Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Harvard Professor Says Prescription Drugs Are Killing Population



Harvard Professor Says Prescription Drugs Are Killing Population

Harvard Professor claims that prescription drugs are killing the population
A Harvard Professor has claimed that prescription drugs are not only ineffective at treating most illnesses, but are actually killing the population. 
Arnold Seymour Relman, professor of Medicine at Harvard University and former Editor-in-Chief of the New England Medical Journal says:
“The medical profession is being bought by the pharmaceutical industry, not only in terms of practice of medicine, but also in terms of teaching and research. The academic institutions of this country are allowing themselves to be the paid agents of the pharmaceutical industry. I think it’s disgraceful.”
Trueactivist.com reports:
The pharmaceutical industry is the most prevalent medicine industry worldwide, as it is hypothesized that the medicines provided by it quickly gives respite from ailments and treats a person, despite of the fact that thousands of people die every year from prescription drug use.

According to a new study, almost 80 percent of meta–analyses had some sort of industry tie-up, either through sponsorship or speaking fees, research grants and things like that, which again leads to the fact that drugs may help someone by giving some sort of relief or lowering pain, but they can also cause a large amount of harm.
These drugs can instantly relieve acute pain and distress. But the treatment of chronic diseases poses a grave problem. Thus, in relieving a diseased condition, other abnormal physiological and pathological problems may develop. The side effects from these drugs can range from mild side effects like fatigue and constipation, to strong side effects like suicidal thoughts, insomnia, coma, severe infection and so on.
“Any drug causing more side effects than benefits will not be called a medicine. It would rather be called a poison.”
Here, we are talking about antidepressants. Dr. Peter Gotzsche, co-founder of Cochrane Collaboration (the world’s foremost body in assessing medical evidence), is currently working to make the world aware of the fact that the side effects associated with the several pharmaceutical grade drugs are actually killing people all over the world. According to his research, 100,000 people in the United States alone die each year from the side effects of correctly-used prescription drugs. He published many papers reasoning the fact that antidepressants are making people suffer with its harmful effects to a large extent.
In context of antidepressants, recent example is a study published in the British Medical Journal by researchers at the Nordic Cochrane Centre in Copenhagen. It states that the pharmaceutical companies are not disclosing all information regarding the results of their drug trials.
Tamang Sharma, a PhD student at Cochrane and lead author of the study, said:
“We found that a lot of appendices were often only available upon request to the authorities, and the authorities had never requested them. I’m actually kind of scared about how bad the actual situation would be if we had the complete data.”
This is not the first time that the pharmaceutical companies are portraying only the half truth of their drug trials to get the antidepressants on to the shelves. There are many other examples where we can see that the drug companies are selling their drugs on the basis of a bunch of lies and half-told truths.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CUIDADO COM A RITALINA

http://www.compartilhandosaberes.com.br/ministerio-da-saude-adverte-muito-cuidado-com-a-ritalina/

MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: MUITO CUIDADO COM A RITALINA!

No dia 1º de outubro de 2015 o Ministério da Saúde publicou um documento denominado “Recomendações do Ministério da Saúde para adoção de práticas não medicalizantes e para publicação de protocolos municipais e estaduais de dispensação de metilfenidato para prevenir a excessiva medicalização de crianças e adolescentes”.
Neste documento são apresentadas análises detalhadas e bem fundamentadas sobre a fragilidade do diagnóstico de TDAH, a inconsistência metodológica da maior parte dos estudos realizados que recomendam o uso do metilfenidato (sem contar o fato de que muitos destes estudos foram financiados por indústrias farmacêuticas que fabricam o medicamento), os indícios que apontam para a veiculação de índices superestimados de prevalência do suposto transtorno, os questionamentos acerca da eficácia e segurança do tratamento que apresenta alto potencial de abuso e dependência além de reações adversas e graves efeitos colaterais, o aumento crescente do consumo (o Brasil já é o segundo país onde mais se consome o metilfenidato!) e destaca ainda a existência de denúncias de abuso do medicamento em creches, escolas e centros de assistência social.
Em defesa do rompimento com o processo de medicalização que transforma problemas produzidos socialmente em questões médicas, responsabilidade dos indivíduos e suas famílias, o documento afirma a necessidade do uso racional e cauteloso e afirma categoricamente que “do ponto de vista clínico é muito complexa a diferenciação dos casos de TDAH, da maioria das dificuldades de escolarização decorrentes de modelos pedagógicos inadequados ao contexto atual das crianças, das dificuldades familiares, cada vez mais complexas e do contexto sócio-cultural altamente competitivo, estigmatizante e excludente”.
Ao final recomendam “a publicação de protocolos municipais e estaduais de dispensação de metilfenidato, seguindo recomendações nacionais e internacionais para prevenir a excessiva medicalização de crianças e adolescentes”
Com certeza, este documento representa um grande avanço e pode ser utilizado como um instrumento importante para fomentarmos um amplo processo de discussão sobre a medicalização em todos os municípios brasileiros.
Vamos defender nossas crianças e jovens!
Para ler o documento na íntegra clique aqui
Recomenda—-es-para-Prevenir-excessiva-Medicaliza—-o-de-Crian–a-e-Adolescentes

sexta-feira, 29 de julho de 2016

The Myth of Schizophrenia as a Progressive Brain Disease

https://recoverynet.ca/2012/11/28/the-myth-of-schizophrenia-as-a-progressive-brain-disease/

The Myth of Schizophrenia as a Progressive Brain Disease

Psiquiatria, locura y sociedad. Saberes imperfectos | Laura Martin Lopez-Andrade | TEDxValladolid

https://www.youtube.com/watch?v=slQQQQSVyJw

Psiquiatria, locura y sociedad. Saberes imperfectos | Laura Martin Lopez-Andrade | TEDxValladolid

Canal Paulo Amarante youtube

https://www.youtube.com/channel/UCYonSb6o7hbT2vGCup6Ypkw

OLGA RUNCIMAN - 01- SOBREVIVENTE DA PSIQUIATRIA

OLGA RUNCIMAN - 01- SOBREVIVENTE DA PSIQUIATRIA

https://www.youtube.com/watch?v=nncdjbwkwvU

OLGA RUNCIMAN 02 - SOBREVIVENTE DA PSIQUIATRIA

https://www.youtube.com/watch?v=obuLAuuB7AQ

Coming Off Psych Drugs (English subtitles)

https://www.youtube.com/watch?v=5RSNBQ0YfLs

Coming Off Psych Drugs (English subtitles)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

O poder da psiquiatria Por Vladimir Safatle

https://vozesdavoz.wordpress.com/2016/07/26/o-poder-da-psiquiatria/


O poder da psiquiatria


O que está por trás do DSM-5 e sua tentativa de transformar a experiência do sofrimento em patologia a ser tratada
Quando confrontados a categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, a maioria dos psiquiatras atuais tenderá a aceitar que tais definições são, basicamente, objetos de um “discurso científico”. Isso significa, grosso modo, que a pretensa objetividade de suas distinções deve estar assegurada por um discurso que privilegia fenômenos mensuráveis, quantificáveis e claramente diferenciáveis através de um conjunto finito e operacional de caraterísticas de base. Esta seria a melhor maneira de impedir que tais metaconceitos fossem tragados por uma interminável discussão ideológica, com suas querelas sem fim de escolas a respeito da natureza do que orienta nossa atividade na clínica do sofrimento psíquico.
Foi com essa crença em vista que a psiquiatria dos últimos quarenta anos desenvolveu um dos mais impressionantes esforços de classificação de doenças e homogeneização de diagnósticos que se tem notícia. Desde o advento do DSM-3, a psiquiatria teria, enfim, encontrado o caminho em direção a sua segurança ontológica, deixando para trás décadas de imprecisão. Uma imprecisão que seria fruto do uso de vocabulários extremamente valorativos, em vez de meramente descritivos, assim como da fascinação por etiologias fantasistas. Pois, ao invés de se preocupar com a definição de causas dificilmente observáveis (como, por exemplo, afirmar que certa fobia de animal é resultado de conflitos inconscientes com a figura paterna), melhor seria privilegiar um pensamento categorial que organiza distinções a partir de uma certa lógica de conjuntos no qual o esforço clínico fundamental consiste em definir sintomas e condições que, se colocados em relação, podem individualizar um comportamento patológico. Desta forma, nasceria o milagre de um saber, para além de disputas teóricas, observável, imune aos juízos subjetivos do médico-observador e, acima de tudo, eficaz.
Esta história da marcha irresistível da psiquiatria em direção à ciência é normalmente contada em tons edificantes. A partir do início dos anos 1970, vários psiquiatras começaram a fazer testes, demonstrando a incrível variação de diagnósticos entre os profissionais. Por outro lado, a própria psiquiatria era bombardeada de todos os lados por aqueles irresponsáveis que tentavam demonstrar que categorias clínicas eram mitos ou, no mais das vezes, mecanismos de exclusão e controle social. Neste ambiente hostil, psiquiatras como Robert Spitzer e John Feighner teriam sido capazes de tirar a psiquiatria da defensiva por meio de uma profunda reforma metodológica que, em um curto espaço de tempo, modificou radicalmente o que entendíamos até então por “clínica”.
Pois tal reforma metodológica teria sido acompanhada pelo desenvolvimento exponencial do saber neurológico, assim como do desenvolvimento de medicamentos capazes de combater com eficácia aquilo que, erroneamente, entendíamos fluidamente por “impasses existenciais” capazes de afetar nossa performance no trabalho, nossos papéis sociais e nossa autonomia do desejo. A clínica aparecerá, então, cada vez mais submetida a uma farmacologia em vias irresistíveis de aprimoramento. Neste sentido, não haveria razão alguma para se inquietar do fato de que por volta de 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 terem, em sua carreira recente, vínculos financeiros com a indústria farmacêutica. A comunidade entre indústria farmacêutica e comunidade psiquiátrica seria exclusivamente fundada nas promessas abertas pelo progresso da ciência.
Também não haveria razão alguma para se perguntar se não haveria uma articulação perversa entre o fechamento dos asilos, a redução dos gastos públicos em saúde mental e um triplo processo de reforço da posição da psiquiatria. Processo triplo marcado pela medicalização, pela institucionalização crescente das discussões através da hegemonia da American Psychiatry Association (APA) e pela tecnicização crescente dos diagnósticos.
Doença e política
Tudo isso poderia interessar apenas à uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, entre outros). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceitos de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?  Por um lado, uma sociedade organiza seus modos de intervenção nas populações, nos corpos e nos afetos por meio da definição do campo das doenças e das patologias. No interior desses modos de intervenção, não é apenas a experiência subjetiva do sofrimento do paciente que orienta a clínica, mas também padrões esperados de conduta social de forte conotação moral (ou mesmo estética e política). Por exemplo, quando o DSM-4 descrevia o transtorno de personalidade narcísica, ele não temia descrever tal transtorno, apelando, entre outras coisas, para quadros morais do tipo: “Eles esperam ser adulados e ficam desconcertados ou furiosos quando isto não ocorre. Eles podem, por exemplo, pensar que não precisam esperar na fila, que suas prioridades são tão importantes que os outros lhes deveriam mostrar deferência e ficam irritados quando os outros deixam de auxiliar em ‘seu trabalho muito importante’”. O mínimo que se pode dizer é que tal quadro nada diz sobre o sofrimento psíquico, mas diz muito a respeito dos padrões disciplinares e morais que nossa sociedade tenta elevar à condição de normalidade médica.
Exemplo ainda mais caricato são os oito critérios fornecidos para definir o transtorno de personalidade histriônica: 1) desconforto em situações nas quais não se é o centro das atenções; 2) comportamento inadequado, sexualmente provocante ou sedutor; 3) superficialidade na expressão das emoções; 4) constante utilização da aparência física para chamar a atenção sobre si próprio; 5) discurso excessivamente impressionista; 6) teatralidade e expressão emocional exagerada; 7) ser facilmente sugestionável; 8 ) considerar os relacionamentos mais íntimos do que realmente são. Em um manual que se vangloriava pela clareza de seus “critérios específicos”, impressiona exatamente a falta de especificidade de um quadro clínico tão amplo que poderia englobar praticamente qualquer pessoa com o mínimo de senso de autocrítica. Há de se perguntar se estamos diante de uma falha ou da exposição sintomática de uma lógica que perpassa, em maior ou menor grau, todo o poder psiquiátrico atual com sua tendência muda, como vemos no texto de Gilson Ianinni e Antonio Teixeira,  de “psiquiatrização da vida cotidiana”.
Se nos perguntarmos sobre a natureza de tal lógica, valeria a pena lembrar como a experiência da doença, ou seja, a experiência de se compreender como doente, não é apenas o resultado da descrição de variações em marcadores biológicos específicos. Nem é a doença a mera definição de situações de sofrimento. Há várias experiências de sofrimento que não vivenciamos como doença, mas como conflitos relativamente naturais em processos globais de transformação e de desenvolvimento. Na verdade, há uma dimensão na qual estar doente, no que diz respeito à saúde mental, aparece como o sofrimento advindo da limitação na capacidade de ação e da fixidez em certos comportamentos. O que não poderia ser diferente se aceitarmos que estar doente é, a princípio, assumir uma identidade com forte força performativa. Ao compreender-se como “neurótico”, “depressivo” ou portador de “transtorno de personalidade borderline”, o sujeito nomeia a si através de um ato de fala capaz de produzir performativamente efeitos novos, de ampliar impossibilidades e restrições. Uma patologia mental não descreve uma espécie natural (natural kind), como talvez seja o caso de uma doença orgânica, como câncer ou mal de Parkinson. Como nos lembra Ian Hacking, ela cria performativamente uma nova situação na qual os sujeitos se veem inseridos.
Neste sentido, há de se perguntar o que está por trás dessa tendência de psiquiatrização da vida cotidiana levada a cabo pelo DSM-5. Tendência que realiza uma progressão presente na própria base dos DSMs. A partir de agora, o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas. Elas eram 265 no DSM-3, lançado em 1980, e 182 no DSM-2, de 1968.
De fato, com modificações, como as que diminuem o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica.
Por trás desta estratégia clínica, com sua negação de perspectivas etiológicas, há a tentativa equivocada de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Mas uma vida na qual todo sofrimento é sintoma a ser extirpado é uma vida dependente de maneira compulsiva da voz segura do especialista, restrita a um padrão de normalidade que não é outra coisa que a internalização desesperada de uma normatividade disciplinar decidida em laboratório. Ou seja, uma vida cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Há de se perguntar se tal enfraquecimento não será, ao final, o resultado social dessas modificações no campo da saúde mental patrocinadas pelo DSM. Há de se perguntar também a quem tal situação interessa.
Por Vladimir Safatle, professor livre-docente no Departamento de Filosofia da USP

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Reclaiming Humanity: Building a Post-Psychiatry, Post Mental Health World

https://www.youtube.com/watch?v=b6ZljUs4Xos

Laura Delano plenary talk "Reclaiming Humanity: Building a Post-Psychiatry, Post Mental Health World" from 2014 UCLA/ISEPP Conference "Transforming Mad Science" in Los Angeles, CA.

domingo, 17 de julho de 2016

Psiquiatria vive crise por falta de provas científicas, diz Nobel

http://abp.org.br/portal/clippingsis/exibClipping/?clipping=14944

Psiquiatria vive crise por falta de provas científicas, diz Nobel
Recomendar
Recomendar Twitter

A psiquiatria está em crise porque falta comprovação biológica para seus conceitos. Essa é a opinião do neurobiólogo Eric Kandel, 81, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2000.

O cientista da Universidade Columbia, de Nova York, premiado por seus estudos com memória, desembarca nesta semana no Rio de Janeiro para participar do Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Em entrevista à Folha, Kandel condenou o uso de remédios como a ritalina (droga para tratar deficit de atenção) para melhorar a concentração de pessoas saudáveis.

Ele falou também sobre a validade da psicanálise, que pode cobrir lacunas da psiquiatria, caso adote padrões científicos mais rígidos. O pesquisador comentou também sobre sua nova invenção: um camundongo "esquizofrênico" para testar medicamentos.

Folha - Psiquiatras estão debatendo mudanças no manual de diagnósticos de transtornos mentais. Muitos acham que o livro não pode tentar ser muito objetivo. O que o sr. acha?

Eric Kandel - A preocupação com a objetividade foi introduzida há uns 20 anos quando houve uma tentativa de validar os critérios do manual para descrever transtornos. Isso foi extremamente importante para que diferentes psiquiatras pudessem dar o mesmo diagnóstico a um mesmo paciente.

O que é triste é que não houve muitos avanços desde então. Uma das razões para isso é que os psiquiatras não têm os chamados "marcadores biológicos" à disposição. Se você diagnostica diabetes ou hipertensão, pode usar medições objetivas, independentes. Não precisa se basear apenas naquilo que o paciente lhe conta. Nós, psiquiatras, ainda temos que recorrer à história do paciente.

O único grande avanço foi o trabalho de Helen Mayberg sobre depressão e a área chamada 25 do córtex cerebral. Ela descobriu que pessoas deprimidas tendem a ter hiperatividade nesta área. Quando os pacientes são tratados e os sintomas revertem, isso pode ser observado na área 25. Em pacientes para os quais drogas ou psicoterapia não haviam funcionado, ela descobriu que a estimulação cerebral [com sinais elétricos] poderia ter sucesso.

Mas, à exceção do trabalho de Mayberg, não temos outros exemplos.

Precisamos desesperadamente de bons marcadores biológicos. Sem isso, podemos publicar quantas edições quisermos do manual, que não chegaremos a lugar nenhum.

Algumas pesquisas pioneiras sugerem que vítimas de estresse pós-traumático poderiam se beneficiar de drogas que apaguem suas memórias ruins. Isso já foi feito em ratos. O que o sr. acha disso?

É assustador. Não gosto nem um pouco dessa idéia. Eu gosto da idéia de drogas que estimulem a memória. Se você tem problemas de memória, não há razões para não tomar algo para melhorar. Livrar-se de memórias é muito perigoso. Eu lido melhor com a idéia de que as pessoas tentem se acostumar com suas memórias. Há varios tipos de tratamento para essa dessensibilização. Acho OK tentarem se livrar da ansiedade associada à memória.

Acho aceitável também, que, em uma guerra, soldados tomem drogas betabloqueadoras para que não tenham uma reação excessivamente emocional com a experiência. Mas aniquilar memórias é uma coisa ruim. Você é quem você é por causa das memórias. O caráter das pessoas não deve ser submetido a cirurgias farmacológicas.

Houve progresso no entendimento dos mecanismos biológicos de algum outro transtorno psicológico?

Acho que houve no próprio caso do transtorno do estresse pós-traumático. Nós sabemos alguma coisa sobre a atividade da amígdala cerebral, que fica hiperativa nessas pessoas. Algumas pessoas estão desenvolvendo interessantes tratamentos de dessensibilização em conjunto com o uso de fármacos. É possível ver algum progresso nisso no futuro.

Isso é importante hoje, pois vivemos num momento em que há mais incidentes e mais vítimas entre soldados aqui nos EUA do que havia na Segunda Guerra Mundial. Por que o numero aumenta? Uma das razões pode ser a maior facilidade de se fazer diagnósticos, mas outra coisa é que, naquela época, havia um programa americano que enviava psiquiatras para servir nos campos de batalha. E eles estavam à disposição dos soldados quando estes precisavam. Isso pode ter feito diferença.

O sr. vei aqui para apresentar um camundongo geneticamente modificado que seu grupo criou para o estudo da esquizofrenia. A esquizofrenia afeta capacidades mentais humanas. Como é possível usar um camundongo para estudá-la?

A esquizofrenia tem três classes de sintomas. Há os "positivos" ilusões, alucinações e loucura, os "negativos" _reclusão, isolamento social e falta de motivação --e os "cognitivos"-- a dificuldade de organizar as ideias e trabalhar. É difícil criar um modelo para estudar os sintomas positivos em cobaias, mas podemos modelar os cognitivos e negativos.

Criamos um camundongo cujo corpo estriado [estrutura no núcleo do cérebro] produz em excesso uma proteína que os neurônios usam para captar o neurotransmissor dopamina. Essa é uma lesão genética que ocorre em parte dos pacientes com esquizofrenia e, funcionalmente, leva a uma característica compartilhada pela maioria dos esquizofrênicos. Nós obtivemos então camundongos que claramente têm problemas de memória de curto prazo e em funções cognitivas. Os mesmos roedores têm dificuldade de interação social e baixa motivação.

A falta motivação não é um sintoma mais característico da depressão do que da esquizofrenia?

É um sintoma compartilhado pelas duas doenças, mas é um aspecto muito importante da esquizofrenia. Nós encontramos um medicamento que supera essa deficiência e a restaura ao normal. Achamos que isso poderá ser útil para tratamentos de depressão também.

Quão longe essa droga está de chegar ao mercado?

Nós fizemos só os testes em camundongos. Estamos agora conversando com empresas farmacêuticas em busca de alguma que esteja interessada em experimentá-la em pessoas. Ainda é uma fase bem inicial.

O que o sr. acha de usar drogas, como a ritalina (receitada para deficit de atenção) para "turbinar" a inteligência, aumentando a concentração?

Não acho que seja boa ideia para pessoas saudáveis. Essas drogas devem ser prescritas para pessoas com problemas cognitivos. Não devem nunca ser vendidas sem receita. Não são vitaminas.

O sr. vem falar no Brasil, onde a psicanálise é relativamente bem aceita. Nos EUA, não é assim. Que papel o sr. vê para as ideias de Freud hoje?

Não vejo problema em ler Freud da mesma forma que lemos Nietzche, Dostoiévski ou Shakespeare --grandes pensadores que escreveram sobre a mente humana. Mas se você quer que a psicanálise seja uma terapia eficaz, é preciso ter estudos que mostrem resultado. É necessário explicar o que ocorre no cérebro. Isso seria e trabalhoso, mas é precisa ser feito.

O maior problema não é com Freud, mas com aqueles que o sucederam. Eles não desenvolveram uma tradição científica na psicanálise. O treinamento para psicanálise deveria mudar, de forma que uma parte das pessoas formadas se dedicasse exclusivamente à pesquisa.

Como será possível provar a eficácia da psicanálise em termos objetivos? Seria como comparar a eficácia de uma droga a um placebo?

Você conhece Aaron Beck? Ele era um psiquiatra da Universidade da Pensilvânia, uma pessoa incrível, que já estava interessado em testar as idéias de Freud 40 anos atrás. Freud afirmava que pessoas deprimidas têm uma grande carga de ira que se volta contra elas mesmas, de maneira inconsciente.

Ele ouvia então os relatos de sonhos dos pacientes --pois os sonhos são "a estrada de ouro" para se acessar o inconsciente-- e descobriu que esses pacientes não estavam mais irados que qualquer outra pessoa. Essas pessoas, porém, tinham uma distinção característica: elas se consideravam "perdedoras" na vida. Achavam que tinham falhado no casamento e no trabalho, que não eram bons pais etc.

Quando Beck tentou olhar para o que estava acontecendo, ele viu que muitos deles na verdade estavam se saindo bastante bem em suas vidas. Beck, então, apontou a discrepância entre como esses pacientes achavam que estavam se saindo e como eles realmente funcionavam na vida. Ele os ajudou a mudar a maneira de pensar e de funcionar, e isso foi possível com umas 20 sessões de terapia.

Ele escreveu então um livro com sua "receita", e outras pessoas seguiram seu método, com sucesso.

Depois disso Beck criou grupos para comparação: um grupo de pessoas que não recebiam nada além de medicamentos antidepressivos e um de pessoas que passaram por seu método, a terapia cognitivo-comportamental. Depois, comparou o desempenho de cada um com placebo.

Ele viu que em casos de depressão suave ou moderada, esse tipo de psicoterapia era tão bom quanto inibidores seletivos de recaptação de serotonina [principal classe de drogas antidepressivas]. Em casos de depressão severos a diferença não era tanta, mas o efeito da psicoterapia combinado com os medicamentos era melhor que o das pílulas sozinhas.

Isso foi um marco sobre como estudos podem avaliar os resultados da psicoterapia. É por isso hoje que o sistema de saúde britânico reembolsa gastos de pacientes de terapia cognitivo-comportamental, mas não os de outros tipos de psicoterapia.

É isso que precisa ser feito com a psicanálise. É preciso ter um grupo de controle, um grupo experimental, um placebo. É preciso comparar a psicanálise à terapia cognitivo comportamental.

Já existem algumas tentativas de se fazer isso hoje, e elas parecem encorajadoras. É possível imaginar que alguns pacientes precisem de uma abordagem que os ajude a olhar melhor para si próprios, algo que a terapia cognitivo-comportamental não faz. Ela é um tipo de terapia que não discute com você como sua mãe e seu pai te tratavam. Ela lida com o aqui e agora.

Em algumas circunstâncias, ela pode funcionar bem, mas em outras talvez seja preciso explorar melhor o passado da pessoa, onde a psicanálise ajudaria. É preciso descobrir quais são essas circunstâncias.

Não existe hoje uma aceitação maior de que a mente descrita por Freud possui estruturas correlatas no cérebro, como o id, o ego e o superego?

Sim. O córtex pré-frontal está muito relacionado à moralidade e ao julgamento de valores, por exemplo. Uma lesão nessa região do cérebro pode tornar uma pessoa amoral, um psicopata.

Mas acima disso, a ideia geral de Freud sobre processos mentais inconscientes é muito importante para nossas vidas. Boa parte de nossa atividade mental é inconsciente. Isso acabou se mostrando uma verdade universal.

Por que os EUA não se encorajaram com as idéias de Freud?

Há muitas razões. A principal delas é que psicanálise é absurdamente cara e leva muito tempo. Hoje, todos nós temos menos tempo do que dispúnhamos duas décadas atrás. Isso é verdade para acadêmicos, para homens de negócios e para pessoas que poderiam pagar pela psicanálise.

Um outro problema é que, nos círculos médicos, a psicanálise havia prometido algo que não poderia cumprir.

Greta Bibring, uma charmosa vienense discípula de Freud, foi chefe do departamento de psiquiatria na Escola Médica de Harvard entre as décadas de 1950 e 1960. Ela era muito admirada lá e convenceu as pessoas de que a psicanálise iria solucionar todos os problemas que a medicina não conseguia resolver naqueles dias.

Isso foi antes de existirem tratamentos eficientes para hipertensão, por exemplo, e outros tipos de problema que só vieram a ser mais bem compreendidas depois. A promessa de Bibring é que várias dessas doenças eram psicossomáticas e poderiam ser resolvidas com psicanálise.

Quando ficou claro que nenhuma dessas doenças reagia à psicanálise, houve uma grande decepção, e isso desencorajou muitos médicos acadêmicos que antes apoiavam Freud. Foi uma grande perda.

Depois disso veio a pressão do dinheiro, a pressão do tempo, vieram as psicoterapias de curto prazo e as vieram as drogas psiquiátricas _Prozac e companhia limitada. As pessoas começaram buscar a saúde mental de outras maneiras.

O sr. passou também passou a infância em Viena, quando Freud ainda vivia lá, e também teve de fugir do nazismo. Isso o influenciou em sua maior aceitação à psicanálise?

Isso teve efeitos positivos e negativos em mim. De um lado, parte de minha vida era superar o transtorno do estresse pós-traumático, porque foi uma experiência terrível. Mas eu fui influenciado pela cultura de Viena, tinha muitos amigos cujos pais eram psicanalistas, e tinha interesse nisso. Só desisti da psicanálise quando me apaixonei pela neurobiologia.

Eu deixei Viena aos nove anos com meu irmão de catorze. Nós cruzamos o Atlântico depois, cada um de nós sozinho. Talvez eu estivesse aterrorizado, mas não me lembro muito bem disso. Meus pais vieram para cá alguns meses depois. Houve um estranhamento. Eu era um forasteiro aqui nos EUA, usava roupas europeias não falava inglês, não tinha dinheiro...

Mas acho que a origem do meu interesse em transtorno pós-traumático é diferente. Eu me interessava por psicanálise e me interessei pelos mecanismos de armazenamento de memória porque é um assunto central da psicanálise.

Acabo de finalizar meu novo livro "The Age of Insight", que tenta combinar neurociência e arte, do século 19 até aqui. Está previsto para sair em março. É uma tentativa minha de passar isso a limpo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Los cerebros esquizofrénicos tienen la capacidad de regenerarse

http://www.muyinteresante.com.mx/ciencia/16/05/31/cerebro-esquizofrenia-regeneracion-enfermedad-cura/

Los cerebros esquizofrénicos tienen la capacidad de regenerarse

 

Los cerebros esquizofrénicos tienen la capacidad de regenerarse
Ciencia 31/05/16
Científicos han encontrado nuevas pruebas de cómo los cerebros afectados por la esquizofrenia son capaces de reorganizarse y luchar contra la enfermedad. Es una nueva vía prometedora para nuestra comprensión de la esquizofrenia, y se podría hallar cura para una enfermedad que se estima que afecta a más de 21 millones de personas en todo el mundo.

El estudio encontró que, cuando se trata de volumen  gris de la materia, el efecto reparador con el tiempo en realidad hace que el cerebro de los pacientes esquizofrénicos llegue a ser más como el cerebro de las personas sin la enfermedad, lo que podría ayudar a encontrar nuevas formas de desarrollar tratamientos para la condición.

Durante éste, se analizó a 98 personas con esquizofrenia, y 83 personas que no tienen. Encontraron un pequeño aumento en el tejido en ciertas partes del cerebro en el grupo de la esquizofrenia después se tomaron imágenes por resonancia magnética. Esos pequeños incrementos se observaron junto con cantidades reducidas de materia gris en otras áreas. Este descubrimiento va en contra de la opinión establecida y generalmente aceptada de la esquizofrenia como una enfermedad que daña el tejido cerebral permanente en sus etapas iniciales, que no se puede revertir.

Si bien es sólo un pequeño estudio con una relativamente pequeña muestra de pacientes examinados, pero si los resultados pueden ser replicados, podría señalar un cambio serio en la forma en que los científicos y los médicos piensan en la enfermedad.

"Nuestros resultados ponen de manifiesto que a pesar de la gravedad del daño a los tejidos, el cerebro de un paciente con esquizofrenia está constantemente tratando de reorganizarse, posiblemente para rescatarse a sí mismo o limitar los daños", explicó Lena Palaniyappan del Instituto de Investigación de la Salud Lawson en Canadá.

Palaniyappan y sus colegas utilizaron una técnica llamada análisis de covarianza para estudiar los cerebros de esquizofrénicos más ampliamente de lo que se estudiaron en el pasado, encontrando que los cerebros dañados se desvían de la norma más importante desde el principio en el progreso de la enfermedad.

"Los resultados sugieren que en términos de volumen de materia gris, los cerebros de pacientes esquizofrénicos se vuelven " normales" son el tiempo," aseguró Rhodi Lee.

Todavía no se sabe qué causa la esquizofrenia, y la mayoría de las medicinas y terapias están diseñadas para reducir los efectos y permitir que los pacientes vivan una vida más normal.

 

terça-feira, 5 de julho de 2016

FALSAS PROMESSAS FARMACÊUTICAS

FALSAS PROMESSAS FARMACÊUTICAS

Acaba de surgir mais uma falsa promessa da indústria farmacêutica; o Modafinil, que prega conseguir uma melhor performance do cérebro e ainda não ter efeitos colaterais. Mais uma farsa para produzir consumidores em larga escala.

http://hypescience.com/remedio-que-melhora-cerebro/

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Psychiatric Drug Withdrawal A Guide for Prescribers, Therapists, Patients and their Families

Dr. Breggin's book, Psychiatric Drug Withdrawal, is the best resource he recommends for considering how to taper off psychiatric drugs and actions one can take to improve one's life and health. Dr. Breggin says: "Nothing in the field of mental health will do more good and reduce more harm than encouraging withdrawal from psychiatric drugs."

http://breggin.com/index.php?option=com_content&task=view&id=296&Itemid=129

Psychiatric Drug Withdrawal
A Guide for Prescribers, Therapists,
Patients and their Families
 
By Peter Breggin, M.D.
  

Springer Publishing Co. 2013

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Smart drugs não existem!

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6486&secao=487

Smart drugs não existem!

Ahmed Dahir Mohamed é crítico contumaz à ideia de “drogas inteligentes”. Para ele, são medicamentos para outros fins que acabam tendo outros usos por pressão social

Por: Ricardo Machado | Edição João Vitor Santos | Tradução Moisés Sbardelotto

O professor Ahmed Dahir Mohamed, da Universidade de Nottingham, acredita que discutir o conceito de smart drugs é como construir um castelo de areia, passível de vir abaixo com qualquer brisa. Ele vai direto ao ponto: “Não há tais coisas chamadas de “drogas inteligentes” [smart drugs], porque elas não existem”. Sua crítica começa desde a conceituação semântica. “O problema é que as pessoas usam a expressão smart drugs na mídia e na literatura. Como jornalista, você sabe que a linguagem é importante, por isso temos de ter cuidado ao usar as palavras erradas para descrever um fenômeno”, dispara, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.
Na perspectiva de Mohamed, “o que as pessoas têm chamado de smart drugs são drogas que são medicamente reguladas para o tratamento de problemas clínicos”. Entretanto, por uma espécie de pressão social, essas drogas passam a ser administradas por indivíduos saudáveis a fim de potencializar sua capacidade cognitiva. “Esses medicamentos podem ajudar pessoas com problemas clínicos, o que é uma coisa inteligente que eles se destinam a fazer, mas não fazem coisas ‘inteligentes’ em prol ou para a pessoa saudável”, explica. “Há um potencial considerável para a coerção indireta resultante de uma ‘sociedade 24/7’ [24 horas, sete dias por semana] altamente exigente, em que indivíduos saudáveis se sentem compelidos a tomar esses medicamentos, a fim de atender as demandas sociais e do trabalho”, completa.
Para o pesquisador, é preciso não ceder a esse apelo, pois “o indivíduo ainda tem a escolha de participar ou não dessa cultura”. Além disso, seus estudos comprovam que o uso desses remédios sem necessidade clínica pode causar efeito contrário, comprometendo capacidades cognitivas. É o caso dos trabalhos com o modafinil. “Tomar modafinil parece reduzir a criatividade ou o pensamento ‘fora da caixa’ em pessoas saudáveis que normalmente são criativas”, aponta.
Ahmed Dahir Mohamed é psicólogo licenciado e registrado no Reino Unido e membro associado da Sociedade Britânica de Psicologia. Atualmente, é membro do pós-doutorado e professor adjunto de Psicologia (Neurociência do Desenvolvimento Cognitivo e Afetivo) na Escola de Psicologia no campus da Malásia da Universidade de Nottingham. Ainda possui licenciatura em Psicologia pela Universidade de Reading, Reino Unido. Obteve seu doutorado no Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina Clínica da Universidade de Cambridge. Também é professor visitante de Neurociências e Ética no Centro de Bioética da Universidade de Otago, Nova Zelândia. Tem publicações na área de neurociências e neuroética do melhoramento cognitivo e do bem-estar subjetivo. Acaba, agora em 2015, de completar a coedição de um livro pela Oxford University Press, intitulado Rethinking Cognitive Enhancement: The Neuroscience of Cognitive and Physical Enhancement, com o professor Wayne Hall (Universidade de Queensland, Austrália) e o professor Ruud Ter Meulen (Universidade de Bristol, Reino Unido). 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que são as smart drugs?
Ahmed Dahir Mohamed – Não há tais coisas chamadas de “drogas inteligentes” [smart drugs], porque elas não existem. O que as pessoas têm chamado de smart drugs são drogas que são medicamente reguladas para o tratamento de problemas clínicos, tais como a narcolepsia, o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e assim por diante. Quando as pessoas usam essas drogas medicamente reguladas para outros fins, tais como tentar ficar acordado por mais tempo ou tentar fazer mais festa, a mídia e o público desinformado, assim como os pesquisadores, que têm uma agenda, rotulam essas drogas como “drogas inteligentes”.
Um exemplo disso é a droga chamada de Modafinil . Esta é uma droga sobre a qual eu fiz uma extensa pesquisa. É uma droga clinicamente regulada e está licenciada para o tratamento da narcolepsia. Muitas pessoas pensam que é uma droga inteligente, porque elas pensam que, se ela deixa uma pessoa com narcolepsia acordada, ela vai ajudar a me manter alerta e focado como uma pessoa saudável. Então, rotulam essa droga e outras como ela como smart drugs, mas elas não são realmente “drogas inteligentes”, são apenas medicamentos controlados que já existem há muito tempo.
Esses medicamentos podem ajudar pessoas com problemas clínicos, o que é uma coisa inteligente que eles se destinam a fazer, mas não fazem coisas “inteligentes” em prol ou para a pessoa saudável. Então, para responder a suas perguntas, eu não sei o que são smart drugs dentro do contexto que você está me pedindo para descrevê-las, como a melhoria da cognição em pessoas saudáveis, simplesmente porque elas não existem.

IHU On-Line – Que tipo de pesquisa tem sido feito sobre esse tema?
Ahmed Dahir Mohamed – Têm sido realizados estudos para investigar se as substâncias médicas que estão licenciadas para distúrbios clínicos podem, de fato, melhorar ou aumentar a cognição e a emoção em indivíduos saudáveis. Essa pesquisa é feita mediante ensaios duplo-cego controlados com placebo. No entanto, a maior parte dessa pesquisa, se não toda ela, é feita com uma dose única, de modo que os participantes tomam uma substância ativa uma vez, e, depois, os pesquisadores avaliam seus desempenhos em várias tarefas.
É importante saber que os resultados da pesquisa, quando avaliados objetivamente, mostram que essas drogas não melhoram a cognição e a emoção em indivíduos saudáveis. A pesquisa também mostra que os estudos que são realizados são de fraca potência. Isso significa que os próprios estudos não são grandes o suficiente para gerar resultados que sejam significativos no mundo real e que não se pode confiar nos resultados. Mesmo quando você olha para esses estudos, os resultados não são promissores. Essas drogas não ajudam indivíduos saudáveis, muito menos os tornam “inteligentes”. Esses resultados não são surpreendentes, porque essas drogas são feitas para distúrbios clínicos, não para o indivíduo saudável que quer ficar “inteligente”.

IHU On-Line – De acordo com essa pesquisa, quais são os medicamentos mais usados como drogas inteligentes?
Ahmed Dahir Mohamed – Entre os indivíduos saudáveis, as drogas mais populares que as pessoas relatam que estão tomando incluem o metilfenidato (Ritalina)  e a dextroanfetamina (ou Adderall) , que são ambos medicamentos controlados e licenciados para o tratamento da ADHD [transtorno do déficit de atenção com hiperatividade], e o modafinil (ou rProvigil), que também é um medicamento controlado e licenciado para a narcolepsia.

IHU On-Line – O que faz as pessoas usarem smart drugs?
Ahmed Dahir Mohamed – Em primeiro lugar, o problema é que as pessoas usam a expressão smart drugs na mídia e na literatura. Como jornalista, você sabe que a linguagem é importante, por isso temos de ter cuidado ao usar as palavras erradas para descrever um fenômeno. Como eu disse anteriormente, as smart drugs não existem. O que existe são substâncias médicas controladas que são reguladas e licenciadas para problemas clínicos ou médicos particulares.
Agora, respondendo à sua pergunta sobre por que as pessoas (saudáveis) tomam tais substâncias: é porque elas querem obter uma vantagem — isso significa que elas querem obter um melhor desempenho em uma determinada tarefa. Por exemplo, há uma forte evidência para sugerir que jovens saudáveis que não têm um bom desempenho no colégio ou na universidade tomam essas drogas porque pensam que o fato de tomá-las vai fazer com que eles tenham um melhor desempenho academicamente. Outros tomam esses medicamentos porque querem fazer festa por mais tempo e sentem que vão receber um impulso de energia.
Há todos os tipos de razões pelas quais as pessoas tomam essas drogas, mas quando você olha para as evidências, não é bem o caso de que elas fazem uso dessas drogas porque querem ser “inteligentes” ou “ficar mais inteligentes”. Ao longo da história, o caso é que camadas da população tomam drogas para fins recreativos, e isso não mudou. A sociedade e a natureza humana não mudaram de repente de modo que as pessoas estão pensando que vão ficar mais inteligentes “tomando comprimidos”. É provável que as pessoas tomem esses medicamentos para ficarem “chapadas” [get “high”]. Essa é a prova que é atualmente disponibilizada pelas pesquisas feitas nos EUA. A evidência de que pessoas saudáveis que já têm um bom desempenho querem tomar essas drogas para ficarem “mais inteligentes” simplesmente não existe.

IHU On-Line – Quais são os efeitos reais das drogas contra a narcolepsia, como o Modafinil?
Ahmed Dahir Mohamed – O Modafinil é uma droga médica controlada, que é licenciada para o tratamento da narcolepsia, mas não está muito claro como ela funciona no cérebro e no corpo. Vários estudos indicam que o modafinil aumenta vários neurotransmissores no cérebro, incluindo a dopamina , a noradrenalina , a serotonina  e o glutamato , e em várias regiões do cérebro, incluindo o córtex pré-frontal, o hipocampo, o hipotálamo e o corpo estriado.
Essas são grandes áreas no cérebro que estão associadas com muitas funções, incluindo o aumento da atenção e da vigilância, a recompensa, o prazer e outras diversas ações complexas. É provável que essa droga esteja melhorando alguns déficits em pacientes narcolépticos ao melhorar algumas funções cerebrais que já não estão funcionando bem nesses pacientes. No momento, não sabemos como isso afeta a pessoa saudável.

IHU On-Line – Podemos dizer que as “vantagens” que os usuários de modafinil atribuem à droga são efeitos placebo?
Ahmed Dahir Mohamed – Talvez, embora eu não esteja certo disso. O que eu sei, a partir da minha pesquisa, é que o modafinil é outra forma de psicoestimulante e que, pelo fato de aumentar a dopamina – que é um neurotransmissor produtor de recompensa –, o modafinil pode ter um efeito psicoestimulante e pode gerar uma sensação recompensadora para indivíduos saudáveis que o tomam, mesmo que, na realidade, ele não os torne melhores na realização de tarefas laboratoriais objetivas. Isso é o que demonstramos nos nossos estudos de pesquisa.

IHU On-Line – Qual é o funcionamento químico-cerebral desse tipo de medicamento?
Ahmed Dahir Mohamed – Vários estudos indicam que essas drogas aumentam diversos neurotransmissores no cérebro, incluindo a dopamina, a noradrenalina, a serotonina e o glutamato, em várias regiões do cérebro. Existem evidências de que essas drogas também têm um efeito sobre o corpo e, como sempre há uma conexão corpo e mente, não está claro como essas drogas têm um efeito sobre o corpo.

IHU On-Line – Que efeitos colaterais podem ser atribuídos ao uso desse tipo de drogas?
Ahmed Dahir Mohamed – Estudos experimentais mostraram que o modafinil, por exemplo, pode causar sérios efeitos colaterais, que incluem um prurido e reações alérgicas. Esses efeitos colaterais incluem boca seca, restrição do apetite, perturbações gastrointestinais, incluindo náuseas, diarreia, constipação e dispepsia, dor abdominal, taquicardia, vasodilatação, dor no peito, palpitações, dor de cabeça, incluindo enxaqueca, ansiedade, distúrbios do sono, tonturas, sonolência, depressão, confusão, parestesia, astenia, perturbações visuais, síndrome de Stevens-Johnson  e necrólise epidérmica tóxica.
As contraindicações dessas drogas incluem problemas cardíacos e deficiências hepáticas. Além disso, se alguém estiver tomando outros medicamentos, poderá haver interações farmacológicas, que poderiam ser perigosas em alguns casos. É importante notar que a Ritalina, por exemplo, tem sido associada com o crescimento atrofiado e a impotência em homens. Por favor, é sempre importante consultar o Formulário Nacional Britânico  e as bulas fornecidas pelos fabricantes. Elas vão dizer a você quais são os potenciais efeitos colaterais.

IHU On-Line – Até que ponto medicamentos como a Ritalina, dirigida aos vários tipos de déficit de atenção, também são considerados como drogas inteligentes?
Ahmed Dahir Mohamed – Eu já respondi à sua pergunta. Essas drogas são substâncias médicas. Não são, na minha opinião, “drogas inteligentes”. Elas são drogas médicas controladas que só podem ser acessadas através de um médico que tem a autoridade para prescrevê-las.

IHU On-Line – É a pessoa ou o modelo hegemônico de sociedade que, em última análise, precisa de medicamentos?
Ahmed Dahir Mohamed – Não tenho certeza se entendi a sua pergunta, mas, se você está perguntando se é o indivíduo ou a sociedade que está dirigindo esse novo fenômeno, então eu diria que tem a ver com ambos. Também há um potencial considerável para a coerção indireta resultante de uma “sociedade 24/7” [24 horas, sete dias por semana] altamente exigente, em que indivíduos saudáveis se sentem compelidos a tomar esses medicamentos, a fim de atender as demandas sociais e do trabalho. Por exemplo, estamos trabalhando mais horas. Temos filhos para criar e queremos fazer inúmeras coisas. Portanto, indivíduos saudáveis podem recorrer à automedicação por causa do sono inadequado ou do esforço excessivo no trabalho.
Por exemplo, 33% dos entrevistados de uma recente pesquisa feita pela prestigiada revista científica Nature indicaram que se sentiriam pressionadas a dar medicamentos para seus filhos se outras crianças na escola os estivessem tomando. Ainda pode haver pressões sociais para usar drogas médicas, particularmente entre os jovens. Uma recente pesquisa realizada nos EUA revelou que os estudantes universitários são mais propensos a tomar medicamentos se tais drogas forem eficazes e enquadradas como não ameaçadoras à sua individualidade, que as tomariam se elas os tornassem mais competitivos e lhes dessem uma vantagem. Portanto, isso levanta a questão ética que surge a partir do uso de medicamentos por causa da pressão social indireta da sociedade, que exige que constantemente nos demos bem em todas as tarefas em todas as áreas das nossas vidas. No entanto, o indivíduo ainda tem a escolha de participar ou não dessa cultura.

IHU On-Line – Há algo que você gostaria de acrescentar?
Ahmed Dahir Mohamed – Na Universidade de Cambridge, realizamos diversos ensaios clínicos controlados com placebo, randomizados, adequadamente potencializados e de efeito de tamanho para investigar os efeitos do modafinil em funções executivas, na memória de trabalho, na criatividade e na motivação em indivíduos “normais” saudáveis. Os resultados desses ensaios sugerem que o modafinil não melhora a cognição nesse grupo, mas faz com que eles respondam de forma mais lenta a tarefas que medem funções executivas (isto é, planejamento e tarefas de resolução de problemas) e de aprendizado por reforço motivacional.
Além disso, tomar modafinil parece reduzir a criatividade ou o pensamento “fora da caixa” em pessoas saudáveis que normalmente são criativas, ao mesmo tempo que aumenta a criatividade naquelas pessoas que são menos criativas. Tomados em conjunto, nossos resultados sugerem que o modafinil pode beneficiar pessoas que têm déficits cognitivos, mas pode prejudicar o funcionamento psicológico complexo naquelas que já são capazes. Como esses resultados são de uma única dose de ensaios de modafinil como medicamento psicoestimulante, o potencial aditivo do modafinil em pessoas saudáveis é desconhecido e precisa ser cuidadosamente investigado.
É importante notar que nós usamos algumas das mais sofisticadas e desafiadoras tarefas cognitivas e de criatividade disponíveis na neurociência. Os nossos resultados mostram que essas tarefas, que são altamente válidas e confiáveis, não foram impulsionadas pela administração do modafinil em indivíduos “normais” saudáveis. De fato, os nossos resultados mostram o oposto: que o modafinil prejudica a cognição e a criatividade em adultos jovens saudáveis. Também é importante notar que o modafinil é usado como medicamento substitutivo para pacientes com vício em cocaína, porque a droga ativa áreas do cérebro similares assim como a cocaína e possui propriedades semelhantes à cocaína. Portanto, os indivíduos saudáveis precisam ter cuidado e levar em consideração a sua segurança antes de tomá-lo. Dado esse ponto e a partir dos nossos resultados negativos, eu não recomendaria esse medicamento para pessoas saudáveis e não o rotularia como “droga inteligente”. ■

sábado, 25 de junho de 2016

Como assim a culpa é do cérebro?

http://psicologiadospsicologos.blogspot.com.br/2016/06/como-assim-culpa-e-do-cerebro.html

quinta-feira, 23 de junho de 2016


Como assim a culpa é do cérebro?

No dia 21 de Junho a revista Galileu publicou a seguinte notícia em seu site: "Comportamento antissocial é culpa do cérebro". Gostaria de fazer algumas considerações sobre esta matéria e também sobre a pesquisa lhe que serviu de base. Pois bem, um grupo de pesquisadores de diversos países, encabeçados pelo psicólogo inglês Graeme Fairchild, colocou 58 adolescentes diagnosticados com "transtorno de conduta" (grupo experimental) em uma máquina de ressonância magnética e mediu a espessura de 68 partes do córtex de seus cérebros, comparando-as com a de 25 adolescentes da mesma faixa etária não diagnosticados com o "transtorno" (grupo controle). E o que encontraram? De forma bem resumida, os pesquisadores apontaram para importantes diferenças entre os dois grupos no que diz respeito à estrutura cerebral. Mais especificamente, afirmaram ter encontrado significativas "diferenças quantitativas na organização estrutural" do cérebro tanto entre o grupo experimental e o grupo controle quanto dentro do próprio grupo experimental - que foi dividido em dois grupos: transtorno de conduta (1) com início na infância e (2) com início na adolescencia. Segundo os pesquisadores, o grupo experimental (1) apresentou mais semelhanças na espessura de diversas partes do córtex do que o grupo experimental (2) e do que o grupo controle, o que aponta para o entendimento de que adolescentes que desenvolveram transtorno de conduta quando crianças possuiriam um cérebro menos especializado ou diverso do que aqueles que desenvolveram o transtorno mais tarde e, especialmente, do que aqueles que não desenvolveram o transtorno. Os pesquisadores, entretanto, não compreendem ainda qual a relação entre menor especialização cortical e comportamento antissocial. E o que a revista Galileu, e até certo ponto o próprioFairchild neste texto, concluem dos resultados deste estudo? Que o "desvio de conduta" é um trantorno psiquiátrico real (e não uma uma "forma exagerada de rebelião adolescente") porque é causado pelo cérebro - que seria, então, o verdadeiro "culpado" pelo problema. Especialmente a revista, em sua ânsia de criar uma manchete bombástica, mas também o pesquisador ao tentar "traduzir" os resultados de sua pesquisa, cometem uma série de erros, que analisarei abaixo.

Em primeiro lugar, a revista e o pesquisador atribuem realidade somente àquilo que possuiria uma "realidade cerebral" - e com isso cometem um equívoco que o pesquisador Eric Racine chama de "neurorealismo", que é a crença de que encontrar alterações cerebrais provaria a existência ou a realidade de determinados sentimentos ou transtornos. Na verdade, descobrir que existem diferenças entre pessoas diagnosticadas e não-diagnosticadas não prova que este ou aquele transtorno é real. Aliás, o que isto significa? O que seria uma transtorno irreal? A partir do momento em que a Associação Psiquiátrica Americana (APA) escolhe classificar determinados comportamentos como "transtornos" e os insere no DSM, o diagnóstico passa a ser real. Não é a pesquisa neurocientífica que confere realidade ao transtorno, mas o consenso entre as "autoridades" de que se trata "realmente" de um transtorno. Esta ideia de que é o consenso que cria a realidade vale não só para transtornos psiquiátricos, mas para muitas outras coisas. Por exemplo: o amor é real? E o dinheiro? E as leis? A resposta para todas estas perguntas é sim, são reais, pois acreditamos que sejam. O amor, por exemplo, não tem qualquer realidade física, mas ninguém duvida de sua existência. Da mesma forma  o dinheiro: uma nota de 10 reais não tem qualquer valor em si; seu valor é consequência de um consenso social de que aquilo possui de fato algum valor. O mesmo vale para as leis: elas existem porque acreditamos e agimos como se elas existissem. Tudo isto aponta para o fato de que a referida pesquisa não teria como conferir realidade ao transtorno de conduta, sendo possível apenas concluir que as pessoas previamente diagnosticadas com tal transtorno e que participaram do experimento, possuem determinadas caracteristicas cerebrais semelhantes - embora não exatamente iguais. Mas mesmo tal conclusão não pode ser generalizada para todas as pessoas com tal diagnóstico (e muito menos para todas as pessoas antissociais, tímidas ou problemáticas do mundo), em função do pequeno número de pessoas pesquisadas, apenas 58. 
De toda forma - e este é o segundo e mais importante erro - isto não significa que são estas características cerebrais que causam determinado comportamento, por exemplo, o comportamento antissocial. É bem possível aliás, que ocorra o contrário: que o comportamento antissocial cause ou contribua para a constituição de determinadas características cerebrais. Peguemos uma outra situação: imaginemos que cientistas coloquem pessoas anoréxicas em um equipamente de ressonância magnética e encontrem, comparativamente com um grupo não-anoréxico, uma maior "ativação" de determinadas áreas do cérebro. Isto significa que são estas áreas que causam a anorexia ou que, por exemplo, a falta de uma alimentação adequada afeta a "ativação" de tais áreas? Ou então imaginemos que cientistas coloquem pessoas apaixonadas em um moderno equipamento de tomografia e constatem, após exibir para elas uma série de imagens da pessoa amada, que determinadas áreas são "ativadas". Isto significa que são estas áreas que causam a paixão? Ou quer dizer, pelo contrário, que a ativação destas áreas é consequência desta paixão? Dizer que o cérebro causa tal ou qual comportamento ou, pior, que "a culpa é do cérebro", é um erro primário, que cientistas costumam evitar (nem sempre), mas que jornalistas e divulgadores científicos cometem todos os dias. Este argumento simplista de que a "culpa é do cérebro" também tem sido constantemente usado nos tribunais por advogados de defesa na criação de justificativas para determinados crimes (este video do Porta dos Fundos, embora trate da utilização da astrologia no tribunal, ironiza justamente estas explicações que tentam anular a responsabilidade do indivíduo por suas ações). Em comum entre advogados e divulgadores científicos está, neste caso, o entendimento de que é o cérebro que causa a mente e o comportamento. O grande problema destas explicações supostamente neurocientíficas é que elas ignoram a própria neurociência e os neurocientistas contemporâneos, que tem disseminado um entendimento muito menos determinista e mais dinâmico do cérebro e da mente. A ideia de plasticidade cerebral aponta justamente para o entendimento de que não só o cérebro "causa" a mente e o comportamento, mas também que estes "causam" mudanças no cérebro. Isto significa que, exceto em casos muito graves e raros, não é o cérebro o único responsável por nossas ações. Como afirmam Sally Satel e Scott Lilienfeld, no sensacional livro Brainwhashed: the seductive appeal of mindless neuroscience, "nossas decisões são inevitavelmente produto de uma vasta gama de influências - nossos genes (e a história evolucionária que eles representam), os mecanismos dos nossos cérebros, nossa criação, assim como o ambiente  físico e social em que vivemos". Todas estas forças convergem para a produção de nossos pensamentos e ações. O cérebro é "apenas" mais um elemento em cena.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Solução para esquizofrenia

A única coisa que uma pessoa considerada esquizofrênica precisaria fazer para ser considerada racional seria viver as crenças do próprio círculo social pois esse círculo social é fonte do reconhecimento de racionalidade ou de capacidade para racionalidade. Basicamente as crenças são maneiras de governar as pessoas. Quando alguém não aceita ser governado é chamado de esquizofrênico. Não pode ser livre conforme a própria forma de organizar outra racionalidade sub-hegemônica.

Outra consequência disso é não abrir em público as próprias crenças se estas estão contrárias ou são diferentes do ambiente social. Apenas seria confissão desnecessária de irracionalidade. O que mostra que o direito humano de liberdade de crença não é respeitado.

Infelizmente, uma vez considerado diferente e bizarro não tem mais volta por causa do pensamento psiquiátrico em relação à incurabilidade das consideradas como doenças psiquiátricas.