Contemporaneamente foi criado um imaginário de que pessoas com características de autismo tem um grande potencial de realização em suas áreas de atuação. Ao mesmo tempo, uma realidade paralela do autismo é a deficiência profunda. O senso comum médico é de que o potencial e a deficiência profunda são características que ocorrem naturalmente a partir de uma predisposição em termos do pensamento de Kraeplin. O tratamento padrão-ouro do autismo é a análise do comportamento aplicada, o qual em termos simples é uma forma de aceleração da aprendizagem. Portanto, o imaginário de capacidade da pessoa com características de autismo foi criado a partir da aceleração da aprendizagem da análise do comportamento aplicada, mas entendido de forma Kraepliana. O fenômeno cultural da pessoa com características de autismo com potencial de realização deveria ser entendido como um resultado da qualidade do tratamento padrão-ouro em análise aplicada do comportamento. Como acontece habitualmente, os bons resultados da análise experimental do comportamento perdem a ligação com sua origem quando se inserem no senso comum.
Limitações da psiquiatria biomédica Controvérsias entre psiquiatras conservadores e reforma psiquiátrica Psiquiatria não comercial e íntegra Suporte para desmame de drogas psiquiátricas Concepções psicossociais Gerenciamento de benefícios/riscos dos psicoativos Acessibilidade para Deficiência psicossocial Psiquiatria com senso crítico Temas em Saúde Mental Prevenção quaternária Consumo informado Decisão compartilhada Autonomia "Movimento" de ex-usuários Alta psiquiátrica Justiça epistêmica
Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)
Aviso!
terça-feira, 30 de julho de 2024
segunda-feira, 22 de julho de 2024
Memória de trabalho - Funções cognitivas
Descrições de conceitos de "funções cognitivas" como essa apresentada da memória de trabalho em termos do componente comportamento do organismo (complementar ao componente de neurociência e característica orgânica do organismo da área de conhecimento Neurociência e Comportamento) são boas pistas para formular os conceitos cognitivos em termos de processos comportamentais e resultariam na descrição de múltiplos processos componentes. A "memória de trabalho" nesse caso é a manutenção de controle de estímulos adequados à tarefa. Manter controles de estímulos adequados à tarefa também exige comportamentos pré-requisitos para completar as tarefas com sucesso e ausência de comportamentos incompatíveis ou concorrentes. Exemplos de comportamentos pré-requisitos são repertório de comportar-se em relação aos textos lidos para alteração de controle de estímulos ou comportar-se em relação aos filmes para alteração de controle de estímulos (síntese de comportamentos).
sexta-feira, 19 de julho de 2024
Borderline/limítrofe e variação cultural/geográfica
sábado, 13 de julho de 2024
Teoria psiquiátrica e reforma psiquiátrica
A suposta necessidade de mais leitos psiquiátricos é uma consequência do conceito de que a "doença mental" (nos termos da psiquiatria biológica) é uma desregulação fisiológica e orgânica interna que só tem controle por meio de coerção física e tratamentos biológicos. Essa forma pensar envolve uma transformação de fatos contextuais em fatos acontextuais biológicos (reducionismo). Sobre a OMS estipular um número de leitos, isso é um número que deveria ser pensado de forma dinâmica de acordo com a rede de saúde mental e mesmo os recursos sociais disponíveis. Por causa da concepção teórica mencionada acima sobre a desregulação incontrolável não é visto como uma possibilidade reduzir leitos. A suposta necessidade de leitos também se fundamenta na ideia teórica de que as "doenças mentais" são progressivas e por isso só o hospital poderia tratar dos casos mais graves. A questão da radicalização da reforma psiquiátrica é um discurso que visa evitar que uma implementação das práticas da reforma psiquiátrica tornem essas concepções teóricas citadas provadas falsas e obsoletas de forma indiscutível. A questão de não ter psiquiatras disponíveis em alguns serviços entra na mesma necessidade de reprodução social das concepções teóricas. Se houvesse a implementação em larga escala de formas não medicalizadas de lidar com crises, essa concepção praticamente automática de "se crise, então medicina" se enfraqueceria assim como a influência dos psiquiatras e modos medicalizantes.
quinta-feira, 11 de julho de 2024
Mercado: terapia cognitiva, neuropsicologia e PBE
sexta-feira, 28 de junho de 2024
O senso comum, o TDAH e outros transtornos
Para aceitação, o tratamento psiquiátrico do TDAH recorre ao senso comum para se firmar. A percepção leiga da grande maioria das pessoas é que sucesso escolar é uma questão de atenção, inteligência e boa saúde cerebral. Esses requisitos são tomados como capacidades biológicas que estão dentro da pessoa. É mais desafiador compreender as relações (com o meio) de construção dessas características.
Seria interessante aprofundar na temática do senso comum e aceitação de tratamentos psiquiátricos ou tratamentos mais comuns. O uso do senso comum para aceitação de tratamentos envolve limitações de percepção mais comuns presentes na grande maioria das pessoas. Essas percepções são resultados de limitações estruturais de aprendizagem presentes na sociedade e cultura.
segunda-feira, 24 de junho de 2024
Coleta de dados individualizante e medicalização
A coleta de dados de depoimentos a partir de perspectiva individualizante (pessoa separada do seu meio) é um dos raciocínios da medicalização e patologização. O ponto de partida são os sinais de estranhamento que são interpretados a partir de um modelo organicista. Um coleta de dados não individualizante com foco no ambiente distribuído da pessoa é desafiadora de ser realizada através de conversa com uma pessoa dentro de um consultório.
Obs: Esse texto foi censurado pelo facebook.
domingo, 16 de junho de 2024
Behaviorismo e controle artificial por tecnologia
É geralmente difundido no imaginário social que o behaviorismo está associado com controle artificial do comportamento por meio de tecnologia (principalmente implantes cerebrais ou outras tecnologias). Esse discurso contribui para a percepção de que a questão dos determinantes do comportamento não está presente de forma abrangente e pervasiva no mundo natural e social (cotidiano). Esse forma de percepção contribui para que convivamos com problemas sem solução ou com "soluções" muito insuficientes, assim como a percepção insuficiente das relações de construção do cotidiano, sua manutenção e suas possibilidades de alteração. O tratamento abstrato dos fatos do ser humano implica em não percepção de eventos materiais que seriam acessíveis e modificáveis para uma vida e sociedade melhores.
quinta-feira, 6 de junho de 2024
Indústria do autismo vs indústria da esquizofrenia
Por que é bom que haja uma indústria do autismo? Caso não houvesse dinheiro circulando no mercado do autismo não haveria pesquisa em quantidade e qualidade para ofertar tratamentos de sucesso nem pessoas dispostas a ofertar os serviços. O tratamento do autismo de acordo com a análise do comportamento aplicada está bem estabelecido como evidência de padrão-ouro e essa qualidade de oferta movimenta dinheiro pela demanda social e disposição a pagar pelo serviço. Se há exageros ou não, o importante é que ainda há crianças com necessidades de aprendizagem e desenvolvimento. Não há mal nisso. Essa circulação toda da economia cria uma identidade positiva para o autismo e espaço na sociedade.
A circulação de dinheiro na esquizofrenia/loucura está em manter a cronicidade através de tratamento farmacológico vitalício e no gerenciamento de crises periódicas através de hospitais psiquiátricos. Houveram propostas interessantes de tratamentos, mas esses precisaram entrar na contramão e na desconstrução de um sistema de atenção altamente lucrativo. Além disso, esse diagnóstico não parece ter um padrão unívoco e homogêneo a partir do qual seria formulado um pacote de tratamento padrão ouro de evidências. Os tratamentos tem suas particularidades e necessidades próprias. Na época da contracultura foi conquistada uma certa identidade positiva para a loucura. Penso que isso também era uma tentativa de criar uma indústria mesmo que alternativa.
O ponto é que não se resolve problemas e demandas sociais sem indústrias. A reforma psiquiátrica também é um mercado e uma indústria. Acontece de o sucesso nos tratamentos criarem indústrias grandes e isso não é uma forma de capitalismo destrutivo nesses casos. Uma indústria de sucesso gera disputas econômicas com outras formas de indústria e não é por uma proposta ter inserção no setor público que esta esteja justificada como a mais desinteressada e benéfica.
[Esse texto foi censurado pelo Facebook]
terça-feira, 4 de junho de 2024
Probabilidade de falso positivo de diagnósticos
Peça para o ChatGPT 4 versão gratuita calcular a probabilidade bayesiana (de Bayes) de falso positivo de um diagnóstico psiquiátrico para a população em um país. O cálculo irá considerar a prevalência do diagnóstico na população definida. A probabilidade de falso positivo calculada resultará alta quanto mais rara for a prevalência. A maioria dos diagnósticos psiquiátricos terá probabilidade alta de falso positivo. A esse valor de probabilidade ainda é possível adicionar a porcentagem de concordância de diagnósticos entre psiquiatras diferentes (confiabilidade), a diferença de formação entre médicos e a subjetividade envolvida na tarefa.
Depois faça o mesmo para calcular a probabilidade bayesiana de falso negativo de um diagnóstico psiquiátrico em uma população definida. O resultado irá ser uma probabilidade muito baixa.
No entanto, esse cálculo é a probabilidade a posteriori (empírico) inicial. Novas evidências são incorporadas em cálculos a posteriori(s). É importante essa distinção para evitar confusão.
sábado, 25 de maio de 2024
A resposta psiquiátrica à crítica contracultural
quarta-feira, 22 de maio de 2024
Significado explícito de estabilidade de dose
O significado explícito de estabilidade de dose é:
Estabilidade de administração de curva de dosagem suficiente.
Detalhando mais a variável temos mais duas variáveis:
o nível mínimo da curva de dosagem
o grau de variação da curva de dosagem
É considerado um requisito necessário para a "compensação e estabilidade do quadro ou estado psiquiátrico orgânico".
terça-feira, 21 de maio de 2024
Saúde e doença: aprendizagem operante vs. medicalização
As concepções de saúde e doença segundo a aprendizagem operante e a concepção médica diferem quase que por oposição:
Na concepção de aprendizagem operante:
A vida é um processo difícil em que o ser humano vive sem aprender os pré-requisitos necessários (classes de comportamento operante).
Logo, a saúde é construída ativamente através da aprendizagem.
Na concepção médica:
A vida é um processo fácil para as pessoas intactas.
Logo, a saúde ocorre naturalmente sem necessidade de construção ativa de aprendizagens. Se houver esforço e dificuldade há patologia.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
Reforma psiquiátrica: comunidades multiculturais versus incorporação
A reforma psiquiátrica e luta antimanicomial analisada do ponto de vista sociopolítico é a busca da criação de uma comunidade multicultural da loucura com subsídios públicos, um padrão de esquerda.
A crítica que se faz à adaptação é a rejeição da incorporação à sociedade majoritária por ser vista como opressora e excludente para pessoas diferentes (fobia ao diferente).
A concepção de direita da loucura é que deve ser corrigida para possibilitar incorporação na sociedade majoritária. Por isso a ênfase nos tratamentos biológicos. Uma vez que possa haver dificuldade de incorporação recorre a formas de lidar com a exclusão.
terça-feira, 14 de maio de 2024
Transtornos mentais e padrões sociais
Para uma compreensão social das atribuições de transtorno mental como domínio de experiência seria preciso ampla compreensão de valores sociais, expectativas culturais, normas sociais, relações de poder e outros fenômenos sociais. Usos da razão, usos do corpo, valores estéticos, padrões de religiosidade, costumes, normas de higiene, expectativas de gênero, usos linguísticos, senso crítico sobre colonialismo, experiências de privação econômica e seus motivos, e muito mais. Felizmente essas caracterizações difíceis são substituíveis por acessíveis descrições de contingências de reforçamento e suas condições de satisfação ou modificação.
sexta-feira, 10 de maio de 2024
Ficções e controle instrumental material: integração
Mesmo se conceitos sejam ficções do ponto de vista ontológico (Meinong), os mesmo ainda retém algum grau de relações instrumentais de controle material do mundo (operar sobre variáveis materiais). Ficções contribuem para construir ambientes culturais materiais. No entanto, descrições conceituais ficcionais mantém relações diluídas com as relações instrumentais mesmo que seja apenas agir de acordo com um entendimento que contribui para a predição em algum grau. Para solucionar problemas de forma mais efetiva é desejável ter domínio da linguagem extensional das relações instrumentais de controle material ou aproximar-se em maior grau da linguagem de tipo. A antropologia trabalha com as noções de construção simbólica (perspectiva dos atores sociais) e controle material como dois aspectos das culturas e é nesse sentido que a integração é interessante.
sexta-feira, 3 de maio de 2024
Psiquiatria como área pró-social
Um dos motivos pelo qual a psiquiatria é comumente vista como área pró-social é pela equiparação com a medicina física e a percepção social de heroísmo angelical a respeito dos médicos em geral. O contraste de identidades sociais entre psiquiatras, pessoas bem ajustadas e pessoas estigmatizadas e marginalizadas é um fator talvez mais profundo. O prestígio pela sua relação com o externo e o outro (ver Em defesa da Sociedade de Foucault) é mantido pelo desconhecimento das práticas internas da psiquiatria que não são facilmente analisáveis. Mesmo que sejam analisadas as práticas, as emoções frente ao contraste identitário mencionado acima não favorece o reconhecimento de limitações das práticas. Por isso, uma área que se propõe a ser realmente pró-social mantendo o distanciamento crítico em relação à sociedade (reforma psiquiátrica antimanicomial e perspectiva crítica) é mal-vista como área pró louco e contra a sociedade.
quarta-feira, 24 de abril de 2024
A refutação do desequilíbrio químico é suficiente?
Refutar as hipóteses de desequilíbrio químico é suficiente, uma vez que o efeito externo sobre o comportamento é percebido como concreto e tranquilizador para observadores, e drogas psiquiátricas também são úteis para alterar comportamentos de interesse em interação com programas de reforço de acordo com exigências ambientais (contingências de reforçamento)? Será que as drogas psiquiátricas não são utilizáveis de forma positiva de acordo com uma base de conhecimentos mais objetiva que a utilizada atualmente? Será que a base de conhecimentos atual (um mosaico) que indica tratamentos padrão de acordo com diagnósticos genéricos não é parcialmente responsável pelos efeitos indesejados e inesperados? Uma vez conhecidos os efeitos de cada intervenção a partir de conhecimento experimental, estariam sendo produzidos efeitos indesejados e inesperados? A perspectiva crítica seria capaz de se tornar mainstream apenas recusando tratamentos biológicos e propondo tratamentos com base em conhecimento apenas social, tomando como ponto partida que as alegações da psiquiatria biológica tradicional sobre a doença mental são imprecisas e questionáveis?
quinta-feira, 18 de abril de 2024
Neurotransmissores e comportamento
A questão dos neurotransmissores como causa de emoções e comportamentos não é tão simples como se pensa porque administrar um deles não os gera necessariamente já que os neurotransmissores são componentes e atuam em conjunto. A alteração do corpo que influencia o comportamento é real e isso é convincente, mas isso acontece em interação com o histórico de relações aprendidas estabelecidas com o ambiente e a alteração de relações atuais no ambiente. Nessa perspectiva, você não prescreve drogas pra alterar um cérebro alterado fechado em si mesmo mas para alterar relações estabelecidas com o ambiente (comportamentos).
quarta-feira, 17 de abril de 2024
Ser produtivo e perspectivas ideológicas
Definir o que é produtivo é influenciado por perspectivas ideológicas
Alta psiquiátrica, eugenia e trabalho
terça-feira, 16 de abril de 2024
Usuários de drogas nas ruas e farmacologia comportamental
"Sem dúvida, existem múltiplos caminhos para a dependência de drogas. Um dos quais estou seguro de que existe é o seguinte. Considere um homem empobrecido e sem-teto vivendo nas ruas de qualquer centro urbano no mundo. Suponha que ele não seja um usuário de drogas. À medida que o tempo passa, seu desespero aumenta. Ele não tem comida suficiente nem mesmo água. Ele não tem condições de cuidar de suas necessidades pessoais. Sua saúde começa a se deteriorar. Ele é espancado e roubado de suas escassas posses com regularidade previsível. Ele vive em um ambiente que oferece pouco em termos de reforço. Seu horizonte de tempo é severamente reduzido. Ele não planeja para o futuro; apenas tenta sobreviver ao dia, ou momento. Ele vive em um ambiente que tem poucas, se houver, fontes alternativas de reforço. Se ele for introduzido às drogas, acredito que é quase certo que ele se torne dependente delas. Quando ele coloca uma agulha no braço e injeta heroína, será uma fonte de reforço extremamente poderosa que ele pode acessar. Poder-se-ia até sugerir que, sob as circunstâncias descritas, é compreensível do ponto de vista evolutivo por que alguém se envolveria em comportamentos de abuso de drogas. A droga fornece uma fonte confiável de reforço em um ambiente com pouca ou nenhuma chance de obter outras fontes de reforço.
A solução social óbvia para esse dilema seria para agentes externos fornecerem ao homem estabilidade, fornecendo-lhe as necessidades básicas da vida e oportunidades para se afastar do ambiente caótico. Se esse esforço for bem-sucedido, as fontes alternativas de reforço aumentarão em seu ambiente e a eficácia de reforço da droga diminuirá. Este é um dos métodos usados por agências de serviços sociais em grande parte do mundo com algum sucesso (por exemplo, Thompson, Sowell & Roll, 2009). Infelizmente, essas agências muitas vezes são subfinanciadas e incapazes de alcançar muitos daqueles que mais precisam de seus serviços. No entanto, dados epidemiológicos apoiam a ideia de que, se pudermos impedir que indivíduos entrem no caos do nosso homem hipotético, podemos evitar que eles se envolvam em um estilo de vida caracterizado pela dependência (por exemplo, Chilcoat & Johanson, 1998). Como mencionado anteriormente, este é apenas um dos muitos caminhos potenciais para a dependência de drogas. Pessoas que vivem em ambientes ricos em reforço potencial ainda podem desenvolver dependências. No entanto, só porque seu ambiente tem reforço disponível não garante que você terá as habilidades necessárias para acessar os reforços. O que foi mencionado acima é destinado a ser ilustrativo de um caminho para a dependência e o papel que o reforço desempenha nesse caminho. Acredito que seja um caminho comum, mas claramente não é o único caminho."
John M. Roll - Behavioral Pharmacology.A Brief Overview. Do livro "The Wiley Blackwell Handbook of Operant and Classical Conditioning" Edited by Frances K. McSweeney and Eric S. Murphy
Ciência e política
CIÊNCIA, UNIVERSIDADE E IDEOLOGA: a política do conhecimento Simon Schwartzman
segunda-feira, 15 de abril de 2024
Comportamento: fenômeno restrito versus abrangente
Noção de senso comum: Cérebro, mente, linguagem, sociedade e cultura são fenômenos abrangentes e comportamento é um fenômeno restrito.
Logo, compreender a extensão da expressão "radical" na explicação abrangente dos fenômenos psicológicos a partir do behaviorismo radical é difícil.
A análise do comportamento têm reconhecimento social amplo em aplicações para dificuldades específicas e delimitadas como o transtorno do espectro autista ou desafios práticos. Como o comportamento é entendido no senso comum como fenômeno restrito, sua ampliação para a área dos conceitos entendidos como abrangentes (Cérebro, mente, linguagem, sociedade e cultura) é percebida como um reducionismo inapropriado.
sábado, 13 de abril de 2024
O desmame de neurolépticos e processos comportamentais
A partir de uma noção de processos comportamentais operantes em associação com processos fisiológicos do desmame de neurolépticos, é questionável se simplesmente amenizar o processo compensatório com uma retirada lenta e gradual de forma hiperbólica é suficiente para aumentar a recuperação funcional.
Os neurolépticos atuam estabelecendo extinção geral de comportamentos operantes através da interferência no processo fisiológico do reforço. Por isso, é razoável pensar que os comportamentos avaliados pelo meio como inapropriados precisem passar por um processo de extinção gradual que é o processo inicial de adaptação com a introdução e manutenção da droga.
Na redução ou retirada dos neurolépticos ocorre um processo fisiológico de compensação relacionado com o aumento da dopamina num cérebro adaptado para o uso da droga com o aumento de receptores de dopamina. Como a psiquiatria crítica não tem proximidade com a área de comportamento operante não percebe que a partir desse processo fisiológico há uma retomada de repertório comportamental previamente sob esquema de extinção (enfraquecimento e eliminação de comportamentos operantes) que se reflete em um aumento de atividade operante. Acontece que simplesmente reduzir a dose ou fazer desmame por mais que se desenvolva um processo de amenização da adaptação fisiológica não é necessariamente um fator protetor por si só mesmo que os efeitos prejudiciais que preocupam os profissionais e pacientes diminuam. Esse processo é antes um desafio maior de estabelecer repertório comportamental operante solidamente estabelecido em negociação com os desafios do meio e novidades do processo de transição fisiológica, comportamental e social. Por isso, ao invés de retirar a droga de pessoa com prognóstico menos favorável como está sendo pesquisado, o ponto de partida deveria ser estabelecer repertório adaptativo sólido antes, adicionalmente durante o processo de redução e retirada da droga e depois ainda acrescentar um processo de manutenção e consolidação de repertório comportamental operante.
sexta-feira, 12 de abril de 2024
Surto de agressividade
O termo surto é usado para qualquer ato de agressividade e assassinato. As duas coisas são sinônimos na cabeça das pessoas. É um estereótipo no imaginário social. É um linguagem que se usa e que beneficia politicamente a psiquiatria conservadora. Não é necessário supor psicose para atos agressivos e de assassinato. Em outra linguagem teórica são apenas comportamentos aprendidos sem suposições adicionais sobre estados orgânicos. As pessoas não toleram a possibilidade de contribuir para a aprendizagem de atos infames e atribuem tudo a disfunções genéticas ou orgânicas. É quase como um mito moderno e laico da possessão demoníaca.
quinta-feira, 11 de abril de 2024
Crítica à felicidade na filosofia antiga
https://criticanarede.com/aristipo.html
Aristipo contra a felicidade
T. H. Irwin
Tradução de Desidério Murcho
quarta-feira, 10 de abril de 2024
Estratégias institucionais: aprendizagem limitada
Além das estratégias fisiológicas, as "soluções" institucionais também são formas de resolver situações difíceis sem aprendizagem [operante/comportamental], no modelo asilar ou manicomial de forma exacerbada e no modelo psicossocial ou antimanicomial de forma graduada e variável. Estratégias de aprendizagem operante/comportamental são utilizáveis de forma relativamente desassociável de estratégias institucionais embora essas direcionem em algum grau a forma de intervenção ofertada. O modelo psicossocial ao levar a sério a aprendizagem operante/comportamental potencializaria a resolutividade e qualidade das intervenções e seria menos dependente de contingências institucionais e legais em suas práticas.
terça-feira, 9 de abril de 2024
A formação da percepção de normalidade
domingo, 7 de abril de 2024
O conceito de "real" e a filosofia
quarta-feira, 3 de abril de 2024
Estabilidade como negação da vida
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Crítica aos manicômios antigos e diagnósticos
quarta-feira, 20 de março de 2024
Reducionismo e comportamento
O filósofo da ciência Hempel afirma que o behaviorismo é reducionista por realizar uma transformação ou modificação artificial de fenômenos em outro formato ou de outra natureza para uma formulação em comportamento operante.
A definição e crítica ao mentalismo de Skinner, no entanto, é um reconhecimento do potencial produtivo do fenômeno do comportamento operante se respeitadas as suas características. Problemas de difícil solução ou soluções insuficientes e parciais são "equacionáveis" dentro de uma formulação como comportamento operante, o que aumenta a visibilidade sobre as aprendizagens ocorridas e amplia possibilidades de aprendizagem. Infelizmente, a formulação operante está fora da imaginação e repertório das pessoas ao se deparar com problemas e demandas e por isso a demanda no mercado é limitada em relação ao potencial que a formulação operante tem.
segunda-feira, 18 de março de 2024
Saúde mental e comportamento: programas de pesquisa
quarta-feira, 6 de março de 2024
Replicação dias 21 a 30 - Invega Sustenna e VFC
Instabilidade autonômica?
No primeiro estudo de mensuração da média da variabilidade da frequência cardíaca sob efeito de Invega Sustenna com duração de 30 dias os últimas dias indicaram instabilidade do sistema nervoso autônomo nos últimos 30 dias do mês. Fatores de confusão foram um evento altamente estressor ao longo do mês e a dúvida sobre a fidedignidade da medidas incompletas (consistência entre medidas).
Esse resultado de instabilidade autonômica não foi replicado. O resultado foi de redução gradual do efeito (média de 3 a 6 mensurações por dia). Esse resultado de um padrão consistente ao longo dos dias indica fidedignidade das medidas ao longo dos dias. A inferência teórica sobre a insuficiência de dose e predição de aparecimento de sintomas durante o período final de metabolização do neuroléptico Socian se mantém para Invega Sustenna. A amplitude de variação das médias diárias foi de 2 a 3 vezes entre sessões e a variação de RMSSD dentro das sessões foi alta, levando à suspeita de liberação irregular de doses em momentos micro e padrões de medidas não encobertas por médias e estatísticas, dado que o resto das variáveis independentes estavam relativamente constantes em repouso e com uma rotina de controle variáveis semelhante à descrita no primeiro estudo (variável controlada). O resultado de RMSSD reduzido (18) antes da aplicação da injeção pode indicar um efeito emocional condicionado antecipado.
Resultados
Replicação Variabilidade da frequência cardíaca e Invega Sustenna no fim do mês (21 a 30): instabilidade autonômica?
Conclusão: hipótese não replicada
Fevereiro de 2024
Sem parênteses = 5 ou 6 medições no dia
Dia RMSSD
dia 21: 20,16
dia 22: 19,8
dia 23: 26,25
dia 24: 32,2
dia 25: 33,8
dia 26: 27,8
dia 27: 34,25 (4)
dia 28: 42,66 (3)
dia 29: 38 (3)
dia 30: 34.8
dia 31: Antes de aplicação: 18
Quem quiser receber uma anotação com descrição dos efeitos observados sobre o corpo no início e final do mês para fins de discriminação de efeitos e comparação me envie um e-mail para crisedapsiquiatria.qma56@simplelogin.com
segunda-feira, 4 de março de 2024
Virando a página por desinteresse social
Pensando em virar a página do projeto do blogue por desinteresse da sociedade na intersecção entre áreas com a saúde mental. Menos mal que o conteúdo acumulado contribui para o senso crítico sobre caminhos a seguir. Atividades com poucos incentivos me atraiam em certa medida. Atividades mais específicas que tem alguma perspectiva de fim e ao menos alguma possibilidade de incentivos agora me atraem mais. O blog agora receberá menos esforço. Textos a partir do blog também tem baixo interesse então também penso em reduzir o esforço. Por motivos que já não são tão misteriosos, nossa cultura privilegia meios fisiológicos de intervenção sobre o comportamento e produtividade que prescindem de aprendizagem e portanto não tem barreiras de acesso ao entendimento. É um caminho legítimo também e aparentemente não importa tanto que hajam alternativas.
quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024
Psicologia cognitiva e indústria farmacêutica
Os estudos de validação da eficácia psicologia cognitiva, que são muitos e usados como prova de que é a melhor evidência que existe, são financiados pela indústria farmacêutica. Então tem algo na psicologia cognitiva que agrada os interesses da indústria farmacêutica como, por exemplo, o "pensar correto", a complementariedade e o apoio às concepções biomédicas.
sábado, 24 de fevereiro de 2024
Teorias idiográficas da etiologia e da terapia
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024
Estabilidade como sucesso terapêutico
Definir sucesso terapêutico como estabilidade tem boas chances de ter origem na psicofarmacologia já que é o mesmo que afirmar que é preciso manter estados orgânicos constantes ou doses constantes de drogas psiquiátricas. Em linguagem experimental isso se chama condição controle e significa manter um valor de variável igual ou constante e que você está suprimindo estados de transição e permitindo observar fatores adicionais introduzidos ou retirados. Dessa forma, a necessidade do tratamento psiquiátrico para a maioria dos casos é justificada pois a preocupação com o orgânico estará nessa perspectiva resolvida. Ao definir sucesso terapêutico como estabilidade, a implicação é que é preciso manter a droga psiquiátrica por toda a vida e que o término do tratamento é indesejável ou impossível.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024
Estimulantes para TDAH e esquemas de reforço
Na forma de dosagem de liberação pulsátil de estimulantes para Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que é como funcionam os estimulantes para TDAH segundo um curso de desenvolvimento de fármacos, são gerados picos de estímulos de dopamina no período de algumas horas por pulso. Isso é o equivalente farmacológico e orgânico do processo comportamental de esquemas/programas de reforçamento intermitentes que apresentam consequências ambientais de reforço positivo intercalado para produzir persistência. O que é uma forma de manter comportamento com baixo reforçamento. O efeito paradoxal de supressão de frequência de comportamentos provavelmente é baseado nesse mecanismo de liberação pulsátil que mantém comportamentos com baixo reforçamento e que é basicamente o tipo de demanda ambiental das atividades escolares e ocupacionais.
sábado, 17 de fevereiro de 2024
Experimentação e industrialização da saúde
Há uma certa dificuldade de integrar conhecimento experimental com a industrialização em escala da saúde. Na farmacologia os estudos de covariância (estatística) com dados empíricos com baixas suposições geram mais erros de interpretação de resultados. Os modelos experimentais com altas suposições e discussão aberta das mesmas ajudam a interpretar dados acumulados e criar simulações que são mais eficientes e custo-efetivos.
Dificuldade análoga é encontrada na psicologia. O modelo de pacotes e manuais é facilmente industrializável em escala. O conhecimento experimental exige treinamento mais complexo que é desafiador implementar em larga escala e também adaptar ao modelo de evidências baseado em estatísticas (pirâmide de evidências).
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
Sistemas de saúde baseados em pacotes
A medicina baseada em evidências e a psicologia baseada em evidências são áreas atuariais que fazem parte de uma mudança nos sistemas de saúde que priorizam modelos de rotas definidas de cuidado, isto é, sistemas de saúde baseados em pacotes de tratamento. Pacotes de tratamento são criados para serem adaptações aos interesses dos principais pagadores nos sistemas de saúde que são os governos e seguradoras (planos de saúde). O modelo de pacotes também é uma adaptação à mudança de modelo de negócios do complexo industrial da saúde que começou a priorizar pacotes de tratamento ao invés de apenas produtos. O interesse desses pagadores é a previsibilidade de gastos e redução de custos. Os pacientes são assegurados de que tratamentos validados conforme o critérios de previsibilidade de gastos e redução de custos dos pagadores são a melhor evidência científica existente ou disponível. No entanto, existem evidências de qualidade que não são consideradas por não se ajustarem a esse modelo de negócios, que não são anticientíficos e que podem ser melhores que as rotas definidas de cuidado baseadas em pacotes de tratamento através da individualização ou personalização da atenção à saúde também baseada em evidências de qualidade e compatíveis com o conceito de protocolo pelo respeito aos procedimentos fundamentados em evidências, apesar de diferirem do modelo de validação atuarial dos tratamentos inspirados pelo modelo de negócios acima mencionado. Um desses modelos alternativos de evidências que têm alto rigor científico é o conhecimento experimental. Nada impede a princípio que outros modelos de evidências também entreguem resultados eficazes.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024
Perda de fé na proposta do blogue: motivos
Diagnósticos como demarcação
sábado, 10 de fevereiro de 2024
As pesquisas biológicas e a complexidade da esquizofrenia
As pesquisas biológicas e a complexidade agrupada sob a categoria esquizofrenia
Os pesquisadores biológicos da esquizofrenia costumam dizer que essa é uma doença sem cura porque seria muito complexa e seriam necessárias muitas pesquisas a mais quase que indefinidamente. Uma interpretação alternativa seria que a categoria esquizofrenia movimenta muito dinheiro (análogo a uma marca) e que uma variedade de variáveis são agrupadas sob essa categoria que no entanto dificilmente consegue se estabelecer como categoria discreta com perfis típicos de variáveis. A categoria tem o papel de mostrar a relevância social de identificar essas variáveis e manter uma contínua alimentação das pesquisas e da indústria associada.
sábado, 3 de fevereiro de 2024
Definição geral de procedimentos de observação
quinta-feira, 25 de janeiro de 2024
Fisiologia, adaptação social e processos sociais
Alterar a fisiologia dificilmente é suficiente para prescindir da psicologia e aprendizagem porque a fisiologia de qualquer problema ou sintoma tem endofenótipos múltiplos (componentes) que atuam em partes limitadas (variáveis) dos comportamentos (sejam apenas mediadores ou origem) e também porque as relações com o mundo que envolvem os comportamentos são algo a mais que apenas fisiologia interna. O que o tratamento biológico realiza é alterar a fisiologia para que a pessoa sob cuidados médicos cumpra demandas ambientais de forma socialmente adaptativa e isso abre espaço para o aspecto social e cultural.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2024
Neurociência substitui a psicologia? (Neil deGrasse)
"5. PROBLEMAS DE PREVISÃO
segunda-feira, 22 de janeiro de 2024
Leitura sobre vinheta Ouçam Nossas Vozes
Leitura sobre vinheta Ouçam Nossas Vozes - campanha da Janssen
https://youtu.be/AcHk5uaCfY8?si=CZB-nmLy7YZ1ugOD
A música tem um lado dramático e um lado feliz que representa sonhos.
A música inicia com tons felizes e infantis representando a infância feliz e que provavelmente é direcionado aos pais e familiares.
Depois há um tom dramático representando o neurodesenvolvimento alterado inicial e a fase prodomo.
Há uma virada com piano e iniciam tons com teclado eletrônico com efeitos sonoros representando bizarria e artificialidade de laboratório científico.
Depois há tons abafados que representam o início da administração dos neurolepticos e fim dos tons que representam bizarria.
Na preparação para o final há uma aceleração que pode representar a aceleração comportamental ao parar os neurolepticos. Essa aceleração representa o excesso de dopamina que a psiquiatria biológica afirma ser característica do organismo e a perspectiva crítica afirma ser uma adaptação à droga.
O final é uma superaceleração com tons de final feliz ou triunfo sobre a esquizofrenia e também de música de festa que em interpretação livre pode significar o estilo de vida das pessoas do complexo médico-industrial privado.
sábado, 20 de janeiro de 2024
Gøtzsche, ensaios clínicos randomizados e experimentação
Peter Gøtzsche tem um domínio excelente dos ensaios clínicos randomizados mas nessa metodologia não há tanto rigor no controle de variáveis como há na experimentação sem o uso de estatística pois pacotes ou conjuntos de variáveis são avaliados. Por isso, embora impopular com o público do blogue e da reforma psiquiátrica antimanicomial seria necessário comparar os resultados de Peter Gøtzsche e da psiquiatria crítica com as pesquisas experimentais em farmacologia comportamental, neurociência comportamental, psicobiologia e a área de biocomportamental.
Uma das tarefas e disputas da reforma psiquiátrica é um diálogo permanente com a área de substratos biológicos ou fisiologia do comportamento ou dos construtos diagnósticos. Considero que o blogue já conseguiu encontrar caminhos para o conhecimento sub-representado em críticas à psiquiatria biológica e a área de reforma psiquiátrica antimanicomial. No entanto, o diálogo com o conhecimento experimental geralmente não é feito por nenhum dos dois lados da disputa e por isso corresponde nessa caracterização ao estado atual de conhecimento sub-representado na área de saúde mental.
terça-feira, 16 de janeiro de 2024
Solidão do idoso e problemas físicos e mentais
domingo, 14 de janeiro de 2024
TDAH: excesso de pens., ansiedade e depressão
terça-feira, 2 de janeiro de 2024
Resenha "Psicanálise e psicomodismos" (Pasternak e Orsi)
Resenha sobre o capítulo "Psicanálise e psicomodismos" no livro "Que bobagem" de Pasternak e Orsi
O capítulo no livro "Que bobagem" de Pasternak e Orsi sobre psicanálise tem tantos compromissos com pressupostos filosóficos e modelos teóricos que o texto pode ser virado do avesso em diferentes direções como em variados posicionamentos filosóficos sobre demarcação de ciência e unidade ou pluralidade dos conceitos de método científico e tipos de ciência, modelos científicos de avaliação de evidência clínica, avaliação crítica das ciências cognitivas e biológicas na área clínica, discussões em filosofia da ciência sobre conceitos e métodos biológicos e sua relação com o social, discussões em filosofia da ciência sobre ciências naturais e humanas/sociais, discussões em filosofia da ciência sobre a subdeterminação das teorias pelos dados e a possibilidade de validade de evidências empíricas independentemente de modelos teóricos prévios, e outros debates.
A reprodução do discurso triunfalista das ciências cognitivas e biológicas que são tratadas como hierarquicamente superiores, ciências legítimas que a partir de suas próprias áreas são relativamente incontroversas e não podem ser questionadas a partir de conhecimento social ou outras formas de conhecimento indica que há um conhecimento superficial da complexidade envolvida nesse debate. O texto tem o mérito de introduzir a discussão sobre evidências clínicas em psicologia para um público amplo, apesar do tratamento do tema apresentar a discussão oferecendo respostas simples para pessoas interessadas em tomar decisões sobre saúde mental sem uma discussão sobre a variedade de controvérsias, assim direcionando e limitando as possibilidades de decisões do leitor.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2023
Psiquiatrização e ideologia
O termo ou nomeação "loucura" expressa uma relação negativa de julgamento com a cultura. É uma categoria social que tanto pode ser utilizada de acordo com a tradição manicomial como também ser problematizada. O uso da palavra loucura pelas pessoas sem conhecimento em reforma psiquiátrica antimanicomial, ciências humanas e sociais induz pensar as causas dos fenômenos e medidas sociais em termos manicomiais, isto é, inclusão de fatos e informações em suas categorias de forma a reforçá-las mutuamente com a sua ideologia social e valores.
A área da história mostra como o conhecimento psiquiátrico é uma cientifização da marginalização e do preconceito. Quando se enfatiza a crítica social de que as minorias padecem de medicalização e patologização injusta, anteriormente a isso houve conquista de certa influência social desses grupos.
A produção social dos acontecimentos negativos se torna silenciada quando os mesmos são entendidos como fenômeno manicomial (individual, puramente orgânico). Isso é uma forma de ideologia pois tem funções sociais não explícitas úteis a certas pessoas e grupos com poder. Essas pessoas e grupos utilizam estratégias discursivas (conforme análise crítica do discurso) que induzem ocultar as características centrais dos acontecimentos em suas relações de determinação social, cultural, econômicas, políticas, históricas, etc. ("a medicalização atua na periferia do fenômeno"). A indústria da loucura é altamente lucrativa e uma de suas práticas é a difusão de estigmas contra pessoas facilmente atacáveis e sem influência social ou poder.
Para ler mais:
O espelho do mundo - Maria Clementina Pereira Cunha (livro)
História da psiquiatria no Brasil - Jurandir Freire Costa (livro)
domingo, 17 de dezembro de 2023
Truques secretos com alimentos - medicalização
Truques com alimentos comuns são inventados e associados ao discurso médico para permitir vender truques secretos. Por exemplo, o truque da banana para emagrecer e o truque do azeite de oliva na nuca. O "discurso médico" (dentro do domínio de fatos médicos ou biológicos) tem a finalidade de que fique difícil avaliar se o truque tem plausibilidade biológica e de usar a autoridade científica que as pessoas mais confiam. É um mercado atraente porque as pessoas demandam por soluções simples, utilizando as concepções ingênuas de saúde já presentes na sociedade.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
O sistema teórico e social de opressão do paciente psiquiátrico
Lei dos erros Quetelet-Gauss: curva normal
quarta-feira, 13 de dezembro de 2023
ChatGPT fabrica informações e referências
Uma bibliotecária me advertiu que o ChatGPT fabrica informações e referências bibliográficas. Já sabia também que o Google pune publicações com origem nessa IA.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2023
Eugenia: grupos sociais e práticas
Hoje em dia ainda se vê absurdos acontecerem com esses grupos sociais.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
Epigenética e inconsistências nas pesquisas psiquiátricas
segunda-feira, 4 de dezembro de 2023
Clientes de psicanálise e intelectualidade
Uma característica dos clientes de psicanálise é que são interessados ou entusiastas de ciências humanas e sociais e interessados em intelectualizar-se. O tratamento não tem somente finalidade de saúde. O que provavelmente é indício de um nível socioeconômico ou cultural médio-alto ou alto.
terça-feira, 28 de novembro de 2023
Rabdomiólise - Efeito colateral neurolépticos
domingo, 5 de novembro de 2023
A medicalização e as demandas de mercado
A atenção natural e a "verdadeira atenção produtiva"
A atenção como processo natural biológico é direcionada funcionalmente para aspectos do ambiente os quais tem consequências para a própria vida ou interessantes de acordo com a evolução do homo sapiens. No entanto, o pensamento social parece ser ser de que a verdadeira atenção é prestar atenção (direcionar receptores sensoriais sob controle de estímulos exigido) no que não gosta para ser capaz de no futuro trabalhar com o que não gosta. Essa seria a atenção produtiva, útil e socialmente valorizada. Para conquistar essa atenção útil, seria preciso alterar a função natural da atenção com psicofármacos para criar uma criança que brinca menos (brincandeira que possivelmente é considerada inútil para o desenvolvimento) mas é adequada aos padrões escolares de aulas desinteressantes. O redirecionamento ou treinamento da atenção natural para cumprir função social útil de realizar tarefas necessárias ou cumprir demandas sociais (exigências naturalmente aversivas principalmente sem o repertório necessário) é uma questão de precisão no manejo dos processos comportamentais de interação com o ambiente e de estabelecimento ou alteração de repertório. Isso envolve comportamentos de obediência, responsabilidade, de disciplina, autocontrole e outros que não sei nomear de forma completa.
sexta-feira, 27 de outubro de 2023
Testes de sangue e propriedade industrial
Artigo sobre teste de sangue para distinguir bipolaridade de depressão. Universidade de Cambridge. O autor Tomasik está submetendo uma patente. A característica industrial e comercial é o tipo de coisa que é a base da psiquiatria biológica: aproveitar o potencial de escala da população para criar grandes indústrias bilionárias. Os tratamentos ofertados estão submetidos à restrição de terem que ser patenteáveis ou serem propriedade industrial.
quarta-feira, 25 de outubro de 2023
Cérebro e genes como parte do problema
Na atualidade o público leigo é muito impressionável com neurociência, medicina e biologia e parece assimilar somente o tipo de explicação física ou organicista (nature). Isso é parte do problema no desenvolvimento de problemas de comportamento ou de desenvolvimento (transtornos mentais) pois é presumido que apenas pessoas com problemas físicos desenvolveriam problemas e que por isso não é preciso promover desenvolvimento de forma pensada, planejada e ativa (nurture).
domingo, 22 de outubro de 2023
Deshospitalização nos EUA e a ABP
A deshospitalização nos Estados Unidos é usada como exemplo pela ABP de que mais hospitais são necessários por causa de cérebros defeituosos. Os Estados Unidos não tem um sistema comunitário de saúde mental. O programa planejado por Kennedy foi reduzido por Reagan na etapa de implantação. Esse artigo descreve a história.
sexta-feira, 20 de outubro de 2023
A linguagem comportamental, a neurobiológica e o senso comum
domingo, 8 de outubro de 2023
Apropriação científica da vida e análise do comportamento
quinta-feira, 5 de outubro de 2023
Psiquiatria como área popular
O que é preciso para assimilar a psiquiatria?
Uma imagem ruim de uma pessoa, sentimentos ruins sobre uma pessoa, um nome ruim sobre uma pessoa e um medicamento ou tratamento físico que não requer aprendizagem.
Qualquer pessoa assimila isso.
domingo, 1 de outubro de 2023
A Previsão de Resultados na Esquizofrenia
[Refutação do pensamento Kraepeliano] - Parte 2
A Previsão de Resultados na Esquizofrenia (1974)
II. Relações Entre Variáveis Preditoras e de Resultados:
Um Relatório do Estudo Piloto Internacional de Esquizofrenia da OMS
John S. Strauss, MD, Rochester, NY, William T. Carpenter, Jr., MD, Bethesda, Md
O presente artigo representa os resultados dos dados coletados no Centro de Washington e não reflete necessariamente as opiniões dos investigadores colaboradores de outros centros ou da Organização Mundial da Saúde.
Este artigo é baseado nos dados e na experiência obtidos durante a participação dos autores no Estudo Piloto Internacional de Esquizofrenia, um projeto patrocinado pela OMS e financiado pela OMS, pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (Estados Unidos) e pelos centros de pesquisa de campo participantes.
Este relatório descreve as características do resultado e seus preditores em uma coorte de pacientes avaliados no Centro de Washington do Estudo Piloto Internacional de Esquizofrenia. A Parte I, focada nas características do resultado, sugeriu que o resultado consiste em vários processos semi-independentes. Esta segunda parte se concentra na natureza das relações entre preditores e resultados nesta coorte de pacientes.
Os resultados demonstram que a função de emprego e as relações sociais no passado foram cada uma o melhor preditor de sua respectiva função de resultado. A cronicidade estabelecida da doença previu o resultado em todas as áreas. Os achados apoiam a visão de que o resultado não é um único processo, mas é composto por vários processos semi-independentes melhor conceituados como sistemas abertos. Cada sistema deve ser considerado ao entender, avaliar e tratar as diferentes áreas de incapacidade de resultado na esquizofrenia.
Compreender os fatores que ajudam a prever o resultado na esquizofrenia pode fornecer pistas para muitos dos principais problemas apresentados por esse transtorno. Ao apontar para as variáveis cruciais na determinação da incapacidade de resultado, tais informações podem aumentar a compreensão do processo de resultado e sugerir um foco para prevenção e tratamento. O conhecimento dos fatores que preveem o resultado também é essencial para avaliar a eficácia do tratamento. O tratamento só pode ser avaliado de forma significativa se os principais preditores do resultado forem controlados e as estimativas de resultado esperado forem consideradas.
Para entender a previsão do resultado na esquizofrenia, três áreas de informação devem ser consideradas: (1) as características da incapacidade de resultado; (2) o poder preditivo dos critérios de diagnóstico para a esquizofrenia; e (3) a relação de preditores que não são critérios de diagnóstico com as variáveis de resultado.
Estudos sobre as relações entre preditores e resultado na esquizofrenia foram revisados em várias obras recentes. Essas revisões concordam que várias variáveis, como cronicidade estabelecida e função social pré-mórbida, podem, em certa medida, ajudar a prever o resultado na esquizofrenia. No entanto, há uma falta de compreensão detalhada do poder desses preditores e da natureza do processo preditivo. Essa lacuna decorre de várias deficiências mencionadas nas revisões. Entre essas deficiências estão a frequente falha em estabelecer a confiabilidade na classificação das variáveis de predição e resultado, a ausência de critérios operacionais para o diagnóstico de esquizofrenia e o perigo de viés nos estudos retrospectivos mais comuns "prevendo o resultado".
Parcialmente devido a essas deficiências, muitas questões centrais permanecem sobre o papel dos preditores na determinação do resultado na esquizofrenia. Algumas dessas questões são especialmente cruciais para entender o processo de previsão: (1) As variáveis preditoras estão relacionadas especificamente a funções de resultado particulares ou se relacionam igualmente a todas as áreas de função de resultado? (2) Os preditores individuais se inter-relacionam entre si, sugerindo funções compostas subjacentes que afetam o resultado? (3) Grupos de pacientes selecionados por critérios diagnósticos diferentes têm relações diferentes entre predição e resultado?
Outras duas perguntas estão mais relacionadas às necessidades práticas: (4) Quais são os preditores mais poderosos do resultado que precisam ser controlados em qualquer estudo de eficácia do tratamento? (5) Para fins clínicos, qual é o melhor método simples para ajudar a prever o resultado na esquizofrenia? Este relatório sugerirá respostas para essas cinco perguntas.
Este estudo prospectivo sobre o resultado na esquizofrenia foi realizado como parte da participação dos autores no Estudo Piloto Internacional de Esquizofrenia (IPSS). O IPSS é uma investigação psiquiátrica transcultural com 1.202 pacientes em nove países: Colômbia, Tchecoslováquia, Dinamarca, Índia, Nigéria, China (Província de Taiwan), União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Reino Unido e Estados Unidos da América. Foi projetado como um estudo piloto para estabelecer bases científicas para futuros estudos epidemiológicos internacionais sobre esquizofrenia e outros distúrbios psiquiátricos. A abordagem metodológica do IPSS envolveu o uso de entrevistas padronizadas de estado mental, história psiquiátrica e dados sociais para avaliar pacientes nos diferentes centros participantes. Essas entrevistas foram realizadas logo após a admissão do paciente em uma instalação psiquiátrica e novamente no acompanhamento de dois anos. A confiabilidade dessas escalas foi estabelecida (J. Strauss et al, dados não publicados).
No Centro de Washington do IPSS, a fim de fornecer uma base adicional para avaliar os preditores e o resultado, foi desenvolvida uma escala prognóstica e uma escala de resultado. A escala de resultado utilizada era uma escala simples de quatro itens para avaliar a função de resultado nas seguintes quatro áreas: (1) frequência de contatos sociais; (2) percentual de tempo empregado; (3) gravidade da sintomatologia; e (4) quantidade de tempo passado fora do hospital durante o período de acompanhamento. Uma pontuação total de resultado foi calculada somando os resultados dos quatro itens para cada paciente. A avaliação da escala demonstrou que a confiabilidade entre avaliadores (correlação produto-momento) dos quatro itens variou de r = 0,87 a r = 0,96, todos significativos em P <0,001. Esta escala é detalhadamente descrita em outro lugar.
Após extensa revisão e teste, uma escala prognóstica de 14 itens foi construída usando variáveis que demonstraram importância preditiva em outros estudos e que poderiam ser avaliadas de maneira confiável, com confiança em sua validade. A Tabela 1 mostra a escala prognóstica final e as confiabilidades entre avaliadores dos itens. A escala prognóstica foi avaliada a partir dos dados registrados nas entrevistas padronizadas. Para comparar os itens prognósticos com um preditor de valor demonstrado, uma Escala Phillips, modificada por Farina e Garmezy, também foi preenchida para todos os pacientes. Esta escala inclui itens sobre relacionamentos sociais passados e histórico conjugal que podem ser avaliados a partir dos dados registrados nas entrevistas padronizadas.
Após a conclusão das entrevistas de acompanhamento, uma escala de resultado foi avaliada pelo psiquiatra que conduziu a avaliação.
**Sujeitos**
Os pacientes incluídos no estudo foram aqueles admitidos em dois hospitais gerais com alas psiquiátricas e um hospital estadual. Foram incluídos no estudo pacientes que atendiam aos seguintes critérios: idades entre 15 e 45 anos, residência na "área de abrangência" do estudo (Condado de Prince Georges, Maryland) por seis meses ou mais, sem evidência de transtorno psiquiátrico orgânico, alcoolismo ou transtornos relacionados a drogas, não continuamente psicóticos por mais de dois anos, não mais do que três anos de hospitalização psiquiátrica nos últimos cinco anos e a presença, na admissão, de sintomas psicóticos como alucinações, delírios, transtorno do pensamento, comportamento bizarro ou retraimento grave.
Dos 142 pacientes vistos na avaliação inicial, foi possível acompanhar 111 (78%). Os pacientes perdidos no acompanhamento não puderam ser localizados (20) ou recusaram (9). Dois dos pacientes do grupo original haviam cometido suicídio. A idade, sexo, classe social e estado civil dos pacientes perdidos no acompanhamento não eram significativamente diferentes daqueles para os quais as avaliações de resultado foram obtidas.
Os pacientes foram diagnosticados pelos psiquiatras entrevistadores após a avaliação inicial, utilizando os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM II). Dos 142 pacientes inicialmente vistos, 105 foram diagnosticados como esquizofrênicos. Os outros pacientes receberam diagnósticos como depressão neurótica, psicoses maníaco-depressivas ou transtorno de personalidade. Dos 105 pacientes diagnosticados como esquizofrênicos, 85 (81%) foram vistos no acompanhamento. Devido à incompleta operacionalização dos critérios do DSM II e à variação em sua interpretação, um subgrupo mais claramente definido foi identificado, consistindo nos sujeitos esquizofrênicos do DSM II que, na avaliação inicial, apresentavam um ou mais dos primeiros sintomas classificados como patognomônicos da esquizofrenia por Schneider. Esses sintomas incluem delírios característicos, como controle externo dos pensamentos, sentimentos ou ações, e alucinações especiais, como vozes discutindo sobre o paciente. Esse subgrupo de sujeitos esquizofrênicos do DSM II que apresentavam sintomas de primeiro grau foi designado como "sintomas de primeiro grau de Schneider".
Com esses métodos, foi possível (1) avaliar se variáveis preditoras individuais estavam especificamente relacionadas a funções de resultado particulares ou se eram preditivas de todas as áreas de resultado de maneira não diferenciada, (2) determinar se as inter-relações entre os preditores sugeriam processos preditores compostos, (3) comparar resultados nessas análises entre sujeitos esquizofrênicos de Schneider e pacientes diagnosticados como esquizofrênicos pelos critérios do DSM II que não tinham sintomas de primeiro grau, (4) determinar os preditores mais poderosos do resultado e (5) sugerir um método simples clinicamente útil para prever o resultado na esquizofrenia.
De maneira marcante, a duração da hospitalização anterior foi um dos preditores mais poderosos para cada uma das variáveis de resultado. Os outros preditores mais poderosos foram as funções específicas que correspondiam a cada função de resultado. Assim, um preditor de relações sociais precárias no acompanhamento foi ter relações sociais precárias antes da avaliação inicial. Um preditor de desemprego no acompanhamento foi a história de desemprego antes da avaliação inicial. O melhor preditor de hospitalização no acompanhamento foi a duração da hospitalização antes da avaliação inicial. Nenhum preditor específico correspondia à variável de resultado, gravidade dos sintomas.
Para investigar mais detalhadamente os pacientes para os quais as significativas relações prognóstico-resultado não se mantiveram, os protocolos foram revisados onde a relação entre preditor e resultado se desviou mais amplamente do padrão para a coorte como um todo (por exemplo, quando o emprego antes da admissão era excelente e no acompanhamento era ruim). O principal grupo deviante consistiu em 11 casos em que um bom emprego como preditor foi seguido por más relações sociais ou mau resultado no emprego. Em nove desses onze casos, o emprego inicial era como dona de casa. Uma revisão dos protocolos, juntamente com a reconhecida dificuldade de avaliar a função como dona de casa, sugeriu que provavelmente houve uma superestimação da função de dona de casa antes da admissão para a maioria desses pacientes.
**Relação Entre Preditores.**
O segundo objetivo desta investigação foi avaliar as inter-relações entre os itens de predição significativos. Para alcançar isso, foram calculadas correlações do momento do produto entre aqueles preditores que tinham uma relação significativa (P <0,01) com pelo menos uma variável de resultado. Havia três preditores assim: hospitalização anterior, relações sociais precárias e desemprego. A intercorrelação mais alta foi entre relações sociais precárias e desemprego (r = 0,38, P <0,01). Hospitalização anterior correlacionou-se r = 0,23, P <0,05 com relações sociais precárias. A relação entre hospitalização anterior e desemprego não foi significativa.
Para avaliar correlações que pudessem sugerir combinações mais complexas de preditores, as avaliações dos itens prognósticos foram submetidas à análise fatorial e uma rotação varimax foi realizada. A solução de seis fatores representou 64% da variância, sugerindo que esses fatores forneciam um meio bastante eficiente de combinar as variáveis. O fator rotacionado que explicou a maior parte da variância foi um fator "cronicidade da sintomatologia", com cargas significativas em hospitalização prolongada anterior e longa duração desde o início do transtorno psiquiátrico. Também teve cargas significativas em relações heterossexuais precárias e hospitalização em instalações de tratamento menos intensamente equipadas. As pontuações dos pacientes nesse fator correlacionaram-se com r = 0,59, P <0,001 com o resultado total e tiveram correlações significativas com todos os itens individuais de resultado também. A correlação com o resultado sugeriu a validade preditiva desse fator. Os outros fatores foram mais difíceis de interpretar, e sua relação com o resultado foi menos significativa.
Havia muitas semelhanças entre os subgrupos Schneider-positivo e Schneider-negativo. Em um relatório anterior, descrevemos que os subgrupos Schneider-positivo e Schneider-negativo eram semelhantes em características demográficas e de resultado. Análises das pontuações médias nos itens de previsão no presente estudo mostraram que os subgrupos Schneider-positivo e Schneider-negativo eram semelhantes para essas características, exceto que os sujeitos esquizofrênicos de Schneider tiveram pontuações significativamente mais altas no item prognóstico de alucinações e delírios. Isso foi uma consequência da ênfase de Schneider nesses critérios diagnósticos. Algumas relações entre preditores e resultados também eram semelhantes para ambos os subgrupos. O poder preditivo das relações sociais para o subgrupo Schneider-positivo era idêntico ao do subgrupo Schneider-negativo. A inter-relação mais significativa entre os preditores em ambos os subgrupos foi entre desemprego e relações sociais precárias.
**Os Preditores Mais Poderosos do Resultado.**
As correlações e correlações parciais realizadas na análise das relações preditor-resultado apresentadas na Tabela 2 também esclarecem quais são os preditores mais poderosos do resultado. A duração da hospitalização, relações sociais precárias e desemprego são as variáveis com um impacto altamente significativo na previsão do resultado.
O método mais simples para aumentar o nível de previsão foi simplesmente somar, para cada paciente, as pontuações prognósticas nos três preditores mais poderosos: duração da hospitalização, relações sociais precárias e desemprego.
**Conclusões e Comentários**
Existem três conclusões principais que podem ser tiradas dessas descobertas.
1. O processo de resultado e sua previsão na esquizofrenia parecem ser compostos por vários processos semi-independentes. Desemprego, relações sociais precárias e duração anterior da hospitalização foram cada um os melhores preditores de suas medidas de resultado correspondentes. O senso comum e consideráveis evidências, além das descobertas relatadas aqui, também sustentam a ideia de que tais processos têm importantes continuidades específicas a longo prazo. Brown et al5 e Monck17 descobriram que o melhor preditor de emprego durante o período de resultado era o nível de trabalho antes da avaliação inicial. O presente estudo sugere que a capacidade para relacionamentos sociais e as variáveis relacionadas à hospitalização também têm importantes continuidades longitudinais.
No Parte I deste relatório, as principais funções de resultado, emprego, relacionamentos sociais, sintomas e necessidade de hospitalização foram mostradas como parcialmente independentes entre si, além de terem inter-relações importantes. Nesta segunda parte do relatório, a especificidade de várias relações preditor-resultado sugere que a maioria dos processos de resultado também pode ter identidades individuais contínuas ao longo do tempo.
**Interpretação nas Teorias de Sistemas Abertos e Ligados**
Essas descobertas podem ser melhor interpretadas em termos do conceito de teoria de sistemas abertos e ligados. Esse conceito postula a existência de vários sistemas. Cada sistema é "aberto" no sentido de influenciar e ser influenciado por variáveis externas. Os sistemas são "ligados" no sentido de terem interdependência definida, mas incompleta. Concebidos nesse quadro, cada processo de resultado, trabalho, relacionamentos sociais, sintomas e necessidade de hospitalização podem ser considerados como um sistema. Sem dúvida, outros sistemas também são importantes na composição do resultado e aqueles descritos aqui podem ser refinados. Por exemplo, pode ser útil redefinir o sistema de necessidade de hospitalização em termos de habilidade para cuidar de si mesmo. O sistema de resultado, sintomas, pode não ter um aspecto longitudinal tão decidido quanto os outros sistemas.
Pontos de ligação entre os sistemas foram sugeridos em vários estudos de relações entre preditores. Essas conexões incluíram relacionamentos como a conexão entre duração da hospitalização e o sintoma, falha em expressar afeto, e entre a ausência de depressão e retraimento social. Neste estudo, uma correlação significativa foi encontrada entre dois preditores, desemprego e relações sociais precárias. Isso parece representar outra ligação importante entre os sistemas.
O conceito de resultado como composto por sistemas abertos e ligados tem implicações teóricas e práticas importantes. Sugere que (1) múltiplas etiologias precisam ser consideradas para a deficiência psiquiátrica. A causa de um trabalho inadequado ou de um funcionamento social precário pode ser bastante diferente das causas da sintomatologia; (2) cada uma das diferentes áreas de deficiência precisa ser avaliada na avaliação do transtorno psiquiátrico e na resposta ao tratamento. Uma única medida de deficiência, como hospitalização, é útil apenas como uma medida grosseira; e (3) um único tratamento para transtornos psiquiátricos pode ser inadequado; pode ser necessário um tratamento específico para cada um dos vários sistemas de função. Embora os medicamentos psicotrópicos possam ser úteis para reduzir os sintomas, podem ser grosseiramente inadequados se não forem acompanhados por programas terapêuticos de trabalho e social.
**Cronicidade Estabelecida e Predição Prática**
1. **Cronicidade estabelecida**, tanto representada pelo item "duração da hospitalização" quanto como fator composto, tem um impacto preditivo mais geral do que outras variáveis. Devido a esse efeito massivo, é especialmente importante que a cronicidade estabelecida seja controlada em todos os estudos de resultado. Embora a duração da hospitalização tenha sido a principal medida de cronicidade neste estudo, à medida que a hospitalização se torna um procedimento menos comum para lidar com transtornos psiquiátricos, outras medidas se tornarão cada vez mais importantes.
2. Pode parecer que os sistemas de relações sociais e emprego são tão independentes da hospitalização e da sintomatologia que não são diretamente relevantes para o transtorno psiquiátrico e os resultados do tratamento. Pelo contrário, a importância das interações entre relações sociais, emprego e psicopatologia é demonstrada por estudos que mostram efeitos como a relação entre perder um emprego e o surgimento de sintomas,21 os efeitos da alta hospitalar no isolamento social22 e o uso de medidas de emprego e função social como indicadores de defeito esquizofrênico.6 Como os sistemas parecem ter graus importantes de independência e interação, eles não devem ser considerados como irrelevantes entre si, nem como indistinguíveis ou equivalentes.
3. Por fim, são sugeridos **três principais preditores** para o propósito prático de estabelecer controles de pesquisa e prognósticos clínicos. Juntos, a duração da hospitalização antes da avaliação, a história de relações sociais precárias e o histórico de emprego inadequado explicam uma quantidade importante de variação nas diferentes áreas de resultado. Nesse sentido, o presente estudo apoia e estende as descobertas de outros estudos recentes sobre relações de predição-resultado.5·17
Para fins práticos, uma previsão mais grosseira, mas mais simples, do resultado pode ser baseada em uma única variável, a duração anterior da hospitalização. Uma previsão ligeiramente mais eficaz do resultado pode ser feita simplesmente somando as pontuações nos três preditores mais importantes: hospitalização, desemprego e relações sociais. Esquemas mais complicados falham em fortalecer significativamente a previsão.
Finalmente, embora as pontuações de resultado nesta investigação tenham sido previstas em um grau moderado e bem além dos níveis aleatórios, nunca foi prevista nem mesmo metade da variância do resultado. A falha em prever o resultado de maneira mais precisa pode ter sido causada pelos efeitos da intervenção no tratamento, que não foram estudados neste relatório, ou por erro de medição. É mais provável, no entanto, que grande parte da imprevisibilidade decorra de variáveis ainda não reconhecidas, que têm uma influência importante no resultado na esquizofrenia.

