Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A dominância das dimensões médicas na sociedade

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5007&secao=420


A dominância das dimensões médicas na sociedade

“A felicidade definitiva parece ser a de realizar o sonho humano de permanência terrena, longevidade infinita, eternidade do indivíduo”, define Luis David Castiel

Por: Graziela Wolfart

“Embora o fenômeno da medicalização seja visto como a ingerência da medicina noutros campos do saber e, sobretudo, em questões essencialmente sociais, não é raro também ser relacionado à elevada dependência dos indivíduos e da sociedade da oferta de serviços e bens de ordem médico-farmacêutica e seu consumo cada vez mais intensivo. Pode-se dizer que a medicalização, hoje, envolve mais atores, instituições, empresas, interesses e práticas tanto curativas como preventivas, e reflete as transformações relativas aos modos como fenômenos de saúde, doença e risco têm sido produzidos, definidos, classificados, administrados e vividos”. A definição é do professor e médicoLuis David Castiel, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. Para ele, a atual configuração social é bastante propícia para a indústria médico-cirúrgico-farmacêutico-cosmética oferecer produtos e intervenções para atender aos anseios de saúde e de boa aparência. “E, se for necessário, remediar os efeitos emocionais e estresses dos eventuais reveses na busca desgastante da felicidade na vida moderna. Em geral, esta noção de procura da felicidade (...) tende a se configurar em metas traçadas que implicam em gestão racional e responsável de ações persistentes para, quiçá, atingir um resultado que seja considerado um êxito culturalmente legitimado. Em termos bem esquemáticos: ter perseverança (e saúde) para esta jornada e, se possível, obter o merecido retorno financeiro e o correspondente reconhecimento social no competitivo âmbito neoliberal contemporâneo”. Dessa forma, continua ele, “o saber médico se aproxima de uma forma de ‘religião’ ao ocupar espaços cada vez maiores no cotidiano em rituais em que cada um de nós deve buscar e manter constantemente a condição de sãos (e salvos) mediante a crença e a prática dos enunciados do conhecimento biomédico vigente e que tende a ocupar um lugar todo-poderoso. Assim, é possível estabelecer nexos entre saúde e salvação”.
Luis David Castiel é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em Medicina Comunitária pela University of London, doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, e pós-doutor pelo Departamento de Enfermaria Comunitária, Saúde Pública y Historia de la Ciencia da Universidade de Alicante, da Espanha. É pesquisador titular do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. É professor permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e do Programa de Pós-graduação de Epidemiologia em Saúde Pública.
Castiel esteve no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no último dia 15-04-2013, ministrando a palestra “Como restringir seu apetite naturalmente – Os riscos e a promoção do autocontrole na saúde alimentar.” O evento integrou o I Seminário em preparação ao XIV Simpósio Internacional IHU a ser realizado em outubro de 2014. Mais informações sobre o evento em http://unisinos.br/eventos/simposio-ihu/ 
Confira a entrevista.
IHU On-Line – No âmbito da evolução mais recente do capitalismo, como podemos caracterizar “saúde” para compreendermos a lógica da sua medicalização? 
Luis David Castiel – Antes de tudo, penso que vale a pena tentar definir melhor a noção de medicalização. Apesar de não constar em consagrados dicionários da língua portuguesa, o vocábulo medicalização é recorrentemente empregado na literatura científica para se referir, grosso modo, à intervenção da medicina no tratamento de questões sociais. Peter Conrad – um estudioso do tema – descreve a medicalização como “o processo pelo qual problemas não médicos se tornam definidos e tratados como problemas médicos, geralmente em termos de doenças ou transtornos”. De outro modo, pode-se dizer que o processo de medicalização centra-se na biologização do social, o que não implica, porém, a aceitação da biologia e da sociologia como ciências mutuamente excludentes. Trata-se de algo complexo, já que a compreensão de fenômenos, cuja multiplicidade de determinações e interfaces é tão vasta, impede, de antemão, qualquer tipo de simplificação ou de priorização de determinada ciência para sua explicação.
Por sua vez, uma importante contribuição acerca desse tema, a partir do âmbito da saúde mental, foi trazida por Thomas Szasz , cujo enquadramento conceitual é mais crítico ainda que o de Conrad. Para eles, a distinção entre prática médica e não médica é de importância crucial, pois além de influir na atenção médica, no direito e nas políticas públicas, justamente por isso, interfere na vida das pessoas. Em termos breves, para Szasz, a “medicalização” seria uma prática ilegítima de introduzir vocabulários, conceitos e práticas médicas no terreno da vida pessoal ou social, considerando que esse processo não é apropriado. A medicalização constitui-se numa estratégia de atribuição de sentidos que modela práticas sociais, profissionais e formas de consciência e conduta.
Fora do controle racional
A pressão exercida por essa perspectiva localiza-se no fato de que uma vez que alguém é considerado doente ou seu comportamento visto como resultado de patologia, tal comportamento é encarado como estando fora do controle racional das pessoas. Tais indivíduos tornam-se agentes morais e sociais deficitários. Assim, eles podem ser vistos como irresponsáveis em relação a seus atos, passíveis de abordagens coercitivas por aqueles que se colocam no lugar de autoridades e experts. Passam, assim, a ser objetos de práticas e estratégias institucionais e especializadas concebidas para conduzir, “aconselhar” e, se for o caso, corrigir as pessoas. Em geral, essa insidiosa invasão da medicina é inadvertidamente aceita pelas pessoas, a ponto de passarem a regular boa parte de suas vidas de acordo com prescrições de saúde. Comportamentos “de risco” são descritos e desaconselhados (quando não proibidos) no tocante à alimentação, atividade física, ou outras atividades que possam ser caracterizadas como maus hábitos.
Embora o fenômeno da medicalização seja visto como a ingerência da medicina noutros campos do saber e, sobretudo, em questões essencialmente sociais, não é raro também ser relacionado à elevada dependência dos indivíduos e da sociedade da oferta de serviços e bens de ordem médico-farmacêutica e seu consumo cada vez mais intensivo. Pode-se dizer que a medicalização, hoje, envolve mais atores, instituições, empresas, interesses e práticas tanto curativas como preventivas, e reflete as transformações relativas aos modos como fenômenos de saúde, doença e risco têm sido produzidos, definidos, classificados, administrados e vividos.
O fenômeno da medicalização é interpretado especialmente como estando vinculado à disseminação do uso de medicamentos como principal estratégia para o tratamento de doenças e prevenção de riscos. Segundo a lógica biomédica, os medicamentos “consertam” ou “minimizam” as falhas nas “peças” da máquina humana, fazendo com que ela volte a funcionar satisfatoriamente. Ou seja, grande parte do processo medicalizador atende aos interesses da indústria farmacêutica que atua como um ator central nesse contexto .
Racionalidade do risco
Por sua vez, a racionalidade do risco torna-se bastante adaptada para uma importante faceta medicalizadora contemporânea. São as proposições do autocuidado que veiculam o uso de recomendações epidemiologicamente justificadas e medicamente chanceladas para que pessoas leigas, de alguma forma, tornem-se pacientes e assumam comportamentos saudáveis e diretrizes médicas em nome do tratamento preventivo de agravos à saúde. Caso ainda não tenham assumido este mandato da cultura hiperpreventiva, existe, assim literalmente definida, a “terapêutica de mudança de estilos de vida”.
É sempre possível estar-se à mercê de vários riscos à integridade física e mental, mesmo sem sintomas evidentes. Nestas circunstâncias, temos cada vez mais indivíduos em um estatuto ambíguo: simultaneamente não saudáveis e não doentes. Um exemplo: mais pessoas são diagnosticadas com pré-doenças, como pré-hipertensão e pré-diabetes. Nestas situações, o tratamento médico para ambas as doenças pode ser praticamente equivalente. Claro que a elevação do número de indivíduos sob tratamento se ajusta aos interesses de ampliação de mercados para novas drogas preventivas e outras intervenções. 
Uma “nova consciência de saúde”
O início da trajetória deste estado de coisas pode ser, de alguma forma, situado no começo dos anos 1970. Há autores que identificam neste período, nos Estados Unidos, um momento em que a saúde passa a ser vista como algo em relação a qual as pessoas deviam estar devidamente informadas para, em nome da liberdade de escolha e do direito de decidir autonomamente, tomarem as medidas supostamente mais acertadas. Neste quadro, a mudança de comportamento deslocou-se para o centro da experiência das classes médias. Como se houvesse a produção de uma “nova consciência de saúde” para indicar uma formação ideológica emergente que definia questões de saúde e suas soluções dentro dos limites do controle pessoal.
A dimensão da responsabilidade pessoal se desenvolveu em meio a práticas culturais com as quais essas classes médias há muito se identificavam. Constituía-se como uma espécie de referência moral central para as pessoas passarem a crer que a operação na esfera de si mesmo, através de um trabalho no próprio corpo, proporcionaria efeitos benéficos para a saúde.
As consequências ideológicas da redefinição do problema da saúde ligada ao estilo de vida e a solução para a responsabilidade individual é relevante. A nova consciência de saúde se tornou um modelo no qual a responsabilidade individual (ou sua falta) deveria também reproduzir a responsabilidade individual pelo bem estar econômico. Não é à toa que ambas operam com a categoria “risco”.
Contribuição para a ordem social neoliberal
Olhando retrospectivamente, as práticas de saúde daquela época contribuíram para o crescimento da ordem social neoliberal. O sucesso das soluções privatizadas de mercado para problemas públicos deve ser entendido pela forma como a responsabilidade individual venceu a moralidade política baseada na responsabilidade coletiva para o bem-estar econômico e social, em meio a outros elementos, que não vêm ao caso agora.
Ainda em retrospecto, ficou claro que a responsabilidade individual pela saúde, mesmo com algumas resistências, se mostrou especialmente efetiva para determinar o “senso comum” dos princípios centrais do neoliberalismo em função de gastos sociais com saúde ao contrastarmos a imagem de indivíduos autônomos, prudentes, autorresponsáveis com visões antagônicas de descuidados, imprudentes, irresponsáveis. Os cuidadosos pagariam impostos para proporcionar atenção médica para os que adotavam estilos de vida insalubres e, por isso, adoeciam. Falar de saúde se tornou falar de responsabilidade .
E, assim, estava traçada a fórmula da saúde como um valor elevado que participa na busca pessoal de bem-estar subjetivo. Tal “bem-estar” é dependente de perspectivas individualizadas da relação das pessoas com suas identidades. Estas devem estar modeladas, em grande parte, pela aparência somática, sobre a qual a opinião de outros e os valores culturais dominantes exercem grande influência e enfatizam a importância da imagem corporal e fisionômica na vida em sociedade.
Aqui, cabe mencionar conhecidos conceitos autorreferidos (como autoestima, autoconfiança, autossatisfação, autocuidado) que participam ativamente das dinâmicas subjetivas das pessoas. E há intervenções médicas que oferecem a possibilidade de obter alterações corporais desejáveis cuja carência teria o poder de impedir que a felicidade na vida fosse alcançada. A meta principal é manter elevado nosso estado de auto-satisfação em meio a um contexto capaz de produzir níveis consideráveis de insatisfação. É preciso que estejamos constantemente alertas e atuantes em relação à nossa saúde e à imagem que temos de nós mesmos, dispostos a adotar práticas, consumir produtos e serviços para impedir o movimento “inercial” da “autoestima”, que é diminuir.
Esta configuração é bastante propícia para a indústria médico-cirúrgico-farmacêutico-cosmética oferecer produtos e intervenções para atender aos anseios de saúde e de boa aparência assim configurados. E, se for necessário, remediar os efeitos emocionais e estresses dos eventuais reveses na busca desgastante da felicidade na vida moderna. Em geral, esta noção de procura da felicidade (ou popularmente: “correr atrás de seu sonho”) tende a se configurar em metas traçadas que implicam em gestão racional e responsável de ações persistentes para, quiçá, atingir um resultado que seja considerado um êxito culturalmente legitimado. Em termos bem esquemáticos: ter perseverança (e saúde) para esta jornada e, se possível, obter o merecido retorno financeiro e o correspondente reconhecimento social no competitivo âmbito neoliberal contemporâneo.
IHU On-Line – Quais os riscos da sedução das tecnologias de aprimoramento para produzir um projeto humano melhor para a humanidade? Aliás, o que seria um projeto humano melhor? 
Luis David Castiel – As tecnologias de aprimoramento são difundidas, em geral, como tendo o papel fundamental de ferramentas para produzir um projeto humano melhor, mais bem sucedido, de acordo com os valores dominantes. Mas a busca da felicidade como projeto humano se torna um tipo estranho de dever que demanda tecnologias de aprimoramento para garantir que a existência renda motivos para auto-satisfação maximizada. Quem quer que seja infeliz ou perdedor (loser – como costumam dizer os estadunidenses) pode ser malvisto. Uma vez que a auto-satisfação está atada ao sucesso na vida humana, ela pode se tornar uma desgastante responsabilidade pessoal para cada um que endosse essas proposições. Voltaremos ao final a esta questão . Assim, talvez um projeto melhor para a humanidade fosse tentar estratégias coletivas em busca de alternativas ético-políticas que enfrentem a ideologia utilitarista que possui o poder retórico de se apresentar como o único caminho viável e que procura tornar natural o capitalismo que, dessa forma, se torna a realidade. Realidade que apresenta seus resultados de ganhos e perdas como se fossem meras questões de perspicácia, sorte e tirocínio num mercado regido por leis próprias de funcionamento e de busca de equilíbrio, sem contradições .
De certa forma, há um grande risco das tecnologias de aprimoramento não darem conta de produzir tal projeto em termos coletivos, caso as condições ético-políticas utilitaristas neoliberais se mantiverem presentes. De qualquer maneira, há a priori a questão de desigualdades de acesso a tais tecnologias que, inevitavelmente, têm o potencial de produzir efeitos eugênicos. Alguns poderiam desfrutar de suas possíveis vantagens, mas muitos, os consumidores falhos (como diz Bauman), teriam muitas dificuldades para isso.
IHU On-Line – Quais as implicações da medicalização da andropausa (reposição hormonal masculina), da calvície e da disfunção erétil? 
Luis David Castiel – Estes itens indicam a medicalização de aspectos relacionados a noções legitimadas de masculinidade – sob a influência dos vetores socioculturais dominantes, especialmente em certos setores da sociedade que seguem valores de aparência e desempenho atrelados a ideais de jovialidade, vitalidade, força física e potência sexual. Como se fosse desejável e necessário manter qualidades viris com o avançar da idade. De modo simplificado, a sustentação da ideia de masculinidade sob o ponto de vista do funcionamento corporal parece muito vigorosa na autoconcepção identitária dos homens. Há evidentes interesses da indústria farmacêutica nesse sentido e que entram em ressonância com tais questões.
Mesmo que os empreendimentos médicos e farmacêuticos tenham mercadorizado estas condições e oferecido tratamentos para a calvície e andropausa, não se define claramente se estas condições de fato são problemas propriamente médicos no sentido de tratar-se de patologias mensuráveis e tratáveis. Na verdade, não é absurdo indicar que talvez pertençam a um campo que costuma ser chamado de “medicina dos desejos e das vaidades” .
IHU On-Line – Quais os riscos do uso de hormônio do crescimento em crianças de baixa estatura? Como se relaciona aqui a questão da altura como valor social?
Luis David Castiel – Não pretendo tratar diretamente as questões do risco do uso hormônio do crescimento em crianças de baixa estatura. Mas, sim, dos possíveis aspectos relacionados à questão da altura como valor social, especialmente no âmbito masculino. O debate não se refere à questão da baixa estatura constituir-se como uma doença e os riscos médicos em relação ao tratamento, mas, sim, quão “ruim” é ser “baixinho” na vida adulta... As discussões sobre o uso do hormônio do crescimento não são recentes. Desde meados dos anos 1980, nos Estados Unidos, partidários do seu emprego faziam questão de apontar que maior estatura masculina é vinculada a maior status social, atratividade física e sexual elevadas, sucesso profissional e, até, capacidade de melhor desempenho eleitoral. Meninos baixos sofreriam mais assédio moral por seus colegas e teriam mais dificuldades de encontrar esposas. Parece que a grande preocupação de pais pertencentes a determinados estratos sociais com a capacidade de desempenho e com a aparência dos filhos na infância diz respeito mais à preparação nesta fase crucial para a vida adulta jovem, quando a intensa competitividade social pode trazer incertezas e dificuldades ao alcance de metas socialmente consagradas para atingir a felicidade, mediante, por exemplo, o sucesso em conseguir parceiros sexuais atraentes, casamentos satisfatórios e carreiras profissionais em trabalhos privilegiados, estáveis e bem remunerados. Enfim, trata-se de lutar com as melhores armas à disposição no mercado para ser bem sucedido na vida, levando em conta os critérios de êxito e status elevado socialmente estabelecidos .
IHU On-Line – Como as tecnologias de aprimoramento interferem em relação aos mal-estares da cultura contemporânea, como a busca de longevidade e a redução/controle dos processos de envelhecimento? Quais relações podem ser estabelecidas entre a medicalização e a ideia de “felicidade”?
Luis David Castiel – Se levarmos em conta que a noção da felicidade vigente coloca a questão de “quanto” tal ideia está vinculada ao capitalismo consumista, não é despropositado afirmar que há um vínculo íntimo entre esta felicidade e o volume e qualidade do consumo. Pode-se até dizer-se que a nossa era moderna começou de fato com a proclamação do direito universal à busca de felicidade. Busca compulsória de felicidade, sobretudo, como auto-satisfação em um exercício que vincula individualismo e capitalismo globalizado. Os mercados alteram o sonho da felicidade como um estado de vida satisfatória para a busca infindável dos meios para se alcançar essa vida feliz, que sempre parece escapar para adiante. Numa sociedade de consumidores, estamos felizes enquanto não perdemos a esperança de sermos felizes. Infelizmente, a obsolescência das mercadorias nos faz felizes de maneira fugaz. Há uma contradição interna importante em uma sociedade que estabelece para todos um padrão que a maioria não consegue alcançar .
A felicidade definitiva parece ser a de realizar o sonho humano de permanência terrena, longevidade infinita, eternidade do indivíduo. Vale a pena comentar brevemente os tipos de ciências e tecnologias de aprimoramento dirigidas ao envelhecimento (e à finitude) através de uma proposta de classificação, mesmo tendo áreas de superposição: 
1) cosmética – a) práticas cosméticas: botox, cirurgias plásticas, cremes antirrugas, etc.; b) regimes profiláticos: dietas, exercícios, estilos de vida saudáveis; c) técnicas compensatórias: medicamentos para disfunção erétil, hormônio do crescimento; 
2) médica – a) medicina regenerativa: terapia com células-tronco; b) intervenções clínicas para doenças específicas do envelhecimento (câncer, artrites, doenças cardíacas); c) terapias médicas baseadas em mudança de estilo de vida: dietas e exercícios dirigidos a doenças degenerativas do envelhecimento; 
3) biológica – a) pesquisas epidemiológicas: populações de centenários e genes; b) modelagem evolucionária: descobrir e superar os limites evolucionários da duração da vida; c) ciência dos processos celulares e de seu respectivo envelhecimento; d) ciência genômica: mapeamentos e sequenciamentos gênicos para verificar processos genéticos responsáveis pelo envelhecimento para desenvolver terapias genéticas que podem retardar interromper ou reverter processos de envelhecimento; 
4) imortalista – meta redentora da medicina do aprimoramento definitivo: alcançar a imortalidade: a) mediante substâncias e dispositivos supostamente com poder de ampliar a longevidade, incluindo câmaras criônicas; b) programas científicos para a imortalidade biológica e/ou cibernética: projeto da “Singularidade Tecnológica” de Ray Kurzweil ou as “Estratégias para uma Engenharia da Senescência Ínfima” de Aubrey de Grey . 
IHU On-Line – O que pode ser dito sobre a medicalização da comida a partir da concepção de que o alimento é cada vez menos considerado por seu sabor, mas cada vez mais por seu valor calórico (preferentemente baixo) de tal forma que assume o lugar de medicamento, como tratamento preventivo para os riscos das dietas não restritivas?
Luis David Castiel – A questão atual relativa ao medo de engordar chama a atenção para as dimensões morais do problema, assim como faz a perspectiva da ansiedade excessiva diante do risco e das exigências de autocontrole na ingesta. De todas as formas, a relação da promoção da saúde alimentar com o ganho de peso tende a se inscrever no âmbito dos tratamentos morais que acompanham o mal-estar na civilização globalizada e a correspondente racionalidade contraditória na operação de suas estruturas normativas duais que simultaneamente estimulam e restringem. As pessoas, de um modo variável, podem não passar incólumes às precarizações e sofrimentos provocados por este panorama. Há necessidade de análise crítica dos modos opressores produzidos pelos aspectos paradoxais do capitalismo que se naturalizam a ponto de serem considerados como a “realidade”. Isso ocorre, por exemplo, mediante o tratamento moralista dos riscos à saúde através da normatividade restritiva da promoção da saúde alimentar voltada para uma ideia exacerbada socioculturalmente de controle do peso.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?
Luis David Castiel – Para tentar fazer uma síntese, convivemos com uma dominância das dimensões médicas em nossa sociedade – algo que pode ser representado pelo processo de medicalização, que se sustenta em função da procura de saúde ter ocupado na nossa época o formato de busca preventiva de saúde sob a égide da segurança individualista. Algo que pode até chegar a assumir a finalidade fundamental da existência: ser longevo com vitalidade. E o saber médico passa a ter o papel não apenas da prevenção e da cura, mas também de fornecer significados a questões autoidentitárias do indivíduo em relação ao mundo social a seu redor e se estabelece também como moral e se institui como matriz comportamental para além dos domínios biológicos, determinando modos de se levar a vida. E é até capaz de gerar uma pedagogia do medo através das possibilidades de perda dos benefícios da vitalidade longeva para aqueles que não se pautam por condutas preventivas preconizadas como sadias.
Dessa forma, o saber médico se aproxima de uma forma de “religião” ao ocupar espaços cada vez maiores no cotidiano em rituais em que cada um de nós deve buscar e manter constantemente a condição de sãos (e salvos) mediante a crença e a prática dos enunciados do conhecimento biomédico vigente e que tende a ocupar um lugar todo-poderoso. Assim, é possível estabelecer nexos entre saúde e salvação. É preciso seguir o catecismo preventivo proveniente das muitas recomendações médicas que exaltam as virtudes que levam a boas ações de saúde, se estendendo desde a carteira de vacinação na tenra idade (algo realmente benéfico) aos exames regulares de check-up a partir dos quarenta anos, evitando fumo, álcool, sedentarismo, dietas não balanceadas – maus hábitos de saúde, enfim. Com isso o indivíduo se candidata a ser atendido à benção da probabilidade mais elevada de não ser atingido pelo mal – a enfermidade, o sofrimento e a morte antes do prazo prometido pela expectativa de vida do contexto onde vive. 
A carga das responsabilidades individuais
Enfim, diante do exposto até aqui, aqueles que compartilham das críticas ao panorama do estado de coisas fragmentadamente descritas – sobretudo por suas facetas de produção de sofrimentos e sustentação de desigualdades – têm uma importante tarefa no âmbito ético, qual seja, atuar na busca de outros compromissos ético-políticos que se afastem da perspectiva utilitária de agentes supostamente autônomos e racionais. Todos estamos envolvidos em nossas missões de carregar esta carga excessiva de responsabilidades individuais que atuam como imperativo e modelo de referência em várias dimensões, não só da saúde como também da vida econômica e social. Como se fosse viável a obrigação de se produzir soluções pessoais para complexidades e paradoxos produzidos sistemicamente.
Todos somos, de alguma maneira, colocados na obrigação de lidar com propostas irrealistas de administração de supostos benefícios diante de custos estipulados a priori em um quadro de opções bastante restritas em termos de projetos humanos de felicidade afastados de perspectivas coletivas emancipatórias. Os projetos que apontam para uma ideia de felicidade disponível no mercado se confundem com auto-satisfação e, infelizmente, para a maioria dos mortais, possuem um prazo de validade determinado.
Enfim, vivemos numa época acelerada de riscos, prevenções e responsabilidades individuais em meio a impressionantes avanços tecnológicos que podem nos trazer longevidade, confortos, mas também desconfortos. Para terminar com certo humor, cabe a anedota de Carl Elliott no desfecho de seu livro referido acima, em função dos muitos estímulos que têm aqueles com poder aquisitivo para buscar auto-satisfação através de tecnologias de aprimoramento para terem certeza existencial de usufruírem suas vidas ao máximo. O trem saiu da estação e não sabemos para onde está indo. O mínimo que podemos fazer é estarmos seguros que está fazendo a viagem sem problemas, sem atrasos, com boa velocidade.
Leia mais...
>> Luis David Castiel já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira: 
Saúde e tecnologia. A busca da imortalidade. Entrevista publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU, em 14-04-2013, disponível em http://bit.ly/ZVwQy5

O risco da biologização dos problemas sociais

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5011&secao=420


O risco da biologização dos problemas sociais

Para Sandra Caponi, a postura de “curar” com medicamentos os comportamentos considerados indesejáveis representa uma perda imensa de reflexão sobre nossos problemas sociais

Por: Graziela Wolfart

Na opinião da professora Sandra Caponi, muitos dos fatos sociais que são medicalizados fazem parte do que podemos chamar de sofrimentos cotidianos, do que seria próprio da condição humana: “nós sofremos, passamos pela condição de tristeza e isso é inevitável, lamentavelmente. Passamos por diversos lutos na vida, que pode ser o luto pela morte de uma pessoa querida, ou o luto por não conseguir trabalho. Cada uma dessas situações apresenta o seguinte desafio ético para cada um de nós: como vamos lidar com nosso próprio sofrimento? Pode ser de maneira isolada, ou criando laços sociais e redes de ajuda, ou consumindo medicamentos. Para a nossa modernidade, a opção privilegiada tem sido consumir medicamentos. Parece que, com eles, podemos sair de todas as situações de tristeza, dificuldades, ansiedade, estresse ou até dificuldades para concentração no trabalho. Às vezes, o medicamento é a última coisa que ajuda em um processo de construção da subjetividade, se estivermos falando de construção ética de si”. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Sandra percebe que a indústria farmacêutica entra nesse processo quando promete que vai resolver todos esses problemas com uma “bala mágica”, que seria o medicamento. “Assim, a pessoa não vai mais sofrer, nem se estressar, terá uma ótima concentração e não precisará mais refletir sobre o presente, nem mudar suas condições de vida. Apenas ingerir medicamentos”. 
Formada em Filosofia na Universidad Nacional de Rosario (Argentina), Sandra Caponi é mestre e doutora em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Desde 1993 é professora no Departamento de Sociologia e Ciências Politicas da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Suas áreas de pesquisa são a Filosofia e a História da Medicina, tendo desenvolvido pesquisas, neste último caso, sobre a história da Clínica, da Psiquiatria, do Higienismo, da Microbiologia e da Medicina Tropical. Dentre seus livros publicados citamos Loucos e degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada (Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012).
Confira a entrevista
IHU On-Line – Quais os principais desafios envolvidos na medicalização da saúde mental em nossos dias?
Sandra Caponi – Eu apontaria como um dos desafios a tentativa de começar a pensar na medicalização da saúde mental como um tema de saúde pública. O uso excessivo de medicamentos para problemas de saúde mental, que às vezes nem se manifestam como um problema, mas aparecem muitas vezes como um risco ou como um elemento preventivo para problemas futuros, pode vir a gerar problemas sérios de saúde pública. Um exemplo são os ansiolíticos, como o uso abusivo de um medicamento que se chama Rivotril . Existem grupos de ajuda a usuários de Rivotril, assim como existem grupos de ajuda aos alcoólatras. Já se comprovou, em vários casos, que existe o uso continuado, às vezes desnecessário, de um medicamento que provoca bastantes efeitos colaterais e que cria muita dependência, mas estão indicados para casos de ansiedade. Acontece que muitas situações de estresse, de pequenas ansiedades do nosso dia a dia, poderiam levar a indicar uma medicação. Mas acredito que, desse modo, se estaria contribuindo para a criação de uma dependência do medicamento de maneira desnecessária. 
IHU On-Line – Como podemos relacionar ética, saúde pública e indústria farmacêutica quando o assunto é a medicalização da vida?
Sandra Caponi – Muitos desses fatos que são medicalizados fazem parte do que podemos chamar de sofrimentos cotidianos, do que seria próprio da condição humana: nós sofremos, passamos pela condição de tristeza e isso é inevitável, lamentavelmente. Passamos por diversos lutos na vida, que pode ser o luto pela morte de uma pessoa querida, ou o luto por não conseguir trabalho. Cada uma dessas situações apresenta o seguinte desafio ético para cada um de nós: como vamos lidar com nosso próprio sofrimento? Pode ser de maneira isolada, ou criando laços sociais e redes de ajuda, ou consumindo medicamentos. Para a nossa modernidade, a opção privilegiada tem sido consumir medicamentos. Parece que, com eles, podemos sair de todas as situações de tristeza, dificuldades, ansiedade, estresse ou até dificuldades para concentração no trabalho. Às vezes, o medicamento é a última coisa que ajuda em um processo de construção da subjetividade, se estivermos falando de construção ética de si. A aceitação do luto é algo que leva um tempo e, muitas vezes, esse tempo nós mesmos é que temos que estipular. Se isso se mede por um diagnóstico é muito provável que a pessoa seja medicada por um problema que poderia ser resolvido por si, com paciência, com tempo, com calma, criando estratégias éticas de cuidado. 
Eu posso citar um exemplo pessoal, simples, que estou vivenciando, que é o luto. Minha mãe faleceu há 10 dias e muitas pessoas amigas me sugerem para tomar algum remédio que ajude a aplacar minha tristeza. Eu digo que estou triste sim, afinal era minha mãe. O que vou fazer? Tenho que elaborar esse luto da melhor forma possível, porque ingerindo medicamentos não vou fazer com que minha mãe volte. Esse é um dos tantos problemas que enfrentamos no dia a dia. A indústria farmacêutica entra nesse processo quando ela promete que vai resolver todos esses problemas com uma “bala mágica”, que seria o medicamento. Assim, a pessoa não vai mais sofrer, nem se estressar, terá uma ótima concentração e não precisará mais refletir sobre o presente, nem mudar suas condições de vida. Apenas ingerir medicamentos. 
IHU On-Line – A partir de uma perspectiva histórica, o que pode ser dito sobre a medicalização dos sofrimentos e das anomalias comportamentais humanas?
Sandra Caponi – Publiquei um livro que se chama Loucos e degenerados, no qual analiso o tema da medicalização do sofrimento desde o início da psiquiatria. Aqui, podemos pensar no tema retomando a história mais curta, mais recente, que é a história do DSM, que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Hoje estamos utilizando o DSM IV-R (Revisado), onde estão todas as categorias, as classificações de diagnósticos de patologias mentais. Esse manual é utilizado por psiquiatras, médicos generalistas e é a partir dele que se fazem os diagnósticos das diversas patologias mentais. O DSM tem uma história que se inicia em 1952. E a história mais recente dos diagnósticos nos mostra que, durante os anos do pós-guerra até a década de 1950, os sofrimentos psíquicos eram pensados em termos éticos, subjetivos, pessoais, como algo que se tratava com o psicanalista e que se inseria em uma história de vida. O sofrimento psíquico era algo – como pensam os psicanalistas até hoje – sobre o qual se podia falar, que tinha significação na história do sujeito. Pouco a pouco o DSM foi adotando uma característica bem psiquiátrica. A partir de 1980, com o DSM III, aparecem análises que descartam totalmente tudo o que seria a escuta psicanalítica ou uma escuta mais atenta do sofrimento do indivíduo, para passar a ser um manual de diagnóstico de sintomas. O que interessa não é tanto como se insere esse sofrimento na vida do individuo, mas quais são os sintomas que aparecem. O que aconteceu nesse processo é que a história do sujeito desapareceu. Não importa tanto o relato de como aconteceram as situações e nem por que elas estão produzindo o sofrimento, mas sim os sintomas. Para daí tratar com remédio. Esse diagnóstico que sairá então terá uma terapêutica quase sempre 100% farmacológica. 
IHU On-Line – Como os estudos sobre biopolítica da população de Foucault e Agamben e as reflexões de Canguilhem sobre as fronteiras difusas da normalidade podem contribuir para os debates contemporâneos a cerca da medicalização da saúde e da vida?
Sandra Caponi – Foucault escreveu sobre sistemas da biopolítica no livro “História da Sexualidade I” , mas também em cursos que ele ministrou. A obra, mesmo que tenha sido escrita na década de 1970, é absolutamente atual e pertinente para pensar o que está acontecendo hoje. Todos esses processos de biologização de fatos e problemas sociais a partir do conceito de biopolítica em Foucault podem ser retomados para analisar questões de explicações genéticas atuais da criminalidade ou da sexualidade. Muitos casos que temos trabalhado, por exemplo, de assédio moral no trabalho ou de violência familiar e doméstica, que muitas vezes são problemas sociais reais, acabam sendo tratados como problemas neuroquímicos. Tanto Foucault quanto as reflexões de Agamben são atuais e importantes e trazem uma grade analítica muito rica para o presente. E é praticamente impossível deixar de situar Foucault no mesmo espaço de discurso que Canguilhem abre com a discussão sobre normalidade e patologia, os limites difusos entre uma e outra e como se estabelecem o normal e o patológico. É nessa matriz que Foucault vai trabalhar e criar todas suas reflexões sobre o nascimento da clínica, do hospital, da psiquiatria e do poder psiquiátrico. 
IHU On-Line – Quais as principais dificuldades implícitas na multiplicação e proliferação de novos diagnósticos psiquiátricos? O que representa, do ponto de vista social e cultural, a postura de “curar” com medicamentos os comportamentos considerados indesejáveis? 
Sandra Caponi – O que representa é uma perda imensa de reflexão sobre nossos problemas sociais. A primeira coisa que acontece é que os laços sociais clássicos, que tendem a reivindicar direitos, vão desaparecendo conforme surgem esses medicamentos, essas “balas mágicas” que prometem solução para todos os problemas. Como no caso do déficit de atenção com hiperatividade, que muitas vezes tem a ver com uma estrutura educativa que está falida, que não é pensada, com aulas muito numerosas, falta de preparação dos professores, enfim, e que acabam sendo pensados como se fossem uma falha de neurotransmissor da criança. Esse é um tipo de problema que exigiria intervenções sociais claras, mudar as relações sociais dentro da sala de aula, mudar as relações laborais, os vínculos de trabalho. A lista de diagnósticos de problemas mentais vem aumentando desde 1980 de maneira alarmante. A cada novo DSM é cada vez maior o número de patologias, de diagnósticos que aparecem. São muitas vezes problemas sociais pensados nessa perspectiva biológica. 
IHU On-Line – O que caracteriza o discurso da mídia no processo de medicalização da vida? 
Sandra Caponi – Há uma espécie de hiperinformação, que está vinculada a todos estes temas, que de alguma maneira muitas vezes tem a ver com a publicidade da própria indústria farmacêutica. É muito simples assistir na TV ou no jornal e nas revistas uma quantidade de notas em que se fala sobre uma nova patologia, sobre um novo medicamento, sobre formas de prevenção – e, para isso, utilizar medicamentos –, sobre a importância de tratar precocemente alguma indicação de uma futura patologia que virá. Todos esses são alarmes que passam pela mídia e fazem com que se banalizem e entrem no diálogo do dia a dia essas discussões que são técnicas e complexas. O que quero deixar claro é que, apesar de todas as críticas que fiz até então, precisamos ter em conta que existem pessoas que têm, de fato, depressão e outros distúrbios mentais. É claro que existem pessoas que sofrem com essas doenças e que precisam de medicamentos. Só que se banalizaram os diagnósticos, porque aparecem na mídia como se fosse um creme para as rugas, como se todos tivessem que consumir esses medicamentos. O que não quero de forma alguma é negar que exista sofrimento ou que existam pessoas que padecem dessas patologias. Simplesmente meu trabalho é analisar como essas classificações foram construídas, se realmente são epistemologicamente sólidas as bases que possibilitam as diferentes classificações e qual é o papel que a indústria farmacêutica opera nelas. O que existe é um abuso, um excesso de diagnósticos para problemas que não constituem patologias.
IHU On-Line – Pensando na mídia e na exposição de uma celebridade como Angelina Jolie, qual sua opinião sobre a decisão dela, de retirar as mamas apenas tendo em conta uma projeção de uma possibilidade de, no futuro, desenvolver um câncer de mama? 
Sandra Caponi – Considerando que ela não tenha nenhum nódulo e tomou essa decisão apenas por uma análise genética, vejo isso como um ato completamente delirante. Não existe uma análise genética que pode dizer o que vai acontecer com cada um de nós no futuro. Não é possível saber isso com exatidão, porque existe toda uma interação entre nossos dados genéticos com o meio ambiente, o que fazemos, nossa vida, que faz com que o que aparece como uma pré-disposição se manifeste ou não. Isso é uma loucura, sinceramente. É algo muito radical. 

A medicalização da vida. A autonomia em risco



http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?secao=420

A medicalização da vida. A autonomia em risco

Os intensos e fecundos debates propiciados pelo I Seminário em preparação ao XIV Simpósio Internacional IHU Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, suscitou o tema principal da revista IHU On-Line desta semana. O tema é debatido por profissionais e pesquisadores tanto da área da saúde como também de outros campos do conhecimento.

Contribuem para o debate Charles Tesser, Luis David Castiel, Fábio Alexandre Moraes, José Roque Junges, Maria Stephanou, Ricardo Teixeira, Sandra Caponi e Rosangela Barbiani.

Neuronarrativas - A hipocrisia institucionalizada da medicalização da saúde mental



http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5512&secao=444

Neuronarrativas - A hipocrisia institucionalizada da medicalização da saúde mental

A filósofa Sandra Caponi expõe a perturbação de uma sociedade que aceita — e impõe — sem ressalvas o tratamento médico como solução definitiva para comportamentos desviantes

Por: Andriolli Costa

Com cada vez mais frequência, a elaboração da lista de sintomas e diagnósticos de psicopatologias tem sido alvo de polêmica ou desconfiança. Uma das mais recentes foi quando, ainda em 2013, a nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) listava comportamentos tradicionalmente compreendidos como “birra”, “manha” ou “teimosia” como sintomáticos e, portanto, passíveis de tratamento médico.  Ainda que os tratamentos em saúde mental cumpram papel fundamental para promover o bem-estar social e o equilíbrio emocional dos pacientes que deles necessitam, como diagnosticar adequadamente quando os sintomas ou o grupo etário de risco são tão abrangentes? 
Sandra Caponi, filósofa que tem se debruçado sobre o tema da medicalização da saúde mental, acredita que existe algo “muito perturbador, algo de hipocrisia institucionalizada e socialmente aceita por trás da definição de um transtorno como ‘Distúrbio da desregulação perturbadora do humor’ aplicável a crianças de 8 a 18 anos de idade”. Afinal, defende, um diagnóstico psiquiátrico muda completamente o modo como nos vinculamos com os outros, com o mundo e até com nós mesmos.
“Mais de 70% das crianças diagnosticadas com TDAH têm algum tipo de transtorno mental na vida adulta”, esclarece. “Isso significa que a medicação ritalina pode ter atingido o efeito desejado de acalmar a criança. No entanto, esse medicamento não foi uma verdadeira terapia, pois os supostos transtornos continuam na vida adulta”. Para ela, uma série de fatores sociais colabora para os comportamentos desviantes, e o uso de medicamentos nada fará além de anestesiar a pessoa enquanto a fonte dos abusos permanece intocada.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Caponi explora o que é a “anormalidade” e o que representa um diagnóstico de doença mental. Trata da biopolítica da medicalização da saúde e explora a construção das chamadas neuronarrativas. Segundo a filósofa, se antes os relatos referidos à história de vida dos pacientes eram fundamentais para o diagnóstico e a compreensão da fonte dos sofrimentos psíquicos, hoje estes foram substituídos “por narrativas que reduzem a complexidade da vida a explicações que se apresentam como neurológicas: ‘eu tenho déficit de serotonina’, ‘eu tenho um problema nos neurotransmissores’, ‘meu problema está localizado no cérebro’”, elenca. 
Sandra Caponi é graduada em Filosofia pela Universidad Nacional de Rosário (Argentina). Possui mestrado e doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, com pós-doutorados na Universidade de Picardie e na École des hautes études en sciences sociales, ambas na França. Atualmente é professora do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, atuando ainda na Pós-graduação em Sociologia Política e no Mestrado profissional em Saúde Mental, na mesma instituição. É autora de Loucos e Degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada (Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012) e organizou, entre outros, Medicalização da Vida: ética, saúde pública e indústria farmacêutica (Florianópolis: UNISUL, 2010).
A professora esteve na Unisinos em 22-05-2014, ministrando a palestra Medicalização da saúde mental. O evento, parte do III Seminário preparatório para o XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, ocorreu na sala Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. Veja a programação do Simpósio no link http://bit.ly/XIVSIHU.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - No ano passado, as mudanças no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) gerou bastante polêmica. Entre alguns pontos, temos a adesão do “Distúrbio da desregulação perturbadora do humor” (que pode atingir crianças e jovens dos 8 aos 18 anos) e as alterações no “Déficit de atenção com hiperatividade” (TDAH), estendendo sua manifestação para toda a vida adulta. Como diagnosticar uma doença mental quando os sintomas ou o grupo etário de risco são tão abrangentes? 
Sandra Caponi – Não existe nenhum critério médico que justifique que algo como ataques de “birra”, ou comportamentos de crianças que antigamente eram consideradas “mal educadas”, possa vir a ser considerado um diagnóstico. Não existem marcadores biológicos, não existem estudos de imagem cerebral, não existem explicações neurológicas para isso. A identificação desses transtornos se reduz à contagem de sintomas. Em geral esses sintomas são ambíguos, pouco consistentes. Fala-se, por exemplo, de crianças que apresentam “irritabilidade persistente e episódios frequentes de explosões comportamentais extremas, três ou mais vezes por semana, durante pelo menos um ano”. Desse modo se silenciam os problemas sociais, familiares, escolares que podem estar levando determinada criança a ter tais explosões de raiva. Pode justamente ser naquele ano em que os pais se separaram, ou que morreu sua avó, ou que tem um menino na escola que pega no seu pé. 
Por fim, existe uma infinidade de situações sociais concretas que podem permanecer ao longo de um ano ou mais e que podem provocar reações legítimas de raiva nas crianças. Toda essa complexidade será desconsiderada quando se atribui a esse comportamento uma explicação biológica, neurológica, cerebral. Dir-se-á, não sem certa ingenuidade (ou cinismo), que essa criança deixará de sofrer porque está medicada, ainda que o contexto social que provocou o sofrimento permaneça idêntico. Acredito que existe algo muito perturbador, algo de hipocrisia institucionalizada e socialmente aceita por trás da definição de um transtorno como “Distúrbio da desregulação perturbadora do humor” aplicável a crianças de 8 a 18 anos de idade.

IHU On-Line – Pensando n’O Alienista (São Paulo: Saraiva, 2007), de Machado de Assis , quem seria o normal na visão da medicina?
Sandra Caponi – Acredito que está ali justamente o interesse do texto. Machado de Assis mostra que não existe nenhuma fronteira precisa entre o normal e o patológico quando se trata de doenças mentais. Todos, mesmo o próprio psiquiatra, podem vir a ser diagnosticados com alguma patologia mental. O que achei muito interessante é que o autor escreve O Alienista em 1882, um momento de grandes debates sobre as classificações psiquiátricas. 
A escola francesa, muito influente no mundo inteiro, estava representada pela sociedade Médico-Psicológica de Paris, presidida por Valentin Magnan , um psiquiatra degeneracionista que tinha criado uma classificação muito elástica e extensa que incluía um número extraordinário de novas patologias psiquiátricas. Define mais de 50 novas patologias (dos heredodegenerados ), entre as quais estavam comportamentos que de fato se referiam a circunstâncias que a sociedade desse momento histórico considerava problemáticas ou inadmissíveis. 
Desse modo, identificavam-se como patologias psiquiátricas alguns comportamentos como “a síndrome dos antivivisseccionistas ” ou “a loucura dos vegetarianos”. Nesse contexto escreve Machado de Assis. Ele fala da psiquiatria de seu tempo, observa como perturbador um fato que hoje se tornou banal: a possibilidade de multiplicar indefinidamente os diagnósticos psiquiátricos. Tentou mostrar, utilizando uma fina ironia, e uma figura bizarra como Bacamarte , que essa multiplicação de diagnósticos indica um fato social muito estranho, algo sobre o qual é necessário refletir e, porque não, também rir. 

IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como “anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida?
Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios farmacêuticos que desse modo podem vender seus medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos cotidianos ingresse no domínio do patológico. 
Um exemplo bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças que tomam ritalina  ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e isoladas. 
Também existe uma demanda de medicalização da vida no mundo adulto. Muitas pessoas chegam aos postos de saúde afirmando que têm ansiedade, depressão, fobia ou pânico e que estão ali apenas para procurar receita para alguma medicação. O antropólogo espanhol Angel Martínez Hernáez  fala de neuronarrativas, explica que, pouco a pouco, os relatos referidos à história de vida dos pacientes, antes essenciais para fechar um diagnóstico e para compreender o contexto no qual apareceram os sofrimentos psíquicos, foi substituído por narrativas que reduzem a complexidade da vida a explicações que se apresentam como neurológicas: “eu tenho déficit de serotonina”, “eu tenho um problema nos neurotransmissores”, “meu problema está localizado no cérebro”. 

IHU On-Line – O que representa para uma criança, ou mesmo para um jovem, receber um diagnóstico psiquiátrico e receber esta pecha social da dita “anormalidade”?
Sandra Caponi – Como explica Canguilhem , ter uma condição dita “anormal” significa muito pouco. Todos nós podemos ter uma pequena anormalidade ou anomalia, isto é, algum comportamento que pode ser considerado como um desvio da “norma”. Aquilo que, em determinado momento histórico, se considera normal e frequente. As anomalias têm um valor neutral, nem positivo, nem negativo. O problema ocorre quando um comportamento considerado anormal (fora da norma), como ser “distraído”, passa a ter um valor médico negativo; quando se transforma em uma “patologia”. 
Quando uma criança ou jovem recebe um diagnóstico psiquiátrico, é muito provável que ele se identifique com esse diagnóstico e comece a adquirir o tipo de comportamento que se espera das pessoas que receberam o mesmo diagnóstico. Ian Hacking  afirma que as classificações psiquiátricas criam “modos de ser sujeito”. Uma classificação, um diagnóstico psiquiátrico muda completamente o modo como nos vinculamos com os outros, com o mundo e até com nós mesmos. Um exemplo: mais de 70% das crianças diagnosticadas com TDAH têm algum tipo de transtorno mental na vida adulta. Isso significa que a medicação ritalina pode ter atingido o efeito desejado de acalmar a criança. No entanto, esse medicamento não foi uma verdadeira terapia, pois os supostos transtornos continuam na vida adulta. 

IHU On-Line – Nos termos de Agamben , é possível pensar o doente mental como um homo sacer?
Sandra Caponi – Acho que seria simplificar muito um fenômeno complexo. Uma coisa é falar do doente mental institucionalizado no hospital psiquiátrico. Nesse caso concreto, poderíamos sim falar de vida nua, porém sabemos os esforços realizados no sentido de reverter essa situação com os projetos de desmanicomialização, com a criação dos Centros de Atenção Psicossocial  e com a existência de espaços de acolhimento. No entanto, é verdade que algumas dessas velhas práticas que ainda permanecem tendem a reduzir esses indivíduos exclusivamente a uma patologia que pode ser tratada com medicamentos, como os antipsicóticos atípicos . Esses medicamentos possuem efeitos colaterais fatais e irreversíveis que necessariamente limitam as possibilidades de escolha e de reconstrução de sua subjetividade. 

IHU On-Line – Como compreender, a partir de Foucault , a biopolítica do tratamento destinado aos doentes mentais?
Sandra Caponi - O conceito de biopolítica tem em Foucault um significado preciso, refere-se à gestão calculada da vida. A biopolítica não é uma política sobre a vida, mas, sim, como afirma Fassin , a criação de instâncias de governo sobre as populações, governo sobre os outros, governo dos vivos. As estratégias biopolíticas são variadas, mas, de acordo com Foucault, nas sociedades liberais e neoliberais existe um modo privilegiado de governar. Ele afirma: “Em um sistema que diz preocupar-se pelo respeito aos sujeitos de direito e pela liberdade de iniciativa dos indivíduos, de que modo os fenômenos referidos à população, com seus efeitos e problemas específicos (saúde, higiene, mortalidade, raças, loucura ou delinquência) podem ser administrados?”. A resposta será: em nome da segurança. 
Acredito que o dispositivo de segurança, com seus estudos estatísticos de antecipação e prevenção de riscos, é o elemento central para compreender a articulação entre biopolítica e psiquiatrização da sociedade no mundo contemporâneo. Essa lógica permite que pequenos comportamentos indesejados (como estar “no mundo da lua”, tamborilar dos dedos, estar a mil) possam passar a ser considerados como indicativos de um transtorno mental grave que ocorrerá no futuro. Fala-se então de crianças em risco de vir a ter uma patologia mental crônica, fala-se de agir antes que essa patologia se cronifique. 
Esse dispositivo que leva a diagnosticar crianças a partir dos três anos de idade leva também a medicalizar tristezas cotidianas para evitar uma depressão grave que poderá vir a aparecer no futuro. A mesma lógica permite explicar o uso cotidiano e extremamente difundido de medicações como os ansiolíticos, utilizados para controlar as mais mínimas e inevitáveis situações de ansiedade e temor que fazem parte de nosso dia a dia.

IHU On-Line – Qual o papel da mídia, tanto a tradicional quanto os blogs e comunidades e em redes sociais, na cobertura das doenças mentais? Você acredita que a superexposição de transtornos (bipolaridade, déficit de atenção, etc.) ou mesmo de condições mais graves, como a psicopatia, pode promover uma “histeria coletiva”, colaborando para a medicalização da vida? 
Sandra Caponi - O papel da mídia, dos blogs e das comunidades é importantíssimo, na medida em que serve como um espaço de amplificação e naturalização dessa visão que associa comportamentos cotidianos e sofrimentos inevitáveis a doenças mentais. A indústria farmacêutica tem um papel central em tudo isso. Pelo fato de não ser possível a realização de uma propaganda direta, como ocorre nos Estados Unidos, a publicidade aparece de modos muito mais sutis. Por exemplo, um dos laboratórios que financia o blog (aliás, completíssimo),  da Associação Brasileira de TDAH é nada menos que a Novartis, o laboratório que produz a ritalina. 
Nesses espaços as pessoas criam vínculos de identificação e reconhecimento; fala-se dos sintomas e das medicações. Claro que esses não são espaços para tentar refletir sobre as razões que levam a que, em determinado momento da vida, tenhamos certa sensação de tristeza ou de mal-estar. Os sintomas se apresentam e difundem, logo, reconhecer esses sintomas como próprios é muito simples. Todos nós temos, em algumas circunstâncias de nossas vidas, alteração de sono e apetite, sentimento de culpa, sentimento de inferioridade, mas isso não significa que tenhamos um transtorno mental chamado depressão. 
Sobre a segunda parte da pergunta, a “histeria coletiva”, acho que não será esse o caminho. A medicalização da vida integrou-se como um fato natural, transformou-se, para muitas pessoas, no único modo possível de dar resposta às dificuldades cotidianas de seu dia a dia, e isso ocorreu de modo sutil e constante nos últimos 15 ou 20 anos, sem necessidade de grandes manifestações de histeria coletiva. 

IHU On-Line – Nas redes sociais, surgem espontaneamente diversas hashtags relacionadas à magreza e à forma física. #Bikini bridge, #BarrigaNegativa e #TighGap são apenas algumas delas. Em um contexto de exposição e de busca pelo “corpo perfeito”, os transtornos alimentares são o novo mal do século?
Sandra Caponi - Nunca trabalhei com transtornos alimentares. Só posso dizer que a procura pelo corpo perfeito, pela felicidade perfeita, pela saúde perfeita, representa o caminho mais curto para o fracasso. Nunca teremos plena saúde, nem felicidade completa (como afirma o conceito de saúde da OMS), nem corpo perfeito, pois todos envelhecemos. 
Essas demandas sociais ingênuas e inatingíveis podem ser pensadas também como dispositivos biopolíticos. Metas impossíveis em relação às quais podem multiplicar-se os dispositivos de segurança e antecipação dos mais variados medos e temores: medo de ser rejeitado, de não ter boa aparência e não ser admitido num trabalho, de ficar velho, de não levar uma vida feliz, etc. Esses medos, certamente, provocam sofrimentos, porém essas causas não podem ser identificadas a explicações neurológicas, nem ao déficit de serotonina, nem à simples contagem de sintomas. 

Leia mais...
O risco da biologização dos problemas sociais. Entrevista com Sandra Caponi, publicada na edição 420 da IHU On-Line.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

NOTA DE REPÚDIO À ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP)



http://www.oesquema.com.br/penselivre/2014/06/03/nota-de-repudio-a-associacao-brasileira-de-psiquiatria-abp/

03/06/14 às 18:32
NOTA DE REPÚDIO À ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP)

No dia 23 de maio de 2014, a ABP publicou em seu sítio web uma matéria intitulada Psiquiatras da ABP participam de audiência no Senado para discutir a descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal. Nesta publicação a ABP cometeu falhas éticas contra vários componentes da mesa. Termos agressivos, além de ataques pessoais aos palestrantes foram divulgados nesta nota institucional em mídia pública.Dois dias depois da publicação da notícia, o trecho ofensivo foi suprimido após ter sido denunciado nas redes sociais, sem explicações ou desculpas aos ofendidos até o presente momento.

A Associação Brasileira de Psiquiatria é uma entidade com a história de uma trajetória democrática e de participação em várias lutas sociais. Neste caminho, um dos alicerces foi o respeito a todas as opiniões mesmo que fossem contrárias ao modo de pensar da instituição. A voz coletiva era ouvida e os posicionamentos respeitados, independente de quem os tivesse emitido.

A ABP que outrora respeitava a pluralidade agora é uma associação capaz de ofender aqueles que dela discordam, numa demonstração de intolerância e incapacidade de escutar o contraditório. Esta incapacidade traz dificuldades ao crescimento e impossibilita que temáticas pertinentes à saúde mental brasileira sejam aprofundadas no diálogo com a sociedade, com as demais categorias profissionais e com os próprios psiquiatras de nosso país.

Causa espécie que a mesma diretoria da ABP que tenta combater o preconceito contra o portador de transtorno mental com um neologismo esdrúxulo (“psicofobia”) e um inadequado projeto criminalizante, trate uma pessoa que não comunga de seu pensamento como “bipolar”. Seria a própria ABP “psicofóbica”?

As entidades listadas a seguir manifestam o seu repúdio à postura e à atitude da ABP por entender que somente com respeito e capacidade de diálogo será possível chegar a conclusões legítimas que respondam aos anseios sociais.
ABESUP – Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos
ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
ABORDA – Associação Brasileira de Redução de Danos
ABRACORU – Associação Brasileira dos Consultórios de/na Rua
ABRAMD – Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas
ABRASCO – Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
ABRASME – Associação Brasileira de Saúde Mental
ARDAM – Associação de Redução de Danos do Amazonas
ATOERJ – Associação dos Terapeutas Ocupacionais do Estado do Rio de Janeiro
Área de Saúde Pública e Direitos Humanos da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso/Brasil)
AREDACRE – Associação de Redução de Danos do Acre
ASCER – Associação de Saúde Mental do Cerrado
Cebes – Centro Brasileiro de Estudos de Saúde
Centro de Convivência ‘É de Lei’
CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Universidade Cândido Mendes)
Conectas Direitos Humanos
Conselho Federal de Psicologia
Conselho Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de Campinas
Conselho Regional de Psicologia - 2ª Região (PE)
Conselho Regional de Psicologia - 4ª Região (MG)
Conselho Regional de Psicologia - 6ª Região (SP)
Conselho Regional de Psicologia - 12ª Região (SC)
Conselho Regional de Psicologia - 17ª Região (RN)
Conselho Regional de Psicologia - 18ª Região (MT)
Conselho Regional de Psicologia - 20ª Região (AM, RO, RR e AC)
Conselho Regional de Psicologia -21ª Região (PI)
Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (UNB/Ceilândia)
Centro Regional de Referência sobre Crack e outras Drogas (CRR) CETAD (UFBA)
CRR CREPEIA (UFJF)
CRR da Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti (UFBA)
CRR Enfermagem-UFMG
CRR Escola de Saúde Pública de Santa Catarina
CRR UDED-DIMESAD (UNIFESP)
CRR Universidade de Brasília/Darcy Ribeiro
CRR Universidade Federal de Goiás
CRR Universidade Federal de São Carlos
CRR Universidade Federal do Recôncavo Baiano
FLAMAS – Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba
Fórum Cearense da Luta Antimanicomial
Fórum Mineiro de Saúde Mental
Frente Nacional Drogas e Direitos Humanos
Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos do Rio de Janeiro
Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos
Frente Paraense Drogas e Direitos Humanos
GEDES – Grupo de Estudos Droga e Sociedade (USP)
Grupo de pesquisa Ciências Humanas, Saúde e Sociedade (UNIRIO)
Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos (UFRJ)
IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais
IDDD – Instituto de Defesa do Direito de Defesa
Instituto Plantando Consciência
Justiça Global
LANPUD – Rede Latino Americana de Pessoas que Usam Drogas
LEIPSI – Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (UNICAMP)
MNLA – Movimento Nacional da Luta Antimanicomial
Movimento Pró-Saúde Mental do Distrito Federal
NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos
NELUTAS – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política, Lutas Sociais e Direitos (UNIRIO)
Núcleo da Luta Antimanicomial Nise da Silveira, Joinville, SC
Núcleo Libertando Subjetividades, PE
PROAD – Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (UNIFESP)
Projeto Transversões (UFRJ)
Psicotropicus – Centro Brasileiro de Políticas de Drogas
Rede Pense Livre – Por uma política de drogas que funcione
Rede Pernambucana de Redução de Danos
REDUC – Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos
RENILA – Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial

Insultos a profissionais gera reação de entidades

Texto em site de psiquiatras com insultos a profissionais gera reação de entidades

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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Rorschach - Críticas e controvérsias (série)

A história do polêmico teste psicológico Rorschach (atualizado)

https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2012/07/25/a-historia-do-polemico-teste-psicologico-rorschach.htm

A história do polêmico teste psicológico Rorschach Comente ... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2012/07/25/a-historia-do-polemico-teste-psicologico-rorschach.htm?cmpid=copiaecola
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Críticas e controvérsias (wikipedia)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_de_Rorschach

Até o desenvolvimento do sistema de Exner, a falta de padronização do teste de Rorschach foi o principal alvo de críticas ao teste. Exner, com seu sistema abrangente, ofereceu ao mundo científico um sistema que, ao menos em teoria, correspondia aos padrões psicométricos: validade (ou seja, o teste mede o que deve medir), confiabilidade ou fiabilidade (ou seja, o teste é exato na medição) e objetividade (ou seja, diferentes pessoas chegam ao mesmo resultado). O sistema de Exner foi validado e normatizado em populações de diferentes países, inclusive Portugal e Brasil21 22 . Segundo Pasian (2002), o Rorschach já foi testado em diversos estudos normativos no Brasil e está validado nesse país pelo Conselho Federal de Psicologia como eficaz.
Apesar do grande desenvolvimento que o sistema de Exner representou para o Rorschach, seu uso ainda está longe de ser aceito por todos os pesquisadores. Os pesquisadores Scott O. Lilienfeld, James M. Wood, Howard N. Garb e seus colaboradores apontam uma série de problemas ligados tanto ao teste quanto à sua utilização. Em um artigo na revista Scientific American os autores apontam que a aplicação do teste não permite identificar a maior parte dos transtornos mentais tais como definidos nos sistemas atuais de classificação (CID-10 e DSM-IV)1 . Em outro artigo23 os autores contra-indicam expressamente o uso do teste como método diagnóstico de diagnósticos psiquiátricos e em contexto forense, além de fazerem recomendações para a melhoria da qualidade dos estudos científicos sobre o teste. Apesar da forte crítica quanto a seu uso em diagnóstico clínico, os autores não desvalorizam o teste totalmente. Eles reconhecem o valor do teste em diversas áreas de pesquisa bem como sugerem seu uso como complementação no diagnóstico da esquizofrenia e de desordens no pensamento. Um outro uso legítimo do teste seria como método exploratório e heurístico em certos tipos de psicoterapia24 .
Uma outra controvérsia ligada ao teste diz respeito à divulgação principalmente das imagens das pranchas, mas também de toda e qualquer informação ligada à forma de realização e interpretação do teste. Para muitos psicólogos, o conhecimento dessas informações por parte da pessoa testada fere a confiabilidade do teste. Apesar de problemas ligados aos direitos autorais já existirem há alguns anos, uma vez que os direitos autorais venceram na maior parte dos países 70 anos após a morte do autor, a controvérsia tomou uma nova dimensão em 2009, quando as pranchas e dados ligados às respostas mais correntes em diferentes países foram publicadas no artigo em inglês da Wikipédia25 . As discussões ligadas a esse caso levaram à publicação das pranchas em outros meios de comunicação, como os jornais The Guardian e The Globe and Mail26 .

Testes projetivos: evidências muitos fracas


Acabo de saber que morreu Scott Lilienfeld. Scott era um dos melhores críticos que conheço das bobagens que passam por psicoterapia.
Na minha época de estudante de psicologia na PUC-RS, haviam várias cadeiras sobre os chamados testes projetivos. Sabe aquele clássico Rorschach? Pois é, mas esse é só um dos tantos que existem. Outros exemplos são o TAT e o desenho da figura humana. O nome “projetivo” vem da premissa de que a personalidade se expressa—projeta—nesses desenhos. Não preciso dizer que essa é uma suposição bastante forte que precisa de evidências igualmente fortes para se sustentar. Nessa meta-análise (tipo de estudo com grau mais alto de confiabilidade científica) de 2000 [https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/1529-1006.002] Scott mostra que a evidência disso é muito fraca, pelo menos nesses três testes que citei acima. De fato, me surpreende que ele ainda conseguiu encontrar alguma. Apesar disso, esses testes são usados rotineiramente pra decidir quem pode ou não portar armas, que crianças precisam ou não de terapia, que criminoso precisa ou não ser internado em hospital psiquiátrico, etc.
E esse monte de psicoterapia que existe por aí? Psicanálise, terapia cognitivo-comportamental, humanista, psicodrama, EMDR, etc. A maioria delas, senão todas, são mais prováveis de convencer o terapeuta e paciente de que funcionam do que de funcionar de verdade. Nesse paper de 2014 [https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1745691614535216] Scott mostra as tantas razões espúrias que levam psicoterapeutas a enganar-se e acreditar na eficácia de suas técnicas.
A página da wikipedia sobre ele é uma boa introdução ao seu trabalho, que vai muito além desses dois papers que citei.

-André


"Os recursos metodológicos projetivos a que nos referimos não correspondem às técnicas projetivas tradicionalmente empregadas pela psicologia formal ou pelas inferências psicanalíticas pouco afeiçoadas às pautas existencialistas. Há nessas correntes uma necessidade constante de apelar a verdadeiros clichês interpretativos, o que é totalmente incompatível com uma visão sociofenomenológica e construcionista da realidade humana, como entendem as bases filosóficas e epistemológicas da etnopesquisa. A projeção aqui é abordada a partir das próprias temáticas que emergem da situação analisada e se esforça para que o significado apreendido venha à tona impregnado das experiências indexalizadas da cultura e das problemáticas de vida experienciada pelo atores. Busca-se, em última instância, um pattern social no âmago das projeções, isto é, em meio a uma gama plural de dados projetados, procura-se um conjunto de significados importantes para a pesquisa, que emerge do corpus analisado. Paralelamente a esse trabalho hermenêutico diante do tácito, do subjacente, trabalha-se a compreensão das contradições, dos paradoxos, das insuficiências, das incompletudes, etc.
Como objetos de projeção, podem ser utilizados desenhos dos atores interpretados por eles próprios, opiniões sobre uma obra de arte representativa de uma problemática local, sobre uma peça ou performance, uma música, uma oração, um curso, um poema ou qualquer expressão literária; são materiais pertinentes para o etnopesquisador, interessado que é na densidade simbólica da vida"

"No caso do recurso à técnica projetiva, uma aproximação com a psicologia e com a psicolinguística seria recomendável, ou mesmo a incorporação de pesquisadores dessas áreas sensíveis à mediação social dos fenômenos subjetivos. A consequência natural desse processo de articulação tem conduzido a um rompimento com a exclusividade das técnicas de investigação, fazendo com que dialoguem pesquisadores de diferentes áreas das ciências humanas, interessados em criar dispositivos de pesquisa cada vez mais pertinentes em relação à complexidade das realidades humanas."

Etnopesquisa crítica Etnopesquisa-Formação


"Em Psicologia tais critérios são comumente formulados em termos de testes (de inteligência, estabilidade emocional, habilidade matemática etc). Em linhas gerais, o procedimento operacional consiste em administrar o teste de acordo com especificações; o resultado são as respostas das pessoas submetidas ao teste, ou, em regra, uma avaliação qualitativa dessas respostas, obtida de modo mais ou menos objetivo e mais ou menos preciso. No teste de Rorschach, por exemplo, essa avaliação se apóia mais na competência para julgar, gradualmente adquirida pelo intérprete, e menos em critérios explícitos e precisos que a avaliação do teste de Stanford-Binet para a inteligência; o de Rorschach é, por isso, menos satisfatório que o de Stanford-Binet do ponto de vista operacionista. Algumas das principais objeções que foram levantadas contra a especulação psicanalítica são concernentes à falta de adequados critérios de aplicação para os termos psicanalíticos e às concomitantes dificuldades para tirar das hipóteses, em que figuram, alguma implicação verificável e inequívoca."

Do livro Filosofia da ciência natural (p. 116). Do filósofo Carl Hempel



sábado, 10 de maio de 2014

Russell Foster: Por que dormimos?

Russell Foster: Por que dormimos?


Russell Foster é um neurocientista circadiano: ele estuda os ciclos de sono do cérebro. E pergunta: o que sabemos sobre o sono? Não muito, parece, para algo que fazemos durante um terço de nossas vidas. Em sua palestra, Foster compartilha três teorias populares sobre por que dormimos, destrói alguns mitos sobre quanto sono precisamos em diferentes idades — e nos dá dicas sobre algumas aplicações ousadas do sono como um indicador de saúde mental.

http://www.ted.com/talks/russell_foster_why_do_we_sleep?source=facebook&language=pt-br#