Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

segunda-feira, 27 de abril de 2020

"Terapia médica" ou aprendizagem?

A palavra terapia não é apropriada para nomear trabalho do analista aplicado de comportamento. Não se trabalha com doenças (termo médico) comportamentais, mas com contingências que produzem comportamentos e sentimentos classificados como indesejados. Uma pessoa não “sofre de depressão”, mas é afetado por contingências que produzem comportamentos e sentimentos, aos quais se denomina de depressão. A pessoa que procura ajuda não é paciente (termo médico) e quem provê ajuda não é terapeuta (termo médico). Aquilo que se chama de processo terapêutico dever-se-ia chamar processo de desenvolvimento de comportamentos, no qual duas pessoas se influenciam reciprocamente, com papéis definidos e específicos, porém em interação eficaz, que produz mudanças comportamentais em ambos. O “cliente” (na falta de melhor termo) é parte ativa do processo de desenvolvimento: é influenciado pelo “terapeuta” (na falta de melhor termo) e o influencia. Não cabe falar em “alta” (termo médico). Como qualquer processo de desenvolvimento, ele pode ser interrompido; nunca encerrado. Não há critérios pré-determinados para interromper o processo. Qualquer uma das partes envolvidas pode tomar a iniciativa de interrupção. Tal iniciativa é comportamento. Para compreendê-lo, é necessário saber de que contingências ele é função. O comportamento de interromper o processo de desenvolvimento, portanto, deve ser avaliado e compreendido – à luz das contingências que o determinam – como qualquer comportamento. A interrupção da interação entre os pares do processo de desenvolvimento é o produto final da análise e da atuação das contingências de reforçamento em operação.

ALGUMAS DIRETRIZES PARA MELHOR AÇÃO TERAPÊUTICA
HÉLIO JOSÉ GUILHARDI
Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento
Campinas - SP

domingo, 26 de abril de 2020

Medicalização da "depressão" (Szasz e moncrieff)

A medicalização da "depressão" como um fenômeno médico é generalizada. O psiquiatra Thomas szasz defendia que a depressão é uma ideia moderna recente que sugere que a vida deveria ser fácil e agradável. Existem maneiras plurais de ser infeliz e essa ideia é mais próxima da realidade para se fazer algo a respeito.

Mais recentemente a psiquiatra crítica Joanna Moncrieff defende que a depressão não é doença.

Comportamentos desejáveis como cura (Szasz)

Thomas Szasz defendia que o que é considerado cura na verdade são comportamentos desejáveis.


Referência:

Thomas Szasz on Socialism in Health Care

sábado, 25 de abril de 2020

Ideologia, análise do discurso e reforma psiquiátrica

Segundo a análise do discurso e a sociologia do conhecimento todo grupo é ideológico, isto é, adota discursos que defendem interesses de grupo. A diferença é se essa defesa do interesse de grupo também beneficia a sociedade de verdade ou se usa de estratégias discursivas de defesa do próprio interesse como se fosse a defesa do interesse da sociedade.

A partir disso é possível refletir se os interesses financeiros ligado à Associação Brasileira de Psiquiatria (indústria farmacêutica, hospitais, serviços médicos e equipamentos) também se reflete em benefícios sociais ou se a defesa da reforma psiquiátrica como política pública beneficia só os funcionários públicos da saúde e os políticos de esquerda ou se defende também o interesse público.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cura como nova forma de vida (Canguilhem)

Como afirma Canguilhem, na já referida obra, "a vida não conhece reversibilidade". Quando, por exemplo, nos recuperamos de determinada doença, não voltamos ao estado anterior pois nos tornamos outros - assim como nossos corpos. Para Canguilhem não é possível falar em cura como um retorno à uma “inocência orgânica”, mas como um rearranjo. Curar, em sua visão, é criar para si novas normas e formas de vida, às vezes superiores às antigas. Da mesma forma, se desejamos "curar" o mundo e a nossa própria vida precisamos pensar em como reorganizá-los e não como fazê-los retornar ao que era antes. 

https://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2020/04/sera-que-um-dia-voltaremos-ao-normal.html

Lacan e a psiquiatria

luta antimanicomial e experiência da loucura
Por Márcio Mariguela Psicanalista e Professor de Filosofia.
Postado por Lucio Costa em http://bocaquefala.blogspot.com/

“Numa entrevista ao jornal Corriere della Sera, em 11/set./1981, quando da morte do psicanalista Jacques Lacan, Michel Foucault afirmou: “ser psicanalista para Lacan supunha uma ruptura violenta com tudo o que tendia a fazer depender a psicanálise da psiquiatria, ou fazer dela um capítulo sofisticado da psicologia. Ele queria subtrair a psicanálise da proximidade da medicina e das instituições médicas, que considerava perigosa. Ele buscava na psicanálise não um processo de normalização dos comportamentos, mas uma teoria do sujeito”.


http://antimanicomial.blogspot.com/2010/07/luta-antimanicomial-e-experiencia-da.html

Cuidar dos pais na velhice (enfoque econômico)

Tanto os filhos quanto os pais estariam melhor se os pais concordassem em investir mais nas crianças em troca de um compromisso de as crianças cuidarem delas quando precisarem de ajuda. Mas como pode um compromisso seja cumprido? Economistas e advogados geralmente recomendam emendar um contrato por escrito para garantir o compromisso, mas você pode imaginar uma sociedade que aplicará contratos entre adultos e crianças de 10 anos ou adolescentes?

É muito menos apreciado que pais altruístas que deixam heranças também tendem a investir mais nas habilidades, hábitos e valores de seus filhos. Pois eles ganham com o financiamento de todos os investimentos em educação e habilidades das crianças que produzem uma taxa de retorno mais alta do que o retorno em economia. Eles podem indiretamente economizar para a velhice investindo em crianças e, em seguida, reduzir a herança quando idosos. Os pais e os filhos estariam melhor quando os pais fazem todos os investimentos em crianças que produzem um retorno maior que o da poupança e, em seguida, ajustar as doações ao nível eficiente de investimento (ver seção A do Apêndice para uma demonstração formal).

As atitudes e comportamentos dos pais têm uma enorme influência sobre seus filhos. Pais alcoólatras ou viciados em crack criam uma atmosfera bizarra para jovens impressionáveis, enquanto pais com valores estáveis ​​que transmitem conhecimento e inspiram suas crianças influenciam favoravelmente tanto o que seus filhos são capazes e o que eles querem fazer. A abordagem econômica pode contribuir insights sobre a formação de preferências por meio de experiências na infância sem necessariamente adotar a ênfase freudiana nos princípios do que aconteceu durante os primeiros meses de vida.

Com sua suposição de comportamento prospectivo, o ponto de vista da economia  implica que os pais tentam antecipar o efeito daquilo que acontece com as crianças em suas atitudes e comportamento quando adultos. Esses efeitos ajudam a determinar o tipo de assistência que os pais prestam. Por exemplo, pais preocupados com o apoio à velhice podem tentar incutir nos filhos, sentimentos de culpa, obrigação, dever e amor filial que indiretamente, mas ainda com muita eficácia, pode "comprometer" as crianças a ajudar eles.

Os pais que não deixam heranças podem estar dispostos a fazer as crianças se sentirem mais culpadas justamente porque ganham mais utilidade com maior consumo na velhice do que perdem com uma redução igual no consumo infantil. Esse tipo de comportamento pode ser consideravelmente mais comum do que o sugerido pelo número de famílias que realmente deixam heranças, pois pais com filhos pequenos geralmente não sabem se eles estarão financeiramente seguros quando forem idosos. Eles podem tentam se proteger contra problemas de saúde, desemprego e outras riscos da velhice, incutindo em seus filhos a vontade de ajudar se isso se tornar necessário.

Muitos economistas, inclusive eu, confiaram excessivamente no altruísmo para amarrar os interesses dos membros da família. Reconhecimento do conexão entre experiências da infância e comportamento futuro reduz a necessidade de confiar no altruísmo nas famílias. Mas não volta
a análise para um foco estreito no interesse próprio, pois substitui parcialmente altruísmo por sentimentos de obrigação, raiva e outras atitudes geralmente negligenciada por modelos de comportamento racional.

Se se espera que as crianças ajudem na velhice, talvez por causa de culpa ou motivações relacionadas - mesmo pais que não são muito amorosos investiriam mais no capital humano das crianças e economizaria menos para a velhice. (Para uma prova, consulte a seção C do apêndice.) Mas a equação (A12) do apêndice mostra que pais altruístas sempre preferem pequenos aumentos em seu próprio consumo em relação a aumentos iguais em seus filhos se eles tiverem feito seus filhos sentir-se culpado. Isso significa que esses pais sempre investem pouco no capital humano das crianças. Isso mostra diretamente por que a criação de culpa tem custos e não é totalmente eficiente.

Os chefes de família altruístas que não planejam deixar legados tentam criar uma atmosfera "acolhedora" em suas famílias, para que os membros sejam dispostos a ajudar aqueles que enfrentam dificuldades financeiras e outras dificuldades. Esta conclusão é relevante para discussões de chamados valores familiares, assunto que recebeu atenção durante a campanha presidencial dos Estados Unidos. Os pais ajudam a determinar minar os valores das crianças, incluindo seus sentimentos de obrigação, dever e amor - mas o que os pais tentam fazer pode ser grandemente afetado por políticas públicas e mudanças nas condições econômicas e sociais.

Considere, por exemplo, um programa que transfira recursos para o idosos, talvez especialmente para famílias mais pobres que não deixam heranças, que reduz a dependência dos idosos em relação às crianças. De acordo com a análise anterior que dei, pais que não precisam de apoio quando a envelhecem, não se esforçam para tornar as crianças mais leais ou mais culpados ou sentem-se bem dispostos em relação aos pais. Isto significa que programas como a previdência social que ajudam significativamente a idosos encorajariam os membros da família a se separarem emocionalmente, não por acidente, mas como respostas maximizadoras a essas políticas.

Outras mudanças no mundo moderno que alteraram os valores da família incluem maior mobilidade geográfica, maior riqueza que vem com crescimento econômico, melhores mercados de capital e seguros, taxas mais altas de divórcio, famílias menores e cuidados de saúde pública. Esses desenvolvimentos geralmente melhoraram as pessoas, mas eles também enfraqueceram as relações pessoais nas famílias entre entre maridos e esposas, pais e filhos, e entre outros parentes distantes, em parte reduzindo os incentivos para investir na criação de relações mais próximas.

Referência:
Palestra de recebimento do Nobel de Economia de 1992 (Gary Becker)

Capital humano (enfoque econômico)

A análise do capital humano começa com a suposição de que indivíduos decidem sobre sua educação, treinamento, assistência médica e outras adições ao conhecimento e à saúde, ponderando os benefícios e custos. Benefícios incluem ganhos culturais e outros ganhos não monetários, juntamente com melhorias de ganhos e ocupações, enquanto os custos geralmente dependem principalmente no valor perdido do tempo gasto nesses investimentos. O conceito de capital humano também abrange trabalho acumulado e outros hábitos, inclusive vícios prejudiciais, como fumar e uso de drogas. Capital humano na forma de bons hábitos de trabalho ou dependência as bebidas alcoólicas pesadas têm efeitos positivos ou negativos importantes produtividade nos setores de mercado e não-mercado.

Os vários tipos de comportamento incluídos na rubrica de capital humano ajuda a explicar por que o conceito é tão poderoso e útil. Isso também significa que o processo de investir ou desinvestir em capital humano muitas vezes altera a própria natureza de uma pessoa: o treinamento pode mudar o estilo de vida de um com desemprego perene para um com estável e bons ganhos ou bebida acumulada podem destruir uma carreira, saúde, e até a capacidade de pensar direito.

A teoria do investimento em capital humano relaciona a desigualdade de as diferenças de talentos, antecedentes familiares e heranças e  outros ativos (ver Becker e Tomes 1986). Muitos estudos empíricos sobre desigualdade também depende de conceitos de capital humano, especialmente diferenças na educação e treinamento (ver Mincer 1974). O crescimento considerável em desigualdade de ganhos nos Estados Unidos durante os anos 80, que animou tanto debate político é explicado em grande parte por maior retorno aos mais instruídos e melhor treinados (veja, por exemplo, Murphy e Welch 1992).

Referência:
Palestra de recebimento do Nobel de Economia de 1992 (Gary Becker)

Criminalidade (enfoque econômico)

Nas décadas de 1950 e 1960, as discussões intelectuais sobre o crime eram dominantes. pela opinião de que o comportamento criminoso fosse causado por doenças e opressão social, e que os criminosos eram impotentes " "Um livro de um conhecido psiquiatra foi intitulado O crime  da Punição (ver Menninger 1966). Tais atitudes começaram a exercer um maior influência na política social, à medida que as leis mudavam para expandir direitos dos criminosos. Essas mudanças reduziram a prisão e condenação de criminosos e proporcionou menos proteção à população de cumpridores da lei. 

Eu não era solidário ao pressuposto de que os criminosos tinham radicalmente motivações diferentes de todos os outros. Eu explorei as implicações teóricas e empíricas da suposição de que o comportamento dos criminosos o comportamento é racional (veja o trabalho pioneiro de Bentham [1931]e Beccaria [(1797) 1986]), mas novamente "racionalidade" não implicava  materialismo estreito. Reconheceu que muitas pessoas estavam constrangidas por considerações éticas e morais, e não cometeram crimes mesmo quando estes eram rentáveis ​​e não havia perigo de detenção. Entretanto, polícia e cadeias seriam desnecessárias se tais atitudes sempre prevalecessem. A racionalidade implicava que alguns indivíduos se tornassem criminosos por causa das recompensas financeiras e outras da criminalidade em comparação com o trabalho honesto, tendo em conta a probabilidade de prisão e condenação, e a severidade da punição.

A quantidade de crimes é determinada não apenas pela racionalidade e preferências dos supostos criminosos, mas também pelas questões econômicas e sociais no ambiente criado por políticas públicas, incluindo gastos com policiais, punições por diferentes crimes  e oportunidades para programas de emprego, educação e treinamento. Claramente, os tipos de empregos legais disponíveis, bem como lei, ordem e punição, são uma parte essencial da abordagem econômica do crime.

Referência:
Palestra de recebimento do Nobel de Economia de 1992 (Gary Becker)

Inspeção hospitais psiquiátricos

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2019/12/inspecao-aponta-falta-de-estrutura-castigo-e-ate-estupro-em-hospitais-psiquiatricos.shtml

Inspeção aponta falta de estrutura, castigo e até estupro em hospitais psiquiátricos

Fiscalização ocorreu em 40 instituições de grande porte que respondem por 36% dos leitos do SUS

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Discriminação (enfoque econômico)

Um novo desenvolvimento teórico nos últimos anos é a análise de consequências do raciocínio estereotipado ou da discriminação estatística (veja Phelps 1972; Arrow 1973). Esta análise sugere que as crenças de empregadores, professores e outros grupos influentes de que membros de minorias são menos produtivos podem ser auto-realizáveis, pois essas crenças pode fazer com que as minorias invistam menos em educação, treinamento e  habilidades para o trabalho, como pontualidade. O subinvestimento os torna menos produtivos (veja uma boa análise recente de Loury [1992]).

A teoria econômica da discriminação baseada no preconceito implica que a discriminação real por empresas ou trabalhadores é medida pela forma como muitos lucros ou salários que se perdem para evitar contratar ou trabalhar com membros de um grupo que não gosta. A discriminação por parte dos consumidores é medidos pelos preços mais altos que pagam para evitar produtos ou serviços produzido por esses membros. Evidências sobre lucros, salários ou preços normalmente não está disponível, então a discriminação contra um grupo é geralmente medido pela comparação dos ganhos dos membros do grupo com ganhos da "maioria" que têm os mesmos anos de escolaridade, experiência profissional e outras características mensuráveis. Como essa abordagem indireta apresenta defeitos óbvios, esses estudos não dissipou algumas das controvérsias sobre a fonte de rendimentos mais baixos das minorias.

Referência:
Palestra de recebimento do Nobel de Economia de 1992 (Gary Becker)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Dois loucos no bairro (Paulo Leminski)

dois loucos no bairro

um passa os dias chutando postes
para ver se acendem
o outro as noites apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também

Paulo Leminski


http://antimanicomial.blogspot.com/2007/08/dois-loucos-no-bairro-um-passa-os-dias.html

Ciência e exigências sociais (citação Basaglia)

Basaglia (2005) relata que a realidade é própria de uma ideologia, pois não corresponde ao concreto. A ideologia é utilizada como instrumento de domínio. Assim, usar a ciência e a tecnologia sem levar em consideração a classe a quem pertence o internado psiquiátrico e a evidente função do controle social por parte das instituições e de quem as gerencia, deixa explícita a função política da ideologia psiquiátrica, que tem como finalidade primeira a tutela da ordem pública e não o tratamento. Pois, ao utilizar o positivismo como âncora para explicar de maneira racional e cientifica a condição da loucura, só pode dizer que é doença, a palavra doença, nada mais. É como ocupar lugar num saco vazio através de um sopro. Os serviços psiquiátricos permanecem inseridos na lógica cientifica e econômica de responder a doença mental com a segregação. A doença é incurável e incompreensível, seu sintoma é a periculosidade ou obscenidade, onde a resposta cientifica é o manicômio, onde a doença mental pode ser tutelada e controlada. A norma é representada pela eficiência e produtividade, quem não produz, deve se encontrar num espaço que não atrapalhe o ritmo social. A ciência serve assim para confirmar a diversidade patológica que é instrumentalizada segundo as exigências da ordem pública, da economia e do controle social.
http://antimanicomial.blogspot.com/2008/11/basaglia-2005-relata-que-realidade.html

Morte por sindrome neuroléptica maligna

só sei que em novembro faz 2 anos que meu irmão de 18 (na época) morreu de síndrome neuroléptica malígna, provocada por doses elevadas do antipsicótico haldol.

Sendo que ele recebeu a medicação em um hospital psiquiátrico.

Comentário anônimo encontrado na internet

Anulação de poder de contrato e estigma

Quando o sujeito recebe o estigma de “louco” ou é diagnosticado como psicótico, e por isso é internado e conseqüentemente isolado em relação ao meio familiar e social de origem, ou mesmo quando é tratado exclusivamente com medicamentos em casa, ainda se evidencia o lugar de invalidação como sujeito, decorrente da anulação do seu poder de contrato. Essa invalidação do sujeito faz parte das representações sociais dominantes associadas à loucura, desta forma considera-se que “os bens dos loucos tornam-se suspeitos, as mensagens incompreensíveis, e os afetos desnaturados, tornando praticamente impossível qualquer possibilidade de trocas” qualificadas e qualificadoras ”(Tikanori, 2001, p.55-6).

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Ter filho para quê? (e síndrome de Münchhausen)

http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT357630-1666,00.html?fbclid=IwAR1U7k9KwUzKE_y88DUnulIVtquDt_EVrCFiZMFt-Y9wa7X_X81PNMsIgIQ

Professor canadense diz que os casais procriam por inércia e uniões sem filhos são mais felizes e fazem bem ao planeta

Paula Mageste

[Comentário: Esclarecedor dos motivos dos pais que parecem querer que os filhos sejam doentes mentais e inválidos. Possivelmente vários casos não reconhecidos de síndrome de Münchhausen por procuração ou transtorno factício imposto a outro. Ou pelo menos alguma forma de ganho secundário. Imagino que uma variação mais sutil e amena desse transtorno seja mais comum do que seja reconhecido atualmente.]

Cultura e instinto

Cultura - Laraia

Rafael Becker*

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 20. ed. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2006. Cap 4 (final).
Inicia-se com a contribuição de Kroeber para o conceito de cultura. O homem, inserido em um ambiente ecológico, por adaptação gera cultura. A cultura é um processo cumulativo que centraliza, pois, o elemento da aprendizagem determinando o comportamento do homem. Há grande controvérsia entre o que é cultural e o que é instintivo. Vamos refletir
um pouco sobre isso iniciando o que o livro comenta sobre o assunto. Ele diz que instinto de conservação, instinto materno, instinto filial e instinto sexual ‘’exprimem um erro semântico, pois não se referem a comportamentos determinados biologicamente, mas sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é verdadeiro (p. 50)’’.
Apresenta alguns casos culturais para comprovar a colocação: os camicases –contra o instinto de conservação-, o infanticídio –contra o instinto materno-, o abandono dos pais velhos pelos esquimós –contra o instinto filial-, o fato de jovens que cresceram em contextos puritanos desconhecerem o que fazer em relação ao outro sexo. ‘’Concluindo, tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura (p. 51)’’.
Agora partimos da premissa de que instinto é o dado, o comportamento a partir de impulsos biológicos. A cultura é o construído, mediante o uso da capacidade racional do homem. É complicado, pois, distinguir cultura de instinto pragmaticamente, pois: a) um, no conceito comum, anula o outro; b) o instinto, não se pode a ele chegar, pois um ser humano necessita de cuidados, ao menos ao nascer, posto que sozinho não sobrevive, o que implica em uma incidência cultural desde o princípio; c) a cultura é influenciada pela composição biológica do homem; d) não se costuma abstrair que o instinto não necessita chegar à consciência para existir, ou seja, vincula-se necessariamente o instinto a uma ação impulsiva quando este pode ser apenas o impulso para uma ação. Logo: a) instinto e cultura assumem uma relação multidialética; b) essa relação assemelha-se à questão da cultura e linguagem.

http://investidura.com.br/biblioteca-juridica/resumos/antropologia-juridica/81-cultura.html?fbclid=IwAR1_LZOcdHelQcdW_ryEgZwQtF9xd3uLW5wqqtKtSNoD9-YT6IgSATBHywo

Rebeldia e saúde mental

Finalmente, a rebeldia é um direito que como pessoa nos damos, e em contexto de abuso, é um sinal de saúde mental.

https://madinbrasil.org/2020/04/o-suporte-familiar-as-medidas-sanitarias-com-o-coronavirus/

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Irracionalidade não existe na etnografia

Para a etnografia a irracionalidade não existe. Sempre há alguma forma de organização ordenando a experiência ou a expressão cultural. Acredito que seja um princípio metodológico.

Na lógica da racionalidade se opondo à irracionalidade, pode-se afirmar que para a área de saúde mental qualquer coisa que não seja um ajuste custoso à organização familiar ou social vai ser tachado de irracionalidade (pois é negação de uma organização de expressão cultural) e portanto doença mental. Nesse sentido, a saúde mental pode manter hierarquias de poder ao rotular de racional a organização familiar e de irracional quem não se submete à racionalidade familiar.

Mas como a irracionalidade é apenas a negação de uma forma de organização de uma expressão cultural e a irracionalidade não existe para a etnografia, pode-se afirmar que a violência simbólica da área de saúde mental é desnecessária pois seria possível compreender a organização daquilo que é rotulado como irracional e colocar as duas formas de organização de expressões culturais em diálogo e negociação.

Por outro lado, a antropólogo ou sociólogo não abre mão da racionalidade da própria cultura. Mas ter algum senso crítico da racionalidade social e ter a atitude etnográfica em relação ao diferente é bastante desejável.

Direito de resposta (por opção)

Do que ele falou sobre a eficácia dos medicamentos, há alguns artigos que indiretamente levam a crer que não é que são ineficazes, mas funcionam em apenas um espectro de um transtorno. Ou seja, o medicamento funciona, é a classificação do transtorno que é demasiadamente abrangente. O que poderia levar a sintomas semelhantes para causas bioquímicas diferentes. E eu não estou falando coisas do tipo depressão maior e episódio depressivo no Transtorno Bipolar, estou querendo dizer: Depressão respondente ao medicamento X e Depressão não respondente a tal medicamento (Estudante de neurociência anônimo)


A psicoterapia é muito menos responsiva e eficiente do que a medicação psiquiátrica. Na verdade a medicação é a única coisa com eficiência suficiente para ser considerada tratamento dentro de patamares clínicos.

A causa do trauma/transtorno quando existe uma interação além do efeito puramente endócrino tem tratamento necessário e esse fica todo sobre o encargo do paciente que deve descobrir e vencer ele sozinho porque ninguém ajuda de forma eficiente (e esses protocolos do paradigma culturalista de recortes sociais em posições de estrutura, já se comprovou como demonstrado por dezenas de estudos danoso, assim como o paradigma desmedicamentoso vem aumentando o índice de suicídios onde é aplicado).

Todavia medicamentos psiquiátricos são pouco eficientes se comparados a medicamentos para outras doenças e isso se deve a falta de especificidade e falta de cuidado para diagnósticos específicos sem definições muito amplas e a falta de atenção ao perfil fisiológico do paciente. Os cérebros humanos não são iguais, as diferenças por sexo por exemplo são significativas assim como as vias de dispersão, acreditar que os mesmos anti-psicoticos e anti-depressivos serão eficazes nas duas populações é contrária a toda evidencia que temos. (Profissional de farmácia que trabalha com testes genéticos)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Canal Psiquiatria crítica Bitchute (Backup)

https://www.bitchute.com/channel/epopinhakfranco/

Canal vinculado ao blogue Psiquiatria crítica (http://crisedapsiquiatria.blogspot.com)

Eficácia da terapia comportamental a contragosto

Eu acredito que o dia que a comprovação da eficácia da terapia comportamental para os médicos ficar pronta vai ser aceita a contragosto (é só uma questão de tempo). A terapia comportamental bem feita não tem muita afinidade com o modelo médico em saúde mental apesar de ser uma área biológica também. Pelo menos não tem afinidade da maneira como a maioria dos médicos tradicionais e medíocres do Brasil pensa.

CRIANÇAS COMO REFÉNS

CRIANÇAS COMO REFÉNS 

[Polêmico, mas interessante]

O fato das crianças serem imensamente encantadoras está longe de ser uma justificação para as dar à luz: quem faz crianças faz também adultos – portanto, homens e mulheres. A maioria dos homens, porém, vive como adultos, no inferno. E a felicidade das mulheres é de tal forma primitiva e é conseguida de tal modo à custa de outrem que também não há para fazer mulheres. Não corresponderia à verdade afirmar-se que só as mulheres estão interessadas em gerar crianças. Também os homens as desejam, pois estas integram-se nas duas ou três desculpas com que podem justificar a sua submissão à mulher. A mulher, ao contrário, justifica com elas a sua preguiça, a estupidez e a falta de responsabilidade. Desse modo, abusam os dois da criatura para conseguir seus respectivos fins. Embora o mundo esteja repleto de órfãos meio esfomeados, cada casal procura sempre a sua própria descendência. Pois o homem tem que possuir um motivo para, mesmo mais tarde, quando o seu apetite sexual tiver diminuído, se escravizar a determinada mulher (à mãe dos seus filhos) e não a outra qualquer. Como a mulher é para ele, sobretudo, um álibi para a submissão, só pode utilizar num dado momento uma única (em todas as sociedades industriais o homem é monoteísta – quer dizer, monógamo), vários deuses (mulheres) torna-lo-iam inseguro, dificultariam a sua identificação consigo próprio e repeli-lo-iam para aquela liberdade da qual ele está continuamente em fuga. Semelhantes motivos não significam nada para a mulher. Como não pensa em abstrato, não tem, como já vimos, nenhum medo existencial e nenhuma necessidade de um deus que dê ao seu mundo um sentido superior. Basta-lhe um pretexto para justificar que seja precisamente esse homem (que já não vai muito interessado para a cama com ela) que deva trabalhar para ela, e, para isso, necessita de filhos desse mesmo homem. Admitindo que no nosso planeta existisse excesso de homens e a cada mulher coubessem, por exemplo, três homens, a mulher não teria nesse caso, evidentemente, quaisquer inibições em arranjar filhos de cada um desses três machos e fazê-los trabalhar a todos para as respectivas crianças (quer dizer, para si própria). Poderia, então, aproveitar-se da rivalidade entre esses homens e assim aumentar enormemente a sua capacidade de trabalho – e consequentemente o seu próprio conforto. Ao contrário da opinião corrente, ela seria mais predestinada para a poligamia do que o homem. Um homem que tem filhos de uma mulher, dá-lhe reféns para a mão e espera que ela o pressione com eles até a eternidade. Só assim é que ele terá um apoio no seu destino absurdo, e, a escravidão sem sentido, para a qual foi domado, uma justificação. Quando trabalha para a mulher e filho não trabalha só para dois seres humanos, um dos quais não quer fazer nada por ser feminino e o outro nada sabe fazer, por ser demasiado pequeno. Ele trabalha também para algo que é mais do que essa mulher e esse filho, trabalha para um sistema que abrange tudo que ao cimo da terra é pobre, desamparado e necessitado de proteção (a pobreza, o desamparo e a falta de proteção em si mesmo consideradas), sistema que – segundo crê – precisa dele. Com a mulher e o filho arranja um álibi para a sua escravatura, uma justificação artificial para a sua desconsolada existência, e chama a esse sistema, a esse grupo sagrado que voluntariamente originou, a sua “família”. A mulher aceita com alegria os seus serviços em nome da “família”. Ela aceita os reféns que ele lhe confia, e faz com eles o que ele deseja (amarra-o a si cada vez com mais força e submete-o até o fim da sua vida) –, tirando daí todo o proveito. Ambos (homem e mulher) só têm, pois, vantagem em ter filhos (caso contrário, não os procriariam). O homem tem a vantagem de dar, retroativamente, à sua vida um sentido mais elevado e de poder escravizar-se para sempre, e a mulher aufere todas as vantagens restantes. Essas vantagens devem ser enormes para ela, pois praticamente todas podem escolher entre a vida profissional e filhos e quase todas decidem-se pelos filhos. Poder-se-ia aqui objetar que as mulheres só se decidem por filhos e não pela profissão porque adoram crianças. A isso responder-se-ia que uma mulher nem é capaz de tão elevados sentimentos como os exigiria um amor puro por crianças. A prova é que quase todas as mulheres só se preocupam com os seus próprios filhos e nunca com os alheios. Só cuidam de uma criança alheia, quando, por motivos médicos, não podem ter as suas (e mesmo nesse caso quando falharam todas as tentativas, inclusiva fecundação com sêmen de um homem estranho). Embora orfanatos de todo o mundo estejam cheios de crianças encantadoras e necessitadas e embora a televisão e os jornais publiquem quase todos os dias números referentes a pequenos africanos, indianos e sul-americanos que morreram de fome, é mais fácil as mulheres levarem para casa um cão ou gato vadios – elas que pretendem amar as crianças – do que uma criança abandonada. [O próximo parágrafo (destacado em itálico) está disponível na edição de 1972, mas foi aparentemente removido em edições posteriores]: E embora todas as revistas possa ler-se a taxa elevada de monstros que são gerados todos os anos (crianças hidrocéfalas, com falta de membros, cegas, surdas, idiotas), elas não se deixam impressionar por isso e continuam pondo-os neste mundo, uns após outros, como se tivesse condenados a nascer por bruxedo. Quando acontece a uma delas dar, então, à luz uma dessas criaturas monstruosas, não se sente desmascarada no seu egoísmo e chamada à responsabilidade: – como a mãe de um monstro é venerada na nossa sociedade como uma mártir. Fala-se com o maior dos respeitos de uma mãe que deu à luz um filho idiota e se ainda não tiver um filho saudável, tratará de o obter o mais depressa possível, um “normal”, igual aos filhos das outras mulheres, para provar que é saudável (e obrigado assim esse filho normal a passar toda a sua juventude, toda a sua vida, na companhia dum idiota). É difícil desmascarar as mulheres, revelando que elas não amam as crianças e só abusam delas em seu proveito, porque a gravidez, o nascimento e os cuidados a ter um filho pequeno estão, de fato, ligados a alguns inconvenientes. Mas que insignificantes eles são comparados com aquilo que obtém em troca: segurança vitalícia, conforto e isenção de responsabilidade. O que teria um homem de suportar para alcançar para si algo de igualmente valioso? Já começou até a circular entre os homens que uma gravidez não é de longe tão desagradável como parece. Há mulheres que se sentem particularmente bem durante esse período e tornou-se recentemente moda confessá-lo abertamente. Escusam de se incomodar muito com o fato de todas ficarem feias e mal apresentadas, com uma figura maciça, rosto inchado, pele com manchas, cabelo áspero e pernas com varizes. Durante esse tempo não procuram homem, já tem um, e se ele é obrigado a assistir à transformação da sua mulher borboleta em lagarta só tem que se queixar de si próprio. É o seu filho que ela aguarda, é ele que a desfigurou tanto – que direito teria ele de achá-la pesadona e repugnante (além disso, ela está precisamente nessa altura a “oferecer-lhe a sua juventude”)? Acerca do processo do parto propriamente dito grassam ainda boatos atemorizantes, que o homem jamais poderá chegar à conclusão de que a mulher recebe filhos para sua própria vantagem e não para a dele. É certo que a expressão “ela deu-lhe um filho”, que aparecia antigamente nos romances, vai desaparecendo lentamente da literatura, mas, na consciência do homem ela ainda está suficientemente radicada para provocar neles, quando do nascimento da sua descendência, apenas sentimentos de culpa (sentimentos esses em relação à mulher, bem entendido, não ao recém-nascido!). Se um homem imaginasse que poderia ganhar uma pequena renda vitalícia graças a uma consulta no dentista que demorasse seis horas não o faria? Claro que, de vez em quando, também há partos difíceis (graças à anestesia são consideravelmente menos dolorosos), mas, em geral, o parto não é mais doloroso para uma mulher que uma demorada consulta no dentista. O que os homens sabem através das mulheres acerca do desenrolar do parto são, na maioria, exageros desavergonhados. Os gritos estridentes que, frequentemente, chegam até eles atravessando a porta das salas de parto, explicam-se melhor por falta de orgulho e deficiente auto-domínio (ambos foram explicados pormenorizadamente noutro capítulo). Há anos que existe o parto sem dor em que as mulheres dão à luz os seus filhos depois de um período de preparação, com ginástica e treino próprio, sem anestesia e sem se queixarem. As mulheres fariam bem em combinar umas com as outras se o parto faz ou não faz doer. Enquanto umas contarem isto e as outras aquilo, caem em descrédito e prejudicam a causa comum. Claro que a mulher tem mais algumas razões para gerar pequenos seres humanos além de dar-se ares de desamparo e passar assim os dias com trabalho fácil e sem obedecer a chefes. Ela descobre, por exemplo, um belo dia, que o seu corpo funciona como uma máquina automática na qual basta introduzir algo de modesta aparência para dele sair algo de fantástico. É natural que se entusiasme a experimentar um dia esse jogo maravilhoso. E depois de o ter jogado uma vez, gostaria de o continuar a jogar muitas e muitas vezes (quase sempre bate certo: – precisamente ao cabo de nove meses vem um ser humano), fica louca de entusiasmo e acha-se magnífica. É evidente que a utilização do autômato é, no fundo, tão natural como um homem partir a cabeça a outro (caindo este automaticamente), só porque isso é biologicamente possível. – Se cada um desses jogos com o seu corpo-autômato não significasse posteriormente um pequeno incômodo para si, ela seria insaciável. Assim, é forçada a estabelecer uma fronteira: aquela onde uma criança a mais significaria para ela apenas um aumento do programa de trabalho e não um acréscimo de segurança ou conforto. A fronteira é geralmente muito fácil de estabelecer e é condicionada, principalmente, pelo estágio de automatização do respectivo trabalho doméstico: em países altamente industrializados a mulher deseja dois ou três filhos. Para a norte-americana cujo trabalho doméstico está plenamente automatizado, o ótimo serão três; a europeia ocidental (a quem faltam ainda alguns aparelhos domésticos), preferirá dois. Raramente se deseja um filho único e mais que três filhos é considerado associal por causa do barulho e do cheiro da roupa suada. Um filho único não traz vantagens, apenas desvantagens. Uma mulher com um filho único nunca parece tão desamparada ou agrilhoada ao lar como devia ser. E podia também vir a acontecer qualquer coisa a esse filho – talvez até numa idade em que a mulher já não pudesse mais conceber – e deixaria de haver pretexto para levar uma vida mais cômoda que a do seu marido e ele já não teria pretexto para trabalhar precisamente para ela. Além disso, o filho único não teria companheiros de brincadeiras, a mulher teria talvez até de brincar com ele – e se alguma coisa existe que as mulheres detestam é brincar com os filhos. Enquanto que as crianças se interessam por tudo e perguntam tudo, a mulher fundamentalmente não se interessa por nada (além das imbecis possibilidades de divertimento que lhe proporcionam o governo do lar e o seu corpo). Por isso, é manifestamente difícil à mulher – mesmo quando tem a melhor boa vontade, – penetrar no mundo fantástico das crianças. É certo que ela possui um repertório de expressões pueris para entretenimento de crianças muito pequenas (“Ai, ai, ai, quem é que vem aí?”) mas logo que elas ultrapassam os dois anos e começam a pensar por si, acabou-se. Não existe a propósito da mãe e do filho, nem sequer a propósito da mãe e da filha, o proverbial “clichê” dos interesses comuns de pai e filho “o pai que não pode deixar de brincar com o trem elétrico do filho). Quando, porém, uma mulher consegue dominar-se e brincar meia hora por dia com seu filho (...mais do que isso também seria prejudicial para o desenvolvimento do seu espírito), conta isso em toda parte como se fosse uma façanha (e com razão, porque autodomínio em tal grau é de fato, no caso dela, uma façanha). Só dois ou três filhos é que garantem segurança material: fazem com que a mulher pareça desamparada e incapaz de angariar o seu sustento e diminui o risco de ficar na velhice sem filhos (sem netos), sem ninguém que lhe possa manifestar a sua reverência pelo cuidado maternal. Permite, além disso, que as crianças brinquem umas com as outras, enquanto a mulher se dedica aos seus prazeres “mais elevados”, tais como coser ou fazer bolos. A assistência maternal consiste, nesse caso, em fechar os filhos todos num quarto e voltar a entrar nele apenas quando algum se feriu ou berrou muito alto. Acresce que a educação e amestração de dois ou mais filhos é muito mais fácil de conseguir que de um filho único. Para conquistar a obediência de um filho único tem de fazer-se uma complicada propaganda, têm de inventar-se métodos para o enganar (“persuadir”, “levá-lo ao bom caminho”) ou é preciso castigá-lo (o que só maça a mulher, por isso deixa este trabalho para o marido). Pelo contrário, vários filhos educam-se por chantagem. Como todos dependem do elogio da respectiva mãe, basta favorecer ligeiramente um deles para que os outros façam imediatamente o que lhes é exigido. Cada filho vive num medo constante de que a mãe o possa privar do seu “amor” para o dedicar a outro, e se é certo que esse medo não permite, em regra, que haja simpatia entre irmãos (como se a mulher estivesse interessada nisso!), a verdade é que estimula a concorrência e, portanto, o rendimento do trabalho. E mais tarde também, quando esses filhos forem adultos, mais não desejarão, no fundo, que supervalorizarem-se mutuamente para mostrar essa eficiência aos olhos da mãe. Os filhos satisfazem a sua ambição na profissão, as filhas rivalizam mutuamente na acumulação de bens. E de tempos a tempos juntam-se todos à volta da mãe (que tem isso na conta de demonstração de simpatia e apoda o interesse de uns irmãos pelos outros de “sentido de família”) para mostrar a ela os seus últimos feitos. Todas essas vantagens, porém, só existem no caso de haver dois ou três filhos. Uma mulher com mais de três filhos (hoje em dia, na maioria dos casos, devido a um descuido ou a compromissos religiosos do homem) tem, é certo, durante alguns anos, bastante que fazer – se bem que podendo dividir o tempo à sua vontade, sem responsabilidade pelo sustento de sua vida (de resto, a responsabilidade por crianças é desconhecida da maioria das mulheres) e sem superiores hierárquicos. Mas essa atividade aumentada dura apenas até o filho mais novo atingir a idade do jardim de infância, e ainda lhe proporciona uma pequena vantagem: pode estar certa de que o seu marido, enquanto os filhos não forem crescidos, nunca a deixará. Sim, porque um homem que abandona uma mulher com quatro ou mais filhos (mesmo que seja, simplesmente para não a poder aturar mais) é considerado na nossa sociedade, praticamente como um criminoso. Seja como for, quando os filhos atingem a idade escolar ou pré-escolar, termina, mesmo para a mãe de muitos filhos, a maior parte do trabalho da sua vida. De novo passa a ter tempo – e já agora com mais dinheiro – para gozar a vida. Vai ao cabeleireiro, dispõe em jarras, pinta os móveis de cores seguindo as sugestões das revistas femininas e cuida do seu precioso corpo. Na maioria dos países ocidentais o ensino nas escolas dura quase todo o dia e nos poucos em eu ainda não existem escolas dessas, estão os homens construindo-as com o entusiasmo habitual. A partir das suas investigações, verificam que as crianças não submetidas à influência das respectivas mães durante meio dia, podem desenvolver melhor as suas faculdades intelectuais e por conseguinte serão mais produtivas posteriormente. A utilização prática desse conhecimento, que de forma alguma consideram humilhante (como não conhecem a “honra” dos homens, não podem ser atingidas dessa maneira) é feita, pois, duplamente, no interesse das mulheres.  

O HOMEM Domado (1971) Esther Vilar

Sistema psiquiátrico e manutenção do transtorno

Transtorno mental, loucura, ou de qualquer maneira que você escolha chamar isso, tem sido uma preocupação minha desde o primeiro dia que eu entrei - ou melhor fui arrastado - na unidade psiquiátrica Real de Londres. Esse foi o dia que um psiquiatra que tinha me conhecido por menos de 1 hora concluiu que eu estava sofrendo de um transtorno mental chamado esquizofrenia. Esse encontro de 1 hora mudou minha vida inteira. Assumidamente minha vida até esse momento não tinha sido a mais agradável registrada. Na verdade, eu tinha tinha uma existência bem solitária e infeliz. Uns poucos meses como um interno do hospital psiquiátrico mudou isso tudo. Longe de ser solitário e infeliz, eu me tornei totalmente isolado e deprimido. Pelos próximos 10 anos minha vida era controlada pelo sistema psiquiátrico. Nesse momento meu cunhado, sobre me conhecer pela primeira vez, pensou: "Que merda foi aquela?" Ele estava se referindo à visão de dar pena do que eu tinha me tornado quando ele me conheceu 5 anos depois da minha internação no hospital. Ele mais tarde me disse que queria atirar em mim para acabar com minha miséria.
Longe de ser um santuário ou um sistema de cura, o sistema psiquiátrico se tornou para mim, como para muitos outros, um sistema de medo e continuação do transtorno. Como muitos outros, a recuperação era um processo que eu não tinha encontrado dentro do sistema. Na verdade, eu posso honestamente dizer que não foi até eu deixar o sistema que o processo de recuperação realmente tomou rumo na minha vida.
Era como se o sistema não tivesse expectativa nenhuma de eu me recuperar; ao invés disso a ênfase era na manutenção. Eu não estou dizendo que aqueles que trabalharam no sistema não cuidaram de mim. Eles fizeram isso: eles me vestiram, me alimentaram, me deram onde morar, e se encarregaram de eu tomar minha medicação. O que eles não fizeram foi considerar a possibilidade de que eu poderia retornar a ser uma pessoa. Não a que eu fui um dia, mas a pessoa que eu poderia me tornar; talvez mais do que eu era uma vez. Na verdade, eu pude me tornar Ron Coleman.

Livro: Recovery An alien Concept
Autor: Ron Coleman

sábado, 11 de abril de 2020

Cuidados maternos, esquizofrenia e epigenética

A pesquisa com animais de
laboratório, em que se reproduzem as condições neurobiológicas
presentes na esquizofrenia, também vem auxiliando enormemente
93a compreensão do papel dos fatores genéticos, ambientais e epi-
genéticos na gênese da esquizofrenia. Por exemplo, alguns desses
estudos têm revelado que a qualidade da interação mãe-filhote
tem papel predominante tanto na origem quanto no prognóstico
das psicoses 8,9,10,11 .

[Comentário: A biologia fortalecendo uma hipótese que foi fortemente combatida por psiquiatras biológicos: os pais ou o ambiente familiar tem impacto no diagnóstico de esquizofrenia.]

Assim, os genes que se encontram
hipermetilados em esquizofrênicos são também hipermetilados em
resposta ao estresse pré-natal.
Esses dados sugerem que o estresse pré-natal modula parâmetros
epigenéticos e isso pode estar relacionado com a fisiopatologia
da esquizofrenia.
 
Por outro lado, o ambiente também pode
ser protetor e reverter alterações gênicas, contribuindo na melhora
do prognóstico desta e de outras doenças 12 .

Referência:

EPIGENÉTICA APLICADA À SAÚDE E À DOENÇA: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS BASEADOS EM EVIDÊNCIAS ATUAIS

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwiYuLSgyeHoAhUSHbkGHRJwCrYQFjABegQIAxAB&url=http%3A%2F%2Feditora.metodista.br%2Flivros-gratis%2FEPIGENETICA%2520APLICADA%2520A%2520SAUDE%2520E%2520A%2520DOENCA.pdf%2Fat_download%2Ffile&usg=AOvVaw2xTPOzwylFIt5JLWWgp7RL

MODULAÇÃO EPIGENÉTICA NA ESQUIZOFRENIA

Conforme já foi abordado previamente, a epigenética consiste
no estudo das alterações reversíveis e herdáveis no genoma fun-
cional que não alteram a seqüência primária do ácido desoxirri-
bonucleico (DNA).

Estudos epigenéticos permitem compreender
como os padrões de expressão são transmitidos aos descendentes,
de que forma ocorrem as modificações gênicas durante a dife-
renciação de um tipo de célula e, especialmente, como os fatores
ambientais repercutem na expressão de genes específicos.

O papel da epigenética no desenvolvimento da esquizofrenia
vem sendo elucidado nas últimas décadas. De certo modo, as pesqui-
sas epigenéticas nesse campo foram favorecidas pela constatação de
que os fatores genéticos e ambientas, isoladamente, não dão conta de
explicar totalmente o risco para o desenvolvimento dessa doença 5 .

Os estudos com gêmeos monozigóticos separados ao nasci-
mento foram reveladores neste sentido. Ora, se tais indivíduos
possuem a mesma composição gênica, as diferenças de ocorrência
do transtorno só poderiam ser atribuídas à exposição a fatores
ambientais não partilhados pelos irmãos. Na esquizofrenia, esses
estudos apontam para uma concordância ao redor de 50%. Tais
achados suscitam questionamentos tanto sobre a “força” do me-
canismo genético quanto dos elementos “protetores” ou “bloque-
adores” do desenvolvimento da doença advindos do ambiente 4 .
Poderíamos supor, por exemplo, que os 50% que não manifesta-
ram a doença foram favorecidos pela supressão de algum gene.
Mas também poderíamos refletir que aqueles que desenvolveram
a doença sofreram alguma influência no sentido de favorecimento
em direção à sua manifestação, ou mais precisamente, na direção
da expressão do gene ou dos genes a ela relacionados. Vários
questionamentos subsequentes dão conta de pensar sobre o que
teria suprimido ou favorecido a expressão do gene. Certamente,
a já mencionada interação de fatores genéticos com o estresse (ou
não) ambiental está envolvida na organização destes desfechos 4 .

Franzek e Beckmann (1998), ao usarem diferentes sistemas
diagnósticos para examinar a concordância entre gêmeos mono-
zigóticos e dizigóticos, sugeriram que o espectro das síndromes
esquizofrênicas pode consistir em subgrupos clinicamente e
etiologicamente heterogêneos, com diferentes origens genéticas
e ambientais 4 .

A pesquisa com animais de
laboratório, em que se reproduzem as condições neurobiológicas
presentes na esquizofrenia, também vem auxiliando enormemente
93a compreensão do papel dos fatores genéticos, ambientais e epi-
genéticos na gênese da esquizofrenia. Por exemplo, alguns desses
estudos têm revelado que a qualidade da interação mãe-filhote
tem papel predominante tanto na origem quanto no prognóstico
das psicoses 8,9,10,11 .

[Comentário: A biologia fortalecendo uma hipótese que foi fortemente combatida por psiquiatras biológicos: os pais ou o ambiente familiar tem impacto no diagnóstico de esquizofrenia.]

Modificações epigenéticas parecem ser importantes fatores
reguladores do funcionamento neural, estando envolvidas na
plasticidade sináptica, no comportamento, no aprendizado e
na memória durante os estágios críticos do desenvolvimento
humano 10 . Essas modificações epigenéticas não ocorrem ao aca-
so, encontrando seu substrato causal nos fatores ambientais que
circundam o sujeito. Traumas físicos e psíquicos, exposição a
substâncias tóxicas e inclusive elementos nutricionais podem as-
sociar-se à modificação na expressão gênica de modo a atuar como
fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais
como a esquizofrenia. Por outro lado, o ambiente também pode
ser protetor e reverter alterações gênicas, contribuindo na melhora
do prognóstico desta e de outras doenças 12 .

[Comentário: cuidar da saúde geral previne e recupera]

Estudos clínicos conduzidos com indivíduos portadores de
esquizofrenia têm demostrado a presença de metilação global de
DNA tanto em tecidos post-mortem como em sangue periférico.
Dentre os genes metilados, os mais citados são o fator neuro-
trófico derivado do encéfalo (BDNF), o codificador da proteína
relina (RELN) e o Catechol-O-metiltransferase (COMT) 10,13,14 .
Sabe-se que o BDNF é uma proteína endógena responsável por
regular a sobrevivência neuronal e a plasticidade sináptica do
sistema nervoso periférico e central. O COMT está envolvido no
metabolismo da dopamina, sendo que a deficiência desse gene
gera uma interrupção na capacidade do cérebro para controlar
a atividade do referido neurotransmissor. Já o gene RELN é
responsável por uma glicoproteína envolvida na plasticidade
sináptica, na extensão de dendritos e na liberação de neuro-
transmissores 11 .

[Comentário: 1) A psiquiatra crítica Joanna Moncrieff critica a crença de que os neurolépticos melhoram o fator neurotrófico BDNF pois esse fator está presente em pacientes com Alzheimer também. 2) A alteração epigenética na regulação da dopamina está presente em paciente ingênuos (nunca tratados com neurolépticos)? ]

Assim, os genes que se encontram
hipermetilados em esquizofrênicos são também hipermetilados em
resposta ao estresse pré-natal.
Esses dados sugerem que o estresse pré-natal modula parâmetros
epigenéticos e isso pode estar relacionado com a fisiopatologia
da esquizofrenia.

Considerações finais

Os estudos epigenéticos sugerem que o contexto ambien-
tal, como cuidado materno, estresse e uso de fármacos exercem
influência na modulação gênica e epigenética em modelos expe-
rimentais e em indivíduos com esquizofrenia. Essa influência,
naturalmente, pode ser negativa ou positiva, influenciando no
prognóstico da doença.


EPIGENÉTICA APLICADA À SAÚDE E À DOENÇA: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS BASEADOS EM EVIDÊNCIAS ATUAIS

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwiYuLSgyeHoAhUSHbkGHRJwCrYQFjABegQIAxAB&url=http%3A%2F%2Feditora.metodista.br%2Flivros-gratis%2FEPIGENETICA%2520APLICADA%2520A%2520SAUDE%2520E%2520A%2520DOENCA.pdf%2Fat_download%2Ffile&usg=AOvVaw2xTPOzwylFIt5JLWWgp7RL

Ler mais:
Crítica a hipótese de neuroproteção dos neurolépticos
https://crisedapsiquiatria.blogspot.com/2020/03/critica-hipotese-de-neuroprotecao-dos.html 

Questionando a hipótese "neuroprotetora": o tratamento medicamentoso evita danos cerebrais em psicose precoce ou esquizofrenia?
Joanna Moncrieff (a1) DOI: https://doi.org/10.1192/bjp.bp.110.085795 Publicado online por Cambridge University Press: 02 de janeiro de 2018

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Respeito à vida humana versus dinheiro

O lema de respeito absoluto pela vida humana é lenda pois os médicos tem mais respeito à própria carreira, bolso e ego do que à saúde dos clientes. A aura de anjos e de heróis dos médicos nunca me convenceu. Só valorizam a saúde do paciente quando é possível conciliar com ganhar dinheiro. Quando a saúde entra em conflito com ganhar dinheiro a saúde do paciente fica em segundo lugar.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Indicações equivocadas de psicocirurgia

Indicações de psicocirurgia para transtornos mentais se baseiam em pressupostos frágeis da psiquiatria biológica e pesquisas genéticas inconclusivas. O pressuposto de que transtornos mentais são doenças cerebrais, de que as drogas psiquiátricas funcionam mas não estão funcionando num paciente. Também a crença de que a terapia cognitivo-comportamental é a melhor opção e critério para saber que um tratamento é resistente a tratamento ou não. A crença na eletroconvulsoterapia também. O que acontece é que a terapia cognitivo-comportamental tem métodos de pesquisa semelhantes à pesquisa médica (ensaios randomizados). A terapia comportamental (expressão que tem um significado diferente nos Estados Unidos e inclui terapia cognitivo-comportamental) é um método mais poderoso mas que por usar métodos de pesquisa diferente da pesquisa médica ainda não foi considerada pelos psiquiatras tradicionais como padrão ouro de tratamento.

Só fazem sentido dentro de pressupostos médicos tradicionais.

Neurosurgery for Psychiatric Disorders

https://www.youtube.com/watch?v=zZ4H9m1OnTI

Darwin sobre sofrimento

"Dor ou sofrimento de qualquer tipo, se continuado longamente, causa depressão ou reduz o poder de ação; ainda assim é bem adaptado para fazer uma criatura se defender contra qualquer mal grande e repentino."

Charles Darwin, 1887, p. 51-52

Doença e evolução

Evolution - Medicine's Missing Basic Science

https://www.youtube.com/watch?v=Mk41Z0g8S54

Seis razões pelas quais as doenças existem

A seleção (natural) é lenta
1. Descompasso: corpo em novo ambiente
2. Competição com organismos que evoluem rapidamente

A seleção (natural) é constrita (restrita)
3. Todo traço é um trade-off (troca)
4. Constrições (restrições) na seleção natural

Nós entendemos errado
5. Organismos modelados para o sucesso reprodutivo e não para saúde
6. Defesas e sofrimento



"Nossos desejos estão nos matando".



Você deveria fugir de um barulho?

Poderia ser um macaco... ou um leão!!!

Custo de fugir: 200 calorias

Custo de não fugir se um tigre: 200.000 calorias

Otimalidade/otimização: fugir quando p tigre > 1/1000

999 ataques de pânico dos 1000  serão desnecessários mas perfeitamente normais



O princípio do detector de fumaça

Sistemas de regulação otimizados expressam muitos falsos alarmes normais.

Por isso podemos bloquear as defesas com segurança.
(exceto por 1 vez a cada 1000)

Também: dor, febre, vômito, fadiga, etc.

Uma conclusão sobre defesas:
a maioria do sofrimento humano é normal mas desnecessário

Exceto por 1 vez a cada 1000
quando as defesas são essenciais

Isso explica como a medicina geral é possível.




Transtorno do pânico:

Um falso alarme da resposta de luga ou fuga
   o princípio do detector de fumaça

Uma defesa desregulada




Defesas e sofrimento

Náusea, vômito, diarreia, febre, tosse, fadiga e ansiedade são respostas dolorosas mas úteis.

"Dor ou sofrimento de qualquer tipo, se continuado longamente, causa depressão ou reduz o poder de ação; ainda assim é bem adaptado para fazer uma criatura se defender contra qualquer mal grande e repentino."

Charles Darwin, 1887, p. 51-52



Saúde não é objetivo da seleção (natural)

A seleção (natural) maximiza sucesso reprodutivo e não a saúde, longevidade e felicidade

A reprodução supera tudo
   velhice
   o sexo frágil



Algumas de muitas implicações:

Não existe genoma (genes) normal. O que existe são genes que contribuem ou não para a reprodução.

Explicações necessárias para universais
   não apenas para diferenças individuais

Espere desenho ruim em todo lugar

Mas reconheça que o que você pensa que é desenho ruim pode ser excelente

Supostos "defeitos genéticos" e ambientes novos

Na genética se fala que genes que foram selecionados positivamente como adaptativos há muitos anos atrás podem aumentar a probabilidade de doenças em interação com os novos ambientes atuais.
A medicina afirma que há um problema genético com as pessoas adoecidas. Mas a partir desse princípio não é necessariamente um defeito genético em si (ou necessariamente) que está presente pois esse foi selecionado positivamente. Onde está o gene defeituoso? É o próprio gene que é defeituoso ou é a interação com o novo ambiente que gera problemas? Por que não trabalhar o ambiente então ao invés do "defeito" no corpo?

terça-feira, 7 de abril de 2020

"Falta" de repertório especial e transtorno mental (ironia)

Conviver com pessoas com deficits de repertório leva a exigências ambientais especiais ou exigências de repertório especial (adicional). Então por o paciente ter que lidar com exigências ambientais complexas, absurdas ou pouco claras os psiquiatras biológicos diagnosticam a "falta" de repertório especial para se ajustar ou se adaptar. Obviamente,  isso é injusto. A família paga o psiquiatra e é a serviço dela que ele trabalha.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Prevenção e fabricação de loucura (atualizado)

Se um psiquiatra biológico investiga a fundo para procurar detalhes que interpreta como sinais de "doença mental" e prevê que o cliente vai piorar e que precisa de prevenção através de drogas psiquiátricas, a tendência é que essa profecia autorrealizadora se cumpra tanto por causa dos efeitos negativos das drogas psiquiátricas (neurotoxinas) quanto pelo inculcamento de interpretações psiquiátricas (pessimistas) da vida do cliente pela família, paciente e sociedade.

Quando o cliente propõe um desmame contra a opinião do médico isso também acontece. O médico prevê uma piora em 6 meses e uma interpretação da abstinência como recaída da "doença mental" que leva a sociedade a reagir à situação de maneira a pressionar o cliente para tomar a droga psiquiátrica ou responder com internação involuntária (interpretação psiquiátrica tradicional).

O pesquisador Peter C. Gøtzsche afirma algo semelhante no livro dele Deadly Psychiatry and Organized Denial

"O sobrediagnóstico e o tratamento excessivos generalizados são outro problema que eu trato. Lá há um superdiagnóstico enorme de transtornos mentais e, depois que você recebe um exame psiquiátrico diagnóstico tudo o que você faz ou diz torna-se suspeito, pois agora você está  observação, o que significa que o diagnóstico inicial, talvez experimental, também torna-se facilmente uma profecia auto-realizável (ver Capítulo 2)."

"Rosenhan explicou que o diagnóstico se torna uma profecia auto-realizável. Eventualmente, o paciente aceita o diagnóstico e se comporta de acordo. Rosenhan argumenta que não devemos rotular todos os pacientes esquizofrênicos com base em comportamentos ou cognições, mas limitar nossas discussões a comportamentos, os estímulos que os provocam e seus correlatos. Ele descobre que as forças psicológicas que resultam em despersonalização são fortes e imaginam como seria se o os pacientes fossem mais poderosos do que impotentes. Se eles fossem vistos como interessantes indivíduos em vez de entidades de diagnóstico; se eles fossem socialmente significativos do que leprosos sociais; e se a angústia deles verdadeira e totalmente compeliu nossas simpatias e preocupações; não procuraríamos contato com eles, apesar da disponibilidade de medicamentos? Talvez pelo prazer de tudo isso? Infelizmente, essas palavras sábias foram esquecidas na psiquiatria atual onde as histórias pessoais dos pacientes contam tão pouco que os psiquiatras geralmente falham em desvendá-los."

"Não é tão estranho quanto parece que muitas pessoas são diagnosticadas incorretamente com esquizofrenia. A psiquiatria é radicalmente diferente de outras áreas da medicina, pois pessoas normais têm sintomas e sentimentos semelhantes aos dos pacientes; é principalmente um questão de grau. Mesmo para a esquizofrenia, este é o caso. A psicose não é uma doença biológica como artrite, e muitas pessoas normais têm experiências de psicose  - incluindo delírios e alucinações - de tempos em tempos."

"Os demônios te atacam

Quando fizemos um diagnóstico, certo ou errado, jogamos uma vida em nossa construção social, por exemplo a equipe da Clínica Mayo disse que o distúrbio afeta você, como se tivesse alguma existência independente. Os sintomas do paciente são reais, mas o rótulo de diagnóstico não é real no sentido que define algo que existe independentemente de nós. Um elefante realmente existe e pode nos atacar se chegarmos muito perto. Também dizemos que doenças nos atacam, por exemplo. "ela
teve um ataque de asma ", como se a asma tivesse alguma existência real na natureza, como um elefante.

Você pode sentir que estou ficando muito filosófico, portanto, explicarei Capítulo 5, sobre o TDAH, por que essas distinções podem ser muito importantes. Aqui está outro exemplo. Quando um amigo meu foi internado no hospital em seus vinte anos com psicose aguda, o psiquiatra disse: "Você é esquizofrênico!" Nesse ponto, ela sentiu que deixou de existir como pessoa, com autonomia e dignidade. Ela não era mais alguém que seus cuidadores precisavam respeitar, ela era um saco de sintomas que eles assumiu o controle e os anos seguintes foram devastadores para ela.

Diferenças sutis podem ser importantes. Se o psiquiatra dela dissesse: “Você é um pessoa que atualmente tem sintomas, que costumamos chamar de esquizofrenia ", teria indicado que a pessoa ainda estava lá e era muito mais do que sintomas e que a doença não duraria necessariamente pelo resto vida, que, infelizmente, é frequentemente como os psiquiatras percebem essa doença. Eles não perceberam que são eles, com seus medicamentos antipsicóticos, que fez os problemas durar ao longo da vida (ver Capítulo 11)."

Bob Dylan - Not Dark Yet - Legendado





domingo, 5 de abril de 2020

Vida sem esforço e dor


Instagram professortamuia

Cérebro intacto e imunidade à estresse [ironia]

Quem tem o cérebro intacto está imune a tudo (aos mais extremos desafios e complexas exigências ambientais). Nunca vai se comportar mal e nunca vai receber um diagnóstico psiquiátrico. Vai dar conta de qualquer exigência ambiental não importa o que aconteça. A não ser que procure um psiquiatra (por acreditar nisso), daí tem que ter alguma coisa crônica.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O processo de pensamento dos conformistas e normais

O processo de pensamento dos conformistas e normais consiste em basicamente repetir o que é aceito e negar ou desconsiderar todo o resto. O que é basicamente a negação do pensamento autônomo. Ou o seu inverso: o pensamento heterônomo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Domesticação, psiquiatria biológica e danos cerebrais

Embora a domesticação seja um processo evolucionário, há semelhanças entre os efeitos das drogas psiquiátricas e o processo de domesticação que faz parecer que as drogas psiquiátricas corrigem algum defeito biológico ou aprimoram o cérebro. O processo de domesticação envolve redução da agressividade e diminuição da responsividade do organismo à estímulos externos estressantes. As drogas psiquiátricas são interpretadas como positivas para o organismo por se assemelharem ao processo de domesticação. Mas na verdade fazem isso produzindo danos ao cérebro e ao resto do organismo para que esse pareça mais domesticado mesmo em condições hostis ao organismo. Ao invés de ensinar o sujeito a modificar as condições hostis ou a forma de responder às condições hostis a psiquiatria biológica visa alterar ou corrigir o organismo por atribuir qualquer dificuldade de adaptação cultural à defeito biológico. O que é natural não necessariamente leva à adaptação cultural e por isso é um erro afirmar que a dificuldade de adaptação cultural necessariamente tem origem num defeito biológico. A adaptação cultural pode ser inclusive difícil ou prejudicial ao organismo e é isso que acontece com alguns efeitos das drogas psiquiátricas interpretados como positivos por produzirem adaptação cultural.

Referências:

Duas palestras do etólogo César Ades no dia de Darwin em anos diferentes.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Transformação social e competência

A melhor maneira de transformar a sociedade não é engajamento ou focar em conhecimento diretamente relacionado a transformação social, mas ser muito competente na própria área.

Não é necessário abandonar áreas de conhecimento "alienadas" para fazer um trabalho de valor.