neurônios de dopamina estava relacionada à sua eficácia antipsicótica em humanos. Embora o fenômeno do bloqueio de despolarização possa ser útil para o teste de novos medicamentos antipsicóticos, seu significado para a teoria da dopamina na esquizofrenia não está claro. Os pesquisadores principais que estudam os efeitos de despolarização dos medicamentos antipsicóticos acreditam que não há motivo para pensar que a despolarização represente um retorno ao estado normal do sistema de dopamina e concluem que provavelmente não há nada de errado com o sistema de dopamina em esquizofrênicos.