Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

segunda-feira, 13 de abril de 2020

CRIANÇAS COMO REFÉNS

CRIANÇAS COMO REFÉNS 

[Polêmico, mas interessante]

O fato das crianças serem imensamente encantadoras está longe de ser uma justificação para as dar à luz: quem faz crianças faz também adultos – portanto, homens e mulheres. A maioria dos homens, porém, vive como adultos, no inferno. E a felicidade das mulheres é de tal forma primitiva e é conseguida de tal modo à custa de outrem que também não há para fazer mulheres. Não corresponderia à verdade afirmar-se que só as mulheres estão interessadas em gerar crianças. Também os homens as desejam, pois estas integram-se nas duas ou três desculpas com que podem justificar a sua submissão à mulher. A mulher, ao contrário, justifica com elas a sua preguiça, a estupidez e a falta de responsabilidade. Desse modo, abusam os dois da criatura para conseguir seus respectivos fins. Embora o mundo esteja repleto de órfãos meio esfomeados, cada casal procura sempre a sua própria descendência. Pois o homem tem que possuir um motivo para, mesmo mais tarde, quando o seu apetite sexual tiver diminuído, se escravizar a determinada mulher (à mãe dos seus filhos) e não a outra qualquer. Como a mulher é para ele, sobretudo, um álibi para a submissão, só pode utilizar num dado momento uma única (em todas as sociedades industriais o homem é monoteísta – quer dizer, monógamo), vários deuses (mulheres) torna-lo-iam inseguro, dificultariam a sua identificação consigo próprio e repeli-lo-iam para aquela liberdade da qual ele está continuamente em fuga. Semelhantes motivos não significam nada para a mulher. Como não pensa em abstrato, não tem, como já vimos, nenhum medo existencial e nenhuma necessidade de um deus que dê ao seu mundo um sentido superior. Basta-lhe um pretexto para justificar que seja precisamente esse homem (que já não vai muito interessado para a cama com ela) que deva trabalhar para ela, e, para isso, necessita de filhos desse mesmo homem. Admitindo que no nosso planeta existisse excesso de homens e a cada mulher coubessem, por exemplo, três homens, a mulher não teria nesse caso, evidentemente, quaisquer inibições em arranjar filhos de cada um desses três machos e fazê-los trabalhar a todos para as respectivas crianças (quer dizer, para si própria). Poderia, então, aproveitar-se da rivalidade entre esses homens e assim aumentar enormemente a sua capacidade de trabalho – e consequentemente o seu próprio conforto. Ao contrário da opinião corrente, ela seria mais predestinada para a poligamia do que o homem. Um homem que tem filhos de uma mulher, dá-lhe reféns para a mão e espera que ela o pressione com eles até a eternidade. Só assim é que ele terá um apoio no seu destino absurdo, e, a escravidão sem sentido, para a qual foi domado, uma justificação. Quando trabalha para a mulher e filho não trabalha só para dois seres humanos, um dos quais não quer fazer nada por ser feminino e o outro nada sabe fazer, por ser demasiado pequeno. Ele trabalha também para algo que é mais do que essa mulher e esse filho, trabalha para um sistema que abrange tudo que ao cimo da terra é pobre, desamparado e necessitado de proteção (a pobreza, o desamparo e a falta de proteção em si mesmo consideradas), sistema que – segundo crê – precisa dele. Com a mulher e o filho arranja um álibi para a sua escravatura, uma justificação artificial para a sua desconsolada existência, e chama a esse sistema, a esse grupo sagrado que voluntariamente originou, a sua “família”. A mulher aceita com alegria os seus serviços em nome da “família”. Ela aceita os reféns que ele lhe confia, e faz com eles o que ele deseja (amarra-o a si cada vez com mais força e submete-o até o fim da sua vida) –, tirando daí todo o proveito. Ambos (homem e mulher) só têm, pois, vantagem em ter filhos (caso contrário, não os procriariam). O homem tem a vantagem de dar, retroativamente, à sua vida um sentido mais elevado e de poder escravizar-se para sempre, e a mulher aufere todas as vantagens restantes. Essas vantagens devem ser enormes para ela, pois praticamente todas podem escolher entre a vida profissional e filhos e quase todas decidem-se pelos filhos. Poder-se-ia aqui objetar que as mulheres só se decidem por filhos e não pela profissão porque adoram crianças. A isso responder-se-ia que uma mulher nem é capaz de tão elevados sentimentos como os exigiria um amor puro por crianças. A prova é que quase todas as mulheres só se preocupam com os seus próprios filhos e nunca com os alheios. Só cuidam de uma criança alheia, quando, por motivos médicos, não podem ter as suas (e mesmo nesse caso quando falharam todas as tentativas, inclusiva fecundação com sêmen de um homem estranho). Embora orfanatos de todo o mundo estejam cheios de crianças encantadoras e necessitadas e embora a televisão e os jornais publiquem quase todos os dias números referentes a pequenos africanos, indianos e sul-americanos que morreram de fome, é mais fácil as mulheres levarem para casa um cão ou gato vadios – elas que pretendem amar as crianças – do que uma criança abandonada. [O próximo parágrafo (destacado em itálico) está disponível na edição de 1972, mas foi aparentemente removido em edições posteriores]: E embora todas as revistas possa ler-se a taxa elevada de monstros que são gerados todos os anos (crianças hidrocéfalas, com falta de membros, cegas, surdas, idiotas), elas não se deixam impressionar por isso e continuam pondo-os neste mundo, uns após outros, como se tivesse condenados a nascer por bruxedo. Quando acontece a uma delas dar, então, à luz uma dessas criaturas monstruosas, não se sente desmascarada no seu egoísmo e chamada à responsabilidade: – como a mãe de um monstro é venerada na nossa sociedade como uma mártir. Fala-se com o maior dos respeitos de uma mãe que deu à luz um filho idiota e se ainda não tiver um filho saudável, tratará de o obter o mais depressa possível, um “normal”, igual aos filhos das outras mulheres, para provar que é saudável (e obrigado assim esse filho normal a passar toda a sua juventude, toda a sua vida, na companhia dum idiota). É difícil desmascarar as mulheres, revelando que elas não amam as crianças e só abusam delas em seu proveito, porque a gravidez, o nascimento e os cuidados a ter um filho pequeno estão, de fato, ligados a alguns inconvenientes. Mas que insignificantes eles são comparados com aquilo que obtém em troca: segurança vitalícia, conforto e isenção de responsabilidade. O que teria um homem de suportar para alcançar para si algo de igualmente valioso? Já começou até a circular entre os homens que uma gravidez não é de longe tão desagradável como parece. Há mulheres que se sentem particularmente bem durante esse período e tornou-se recentemente moda confessá-lo abertamente. Escusam de se incomodar muito com o fato de todas ficarem feias e mal apresentadas, com uma figura maciça, rosto inchado, pele com manchas, cabelo áspero e pernas com varizes. Durante esse tempo não procuram homem, já tem um, e se ele é obrigado a assistir à transformação da sua mulher borboleta em lagarta só tem que se queixar de si próprio. É o seu filho que ela aguarda, é ele que a desfigurou tanto – que direito teria ele de achá-la pesadona e repugnante (além disso, ela está precisamente nessa altura a “oferecer-lhe a sua juventude”)? Acerca do processo do parto propriamente dito grassam ainda boatos atemorizantes, que o homem jamais poderá chegar à conclusão de que a mulher recebe filhos para sua própria vantagem e não para a dele. É certo que a expressão “ela deu-lhe um filho”, que aparecia antigamente nos romances, vai desaparecendo lentamente da literatura, mas, na consciência do homem ela ainda está suficientemente radicada para provocar neles, quando do nascimento da sua descendência, apenas sentimentos de culpa (sentimentos esses em relação à mulher, bem entendido, não ao recém-nascido!). Se um homem imaginasse que poderia ganhar uma pequena renda vitalícia graças a uma consulta no dentista que demorasse seis horas não o faria? Claro que, de vez em quando, também há partos difíceis (graças à anestesia são consideravelmente menos dolorosos), mas, em geral, o parto não é mais doloroso para uma mulher que uma demorada consulta no dentista. O que os homens sabem através das mulheres acerca do desenrolar do parto são, na maioria, exageros desavergonhados. Os gritos estridentes que, frequentemente, chegam até eles atravessando a porta das salas de parto, explicam-se melhor por falta de orgulho e deficiente auto-domínio (ambos foram explicados pormenorizadamente noutro capítulo). Há anos que existe o parto sem dor em que as mulheres dão à luz os seus filhos depois de um período de preparação, com ginástica e treino próprio, sem anestesia e sem se queixarem. As mulheres fariam bem em combinar umas com as outras se o parto faz ou não faz doer. Enquanto umas contarem isto e as outras aquilo, caem em descrédito e prejudicam a causa comum. Claro que a mulher tem mais algumas razões para gerar pequenos seres humanos além de dar-se ares de desamparo e passar assim os dias com trabalho fácil e sem obedecer a chefes. Ela descobre, por exemplo, um belo dia, que o seu corpo funciona como uma máquina automática na qual basta introduzir algo de modesta aparência para dele sair algo de fantástico. É natural que se entusiasme a experimentar um dia esse jogo maravilhoso. E depois de o ter jogado uma vez, gostaria de o continuar a jogar muitas e muitas vezes (quase sempre bate certo: – precisamente ao cabo de nove meses vem um ser humano), fica louca de entusiasmo e acha-se magnífica. É evidente que a utilização do autômato é, no fundo, tão natural como um homem partir a cabeça a outro (caindo este automaticamente), só porque isso é biologicamente possível. – Se cada um desses jogos com o seu corpo-autômato não significasse posteriormente um pequeno incômodo para si, ela seria insaciável. Assim, é forçada a estabelecer uma fronteira: aquela onde uma criança a mais significaria para ela apenas um aumento do programa de trabalho e não um acréscimo de segurança ou conforto. A fronteira é geralmente muito fácil de estabelecer e é condicionada, principalmente, pelo estágio de automatização do respectivo trabalho doméstico: em países altamente industrializados a mulher deseja dois ou três filhos. Para a norte-americana cujo trabalho doméstico está plenamente automatizado, o ótimo serão três; a europeia ocidental (a quem faltam ainda alguns aparelhos domésticos), preferirá dois. Raramente se deseja um filho único e mais que três filhos é considerado associal por causa do barulho e do cheiro da roupa suada. Um filho único não traz vantagens, apenas desvantagens. Uma mulher com um filho único nunca parece tão desamparada ou agrilhoada ao lar como devia ser. E podia também vir a acontecer qualquer coisa a esse filho – talvez até numa idade em que a mulher já não pudesse mais conceber – e deixaria de haver pretexto para levar uma vida mais cômoda que a do seu marido e ele já não teria pretexto para trabalhar precisamente para ela. Além disso, o filho único não teria companheiros de brincadeiras, a mulher teria talvez até de brincar com ele – e se alguma coisa existe que as mulheres detestam é brincar com os filhos. Enquanto que as crianças se interessam por tudo e perguntam tudo, a mulher fundamentalmente não se interessa por nada (além das imbecis possibilidades de divertimento que lhe proporcionam o governo do lar e o seu corpo). Por isso, é manifestamente difícil à mulher – mesmo quando tem a melhor boa vontade, – penetrar no mundo fantástico das crianças. É certo que ela possui um repertório de expressões pueris para entretenimento de crianças muito pequenas (“Ai, ai, ai, quem é que vem aí?”) mas logo que elas ultrapassam os dois anos e começam a pensar por si, acabou-se. Não existe a propósito da mãe e do filho, nem sequer a propósito da mãe e da filha, o proverbial “clichê” dos interesses comuns de pai e filho “o pai que não pode deixar de brincar com o trem elétrico do filho). Quando, porém, uma mulher consegue dominar-se e brincar meia hora por dia com seu filho (...mais do que isso também seria prejudicial para o desenvolvimento do seu espírito), conta isso em toda parte como se fosse uma façanha (e com razão, porque autodomínio em tal grau é de fato, no caso dela, uma façanha). Só dois ou três filhos é que garantem segurança material: fazem com que a mulher pareça desamparada e incapaz de angariar o seu sustento e diminui o risco de ficar na velhice sem filhos (sem netos), sem ninguém que lhe possa manifestar a sua reverência pelo cuidado maternal. Permite, além disso, que as crianças brinquem umas com as outras, enquanto a mulher se dedica aos seus prazeres “mais elevados”, tais como coser ou fazer bolos. A assistência maternal consiste, nesse caso, em fechar os filhos todos num quarto e voltar a entrar nele apenas quando algum se feriu ou berrou muito alto. Acresce que a educação e amestração de dois ou mais filhos é muito mais fácil de conseguir que de um filho único. Para conquistar a obediência de um filho único tem de fazer-se uma complicada propaganda, têm de inventar-se métodos para o enganar (“persuadir”, “levá-lo ao bom caminho”) ou é preciso castigá-lo (o que só maça a mulher, por isso deixa este trabalho para o marido). Pelo contrário, vários filhos educam-se por chantagem. Como todos dependem do elogio da respectiva mãe, basta favorecer ligeiramente um deles para que os outros façam imediatamente o que lhes é exigido. Cada filho vive num medo constante de que a mãe o possa privar do seu “amor” para o dedicar a outro, e se é certo que esse medo não permite, em regra, que haja simpatia entre irmãos (como se a mulher estivesse interessada nisso!), a verdade é que estimula a concorrência e, portanto, o rendimento do trabalho. E mais tarde também, quando esses filhos forem adultos, mais não desejarão, no fundo, que supervalorizarem-se mutuamente para mostrar essa eficiência aos olhos da mãe. Os filhos satisfazem a sua ambição na profissão, as filhas rivalizam mutuamente na acumulação de bens. E de tempos a tempos juntam-se todos à volta da mãe (que tem isso na conta de demonstração de simpatia e apoda o interesse de uns irmãos pelos outros de “sentido de família”) para mostrar a ela os seus últimos feitos. Todas essas vantagens, porém, só existem no caso de haver dois ou três filhos. Uma mulher com mais de três filhos (hoje em dia, na maioria dos casos, devido a um descuido ou a compromissos religiosos do homem) tem, é certo, durante alguns anos, bastante que fazer – se bem que podendo dividir o tempo à sua vontade, sem responsabilidade pelo sustento de sua vida (de resto, a responsabilidade por crianças é desconhecida da maioria das mulheres) e sem superiores hierárquicos. Mas essa atividade aumentada dura apenas até o filho mais novo atingir a idade do jardim de infância, e ainda lhe proporciona uma pequena vantagem: pode estar certa de que o seu marido, enquanto os filhos não forem crescidos, nunca a deixará. Sim, porque um homem que abandona uma mulher com quatro ou mais filhos (mesmo que seja, simplesmente para não a poder aturar mais) é considerado na nossa sociedade, praticamente como um criminoso. Seja como for, quando os filhos atingem a idade escolar ou pré-escolar, termina, mesmo para a mãe de muitos filhos, a maior parte do trabalho da sua vida. De novo passa a ter tempo – e já agora com mais dinheiro – para gozar a vida. Vai ao cabeleireiro, dispõe em jarras, pinta os móveis de cores seguindo as sugestões das revistas femininas e cuida do seu precioso corpo. Na maioria dos países ocidentais o ensino nas escolas dura quase todo o dia e nos poucos em eu ainda não existem escolas dessas, estão os homens construindo-as com o entusiasmo habitual. A partir das suas investigações, verificam que as crianças não submetidas à influência das respectivas mães durante meio dia, podem desenvolver melhor as suas faculdades intelectuais e por conseguinte serão mais produtivas posteriormente. A utilização prática desse conhecimento, que de forma alguma consideram humilhante (como não conhecem a “honra” dos homens, não podem ser atingidas dessa maneira) é feita, pois, duplamente, no interesse das mulheres.  

O HOMEM Domado (1971) Esther Vilar

Sistema psiquiátrico e manutenção do transtorno

Transtorno mental, loucura, ou de qualquer maneira que você escolha chamar isso, tem sido uma preocupação minha desde o primeiro dia que eu entrei - ou melhor fui arrastado - na unidade psiquiátrica Real de Londres. Esse foi o dia que um psiquiatra que tinha me conhecido por menos de 1 hora concluiu que eu estava sofrendo de um transtorno mental chamado esquizofrenia. Esse encontro de 1 hora mudou minha vida inteira. Assumidamente minha vida até esse momento não tinha sido a mais agradável registrada. Na verdade, eu tinha tinha uma existência bem solitária e infeliz. Uns poucos meses como um interno do hospital psiquiátrico mudou isso tudo. Longe de ser solitário e infeliz, eu me tornei totalmente isolado e deprimido. Pelos próximos 10 anos minha vida era controlada pelo sistema psiquiátrico. Nesse momento meu cunhado, sobre me conhecer pela primeira vez, pensou: "Que merda foi aquela?" Ele estava se referindo à visão de dar pena do que eu tinha me tornado quando ele me conheceu 5 anos depois da minha internação no hospital. Ele mais tarde me disse que queria atirar em mim para acabar com minha miséria.
Longe de ser um santuário ou um sistema de cura, o sistema psiquiátrico se tornou para mim, como para muitos outros, um sistema de medo e continuação do transtorno. Como muitos outros, a recuperação era um processo que eu não tinha encontrado dentro do sistema. Na verdade, eu posso honestamente dizer que não foi até eu deixar o sistema que o processo de recuperação realmente tomou rumo na minha vida.
Era como se o sistema não tivesse expectativa nenhuma de eu me recuperar; ao invés disso a ênfase era na manutenção. Eu não estou dizendo que aqueles que trabalharam no sistema não cuidaram de mim. Eles fizeram isso: eles me vestiram, me alimentaram, me deram onde morar, e se encarregaram de eu tomar minha medicação. O que eles não fizeram foi considerar a possibilidade de que eu poderia retornar a ser uma pessoa. Não a que eu fui um dia, mas a pessoa que eu poderia me tornar; talvez mais do que eu era uma vez. Na verdade, eu pude me tornar Ron Coleman.

Livro: Recovery An alien Concept
Autor: Ron Coleman

sábado, 11 de abril de 2020

Cuidados maternos, esquizofrenia e epigenética

A pesquisa com animais de
laboratório, em que se reproduzem as condições neurobiológicas
presentes na esquizofrenia, também vem auxiliando enormemente
93a compreensão do papel dos fatores genéticos, ambientais e epi-
genéticos na gênese da esquizofrenia. Por exemplo, alguns desses
estudos têm revelado que a qualidade da interação mãe-filhote
tem papel predominante tanto na origem quanto no prognóstico
das psicoses 8,9,10,11 .

[Comentário: A biologia fortalecendo uma hipótese que foi fortemente combatida por psiquiatras biológicos: os pais ou o ambiente familiar tem impacto no diagnóstico de esquizofrenia.]

Assim, os genes que se encontram
hipermetilados em esquizofrênicos são também hipermetilados em
resposta ao estresse pré-natal.
Esses dados sugerem que o estresse pré-natal modula parâmetros
epigenéticos e isso pode estar relacionado com a fisiopatologia
da esquizofrenia.
 
Por outro lado, o ambiente também pode
ser protetor e reverter alterações gênicas, contribuindo na melhora
do prognóstico desta e de outras doenças 12 .

Referência:

EPIGENÉTICA APLICADA À SAÚDE E À DOENÇA: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS BASEADOS EM EVIDÊNCIAS ATUAIS

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwiYuLSgyeHoAhUSHbkGHRJwCrYQFjABegQIAxAB&url=http%3A%2F%2Feditora.metodista.br%2Flivros-gratis%2FEPIGENETICA%2520APLICADA%2520A%2520SAUDE%2520E%2520A%2520DOENCA.pdf%2Fat_download%2Ffile&usg=AOvVaw2xTPOzwylFIt5JLWWgp7RL

MODULAÇÃO EPIGENÉTICA NA ESQUIZOFRENIA

Conforme já foi abordado previamente, a epigenética consiste
no estudo das alterações reversíveis e herdáveis no genoma fun-
cional que não alteram a seqüência primária do ácido desoxirri-
bonucleico (DNA).

Estudos epigenéticos permitem compreender
como os padrões de expressão são transmitidos aos descendentes,
de que forma ocorrem as modificações gênicas durante a dife-
renciação de um tipo de célula e, especialmente, como os fatores
ambientais repercutem na expressão de genes específicos.

O papel da epigenética no desenvolvimento da esquizofrenia
vem sendo elucidado nas últimas décadas. De certo modo, as pesqui-
sas epigenéticas nesse campo foram favorecidas pela constatação de
que os fatores genéticos e ambientas, isoladamente, não dão conta de
explicar totalmente o risco para o desenvolvimento dessa doença 5 .

Os estudos com gêmeos monozigóticos separados ao nasci-
mento foram reveladores neste sentido. Ora, se tais indivíduos
possuem a mesma composição gênica, as diferenças de ocorrência
do transtorno só poderiam ser atribuídas à exposição a fatores
ambientais não partilhados pelos irmãos. Na esquizofrenia, esses
estudos apontam para uma concordância ao redor de 50%. Tais
achados suscitam questionamentos tanto sobre a “força” do me-
canismo genético quanto dos elementos “protetores” ou “bloque-
adores” do desenvolvimento da doença advindos do ambiente 4 .
Poderíamos supor, por exemplo, que os 50% que não manifesta-
ram a doença foram favorecidos pela supressão de algum gene.
Mas também poderíamos refletir que aqueles que desenvolveram
a doença sofreram alguma influência no sentido de favorecimento
em direção à sua manifestação, ou mais precisamente, na direção
da expressão do gene ou dos genes a ela relacionados. Vários
questionamentos subsequentes dão conta de pensar sobre o que
teria suprimido ou favorecido a expressão do gene. Certamente,
a já mencionada interação de fatores genéticos com o estresse (ou
não) ambiental está envolvida na organização destes desfechos 4 .

Franzek e Beckmann (1998), ao usarem diferentes sistemas
diagnósticos para examinar a concordância entre gêmeos mono-
zigóticos e dizigóticos, sugeriram que o espectro das síndromes
esquizofrênicas pode consistir em subgrupos clinicamente e
etiologicamente heterogêneos, com diferentes origens genéticas
e ambientais 4 .

A pesquisa com animais de
laboratório, em que se reproduzem as condições neurobiológicas
presentes na esquizofrenia, também vem auxiliando enormemente
93a compreensão do papel dos fatores genéticos, ambientais e epi-
genéticos na gênese da esquizofrenia. Por exemplo, alguns desses
estudos têm revelado que a qualidade da interação mãe-filhote
tem papel predominante tanto na origem quanto no prognóstico
das psicoses 8,9,10,11 .

[Comentário: A biologia fortalecendo uma hipótese que foi fortemente combatida por psiquiatras biológicos: os pais ou o ambiente familiar tem impacto no diagnóstico de esquizofrenia.]

Modificações epigenéticas parecem ser importantes fatores
reguladores do funcionamento neural, estando envolvidas na
plasticidade sináptica, no comportamento, no aprendizado e
na memória durante os estágios críticos do desenvolvimento
humano 10 . Essas modificações epigenéticas não ocorrem ao aca-
so, encontrando seu substrato causal nos fatores ambientais que
circundam o sujeito. Traumas físicos e psíquicos, exposição a
substâncias tóxicas e inclusive elementos nutricionais podem as-
sociar-se à modificação na expressão gênica de modo a atuar como
fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais
como a esquizofrenia. Por outro lado, o ambiente também pode
ser protetor e reverter alterações gênicas, contribuindo na melhora
do prognóstico desta e de outras doenças 12 .

[Comentário: cuidar da saúde geral previne e recupera]

Estudos clínicos conduzidos com indivíduos portadores de
esquizofrenia têm demostrado a presença de metilação global de
DNA tanto em tecidos post-mortem como em sangue periférico.
Dentre os genes metilados, os mais citados são o fator neuro-
trófico derivado do encéfalo (BDNF), o codificador da proteína
relina (RELN) e o Catechol-O-metiltransferase (COMT) 10,13,14 .
Sabe-se que o BDNF é uma proteína endógena responsável por
regular a sobrevivência neuronal e a plasticidade sináptica do
sistema nervoso periférico e central. O COMT está envolvido no
metabolismo da dopamina, sendo que a deficiência desse gene
gera uma interrupção na capacidade do cérebro para controlar
a atividade do referido neurotransmissor. Já o gene RELN é
responsável por uma glicoproteína envolvida na plasticidade
sináptica, na extensão de dendritos e na liberação de neuro-
transmissores 11 .

[Comentário: 1) A psiquiatra crítica Joanna Moncrieff critica a crença de que os neurolépticos melhoram o fator neurotrófico BDNF pois esse fator está presente em pacientes com Alzheimer também. 2) A alteração epigenética na regulação da dopamina está presente em paciente ingênuos (nunca tratados com neurolépticos)? ]

Assim, os genes que se encontram
hipermetilados em esquizofrênicos são também hipermetilados em
resposta ao estresse pré-natal.
Esses dados sugerem que o estresse pré-natal modula parâmetros
epigenéticos e isso pode estar relacionado com a fisiopatologia
da esquizofrenia.

Considerações finais

Os estudos epigenéticos sugerem que o contexto ambien-
tal, como cuidado materno, estresse e uso de fármacos exercem
influência na modulação gênica e epigenética em modelos expe-
rimentais e em indivíduos com esquizofrenia. Essa influência,
naturalmente, pode ser negativa ou positiva, influenciando no
prognóstico da doença.


EPIGENÉTICA APLICADA À SAÚDE E À DOENÇA: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS BASEADOS EM EVIDÊNCIAS ATUAIS

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwiYuLSgyeHoAhUSHbkGHRJwCrYQFjABegQIAxAB&url=http%3A%2F%2Feditora.metodista.br%2Flivros-gratis%2FEPIGENETICA%2520APLICADA%2520A%2520SAUDE%2520E%2520A%2520DOENCA.pdf%2Fat_download%2Ffile&usg=AOvVaw2xTPOzwylFIt5JLWWgp7RL

Ler mais:
Crítica a hipótese de neuroproteção dos neurolépticos
https://crisedapsiquiatria.blogspot.com/2020/03/critica-hipotese-de-neuroprotecao-dos.html 

Questionando a hipótese "neuroprotetora": o tratamento medicamentoso evita danos cerebrais em psicose precoce ou esquizofrenia?
Joanna Moncrieff (a1) DOI: https://doi.org/10.1192/bjp.bp.110.085795 Publicado online por Cambridge University Press: 02 de janeiro de 2018

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Respeito à vida humana versus dinheiro

O lema de respeito absoluto pela vida humana é lenda pois os médicos tem mais respeito à própria carreira, bolso e ego do que à saúde dos clientes. A aura de anjos e de heróis dos médicos nunca me convenceu. Só valorizam a saúde do paciente quando é possível conciliar com ganhar dinheiro. Quando a saúde entra em conflito com ganhar dinheiro a saúde do paciente fica em segundo lugar.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Indicações equivocadas de psicocirurgia

Indicações de psicocirurgia para transtornos mentais se baseiam em pressupostos frágeis da psiquiatria biológica e pesquisas genéticas inconclusivas. O pressuposto de que transtornos mentais são doenças cerebrais, de que as drogas psiquiátricas funcionam mas não estão funcionando num paciente. Também a crença de que a terapia cognitivo-comportamental é a melhor opção e critério para saber que um tratamento é resistente a tratamento ou não. A crença na eletroconvulsoterapia também. O que acontece é que a terapia cognitivo-comportamental tem métodos de pesquisa semelhantes à pesquisa médica (ensaios randomizados). A terapia comportamental (expressão que tem um significado diferente nos Estados Unidos e inclui terapia cognitivo-comportamental) é um método mais poderoso mas que por usar métodos de pesquisa diferente da pesquisa médica ainda não foi considerada pelos psiquiatras tradicionais como padrão ouro de tratamento.

Só fazem sentido dentro de pressupostos médicos tradicionais.

Neurosurgery for Psychiatric Disorders

https://www.youtube.com/watch?v=zZ4H9m1OnTI

Darwin sobre sofrimento

"Dor ou sofrimento de qualquer tipo, se continuado longamente, causa depressão ou reduz o poder de ação; ainda assim é bem adaptado para fazer uma criatura se defender contra qualquer mal grande e repentino."

Charles Darwin, 1887, p. 51-52

Doença e evolução

Evolution - Medicine's Missing Basic Science

https://www.youtube.com/watch?v=Mk41Z0g8S54

Seis razões pelas quais as doenças existem

A seleção (natural) é lenta
1. Descompasso: corpo em novo ambiente
2. Competição com organismos que evoluem rapidamente

A seleção (natural) é constrita (restrita)
3. Todo traço é um trade-off (troca)
4. Constrições (restrições) na seleção natural

Nós entendemos errado
5. Organismos modelados para o sucesso reprodutivo e não para saúde
6. Defesas e sofrimento



"Nossos desejos estão nos matando".



Você deveria fugir de um barulho?

Poderia ser um macaco... ou um leão!!!

Custo de fugir: 200 calorias

Custo de não fugir se um tigre: 200.000 calorias

Otimalidade/otimização: fugir quando p tigre > 1/1000

999 ataques de pânico dos 1000  serão desnecessários mas perfeitamente normais



O princípio do detector de fumaça

Sistemas de regulação otimizados expressam muitos falsos alarmes normais.

Por isso podemos bloquear as defesas com segurança.
(exceto por 1 vez a cada 1000)

Também: dor, febre, vômito, fadiga, etc.

Uma conclusão sobre defesas:
a maioria do sofrimento humano é normal mas desnecessário

Exceto por 1 vez a cada 1000
quando as defesas são essenciais

Isso explica como a medicina geral é possível.




Transtorno do pânico:

Um falso alarme da resposta de luga ou fuga
   o princípio do detector de fumaça

Uma defesa desregulada




Defesas e sofrimento

Náusea, vômito, diarreia, febre, tosse, fadiga e ansiedade são respostas dolorosas mas úteis.

"Dor ou sofrimento de qualquer tipo, se continuado longamente, causa depressão ou reduz o poder de ação; ainda assim é bem adaptado para fazer uma criatura se defender contra qualquer mal grande e repentino."

Charles Darwin, 1887, p. 51-52



Saúde não é objetivo da seleção (natural)

A seleção (natural) maximiza sucesso reprodutivo e não a saúde, longevidade e felicidade

A reprodução supera tudo
   velhice
   o sexo frágil



Algumas de muitas implicações:

Não existe genoma (genes) normal. O que existe são genes que contribuem ou não para a reprodução.

Explicações necessárias para universais
   não apenas para diferenças individuais

Espere desenho ruim em todo lugar

Mas reconheça que o que você pensa que é desenho ruim pode ser excelente

Supostos "defeitos genéticos" e ambientes novos

Na genética se fala que genes que foram selecionados positivamente como adaptativos há muitos anos atrás podem aumentar a probabilidade de doenças em interação com os novos ambientes atuais.
A medicina afirma que há um problema genético com as pessoas adoecidas. Mas a partir desse princípio não é necessariamente um defeito genético em si (ou necessariamente) que está presente pois esse foi selecionado positivamente. Onde está o gene defeituoso? É o próprio gene que é defeituoso ou é a interação com o novo ambiente que gera problemas? Por que não trabalhar o ambiente então ao invés do "defeito" no corpo?

terça-feira, 7 de abril de 2020

"Falta" de repertório especial e transtorno mental (ironia)

Conviver com pessoas com deficits de repertório leva a exigências ambientais especiais ou exigências de repertório especial (adicional). Então por o paciente ter que lidar com exigências ambientais complexas, absurdas ou pouco claras os psiquiatras biológicos diagnosticam a "falta" de repertório especial para se ajustar ou se adaptar. Obviamente,  isso é injusto. A família paga o psiquiatra e é a serviço dela que ele trabalha.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Prevenção e fabricação de loucura (atualizado)

Se um psiquiatra biológico investiga a fundo para procurar detalhes que interpreta como sinais de "doença mental" e prevê que o cliente vai piorar e que precisa de prevenção através de drogas psiquiátricas, a tendência é que essa profecia autorrealizadora se cumpra tanto por causa dos efeitos negativos das drogas psiquiátricas (neurotoxinas) quanto pelo inculcamento de interpretações psiquiátricas (pessimistas) da vida do cliente pela família, paciente e sociedade.

Quando o cliente propõe um desmame contra a opinião do médico isso também acontece. O médico prevê uma piora em 6 meses e uma interpretação da abstinência como recaída da "doença mental" que leva a sociedade a reagir à situação de maneira a pressionar o cliente para tomar a droga psiquiátrica ou responder com internação involuntária (interpretação psiquiátrica tradicional).

O pesquisador Peter C. Gøtzsche afirma algo semelhante no livro dele Deadly Psychiatry and Organized Denial

"O sobrediagnóstico e o tratamento excessivos generalizados são outro problema que eu trato. Lá há um superdiagnóstico enorme de transtornos mentais e, depois que você recebe um exame psiquiátrico diagnóstico tudo o que você faz ou diz torna-se suspeito, pois agora você está  observação, o que significa que o diagnóstico inicial, talvez experimental, também torna-se facilmente uma profecia auto-realizável (ver Capítulo 2)."

"Rosenhan explicou que o diagnóstico se torna uma profecia auto-realizável. Eventualmente, o paciente aceita o diagnóstico e se comporta de acordo. Rosenhan argumenta que não devemos rotular todos os pacientes esquizofrênicos com base em comportamentos ou cognições, mas limitar nossas discussões a comportamentos, os estímulos que os provocam e seus correlatos. Ele descobre que as forças psicológicas que resultam em despersonalização são fortes e imaginam como seria se o os pacientes fossem mais poderosos do que impotentes. Se eles fossem vistos como interessantes indivíduos em vez de entidades de diagnóstico; se eles fossem socialmente significativos do que leprosos sociais; e se a angústia deles verdadeira e totalmente compeliu nossas simpatias e preocupações; não procuraríamos contato com eles, apesar da disponibilidade de medicamentos? Talvez pelo prazer de tudo isso? Infelizmente, essas palavras sábias foram esquecidas na psiquiatria atual onde as histórias pessoais dos pacientes contam tão pouco que os psiquiatras geralmente falham em desvendá-los."

"Não é tão estranho quanto parece que muitas pessoas são diagnosticadas incorretamente com esquizofrenia. A psiquiatria é radicalmente diferente de outras áreas da medicina, pois pessoas normais têm sintomas e sentimentos semelhantes aos dos pacientes; é principalmente um questão de grau. Mesmo para a esquizofrenia, este é o caso. A psicose não é uma doença biológica como artrite, e muitas pessoas normais têm experiências de psicose  - incluindo delírios e alucinações - de tempos em tempos."

"Os demônios te atacam

Quando fizemos um diagnóstico, certo ou errado, jogamos uma vida em nossa construção social, por exemplo a equipe da Clínica Mayo disse que o distúrbio afeta você, como se tivesse alguma existência independente. Os sintomas do paciente são reais, mas o rótulo de diagnóstico não é real no sentido que define algo que existe independentemente de nós. Um elefante realmente existe e pode nos atacar se chegarmos muito perto. Também dizemos que doenças nos atacam, por exemplo. "ela
teve um ataque de asma ", como se a asma tivesse alguma existência real na natureza, como um elefante.

Você pode sentir que estou ficando muito filosófico, portanto, explicarei Capítulo 5, sobre o TDAH, por que essas distinções podem ser muito importantes. Aqui está outro exemplo. Quando um amigo meu foi internado no hospital em seus vinte anos com psicose aguda, o psiquiatra disse: "Você é esquizofrênico!" Nesse ponto, ela sentiu que deixou de existir como pessoa, com autonomia e dignidade. Ela não era mais alguém que seus cuidadores precisavam respeitar, ela era um saco de sintomas que eles assumiu o controle e os anos seguintes foram devastadores para ela.

Diferenças sutis podem ser importantes. Se o psiquiatra dela dissesse: “Você é um pessoa que atualmente tem sintomas, que costumamos chamar de esquizofrenia ", teria indicado que a pessoa ainda estava lá e era muito mais do que sintomas e que a doença não duraria necessariamente pelo resto vida, que, infelizmente, é frequentemente como os psiquiatras percebem essa doença. Eles não perceberam que são eles, com seus medicamentos antipsicóticos, que fez os problemas durar ao longo da vida (ver Capítulo 11)."

Bob Dylan - Not Dark Yet - Legendado





domingo, 5 de abril de 2020

Vida sem esforço e dor


Instagram professortamuia

Cérebro intacto e imunidade à estresse [ironia]

Quem tem o cérebro intacto está imune a tudo (aos mais extremos desafios e complexas exigências ambientais). Nunca vai se comportar mal e nunca vai receber um diagnóstico psiquiátrico. Vai dar conta de qualquer exigência ambiental não importa o que aconteça. A não ser que procure um psiquiatra (por acreditar nisso), daí tem que ter alguma coisa crônica.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O processo de pensamento dos conformistas e normais

O processo de pensamento dos conformistas e normais consiste em basicamente repetir o que é aceito e negar ou desconsiderar todo o resto. O que é basicamente a negação do pensamento autônomo. Ou o seu inverso: o pensamento heterônomo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Domesticação, psiquiatria biológica e danos cerebrais

Embora a domesticação seja um processo evolucionário, há semelhanças entre os efeitos das drogas psiquiátricas e o processo de domesticação que faz parecer que as drogas psiquiátricas corrigem algum defeito biológico ou aprimoram o cérebro. O processo de domesticação envolve redução da agressividade e diminuição da responsividade do organismo à estímulos externos estressantes. As drogas psiquiátricas são interpretadas como positivas para o organismo por se assemelharem ao processo de domesticação. Mas na verdade fazem isso produzindo danos ao cérebro e ao resto do organismo para que esse pareça mais domesticado mesmo em condições hostis ao organismo. Ao invés de ensinar o sujeito a modificar as condições hostis ou a forma de responder às condições hostis a psiquiatria biológica visa alterar ou corrigir o organismo por atribuir qualquer dificuldade de adaptação cultural à defeito biológico. O que é natural não necessariamente leva à adaptação cultural e por isso é um erro afirmar que a dificuldade de adaptação cultural necessariamente tem origem num defeito biológico. A adaptação cultural pode ser inclusive difícil ou prejudicial ao organismo e é isso que acontece com alguns efeitos das drogas psiquiátricas interpretados como positivos por produzirem adaptação cultural.

Referências:

Duas palestras do etólogo César Ades no dia de Darwin em anos diferentes.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Transformação social e competência

A melhor maneira de transformar a sociedade não é engajamento ou focar em conhecimento diretamente relacionado a transformação social, mas ser muito competente na própria área.

Não é necessário abandonar áreas de conhecimento "alienadas" para fazer um trabalho de valor.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Citação Normopatia Realidade e loucura

É possível a uma pessoa esquizoide ou esquizofrênica levar uma vida satisfatória e mesmo realizar um trabalho de valor excepcional. Pode ser doente, do ponto de vista psiquiátrico, devido a um sentido debilitado de realidade. Como a equilibrar isso, pode-se afirmar que existem pessoas tão firmemente ancoradas na realidade objetivamente percebida que estão doentes no sentido oposto, dada a sua perda do contato com o mundo subjetivo e com a abordagem criativa dos fatos.

D. W. Winnicott, O brincar e a realidade

domingo, 29 de março de 2020

O lado B da psiquiatria na UOL

https://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/o-lado-b-da-psiquiatria-expansao-de-diagnosticos-traz-lucro-a-industria/


O lado B da psiquiatria: expansão de diagnósticos traz lucro à indústria ... - Veja mais em https://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/o-lado-b-da-psiquiatria-expansao-de-diagnosticos-traz-lucro-a-industria/?cmpid=copiaecola

sábado, 28 de março de 2020

Neurolépticos e vida sem desafios

Os neurolépticos deixam os seus usuários indispostos e sem motivação. Levar uma vida sem desafios e sem fazer quase nada é considerado uma "cura". Os psiquiatras inclusive incentivam a se aposentar. No Brasil parece normalizado não gostar de desafios e gostar de desafios intelectuais parece um absurdo. Psiquiatras tradicionais responsabilizam a deficiência do organismo pelo que é efeito dos neurolépticos.

Inclusive os usuários de neurolépticos acham que é escolha consciente ou vontade deles não querer fazer nada desafiador. Na verdade o corpo sinaliza essas sensações com baixo nível de dopamina e por isso o usuário acha que essa é a inclinação natural da própria personalidade.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Compostura e saúde mental

Se a pessoa não mantém a compostura em situações difíceis os profissionais de saúde mental e sociedade em geral facilmente podem exagerar o quanto essa pessoa tem de problemas de saúde mental.

Compostura é muito mais uma atitude social do que sinal de saúde mental ou falta dela. Se aplica o raciocínio da causa subjacente orgânica (da psiquiatria) para sair vencedor de uma situação conflituosa. A pessoa que perde a compostura dá chance para perder a credibilidade social e há motivação social para fazer isso por parte dos oponentes.

Adaptação cultural difícil ou prejudicial e evolucionismo

O etólogo Cesar Ades em palestra do dia de Darwin disse que a adaptação cultural nos dias atuais pode ser difícil e exigir muito da capacidade de adaptação e mesmo ser prejudicial.

Também disse que precisamos compreender os mecanismos para não adotar a solução de simplificar a vida demasiadamente para evitar dificuldades e encontrar soluções melhores.

A partir disso é possível entender a má vontade que desajustados ou hippies tem para com a adaptação cultural, já que é algo que não necessariamente está de acordo com os sentimentos ou inclinações naturais. Ou mesmo de pessoas que não estão tão dispostas a investir na profissão e minimizam esforços. Os hippies inclusive são críticos das maneiras como a cultura dominante pode ser prejudicial ou monstruosa.

Também dá para entender as soluções que algumas pessoas adotam de querer adotar uma vida simples ou simplificada.

quinta-feira, 26 de março de 2020

O PRAZER DO TRABALHO

O PRAZER DO TRABALHO
https://www.youtube.com/watch?v=6jN85ySSIdM



Professor Tamuia

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Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão

https://www.netflix.com/title/81001496

Resistência familiar à psiquiatria crítica

Há uma resistência muito maior por parte dos familiares do que se justificaria por argumentos da psiquiatria biológica. A resistência dos familiares aos argumentos da psiquiatria crítica acontece porque a família de alguma maneira se favorece em detrimento dos interesses do paciente psiquiátrico. Essa resistência se expressa por nem querer conhecer os argumentos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

"O nirvana é o nada"

O filme japones This transient life afirma que o nirvana é o nada. A saúde mental também pode significar que nada acontece.

Medicalização do modo de vida borderline

O diagnóstico borderline é medicalizção de um modo de vida alternativo. Não é coincidência que haja um modo de se vestir e cuidar da aparência e um modo característico de viver. É uma cultura alternativa. O comportamento disruptivo faz parte dessa cultura.

Esta música descreve o modo de vida alternativo borderline:

Scott Pilgrim vs. the World Ruined a Whole Generation of Women [Music Video]

https://youtu.be/TSKizLRFbTo

Filme relacionado com a música:

Scott Pilgrim vs. the World (bra/prtScott Pilgrim contra o Mundo)[2][3][4][5] é um filme britano-nipo-canado-estadunidense[6] de 2010, dirigido por Edgar Wright, com roteiro de Michael Bacall e Edgar Wright baseado nos quadrinhos Scott Pilgrim, de Bryan Lee O'Malley.

Por que é indevido argumentar?

Argumentar é indevido porque força as pessoas a não repetir o que todo mundo diz e  deixar o conformismo pragmático. As pessoas repetem o que todos dizem para se proteger.

sábado, 21 de março de 2020

Normopatia

Normopatia - Coleção Clínica Psicanalíca (Português) Capa Comum – 1 jan 2005

https://www.amazon.com.br/Normopatia-Psicanal%C3%ADca-Fl%C3%A1vio-Carvalho-Ferraz/dp/8573961759/ref=sr_1_1?hvadid=71262194909128&hvbmt=be&hvdev=c&hvqmt=e&keywords=normopatia&qid=1584820417&sr=8-1

Heroísmo médico e idealização de intervenções

A psiquiatra Joanna Moncrieff num programa do psiquiatra Breggin afirmou que há a construção de uma identidade heroica dos profissionais de medicina que impede de perceber que os tratamentos podem ser prejudiciais, isto é, que leva a perceber as intervenções de forma idealizada.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Crítica a hipótese de neuroproteção dos neurolépticos

Link original:


Questionando a hipótese "neuroprotetora": o tratamento medicamentoso evita danos cerebrais em psicose precoce ou esquizofrenia?

Joanna Moncrieff (a1) DOI: https://doi.org/10.1192/bjp.bp.110.085795 Publicado online por Cambridge University Press: 02 de janeiro de 2018

Sumário

A idéia de que os distúrbios psicóticos são caracterizados por uma neurodegeneração progressiva que pode ser revertida pelo tratamento medicamentoso é usada para justificar o tratamento precoce de um número crescente de jovens na maioria dos casos. Argumento que há pouca evidência para apoiar a visão de que antipsicóticos de velha ou nova geração são "neuroprotetores" e algumas evidências de que os próprios medicamentos podem ser responsáveis ​​pelo declínio na matéria cerebral observado em alguns estudos.

Joanna Moncrieff, MRBS, MSc, MD, MRCPsych, Departamento de Saúde Mental
University College London, 67–73 Riding House Street, Londres W1W 7EJ,
REINO UNIDO. E-mail: j.moncrieff@ucl.ac.uk

Declaração de interesse
J.M. é o co-presidente da Rede de Psiquiatria crítica.

Foram emitidas quase 7 milhões de prescrições de medicamentos antipsicóticos fora do hospital na Inglaterra em 2008, um aumento de 48% desde 1998. 1 Dados dos EUA também indicam um aumento drástico taxas de prescrição de antipsicóticos para jovens nos últimos anos. 2 Ideias sobre os benefícios do tratamento medicamentoso precoce em psicose, juntamente com outros fatores, como a comercialização de transtorno bipolar, 3 provavelmente contribuíram para o aumento prescrição desses medicamentos. 

A importância de iniciar o tratamento medicamentoso precocemente e de continuação do tratamento em pessoas que gostariam de parar, geralmente é justificado pela crença predominante de que esquizofrenia ou psicose envolve uma perda progressiva de tecido cerebral que pode ser parado ou reduzido pelo tratamento com drogas antipsicóticas. 4 Por conseguinte, às vezes, os medicamentos são ditos terem propriedades "neuroprotetoras". Essa crença é baseada em uma variedade de evidências, todas discutíveis e abertas a outras interpretações.

Pesquisa de imagens do cérebro 

A principal área que se acredita apoiar a hipótese da "neuroproteção" é a pesquisa de imagens do cérebro que ilustra que pessoas com esquizofrenia ou psicose mostram uma redução progressiva no volume do cérebro e aumento de ventrículos e líquido espinhal cerebral. Todos esses estudos, no entanto, envolvem pessoas que tomaram medicamento antipsicótico a longo prazo. Um grande estudo mostrando maior declínio do volume cerebral em pacientes com psicose de primeiro episódio ao tomar haloperidol em comparação com olanzapina foi interpretado como indicando os efeitos neuroprotetores da olanzapina. 5 O Os autores reconheceram, no entanto, que o estudo também pode ser interpretado como demonstrando alterações diferenciais induzidas por drogas.

Apoiando a última interpretação, um estudo com macacos tratados com doses terapêuticas de olanzapina e haloperidol por 18 meses encontraram uma redução de 8% no peso médio do cérebro fresco em macacos tratados com haloperidol e 11% naqueles em olanzapina em comparação com controles não tratados com medicamentos. 6 A grande maioria dos estudos de indivíduos que são
ingênuos (nunca foram tratados) ou recebeu apenas tratamento mínimo, não demonstram o déficit global no volume cerebral comumente associado a pacientes que receberam tratamento medicamentoso, incluindo, o mais importante, os únicos três estudos envolvendo pessoas com condições de longo prazo que não foram expostos ao tratamento medicamentoso. 7 Resultados de dois estudos de pessoas consideradas com alto risco de psicose também são acreditados que demonstrem perda progressiva de tecido cerebral antes e nos estágios iniciais da doença psicótica. Muitos dos coorte (grupo de sujeitos pesquisados) australianos, no entanto, estavam tomando medicação antipsicótica durante parte do período de acompanhamento. 8 No estudo de Edimburgo, indivíduos de alto risco que evoluíram para psicose apresentaram maior redução do lobo do que aqueles que não progrediram, mas não diferiram dos controles. 9 No geral, portanto, os estudos de imagem fornecem pouca evidência de perda progressiva de tecido cerebral em pacientes não tratados com medicamentos pacientes com esquizofrenia. Além disso, os efeitos do tratamento com droga não foram excluídos como causa da perda de tecido observada em alguns estudos de pacientes tratados com medicamentos. 7

Achados neuropatológicos

Estudos post-mortem (avaliação do cérebro depois da morte) geralmente não descobriram a perda neuronal em grande escala e gliose característica de doença neurodegenerativa no cérebro de pessoas com esquizofrenia, embora haja alguma evidência de redução local de subpopulações neuronais e perda local de espinhos dendríticos e comprimento. 10 Novamente, porém, todos os estudos envolveram pessoas sob medicação a longo prazo. Alguns estudos com pacientes sem uso de drogas descobriram níveis séricos reduzidos do fator neurotrófico (associado com crescimento de células nervosas) derivado do cérebro (BDNF), 11 mas esse achado é não específico da esquizofrenia, e também se descobriu que o BDNF é envolvidos em transtornos do humor e na resposta ao estresse. Apesar foi sugerido que a esquizofrenia envolve aumento ou anormalidade de apoptose (morte celular), vários estudos confirmam que marcadores (indicador biológico) de apoptose em distúrbios neurodegenerativos como a doença de Alzheimer não são elevada no tecido post-mortem de pacientes com doença crônica esquizofrenia e o papel da apoptose no início do condição permanece especulativa. 12 

Duração da psicose não tratada 

Outra linha de evidência indireta citada com freqüência para a hipótese de que a esquizofrenia surge da progressão cerebral patologia que pode ser presa por tratamento medicamentoso é a associação encontrada em alguns estudos (embora nem todos) entre a duração da psicose não tratada e desfecho. No entanto, há muito tempo reconheceu que as condições com um longo e insidioso curso precoce são freqüentemente mais graves do que aqueles com início repentino. A duração da psicose não tratada está fortemente relacionada ao modo de aparecimento 13 e outras características da própria psicose 14, que torna provável que seja simplesmente uma medida indireta de uma condição subjacente mais grave. Pesquisa sobre a duração de psicose não tratada e seus resultados não controlaram (não isolaram as variáveis) adequadamente o modo início e outros fatores potenciais de confusão. 15 Os ensaios de intervenção precoce mostraram alguns resultados positivos, mas não analisaram o papel da medicação além de outras aspectos da intervenção e os resultados a longo prazo são decepcionantes (revisado em Bosanac et al). 15 Dois ensaios de tratamento medicamentoso para jovens com alto risco de psicose sugeriram que a taxa de conversão à psicose foi reduzida, embora não tenha sido estatisticamente significativo (sem relação comprovada estatisticamente) no maior dos dois ensaios. 16 A Até agora, um estudo naturalista mais amplo descobriu que o tratamento medicamentoso não reduziu o início da psicose, 17 esquizofrenia ou psicose. Estudos neuropatológicos não apoiam a ideia de que os medicamentos antipsicóticos, incluindo os novos ou os antipsicóticos atípicos, têm efeitos neuroprotetores. Algumas pesquisas sugerem que eles podem até contribuir para o declínio no volume do cérebro observado em pessoas com esses diagnósticos e são conhecidas induzir dano neurológico na forma de discinesia tardia em alguns usuários de longo prazo. A ideia de que os antipsicóticos são neuroprotetores não deve, portanto, ser usado como justificativa por prescrever ou continuar a prescrevê-los, se não houver outras considerações que também suportem seu uso. Os psiquiatras devem seja particularmente cautelosos quanto ao uso de antipsicóticos nos estágios iniciais ou prodrômicos da psicose, onde, como outros apontaram, existe o potencial de causar muitos danos. 15

Evidências sobre neuroproteção 

No nível neuropatológico, idéias sobre o tratamento medicamentoso neuroprotetor foi desenvolvido devido à evidência de que algumas drogas psiquiátricas, principalmente o lítio, aumentam a atividade em alguns vias associadas ao neurotrofismo e neurogênese (crescimento de células nervosas). 18 As implicações funcionais desses achados não são claras, no entanto. Um estudo, por exemplo, descobriu que, embora o lítio reduza níveis de morte celular por neurônio motor excitotóxico induzido por cainato, células sobreviventes foram danificadas. 19 Em qualquer caso, evidências de antipsicóticos não demonstraram consistentemente esse tipo de efeitos. 18 A visão de que novos antipsicóticos atípicos tenham uma efeito neuroprotetor específico pode derivar de um estudo em animais olanzapina e clozapina que detectaram a regulação positiva da proteína neuroprotetora Bcl-2 (linfoma de células B 2). 20 No entanto, O Bcl-2 também é aumentado em desordens neurodegenerativas, como Doença de Alzheimer, onde é considerada evidência de mecanismo compensatório. Outros estudos não replicaram esse achado, mas um estudo encontrou atividade aumentada da protease capase-3 pró-apoptótica em animais tratados com novos antipsicóticos (aumento de morte celular, ou apoptose). 21 

Efeitos dos antipsicóticos, particularmente atípicos, no desenvolvimento cognitivo 

A função cognitiva também é citada como evidência de seus efeitos neuroprotetores, mas se algum antipsicótico melhora ou não a cognição independentemente dos sintomas permanece incerto. Os sugeridos efeitos superiores dos antipsicóticos atípicos também foram questionados pelos resultados dos ensaios clínicos antipsicóticos de Eficácia da Intervenção (CATIE), em que as maiores melhorias a longo prazo na função cognitiva foram observadas no grupo perfenazina. 22 Ao contrário das idéias sobre efeitos neuroprotetores, há evidência sugestiva de que antipsicóticos reduzem o volume do tecido cerebral, como descrito acima, 7 e são conhecidos por causar a síndrome cerebral patológica conhecida como discinesia tardia. Pesquisas sugerem que, além de movimentos involuntários, discinesia está associada ao declínio cognitivo geral, sugerindo que antipsicóticos podem induzir disfunção cerebral generalizada. 23

Recebido pela primeira vez em 11/08/2010, aceito em 15/09/2010 
1 Centro de Informações em Saúde e Assistência Social. Análise de Custo de Prescrição 2008. NHS Information Center, 2009. 

2 Olfson M, Blanco C, Liu L, Moreno C, Laje G. Tendências nacionais no ambulatório tratamento de crianças e adolescentes com antipsicóticos. Arch Gen Psiquiatria 2006; 63: 679-85.

3 Healy D. A última mania: vender transtorno bipolar. PLoS Med 2006; 3: e185. 4 Lieberman JA. A esquizofrenia é um distúrbio neurodegenerativo? Uma clínica e perspectiva neurobiológica. Biol Psychiatry 1999; 46: 729–39.

5 Lieberman JA, Tollefson GD, Charles C, Zipursky R., Sharma T., Kahn RS, et al. Efeitos de drogas antipsicóticas na morfologia cerebral na psicose do primeiro episódio. Arch Gen Psychiatry 2005; 62: 361–70.

6 Dorph-Petersen KA, Pierri JN, Perel JM, Sun Z, Sampson AR, Lewis DA. Influência da exposição crônica a medicamentos antipsicóticos no tamanho do cérebro antes e depois da fixação tecidual: uma comparação entre haloperidol e olanzapina em macacos. Neuropsicofarmacologia 2005; 30: 1649–61.

7 Moncrieff J, Leo J. Uma revisão sistemática dos efeitos dos medicamentos antipsicóticos no volume cerebral. Psychol Med 2010; 40: 1409–22.

8 Takahashi T, Wood SJ, Yung AR, Soulsby B, McGorry PD, Suzuki M, et al. Redução progressiva da substância cinzenta do giro temporal superior durante transição para psicose. Arch Gen Psychiatry 2009; 66: 366–76. 

9 Lawrie SM, Whalley HC, Abukmeil SS, Kestelman JN, Miller P, Best JJK, et al. Alterações temporais do volume do lobo em pessoas com alto risco de esquizofrenia com sintomas psicóticos. Ir. J Psiquiatria 2002; 181: 138–43.

10 Jarskog LF, Miyamoto S, Lieberman JA. Esquizofrenia: novas patologias idéias e terapias. Ann Rev Rev 2007; 58: 49–61. 

11 Chen DC, Wang J, Wang B, Yang SC, Zhang CX, Zheng YL, et al. Diminuiu níveis séricos de fator neurotrófico sérico derivado do cérebro no primeiro episódio esquizofrenia: relação com fenótipos clínicos. Psicofarmacologia (Berl) 2009; 207: 375–80.

12 Jarskog LF, Glantz LA, Gilmore JH, Lieberman JA. Mecanismos apoptóticos em a fisiopatologia da esquizofrenia. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psiquiatria 2005; 29: 846-58. 

13 Morgan C, Abdul-Al R, Lappin JM, Jones P, Fearon P, Leese M, et al. Clínico e determinantes sociais da duração da psicose não tratada no primeiro estudo de psicose de episódio. Ir. J Psiquiatria 2006; 189: 446–52. 

14 Owens DC, Johnstone EC, Miller P, Macmillan JF, Crow TJ. Duração de doença não tratada e desfecho na esquizofrenia: teste de previsões em relação recaída risco. Ir. J Psiquiatria 2010; 196: 296–301. 

15 Bosanac P, Patton GC, DJ do castelo. Intervenção precoce em transtornos psicóticos: fé diante dos fatos? Psychol Med 2010; 40: 353–8.  Conclusões 

16 McGlashan TH, Zipursky RB, Perkins D, Addington J, Miller T, Woods SW, et al. Estudo randomizado, duplo-cego, de olanzapina versus placebo em pacientes prodromalmente sintomático para psicose. Am J Psychiatry 2006; 163: 790–9 
Os antipsicóticos são indubitavelmente úteis para suprimir a sintomas de condições psicóticas, mas as evidências apresentadas aqui sugere que há pouca base na crença de que eles revertem um processo neurodegenerativo subjacente em pessoas com 

17 Walker EF, Cornblatt BA, Addington J, Cadenhead KS, Cannon TD, McGlashan TH, et al. A relação entre antipsicótico e antidepressivo medicação com sintomas basais e progressão dos sintomas: uma abordagem naturalista
estudo da amostra longitudinal do pródromo norte-americano. Schizophr Res 2009; 115: 50–7. Questionando a hipótese de "neuroprotetor" 

18 Hunsberger J, Austin DR, Henter ID, Chen G. O neurotrófico e efeitos neuroprotetores de agentes psicotrópicos. Dialogues Clin Neurosci 2009; 11: 333-48. 21 Jarskog LF, Glantz LA, Gilmore JH, Lieberman JA. Mecanismos apoptóticos em a fisiopatologia da esquizofrenia. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psiquiatria 2005; 29: 846-58.

19 Caldero J, Brunet N, Tarabal O, Piedrafita L, Hereu M, Ayala V, et al. Lítio previne a morte celular excitotóxica de motoneurônios em culturas organotípicas em fatias da medula espinhal. Neurociência 2010; 165: 1353–69. 22 Keefe RS, Bilder RM, Davis SM, Harvey PD, Palmer BW, Gold JM, et al.
Efeitos neurocognitivos de medicamentos antipsicóticos em pacientes com doença crônica esquizofrenia no estudo CATIE. Arch Gen Psychiatry 2007; 64: 633-47.

20 Bai O, Zhang H, Li XM. Medicamentos antipsicóticos clozapina e olanzapina regulação positiva de mRNA e proteína do bcl-2 no córtex frontal e no hipocampo de ratos.
Brain Res 2004; 1010: 81–6. 23 Waddington JL, O'Callaghan E, Larkin C, Kinsella A. Disfunção cognitiva em esquizofrenia: fator de vulnerabilidade orgânica ou marcador de estado para discinesia? Brain Cogn 1993; 23: 56–70.

quinta-feira, 19 de março de 2020

O isolamento é necessariamente um problema?

Dizem que nós necessitamos ser muito sociáveis pois a natureza humana é gregária. Essa explicação pode ser relativizada. Para certas pessoas atividades solitárias são muito mais atraentes. O fato de a natureza humana ser gregária (ou melhor: social) não necessariamente implica que nós necessitamos conversar o tempo todo e fazer disso o propósito da vida. A extroversão é excessivamente valorizada. A troca social tem o potencial de oferecer troca de recursos simbólicos. Mas para as pessoas que preferem ficar sozinhas há outras formas de obter recursos simbólicos ou outras formas de recursos que não necessitam conversar o tempo todo (como um livro, um vídeo, uma troca econômica) ou escolhem poucas e raras pessoas com quem a troca seria satisfatória.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Desmoralização de argumentos

Defender uma tese ou argumentar é dar chance para ser desmoralizado. Por isso, é arriscado tomar iniciativa de falar sobre algum assunto. Quem ouve mais para responder depois fica em posição de vantagem para responder apropriadamente. Argumentos produzem competição. A coisa pode ficar feia e virar diagnóstico de transtorno mental.

PSICOLOGIA NÃO PRECISA SER UMA CIÊNCIA CEREBRAL

Atividade:
POR QUE A PSICOLOGIA NÃO PRECISA SER UMA CIÊNCIA CEREBRAL?
(Comunicação Oral)
Trabalho: POR QUE A PSICOLOGIA NÃO PRECISA SER UMA CIÊNCIA CEREBRAL?
Autor (es):
LUIZ HENRIQUE SANTANA

Resumo: Os recentes avanços na psicologia cognitiva e na neurociência se reconstruíram algumas discussões clássicas sobre o papel de um aparelho ou função psíquica internalizada supõe-se que o indivíduo e a bruxa sejam derivados de uma atividade cerebral. Um histórico argumento para a ascensão do discurso mental-interno para uma explicação do comportamento fenômenos foram discutidos em publicações recentes de pesquisas brasileiras. Contudo, a revolução de dados neurocientíficos e técnicas de intervenção baseadas em perspectiva computacional do sistema nervoso central requerem uma retomada da análise de o papel das variáveis ​​biológicas na explicação do comportamento. Desta forma, este trabalho de resgate alguns tópicos recentes discutidos em periódicos específicos do behaviorismo radical como filosofia para destacar os principais argumentos de um analista de comportamento quando questionado sobre a autonomia explicativa de uma dimensão comportamental para fenômenos psicológicos. Com prerrogativa, é necessário relembrar a impossibilidade de considerar o comportamento como produto final de ações internalistas, privadas e autogerenciadas do sujeito, sem tentativa do papel crítico dos órgãos - como um buraco e não apenas como um órgão, cérebro - história de exposição a contingências de seleção, aqui consideradas por filogenético, ontogenético e cultural. Reconhece-se a necessidade de mais estudos conclusivos sobre o papel da fisiologia no controle e determinação do comportamento tomado como um fenômeno relacional. Caso contrário, concluímos com a reafirmação da autonomia de uma ciência do comportamento em referência à sua irredutibilidade à fisiologia.

Palavras-chaves: Análise Comportamental, Mentalismo, Fisiologia, Neurociência

sábado, 14 de março de 2020

A excelência e a valência negativa

Um dos problemas em ser excelente é a valência negativa na forma de desprezo pelos não excelentes. Isso vale para as outras qualidades. Ou para a saúde mental e a falta dela. Também vale para a valência negativa de discursos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Sobre a relação com a loucura

Pacientes psiquiátricos reclamam do tratamento cruel dado por pessoas que buscam fazer cumprir padrões sociais. Padrões sociais não são desnecessários ou indesejáveis e nem gratuitos. A estigmatização de maus comportamentos em termos de suas consequências também não é gratuita. Nem o prestígio de bons comportamentos é gratuito.

O discurso da normalidade defende que as pessoas normais é que adotam bons comportamentos. A saúde mental pode questionar esse discurso.

Há também o discurso de que ser legal é ser democrático e não exigir padrões ou não buscar altos padrões.

Devemos tolerar qualquer coisa no espírito de ter uma relação positiva com a loucura?

Devemos ser exigentes com normas sociais para que se produzam bons comportamentos?

Será que atingir altos padrões também não é uma forma de ser legal? E não apenas ser legal no sentido de aceitar tudo democraticamente?

O paciente psiquiátrico é uma vítima passiva que apenas sofre ações e merece empatia e apoio? Ou é um agente que deve ser culpado do que faz (ser responsável)? É uma questão de perspectiva e atitude. Ou talvez de função social.

A aceitação teria que acompanhar bons métodos de intervenção: bom planejamento de condições ambientais. Será que é legal ser um coitado e medíocre ou será legal atingir altos padrões? Deverá ser aceito não fazer o que deve? Deve ser dada liberdade absoluta sem preocupação com padrões sociais?

São todos discursos que perpassam a relação com a loucura ou os pacientes psiquiátricos e que necessitam de bom esclarecimento conceitual para uma boa relação com a loucura. Perpassa também a rigidez das exigências para cumprir normas sociais num dos extremos ou a aceitação negligente da liberdade absoluta no outro extremo.

Uma dessas atitudes pode formar classes de comportamentos que afetarão outros comportamentos relevantes para a produção de soluções ou de problemas maiores.

domingo, 8 de março de 2020

Medicating Me (documentário)


Medicating Me: Personal Impressions of Psychiatric Medication

https://www.youtube.com/watch?v=yVmD9c7AgEo

A mental health documentary exploring people's encounters with psychiatric medication. It is not giving advice. It is giving a voice. Beyond chemicals, how does the idea of medication function? http://www.thisismindwick.com This film contains no medical advice. It is a film. Within it, people voice their own subjective experience. It is neither promoting nor criticising any particular ideology.

A aniquilação simbólica de inimigos através de diagnósticos

Diagnósticos psiquiátricos tem a função social de aniquilação simbólica de inimigos sociais de organizações sociais com pretensão de hegemonia.

A psiquiatria biológica ou mesmo o campo psi promove ou ao menos reconhece a intolerância social àquilo que é diferente do esperado. A pessoa é considerada doente mental porque é difícil defende-la ou ter alguém disposto a defende-la. Ela é um inimigo social mas não necessariamente de todos mas de alguns grupos sociais com intenção de se tornar o padrão social através da desqualificação de inimigos.

sábado, 7 de março de 2020

Pesquisa cerebral está sufocando a psicoterapia

Compartilho abaixo a tradução que fiz do artigo The lure of ‘cool’ brain research is stifling psychotherapy, publicado no site AEON no dia 04 de Março de 2020 pelo famoso psiquiatra Allen Frances, professor da Duke University School of Medicine in North Carolina e que foi presidente da força-tarefa que elaborou o DSM-IV. Allen é autor de diversos livros, dentre eles Fundamentos do diagnóstico psiquiátrico e Voltando ao normal, ambos já publicados no Brasil.

"Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e errada" 
HL Mencken no livro Prejudices (1920)

http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2020/03/a-atracao-pela-pesquisa-cerebral-esta.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+PsicologiaDosPsiclogos+%28Psicologia+dos+Psic%C3%B3logos%29

sexta-feira, 6 de março de 2020

Motivação nos estudos e função social

Para ser motivado nos estudos profissionais são necessárias algumas condições:

Ter perspectiva ou necessidade de trabalhar
Ter um nível de habilidade satisfatório para ser gratificado socialmente
Ter a percepção de que pode cumprir alguma função social
Ter supervisão para desenvolver o nível de habilidade satisfatório

quinta-feira, 5 de março de 2020

O perigo de procurar um psiquiatra

https://madinbrasil.org/2020/03/a-coisa-mais-perigosa-que-voce-jamais-deve-fazer/

A coisa mais perigosa que você jamais fará

A coisa mais perigosa que você fará é consultar um psiquiatra.

Por quê? Como há quase certeza, você receberá um medicamento psiquiátrico neurotóxico ou até um eletrochoque ; e porque as informações fornecidas a você o enganarão totalmente sobre seus problemas reais e como superá-los. Sem perceber o que está acontecendo, você estará seriamente em risco de se tornar prisioneiro de drogas psiquiátricas por toda a vida e das desinformações desmoralizadoras fornecidas pelo seu médico.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Neurocientista Sidarta Ribeiro sobre a Psiquiatria

Como você vê a discussão sobre desmedicalização e em
que medida as pesquisas sobre psicodélicos podem ajudar
com alternativas ao sofrimento psíquico?

Essa é uma boa questão. Os medicamentos não estão
sendo eficazes. Mesmo com o uso indiscriminado de me-
dicação, o sofrimento psíquico não diminuiu. Ao contrário,
aumentou. Houve uma simplificação grosseira da psiquiatria.
Antidepressivo é receitado por qualquer médico, não só por
algumas especialidades, sem nenhuma base científica. As
pessoas embarcaram na medicalização achando que esta-
vam comprando um passaporte para a felicidade. Como já
apontam estudos mais recentes, os efeitos colaterais do uso
de antidepressivos são muito grandes quando comparados
com os benefícios, que são muito pequenos.

Alguns autores chegam a dizer que comportamentos “dis-
cordantes” são enquadrados como transtornos mentais.
Como é possível romper com esse modelo biomédico?

O que hoje é considerado louco foi, no passado, alguém capaz
de “ouvir as vozes” dos deuses. A figura do faraó, no Egito,
estava muito associada à loucura. Os líderes da Antiguidade
manifestavam experiências de psicose e usavam essa carac-
terística para conduzir os povos. A própria psiquiatria já tem
demonstrado que o uso indiscriminado de medicamentos
antipsicóticos não tem trazido resultado. As substâncias que
têm efeitos psicoativos só podem ser compreendidas na in-
teração de três elementos: a droga, o corpo que recebe essa
droga e o contexto social. Mas tudo isso é desconsiderado.
Elas são vendidas como se só houvesse um elemento, a
própria substância, sem considerar o corpo e menos ainda o
contexto. Precisamos reconhecer e valorizar as experiências
que levam em conta os contextos de vida de cada paciente,
como é o caso dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). O
Brasil possui uma referência nesse sentido, que pode ajudar a
romper com uma visão retrógrada de psiquiatria.

Revista Radis 209 (Fiocruz)

Uso racional de medicamentos

“O uso racional de medicamentos ocorre quando pacientes recebem medicamentos apropriados para suas condições clínicas, em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade.” Definição da OMS

"Se você tem um paciente que utiliza de 6 a 10 medicamentos, o primeiro raciocínio deveria ser descobrir quais desses medicamentos são essenciais para tratar aquela pessoa. A partir daí, você tem
que desprescrever, desmamar, limpar a prescrição.”

Márcio Galvão, professor da UFBA

"Historicamente, prescritores e pacientes aprenderam que um serviço de saúde serve para prescrever, e não para acompanhar o usuário, reavaliar, pedir que retorne. Tudo isso pressupõe uma acessibilidade muito boa que os serviços de saúde não têm.”

Silvana Nair Leite, da UFSC

A professora e farmacêutica Silvana Nair Leite, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
apontou fatores culturais que interferem no longo caminho rumo à desprescrição de medicamentos.
Numa ponta do processo, estão os profissionais que historicamente aprenderam que uma consulta médica serve para prescrever. Na outra ponta, estão os usuários que muitas vezes se sentem desprestigiados quando vão a uma consulta e saem do local sem nada prescrito.

Para a professora, é esse processo histórico que precisa ser modificado. “Mas isso leva tempo. Não acontece por decreto. Envolve muito trabalho com a coletividade e com muitos setores da sociedade, a despeito das fortes pressões contrárias”

Revista RADIS 209

segunda-feira, 2 de março de 2020

Reforço social do delírio

"Um outro bom exemplo do método operante livre é dado pelo controle do comportamento verbal de uma paciente com esquizofrenia crônica, hospitalizada por dezesseis anos, conseguido por Ayllon e Haughton. Seu comportamento verbal consistia em referências à "Família Real" e a equipe do hospital concluiu que as referências que fazia de si mesma, como "Rainha", tinham sido virtualmente seu único tópico de conversação nos últimos oito anos. Uma lobotomia pré-frontal bilateral não produziu qualquer efeito observável em seu comportamento verbal.

Foram registradas duas classes de respostas: "psicóticas", incluindo referências à realeza, e "neutras", incluindo respostas como "Que horas são?" e "Eu quero um sabonete". As duas classes de respostas tanto foram reforçadas como extintas, durante diferentes estágios do experimento, com a finalidade de controlar a possibilidade de qualquer viés sistemático ou da passagem do tempo e influírem de modo a modificar o comportamento. Tanto o reforço como  a extinção foram controlados pelas enfermeiras psiquiátricas. O reforçamento consistiu em dar um cigarro à paciente e conversar com ela três minutos. A extinção implicou em não dar o cigarro nem atenção social: a enfermeira agia como se estivesse interessada em alguma outras coisa e olhava para algo distante da paciente.

A figura 7 mostra o controle do comportamento verbal da paciente psicótica submetida a esse procedimento. Durante os primeiros quinze dias, nos quais o comportamento verbal foi registrado, mas não reforçado diferencialmentem as duas classes de respostas tiveram a mesma ocorrência. Durante 75 dias seguintes, quando se reforçou as respostas psicóticas e se extinguiu as respostas neutras, houve uma acentuada mudança no comportamento verbal da paciente. As respostas psicóticas ocorreram duas vezes acima da frequência registrada na linha de base e as respostas neutras praticamente desapareceram. Quando as contingências de reforçamento foram invertidas, constatou-se que o mesmo ocorreu no conteúdo verbal. O êxito desse e de outros experimentos semelhantes na modificação de comportamento verbal de psicóticos tem implicações importantes para a psiquiatria. Uma vez que o comportamento verbal bizarro que caracteriza algumas formas de esquizofrenia pode ser controlado pelo reforço social, o mesmo não precisa ser considerado um sintoma de disfunção de algum processo interior hipotético (Ayllon e Haughton, 1964)."



Livro: Análise do comportamento humano
Autora: Ellen P. Reese


domingo, 1 de março de 2020

Vida de facilidades não é pé no chão

Procurar uma vida de facilidades não é pé no chão.

Sentimentos e limitações pessoais

Saber lidar com um tipo de situação leva a ter bons sentimentos em relação aquele tipo de situação ou pelo menos a se manter fazendo aquele tipo de atividade. Fazer só o que nos deixa confortáveis é estagnar a aprendizagem. A pessoa entra em loop procurando sempre o mesmo tipo de situação. Se ela não sabe lidar com algum tipo de situação ela vai ter sentimentos negativos em relação aquele tipo de situação. Os desafios levam à aprendizagem mas saltos são difíceis de realizar.

As consequências deixam tudo mais claro

Quando se começa a considerar as consequências do comportamento verbal, emocional e público as coisas ficam muito mais claras do que relacionar tudo que foge di esperado como sinal de una causa subjacente orgânica no organismo (diagnóstico).

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Grandes eras foram instáveis




Grandes eras

Alfred North Whitehead


Devemos admitir que existe, de uma forma geral, um grau de instabilidade incoerente com a civilização. Mas, de um modo geral, as grandes eras foram eras instáveis.