Limitações da psiquiatria biomédica Controvérsias entre psiquiatras conservadores e reforma psiquiátrica Psiquiatria não comercial e íntegra Suporte para desmame de drogas psiquiátricas Concepções psicossociais Gerenciamento de benefícios/riscos dos psicoativos Acessibilidade para Deficiência psicossocial Psiquiatria com senso crítico Temas em Saúde Mental Prevenção quaternária Consumo informado Decisão compartilhada Autonomia "Movimento" de ex-usuários Alta psiquiátrica Justiça epistêmica
Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação.
Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes.
Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica.
Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco.
Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica.
Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro
Aviso!
Aviso!
A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las.
Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias.
Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente.
Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente.
A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível.
https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/
A Maeli Lilly and Co. anunciou que está atualizando as advertências nos EUA para o medicamento Zyprexa, um antipsicótico atípico que tem sido associado a risco aumentado de suicídio, ganho de peso, entre outros efeitos colaterais. A empresa está alertando que os doentes que tomam Zyprexa devem ser cuidadosamente monitorados para sinais de depressão. https://www.lawyersandsettlements.com/features/zyprexa-suicide/zyprexa-labels.html#.VtOT4RFhl6g.facebook
Partindo das ideias de Gilles Deleuze e Félix Guattari, esse
documentário discutirá a loucura e a normalidade; o paranoico e as
linhas de fuga revolucionárias do arcabouço capitalista da sociedade
contemporânea, onde é dada voz aos esquizos que enxergam além da lógica e
que veem além do muro, da medicina e dos especialistas.
Um filme de Marcos Ribeiro e André Anacoreta
Trilha sonora: Marco Figueiredo
Jim van Os,
full professor and chair, Department of Psychiatry and Psychology,
Maastricht University Medical Centre, PO Box 616, 6200 MD Maastricht,
Netherlands
Disease classifications should drop this unhelpful description of symptoms
In
March 2015 a group of academics, patients, and relatives published an
opinion piece in a national newspaper in the Netherlands, proposing that
we drop the “essentially contested”1
term “schizophrenia,” with its connotation of hopeless chronic brain
disease, and replace it with something like “psychosis spectrum
syndrome.”2
We launched two websites (www.schizofreniebestaatniet.nl/english/ and www.psychosenet.nl)
aimed at informing the public about the nature of psychotic illness and
helping patients deal with pervasive, unscientifically pessimistic,
organic views of their symptoms. The timing was no coincidence.
Several
recent papers by different authors have called for modernised
psychiatric nomenclature, particularly regarding the term
“schizophrenia.”3456 Japan and South Korea have already abandoned this term.
Current classifications
The classification of mental disorders, as laid down in ICD-10 (International Classification of Diseases, 10th revision) and DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, fifth edition), is complicated, particularly psychotic illness.
Currently,
psychotic illness is classified among myriad categories, including
schizophrenia, schizophreniform disorder, schizoaffective disorder,
delusional disorder, brief psychotic disorder, depression/bipolar
disorder with psychotic features, substance induced psychotic disorder,
and psychotic disorder not otherwise classified. Categories such as
these do not represent diagnoses of discrete diseases, because these
remain unknown; rather, they describe how symptoms can cluster, to allow
grouping of patients.
This elegant solution allows
clinicians to say, for example, “You have symptoms of psychosis and
mania, and we classify that as schizoaffective disorder. If your
psychotic symptoms disappear we may reclassify it as bipolar disorder.
If, on the other hand, your mania symptoms disappear and your psychosis
becomes chronic, we may re-diagnose it as schizophrenia.
“That
is how our classification system works. We don’t know enough to
diagnose real diseases, so we use a system of symptom based
classification. The DSM-5 does this differently than ICD-10—but that
does not matter, because it’s only a classification.”
If
everybody agreed to use the terminology in ICD-10 and DSM-5 in this
fashion, there would be no problem. However, this is not what is
generally communicated, particularly regarding the most important
category of psychotic illness: schizophrenia.
The
American Psychiatric Association, which publishes the DSM, on its
website describes schizophrenia as “a chronic brain disorder,” and
academic journals describe it as a “debilitating neurological disorder,”7 a “devastating, highly heritable brain disorder,”8 or a “brain disorder with predominantly genetic risk factors.”9
Current language suggests discrete disease
This
language is highly suggestive of a distinct, genetic brain disease.
Strangely, no such language is used for other categories of psychotic
illness (schizophreniform disorder, schizoaffective disorder, delusional
disorder, brief psychotic disorder, and so on). In fact, even though
they constitute 70% of psychotic illness morbidity (only 30% of people
with psychotic illness have symptoms that meet the criteria for
schizophrenia),10
these other categories tend be ignored in the academic literature (see
box) and on websites of professional bodies. They are certainly not
referred to as brain disorders or similar. It’s as if they don’t exist.
What
remains is the paradox that 30% of psychotic illness morbidity is
portrayed as a discrete brain disease; the other 70% of the morbidity is
communicated only in classification manuals.
Psychosis susceptibility syndrome
Scientific
evidence indicates that the different psychotic categories can be
viewed as part of the same spectrum syndrome, with a lifetime prevalence
of 3.5%,10
of which “schizophrenia” represents the minority (less than a third)
with the poorest outcome, on average. However, people with this
psychosis spectrum syndrome—or, as patients have recently suggested,
psychosis susceptibility syndrome6—display extreme heterogeneity, both between and within people, in psychopathology, treatment response, and outcome.
The
best way to inform the public and provide patients with diagnoses,
therefore, is to forget about “devastating” schizophrenia as the only
category that matters and start doing justice to the broad and
heterogeneous psychosis spectrum syndrome that really exists.
ICD-11 should remove the term “schizophrenia.”
Number of PubMed hits with specific diagnostic categories in the title (November 2015)
Schizophrenia: 51 675
Schizoaffective disorder: 1170
Schizophreniform disorder: 216
Delusional disorder: 212
Brief psychotic disorder: 17
Psychotic disorder (not otherwise specified): 5
Bipolar disorder with psychotic features: 1201
Depression with psychotic features: 409
Substance induced psychotic disorder: 28
Notes
Cite this as:BMJ 2016;352:i375
Footnotes
Competing
interests: I have read and understood the BMJ policy on declaration of
interests and declare the following interests: in the past five years,
the Maastricht University psychiatric research fund that I manage has
received unrestricted investigator led research grants or recompense for
presenting research from Servier, Janssen-Cilag, and Lundbeck,
companies that have an interest in the treatment of psychosis.
Nesse livro tem quase tudo que você precisa saber sobre esquizofrenia com uma visão diferente e crítica. Só falta saber sobre medicação no livro do paulo amarante Medicalização em psiquiatria
O conceito de «saúde mental» em
nossa sociedade é definido na medida em que o comportamento do indivíduo
se ajusta às necessidades do sistema e sem mostrar sinais de tensão.
De tempos em tempos surgem novas
nomenclaturas que se popularizam nas redes sociais, nomenclaturas muitas
vezes adotadas e incorporadas pelos movimentos sociais de uma forma que
não parece ocorrer por elas serem mais completas ou expressarem a
realidade de uma maneira melhor e sim porque tem bastante gente usando,
então, “vamos usar também”! É o que me parece quando reproduzimos
conceitos os quais muitas vezes não sabemos o que significam, de onde
vêm e, o mais importante: se são úteis enquanto categoria de análise. Um
dos mais recentes que tenho visto é o “neuroatípico”. Falando em termos
de feminismo, tenho visto essa palavra sendo utilizada como a forma
“correta” de se referir a mulheres com diagnósticos de doenças mentais
ou sofrimento psíquico, quaisquer que eles sejam. É uma palavra que
designa que o funcionamento psíquico – mais especificamente do sistema
nervoso – é diferente do que seria normal ou esperado. Mas que
comprovação existe, e há quem serve a ideia, de que o problema das
pessoas, e especificamente das mulheres (as mais atingidas pela vasta
maioria das doenças mentais e as maiores consumidoras de medicação
psiquiátrica) reside em um funcionamento irregular do sistema nervoso?
Há muito tempo a psiquiatria vem impondo o
modelo médico para área da Psicologia. Ou seja, existe uma coerção e um
“lobby” se passando por científico para que se aceite a mente como
qualquer outro órgão do corpo, que adoece e se cura da mesma forma. Que o
problema de quem tem doenças mentais é um problema fisiológico. Porém,
as muitas pesquisas, incluindo aí mesmo as diversas manipuladas por
interesses capitais e ideológicos, não conseguem comprovar de fato que a
chave do adoecimento mental encontra-se numa deficiência anatômica. A
mente é muito mais complexa que, por exemplo, um rim. Tanto é que se
criou uma ciência, a Psicologia, especificamente para estudar ela, que
por fim é o estudo do funcionamento humano em suas diversas formas,
incluindo a social. E empurrada por essa coerção médica e farmacológica,
a Psicologia e as mulheres muito sofreram.
O lado social, componente central para a
formação da personalidade e uma das causas das doenças mentais, é, com
frequência, deixado de lado. Como feministas, como mulheres que
acreditam que não tem nada de biológico no gênero, deveríamos também ser
as primeiras a questionar se é a biologia a responsável pelas doenças
mentais. Estudando a história da Psicologia e das mulheres, e olhando
para distúrbios como a antiga histeria, anorexia e fobia social, fica
claro como o desenvolvimento de distúrbios está intimamente conectado
com as condições sociais, econômicas e culturais de cada período
histórico. Por que pegamos para nós, então, a utilização da nomenclatura
“neuroatípica”? É útil pensar, dentro do feminismo, que o problema é
individual? Que ele reside no funcionamento errôneo do nosso sistema
nervoso, do nosso cérebro? E qual seria o oposto, a forma “neurotípica”
de funcionamento, o padrão, a normalidade? Quando uma mulher desenvolve
depressão (…) por sofrer abusos verbais, físicos, emocionais, ela é
neuroatípica? É a sua parte neurológica que não está funcionando bem e
é, portanto, isso que deve ser nomeado ou ela está tendo uma resposta
normal frente a condições, essas sim, problemáticas? Quando uma mulher
sofre transtorno pós-traumático depois de sofrer violência obstétrica,
de sofrer na prostituição, depois de um estupro, incesto, de apanhar do
marido, ela é “neuroatípica”? Quando uma mulher desenvolve agorafobia
(dificuldade de sair de casa) depois de sofrer, na rua, lesbofobia,
racismo, assédios sexuais e morais, ela é neuroatípica? Se (…) admitimos
que a geração de doenças mentais é multifatorial, por que nomear apenas
a parte biológica, a qual (…) costuma ser o menor dos disparadores?
Não individualizemos o problema. Não
coloquemos o problema como estando em nós. Ser mulher frequentemente se
traduz em existir na dor. Em nascer, viver e morrer na dor,
especialmente quando estão envolvidos outros marcadores como raça,
classe e orientação sexual. E o que as mulheres fazem é resistir apesar
do sofrimento que nos é imposto desde o nascimento por um sistema
patriarcal, capitalista e branco-supremacista. Nossas reações às
violências diárias e incessantes que nos ocorrem, nos mais diversos
níveis, tem que ser destacadas pelo menos no feminismo, afinal, boa
parte da Psicologia já faz o trabalho de manter a ideia da transposição
do modelo médico para o funcionamento da mente. Por isso, acredito que a
nomenclatura “neuroatípica” para se referir a mulheres em sofrimento
mental não é útil nem expressa com precisão o que se passa. Nosso
sofrimento não é menos real ou menos digno de estudo e de respeito por
não ser biológico ou genético.
EM MEIO AOS DELÍRIOS, DÊ LÍRIOS!
Quem é louco?
Quem (de perto ou de longe) é, enfim, normal?
Há luz e ação! Alucinação! Somos todos. Nenhum! Ah... Ta... Vá... Pra... PUTA... que... Partiu... Sim, se, for, ser, hei, serei, acertei no alvo. Somos (in)cômodos livres do comodismo de uma existência presa a um EU. QUEM ESTOU EU? Buda, Gandhi, Papa, Frida, Zumbi Dó, Ré, Mi, Fa, Sol, Lá, acolá, aqui. Nós estamos a dois metros do chão! Vocês querem que estejamos no subsolo. Quem é COMPLETAMENTE SÃO que atire a primeira merda Eu te desejo merda, no palco, na casa, na rua, na sua vida-normal. Eu te desejo trevas pra quem acha que louco é bicho do mal. Vai se tratar! Vai se curar! Vai se cuidar! Respondo: Vai TRATAR de CURAR esse hábito de controlar a vida alheia e CUIDAR da tua vida. Prefiro ser todos na loucura, a ser um só na norMALidade Com(vivo) com sua questionável sanidade todo dia e nunca quis te prender. Talvez você já esteja preso a certezas. A beleza da vida não está na metamorfose? Quem és tu se achar no direito de dizer o que é melhor pra mim? Brada aos 4 ventos que é dono de si e não se liberta do desejo de poder, de poder, de poder, de poder. Quer saber: VAI TE PODER! VAI TE PODAR! NÃO VEM ME DOPAR. Minhas letras não cabem no alfabeto. A loucura é a AFIRMAÇÃO DE EXISTIR EM DIFERENÇA O HOSPITAL a afirmação de existir a indiferença. Deixa minha loucura caminhar! Deixa meu delírio acon-TECER, não com-ter-ser. Chama de maluco e só dorme com CLONAZEPAN. Diz que eu rasgo dinheiro e se rasga, se mata por dinheiro. Nossa voz não é alta demais, o ouvido da sociedade que é fechado Seremos nós o excesso ou vocês a necessidade de excluir a exceção? Ser fora-da-curva! Ser uma Curva-do-Fora! Ser agora, daqui a pouco não MAIS. Ser mais. Ser, mas não se prender. Seja, sem me prender.
“(...) a afirmação de que algumas
pessoas têm uma doença chamada esquizofrenia (e de que algumas,
presumivelmente, não a têm) baseia-se unicamente na autoridade médica e não em
qualquer descoberta da Medicina: de que isso foi, em outras palavras, o
resultado de uma tomada de decisão ética e política, e não de um trabalho
científico empírico.” (SZASZ, 1978: 17)
“Fingindo tratar uma doença
semelhante a sarampo durante seu período de incubação a fim de tratá-la melhor,
o psiquiatra na realidade impõe rótulos pseudomédicos aos bodes expiatórios da
sociedade, a fim de melhor prejudicá-los, rejeitá-los e destruí-los.” (SZASZ,
1976: 207)
“Geralmente, retiramos o sentido
que os outros dão às suas vidas, validando nossa humanidade ao invalidar a
deles.” (SZASZ, 1976: 325)
“Devo ser cruel para fazer o bem.
Assim nasce o mal – e por detrás, o pior vem.” (William Shakespeare apud
SZASZ, 1994: 9 epígrafe)
“A
história nos ensina não apenas que os pais sempre abusaram dos filhos, mas
também que cada prática abusiva socialmente adotada estava, por definição, tão
bem integrada na cultura que a servia que, para uma pessoa razoavelmente
aculturada, não parecia de modo algum ser um abuso.” (SZASZ, 1994: 104)
“Vivemos
enganando a nós mesmos de que ter um lar e ser mentalmente saudável são nossas
condições naturais – e de que nos tornamos sem-lar ou mentalmente doentes
quando “perdemos” nossos lares e mentes. O oposto é que é verdade. Nascemos sem
lar e sem raciocínio e temos que nos esforçar e nos alegrar se conseguirmos
edificar um lar seguro e uma mente sã.” (SZASZ, 1994: 138-139)
“É
mais do que certo que, sob a máscara da devoção e do gesto piedoso adoçamos,
sim, o próprio demônio.” (William Shakespeare apud SZASZ, 1994: 180)
Os
gregos entendiam que encontrar a verdade era um ato de descoberta que exigia
remover “o véu que cobre ou oculta algo”. O véu que usamos para encobrir a
verdade da condição humana é a psiquiatria. Se o levantarmos, redescobriremos
os fundamentos familiares da existência, isto é, que algumas pessoas trabalham
e outras não – e que o negócio da psiquiatria é distribuir alívio aos pobres
(disfarçado em cuidado médico) e a adultos dependentes (cuja indolência e falta
de pudor são disfarçadas em doença).” (SZASZ, 1994: 225)
“Uma vez que o paciente mental que se enquadra nos
benefícios por invalidez é considerado como permanentemente incapaz de
trabalhar, ele não tem que se submeter a tratamento, pode viver onde quiser e
gastar seu dinheiro como bem entender; pode casar-se, divorciar-se, ter filhos
e votar. Se for detido por algum crime, pode alegar insanidade. A única coisa
que ele deve fazer para qualificar-se a receber os fundos federais é permanecer
louco e desempregado.” (SZASZ, 1994: 247)
“A maioria das pessoas acredita que pessoas psicóticas
sofrem de ilusões e alucinações, executam atos ilógicos ou sem motivo e negam
sua doença. A verdade é mais simples e mais dolorosa. Os atos e as falas dos
psicóticos fazem muito sentido, mas isto é algo tão perturbador que preferimos
não ouvir nem entender. Essa recusa de uma pessoa normal em reconhecer o método
na conduta irregular do outro pode ser uma opção existencial razoável. Mas
aquele que não quer entender o outro, não tem direito a dizer que aquilo que o
outro faz ou diz não faz sentido.” (SZASZ,
1994: 271)
Establecer el límite entre lo normal y lo
patológico es complicado cuando se trata del cerebro. Vivimos en una
sociedad que lo etiqueta todo y en la que el bienestar mental pretende
adquirirse sin esfuerzo y recurriendo a los psicofármacos
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El consumo de ansiolíticos se ha disparado en España en la última década
¿Quién decide si estoy enfermo o sano? Una cuestión que plantean los doctores Juan Gérvas y Mercedes Pérez-Fernández en «La expropiación de la salud»
(Los libros del Lince). «Nos han ido arrebatando el derecho a decidir
por nosotros mismos sobre lo que nos atañe más que a nadie: la salud»,
sostienen. Establecer el límite entre lo normal y lo patológico es
complicado, y más cuando se trata de la salud mental, difícil de chequear por métodos objetivos.
El psicólogo estadounidense Thomas Armstrong reflexionaba sobre «el mito del cerebro normal» en el «Journal of Ethics»
de la Asociación Médica Americana. No hay un cerebro conservado en un
frasco en el sótano de ningún museo del mundo que sirva de referencia,
argumenta. Para solventarlo, los psiquiatras tienen guías de referencia, como el «Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales» (DSM) de la Asociación Americana de Psiquiatría, o, en versión europea, la «Clasificación internacional de las enfermedades» (CIE).
Pese a todo, hay gran incertidumbre sobre el umbral crítico que separa la variación normal de la patología. Existen ejemplos ilustres de cómo una personalidad obsesiva «de libro», como la de Charles Darwin,
fue de gran ayuda para clasificar con meticulosidad todos los datos
recogidos por el naturalista inglés en su viaje a bordo del «Beagle»,
forjando los cimientos de la teoría de la selección natural. Aun así el naturalista no pudo deshacerse de la ansiedad, que casi le ahoga durante los primeros días de la travesía o que le ponía tremendamente nervioso cuando tenía que recibir a sus amigos en casa.
De forma parecida, el periodista Scott Stossel ha convertido su lucha contra la ansiedad en un «best seller» («Ansiedad», Seix Barral). Un mal del que Darwin intentó librarse viviendo en el campo y acudiendo a un balneario, y que en nuestros días se combate a golpe de pastillas,
pese a que a finales de los 70 alguna de sus seis formas de
presentación, como los ataques de pánico, ni siquiera estaban
etiquetadas y mucho menos se trataban.
De la píldora al mal
Fue un antidepresivo el que puso nombre y sacó a la luz lo que entonces se conocía como neurosis de angustia, en la terminología freudiana. Ocurrió en 1962, cuando el psiquiatra Donald Klein
observó que al tratar con imipramina, uno de los primeros
antidepresivos, a 200 pacientes del hospital psiquiátrico Hillside de
Nueva York, se calmaba su neurosis. Dos décadas después del
descubrimiento, el trastorno, ahora rebautizado, ya figuraba en el
DSM-III.
El razonamiento, dice Stossel, fue que si la imipramina curaba el pánico debía existir ese trastorno.
Desde entonces su diagnóstico (y tratamiento) es tan habitual que no
perdona ni a los famosos: en ocasiones les hace huir del escenario. La idea de que los fármacos etiquetan en lugar de curar inspira el libro de reciente aparición «Anatomía de una epidemia» (Capitán Swing), del estadounidense Robert Whitaker.
Este periodista y escritor es uno más de los que se cuestionan si todo lo que pasa en nuestra mente ha de combatirse con píldoras,
y, más importante, si la eficacia que se supone a esos fármacos es
real. Además sugiere una relación entre «los medicamentos psiquiátricos y
el asombroso aumento de las enfermedades mentales».
En una hora de amigable charla con viejos colegas psiquiatras descubrí que tenía cinco nuevas dolenciasAllen Frances
«Existe la creencia de que los fármacos supusieron una revolución en la salud mental, pero las enfermedades mentales en lugar de disminuir han aumentado.
Y ocurre en todos los países que han adoptado esta forma de cuidado»,
destaca Whitaker. «Se supone que corrigen la química cerebral alterada»,
una premisa de partida que investigó y le llevó a conclusiones
opuestas: más que corregir la química cerebral, los psicofármacos, tomados a largo plazo, la alteran.
Whitaker
aporta como prueba la lucha feroz que han de mantener los psicofármacos
para demostrar que son más eficaces que un placebo en los ensayos
clínicos, antes de salir al mercado. En verdad no compiten más que con las expectativas de curación del propio paciente,
pues esa es la definición del placebo. Y muchas veces ganan. Y
curiosamente, destaca, en muchos casos tanto los que toman el nuevo
principio activo como los que reciben placebo mejoran, pero los primeros recaen y necesitan ayuda médica con más frecuencia que los segundos.
Supuestas panaceas
El psiquiatra Guillermo Rendueles, que acompañó a Whitaker en la presentación del libro, explica que «en España el modelo de psiquiatría teóricamente es psicobiológico. Pero en la práctica es en realidad comercial,
porque son los laboratorios los que enseñan a recetar». Y apunta a los
antidepresivos inhibidores selectivos de la recaptación de la serotonina
(como la fluoxetina), considerados la panacea de los males «del alma»
en sus distintas variantes. Sin embargo, «producen deterioro cognitivo,
alteración de la libido y más de dos tercios de las personas tratadas no
logran la remisión de los síntomas». Pese a su frecuente prescripción,
se echan ahora por tierra para presentar la siguiente generación de
fármacos. «Los antidepresivos son eficaces mientras están en vigor las patentes», sostiene Rendueles. La psicoterapia se abre paso como alternativa en muchos casos tan eficiente como los fármacos.
Así lo avalan cada vez más estudios. Consiste en utilizar el poder de
la palabra para cambiar las ideas que nos hacen sufrir. Y su efecto es duradero, porque proporciona armas para capear los momentos difíciles.
«Nuestra sociedad tenía fama de acompañar en las carencias, pero eso se
ha perdido y ahora hemos de arreglárnoslas solos», señala Rendueles.
Sin embargo, «nos venden la sociedad del bienestar como la mejor, en la
que sentirse mal no está permitido y menos si la dolencia es mental. El
hombre posmoderno debe gozar por imperativo. Y si no, quiere tomar
pastillas para ser feliz».
El hombre posmoderno debe gozar por imperativo o tomar pastillas para ser felizGuillermo Rendueles
Tal vez por eso nuestro país ha triplicado en una década el consumo de ansiolíticos,
según la Agencia Española del Medicamento, llegando a cifras de
auténtica «epidemia de psicofármacos» para combatir la ansiedad, resalta
Rendueles. «En Asturias lo normal es que las mujeres mayores de 65 años
las tomen. Y a diferencia del modelo anglosajón, aquí no se advierte de lo adictivas que son». Los propios usuarios son quienes demandan en las consultas lexatines, valiums y trankimazines para
anestesiar los sentimientos, como si ese fuera el camino para la
realización personal, colocándolos al mismo nivel que otros bienes de
consumo (tabletas, móviles o los últimos «wearables») sin los cuales nos
parece imposible vivir. Quizá hemos olvidado que esos sentimientos intensos tienen en muchos casos una función evolutiva, y que sublimados, como sostenía Freud, pueden hacer que las cosas que nos hacen sufrir cambien.
Quienes más recetan los psicofármacos no son los psiquiatras sino los médicos de atención primaria. Llevados por las prisas, han cambiado su ancestral costumbre de escuchar, que también tiene efecto placebo,
por la de dar pastillas para ahuyentar los males modernos que nos
aquejan. Una prescripción «forzada por la creencia de sus pacientes de tener derecho a la felicidad en forma de píldoras sin necesidad de cambiar en nada sus vidas», insiste Rendueles.
Delirio de grandeza
«La
medicina tuvo un delirio de grandeza al prometer el máximo de salud
para este milenio», dice Rendueles. Pero si por algo se caracteriza
nuestra sociedad es precisamente por cronificar las dolencias sin hallar
su cura. Una paradoja especialmente relevante en los trastornos
mentales, porque, debido a su gran plasticidad, el cerebro se adapta a los fármacos, los incorpora a su química, y necesita recurrir a ellos de continuo, a modo de muleta, coinciden Whitaker y Rendueles. La enfermedad mental se cronifica por el efecto de la farmacopea que pretende curarla.
El
psiquiatra Allen Frances, que participó en varias ediciones del DSM,
resume con humor ese afán de diagnosticarlo todo. Lo cuenta en su libro «¿Somos todos enfermos mentales?» (Ariel). «Me encontré con muchos amigos que trabajaban en el DSM 5 y estaban emocionados con sus innovaciones. Enseguida me di cuenta de que yo era candidato a muchos de los nuevos trastornos.
La forma de atiborrarme de deliciosas gambas y costillas era, según el
DSM 5, síndrome del comedor compulsivo. No recordar nombres y caras, un
trastorno neurocognitivo leve. Mis preocupaciones y tristeza, trastorno
mixto ansioso-depresivo. La pena que sentí al morir mi mujer, depresión
mayor. Mi hiperactividad y distracción, síntomas claros de trastorno por
déficit de atención del adulto. Una hora de amigable charla con viejos colegas psiquiatras y tenía cinco nuevas dolencias».
En esa línea, y candidato a la próxima edición del DSM, acaba de debutar el «síndrome de falta de espíritu navideño». Lo publica el «British Medical Journal».
Al parecer, en el cerebro hay una red neuronal que genera la mezcla de
alegría y nostalgia propias de esa época. «Millones de personas son
propensas a mostrar deficiencias en esa red. Su localización es un
primer paso para ayudar a este grupo de pacientes», argumentan los
investigadores. Preocupante.
Drogas estimulantes usadas no "tratamento" de TDAH podem aumentar o risco de surtos psicóticos.
Quase 2/3 das crianças e adolescentes "tratados" apresentaram reações
adversas psicóticas, como alucinações, delírios, ouvir vozes.
Esse livro dá um bom "resumo" do blogue. Isto é, tem algumas fontes parecidas. Sem precisar ficar lendo 2 ou 3 anos como eu fiz. É claro que tem a autoridade de gente com experiência na área.
“Estaríamos
ficando cada vez mais doentes? Ou estaríamos a cada dia ficando mais
saudáveis, já que gastamos mais com saúde?”. Os autores partem desse
questionamento para discutir a problemática da medicalização, sobretudo
no que se refere ao sofrimento psíquico. Eles chamam atenção para o fato
de que experiências comuns e naturais da nossa existência têm sido
consideradas passíveis de serem 'tratadas' e 'resolvidas' com
medicamentos. As consequências individuais e sociais desse problema são
analisadas pelos autores, que também fazem um alerta sobre os prejuízos
causados por uma nefasta aliança entre a psiquiatria e a indústria
farmacêutica. Com linguagem acessível, esta obra objetiva ampliar o
debate sobre a medicalização do sofrimento psíquico, incluindo, em
especial, aqueles que sofrem com ela.
Preço: R$ 15,00 | 148 páginas
ISBN: 978-85-7541-472-9. 2015. 148 p.
Sumário:
Apresentação
1. As Diversas Faces do Fenômeno
2. Diagnosticar Doenças
3. Medicalização: incluir ou excluir
4. O Mito Científico do Desequilíbrio Químico e Suas Doenças
5. Ninguém Pode Escapar
6. A Desmedicalização É Possível (Experiências)
Reflexões Finais
Referências
Sugestões de Leituras e Filmes
Sobre os autores:
Fernando Freitas: Psicólogo, doutor em psicologia pela Université
Catholique de Louvain (Bélgica); professor e pesquisador do Laboratório
de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial do
Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Fundação
Oswaldo Cruz.
Paulo Amarante: Médico psiquiatra, doutor em saúde pública pela
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz,
com estágio de doutoramento em Trieste (Itália) e doutor honoris causa
pela Universidad Popular Madres de Plaza de Mayo; professor e
pesquisador titular (senior researche) do Laboratório de Estudos e
Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Ensp/Fiocruz,
vicepresidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, presidente de
honra da Associação Brasileira de Saúde Mental, diretor de política
editorial do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde e editor da revista
Saúde em Debate.
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A
lista prévia de dano se relacionam com o impacto da psiquiatria na
sociedade no âmbito médico. Corrupção institucional levou a
prática da medicina numa maneira que violou os padrões do
consentimento informado, e também danificou nossa sociedade como
medido pela piora dos resultados na saúde mental, entre ambos
adultos e crianças. Mas a instituição da psiquiatria também tem
tido um profundo impacto como a criadora de uma filosofia moderna, a
qual afeta o nosso entendimento do que significa ser “normal”,
nossas narrativas internas, nossa resposta societal a injustiças
sociais, e mesmo nossos valores democráticos.
Em
cada sociedade, estórias são contadas que proveem um entendimento
da “natureza humana” e se há um tema que permanece nessas
estórias, é de que humanos são criaturas extremamente emocionais.
O velho testamento conta de humanos frequentemente tomados por
ganância, inveja, luxúria, amor e – ao mais extremo – impulsos
homicidas. Nesse contexto, a luta essencial para uma pessoa está
dentro do próprio eu. As emoções que produzem comportamento
pecador deveria ser prevenidas, e dessa maneira uma pessoa pode ter a
esperança de se comportar de maneiras que são agradáveis a Deus.
Os épicos Gregos pintam esforços similares, e se nós irmos adiante
na história literária nós rapidamente pousamos em Shakespeare,
cujos personagens são regularmente adequadamente tomado por emoções
hostis, sejam as dores do desejo não satisfeito em Romeu e Julieta,
ou as raivas assassinas de Macbeth. Novelas nos proveem com uma
similarmente rica tapeçaria, e em toda essa literatura, desde os
tempos gregos adiante, nós vemos variações do mesmo tema: humanos
sofrimento com suas mentes e emoções, as quais são raramente
habitualmente bem organizadas.
A
concepção Freudiana de mente encontra esse tema. Seu brilhantismo
foi colocar dramatizações literárias do caráter humano num
paradigma psicológico, com os diferentes elementos da mente – o
id, ego e superego – regularmente em guerra (e com muito desse
esforço ocorrendo fora da do âmbito da consciência). Seu retrato
psicológico da mente refletem a fisiologia do cérebro humano, com
seu centro reptiliano antigo, sobreposto por um córtex cerebral
mamífero, e finalmente com os lobos frontais exagerados, com essa
parte do cérebro regulamente dada a tarefa de criar uma narrativa
para o “eu” que faz algum sentido, sem considerar o quanto
precisa essa narrativa pode na realidade ser.
A
beleza de tal literatura, e porque ultimamente pode ser tão
consolador para um indivíduo, é que provê uma concepção
expansiva da natureza humana. Nós todos nos esforçamos com nossas
emoções e nossas mentes, e é raro o ser humano que nunca fez papel
de tolo, e que não teve suas emoções fora de controle. Esse é um
entendimento que nutre empatia, tanto para outros e para si. Também
nos provê com um senso do que esperar da vida. A felicidade pode nos
visitar agora ou outro momento, mas conte suas graças quando vem.
Ansiedade, luto, raiva, ciúme, melancolia – espere tais emoções
visitarem também.
A
APA, com seu DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico) provê a
sociedade com uma visão diferente na “normalidade” humana e o
que nós podemos esperar das nossas mentes. Normalidade – como
definida pelo construtos diagnósticos que falam de “doença” - é
um lugar muito constrito. Emoções extremas, emoções dolorosas, e
comportamentos difíceis todos se tornam “sintomas” de doenças.
A mente, de acordo como o DSM-III, -IV, e -5, não deve ser um lugar
caótico. Mesmo um sentimento comum de distresse, ansiedade, deve ser
visto como “anormal”. Dessa maneira, o DSM prove a sociedade com
uma filosofia do ser acentuadamente empobrecida.
O
escritor Sam Kriss brilhantemente iluminou esse fato aos escrever uma
resenha do DSM-5 como se fosse um romance. Há, ele nota, um senso de
“solidão que satura o seu trabalho”, o livro escrito por um
narrador sem habilidade de “apreciar outras pessoas”. Essa é uma
estória sem quaisquer dos elementos que tradicionalmente sustentam
uma trama. Poucos personagens fazem uma aparição, mas eles são sem
nome, formas espectrais, os quais se movem enquanto a estória
progride, curtamente corporificando suas várias doenças antes de
desaparecer rapidamente como vieram – figuras comparáveis com
cacofonia de vozes em A terra perdida ou as figuras universalmente
anonimas da Cegueira de Jose Saramago. Um sofredor de depressão ou
hipocondria pode ser revelado ser a mesma pessoa, mas para a maior
parte dos limites entre os diagnósticos mantém seus personagens
separados um do outro… A ideia emerge de que cada doença da pessoa
é de alguma maneira sua própria culpa, que isso vem do nada além
de si mesmos: seus genes, suas adicções, e seu insuficiência
inerente humana. Nós entramos um mundo estranho de sombras onde para
alguém se envolve com prostituição não é o resultado de fatores
ambientais de diferente setores (relações de gênero, classe
econômica, relacionamentos familiares e sociais) mas um sintoma de
“transtorno de conduta” junto com “mentir, falta à escola e
fugir”. Uma pessoa louca é como uma máquina defeituosa. A
observação pseudo-objetiva apenas vê o que eles fazem, aos invés
de o que eles pensam ou como eles se sentem. Uma pessoa que defeca no
chão da cozinha porque isso dá a elas prazer erótico e uma pessoa
que defeca no chão da cozinha para extirpar demônios são ambos
agrupados por encopresis. Não é de que o processo de pensamento não
importa, é como se não existissem. O ser humano é uma rede de
carne sobre um vazio.
Kriss
entitulou a sua resenha de “Livro das Lamentações”. Finalmente,
ele concluiu, que o DSM apresenta aos leitores com uma descrição da
normalidade que horroriza:
Se
há normalidade aqui, é um estado de quase catatonia. DSM-5 parece
não ter definição de felicidade a não ser a ausência de
sofrimento. O indivíduo normal nesse livro é tranquilizado e parece
um bovino, mudamente aceitando tudo num às vezes mundo doloroso sem
nunca sentir muito que atrapalhe isso. Os excessos vastos e absurdos
de paixão que formam a matéria bruta da arte, literatura, amor, e
humanidade são muito estressantes; é mais fácil parar de ser
humano de uma vez só, e simplesmente se mover como uma coleção de
diagnósticos sobrepostos com um corpo vagamente anexado.
Esse
é o livro que provê nossa sociedade com um paradigma para julgar
aos outros, e a nós mesmos. Emoções e comportamentos que, nos
trabalhos literários do passado, teriam sido apresentados como bem
normais são ao invés disso descritos como “transtornos mentais”.
A criança mal comportada – olá Tom Sawyer – é agora revista
como uma criança sofrendo de Déficit de Atenção, a qual precisa
ser tratada com estimulante. O adolescente mau humorado, o qual uma
pessoa teria sido visto como passando por “tempestade e estresse”
da adolescência, pode agora ser diagnosticado como deprimido e
tratado com antidepressivo. O adulto que faz o luto por muito tempo
sobre a morte de um esposo ou um dos pais agora tem “depressão
maior” (talvez Shakespeare hoje iria recomendar uma dose de
Cymbalta para Hamlet). E assim por diante.
[…]
Resumindo, o DSM – como um livro de filosofia para nossa sociedade
moderna – retira a poesia da vida. Ele nos diz para usar rédeas e
evitar sentir muito profundamente. E aqui está a ligação com
corrupção insitucional: a APA nos informou dos desequilíbrios
químicos e doenças cerebrais conhecidas e transtornos validados, os
quais são os tijolos construtores para a filosofia que criou, e
ainda esses tijolos construtores tem que ainda ser encontrados na
natureza.
[…]
O “Eu” é encorajado para sempre estar em alerta para signais de
anormalidade, com os pais tomando vigilância para suas crianças,
mesmo quando eles estão na pré-escola. Além do mais, essa
vigilância constante facilmente se transforma numa narrativa para a
vida mais ampla. Dessa maneira, o modelo da doença da APA encoraja a
narração interna que rouba o senso de responsabilidade e de
resiliência. A pessoa não é encorajada a examinar o contexto de
sua vida. O que aconteceu? O que pode ser mudado? Ou, ainda mais
radical: Existes momentos em que o sofrimento deve ser abraçado?
Robert Whitaker e Lisa Cosgrove - Psiquiatria sob Influência
Caros e caras amigos e amigas
Vim pra Itália com o coração partido pois aí no Brasil as coisas
começavam a ficar complicadas a partir da nomeação de um coordenador
de saúde mental assumidamente contrário à reforma psiquiátrica. Me
pronunciei a respeito expondo minha posição em algumas mídias e
manifestações públicas, nos sites da Abrasco e da Ensp, dentre outros,
mas eu tinha que vir pra Trieste para o Encontro da Escola Internacional
Franca & Franco Basaglia onde contribui para tornar público o grave
risco e ameaça de retrocesso que está acontecendo no Brasil. Para
tanto, preparei uma proposta de carta de solidariedade internacional
que foi aprovada efusivamente pelos participantes de vários países. Aqui
estavam Franco Rotelli, Giuseppe Dell'Acqua, Roberto Mezzina, Maria
Grazia Giannicheda, Allen Francis, John Jenkins, John Stacey, Ricardo
Guinea e muitos outros internacionais e muitos brasileiros.
Reproduzimos a carta em português, italiano e inglês e a divulgamos em
vários países. Mas, sobretudo, a minha vinda e os contatos aqui
serviram para que, acompanhando as coisas um tanto de fora, com o
distanciamento de quem está longe, do significado de tudo pelo que
estamos lutando. Estamos lutando pra não permitir que as coisas voltem a
ser como antes, quando milhares de vidas eram jogadas fora nas lixeiras
manicomiais, como dizia Carrano; que milhares de vidas eram oprimidas,
violentadas, destruídas! Nosso trabalho de reforma psiquiátrica fez com
que estas muitas milhares de vidas de pessoas fossem resgatadas,
reconstruídas, reinventadas, recuperadas. Mas, por outro lado, nosso
trabalho de reforma psiquiátrica também possibilitou que muitas outras
milhares de vidas não chegassem a ser jogadas fora nos manicômios, que
nem chegassem a conhecer os manicômios, pois fomos criando os CAPS, os
NAPS, os CERSAMS, os Centros de Convivência, as estratégias de
residencialidade, as Cooperativas e projetos de trabalho e geração de
renda, os projetos culturais e tantas outras possibilidades que
contribuíram para os tornar sujeitos, sujeitos verdadeiramente de
direitos. E penso que o movimento da reforma psiquiátrica nos
ensina mais uma vez algo muito importante neste momento, que é a
importância do próprio movimento! Mesmo muitos dirigentes, muitos
gestores, muitos coordenadores passaram a demonstrar que entendiam que a
reforma psiquiátrica era coisa de gestão única e exclusivamente; que
dependia simplesmente de portarias e normas, que prescindia da
participação das pessoas e dos movimentos sociais. Vejam e lembrem a
dificuldade para convocarmos as conferências de saúde mental! Ninguém
mais fala sobre realizar a V Conferência! Vejam e lembrem a dificuldade e
a falta de apoio das instituições e órgãos oficiais aos encontros
antimanicomiais, aos eventos da Abrasme e muitos outros. E as reuniões
periódicas da Comissão de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde? E o
cumprimento das recomendações das conferências nacionais de saúde
mental? As recomendações do Conselho Nacional de Saúde? Por isso o
movimento, enquanto essa ideia mesmo de participação, de movimentação,
de construção coletiva, dá mais essa lição, mais essa contribuição: a
luta é permanente, é cotidiana, é ininterrupta: A LUTA SEMPRE CONTINUA!
E não será com apelos e cartas gentis e compreensivas ao ministro ou ao
Dr. Valencius que a luta será ganha! Eles têm consciência do que
pretendem e ao que vieram. E após a vitória temos que exigir dos
futuros gestores, coordenadores, dirigentes, o devido lugar e a
importância que os movimentos sociais devem ter na construção da reforma
psiquiátrica no Brasil! A ocupação é legítima e necessária para
enfrentar esta ameaça de retrocesso e para retomar a força dos
movimentos sociais para a reforma psiquiátrica e o SUS!!! Seja com que
Coordenador ou Ministro que estiver!!!
CARTA DE TRIESTE DE APOIO À REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA
A LUTA É INTERNACIONAL
Abraço Internacional à Reforma Psiquiátrica Brasileira
Mais de 250 participantes do Encontro Internacional "Uma sociedade sem
isolamento" - Trieste, 15 a 18 de dezembro de 2015 -, oriundos de 24
países, bem como de toda a Itália, desejam manifestar sua preocupação
acerca do novo direcionamento do processo de reforma psiquiátrica
brasileira.
A experiência brasileira é um dos exemplos mais
emblemáticos de desinstitucionalização e de inclusão social de pessoas
em sofrimento mental grave.
A indicação do Ministro da Saúde de um
novo coordenador para a Saúde Mental que já demonstrou aversão quanto à
reforma ao longo de sua carreira como psiquiatra e como diretor de um
hospital psiquiátrico causou polêmica no mundo todo.
Os
participantes querem demonstrar-se solidários a usuários, familiares,
Associações e trabalhadores da Saúde Mental que estão lutando pela
evolução e pelo fim deste processo, a partir da oposição a qualquer
possibilidade de retrocesso quanto a posicionamentos éticos, políticos e
sociais importantes.
Os participantes comprometem-se a divulgar
informações a esse respeito e a apoiar a luta contra hospitais
psiquiátricos em seus países e diante de organizações internacionais.
Trieste, 17 de dezembro de 2015.
Carta aberta aos meus colegas médicos da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria)
Li com atenção a vossa nota de esclarecimento sobre a mudança da Coordenação
de Saúde Mental pelo atual Ministro da Saúde. Proclama que os senhores
comungam com a lei 10.216, que declaram estar contida nas vossas
Diretrizes para um Modelo de Atenção Integral em Saúde Mental no Brasil.
Mas antes de comungar é preciso confessar. E na vossa confissão fica
absolutamente claro que vocês abominam o que festejamos como Reforma
Psiquiátrica.
Notaram como
na vossa nota não consta o vocábulo tão odiado? Porque vocês até
admitem reformar a assistência à saúde mental. Admitem reformar o antigo
e indefensável manicômio para que ele fique mais palatável. Suportam
até a existência dos Centros de Atenção Psicossocial - CAPS (só que
próximos ou dentro do ambiente hospitalar, o que já não é uma proposta
comunitária). Mas não admitem uma reforma da psiquiatria. Aqui está o
ponto.
Nós, da Reforma Psiquiátrica, entendemos que o que está em
xeque é a própria psiquiatria. A soberba de um saber que se acha
“científico” e despreza outros saberes sobre a loucura – um fenômeno
complexo para ficar refém do saber médico. A captura da loucura pelo
saber médico foi muito bem estudada por Foucault, de quem vocês ouviram
falar, alguns não leram e outros têm raiva de quem leu. Ele defende
apenas um saber que, como o vosso, não tem o toque mágico da
cientificidade e precisa do embate democrático e do convencimento
argumentativo para se estabelecer. Vocês acham que uma Classificação
Internacional de Doenças Psiquiátricas (CID Psiquiátrico) que se
modifica ao longo dos tempos pelos costumes sociais é científica? A
Psiquiatria sempre habitou o campo da moral e bons costumes. Muito de
vós não lembram a malfadada Liga Brasileira de Higiene e Saúde Mental
com sua proposta eugênica de explícito componente fascista? Era em nome
do “cientificismo”. Mas foi em nome da razão que a psiquiatria
encarcerou os loucos. E a razão de uma época nunca é científica. Machado
de Assis mostrou isso muito bem quando o nosso hospício ainda era
recente, no fim do século XIX.
Para nós da Reforma – e não
importa que vocês não queiram entender – só uma democratização do saber
psiquiátrico, de suas complexas relações, pode ajudar o campo da Saúde
Mental. E assim ele pode e pode muito. Em nome da Saúde e não da Doença,
outros profissionais de vários campos de saberes, os pacientes e seus
familiares são protagonistas de uma nova e excepcional forma de cuidado
na comunidade em oposição ao modelo fechado do manicômio. A Reforma é a
negação do manicômio, não a sua reabilitação com novas tintas. O campo
biológico e moderno das neurociências é indispensável para nós, como
complementar, sem, necessariamente, exercer a hegemonia.
Sinceramente não entendi as mortes de que somos acusados nem a
desassistência de vossos números. Temos problemas e lutamos para
superá-los. Logo vocês que nunca enxergaram as mortes, estas sim
produzidas pela desassistência do manicômio e fartamente documentadas.
Não foi a nossa ideologia a responsável pelas mortes, mas a vossa.
A Reforma Psiquiátrica, que temos o orgulho de ter feito e seguiremos
construindo, buscou os direitos das pessoas com transtornos mentais no
campo dos Direitos Humanos; propôs uma ética inclusiva à sociedade em
relação à loucura; e está construindo uma Rede de Serviços Substitutivos
Comunitários em oposição ao Manicômio. É uma proposta ideológica sim.
Como a vossa também é. Só que a vossa é negada e encoberta por um manto
de “cientificismo” como foi a proposta eugênica que nos levou a
verdadeiros campos de concentração no passado.
A roda da história
não gira de modo contínuo, às vezes para, às vezes recua, mas volta a
seguir em frente. Entendemos como retrocesso esse momento de júbilo com
que vocês recebem a nova Coordenação de Saúde Mental do Ministério da
Saúde. Repararam que vocês falaram apenas em nome dos psiquiatras e dos
familiares? Sintoma, meus caros, sintoma!
A Reforma Psiquiatra
coloca o paciente como protagonista e não como objeto de nossa ação. Por
isso temos a certeza que na história vós sois o passado, nós apontamos
o futuro fazendo o presente.
Saudações antimanicomiais,
Edmar Oliveira – médico psiquiatra aposentado do Ministério da Saúde,
40 anos de prática clínica, gestão pública e militante da Reforma
Psiquiátrica. Não é filiado à ABP por discordância de uma prática
corporativa mesquinha.
William Uttal is concerned that in an effort to
prove itself a hard science, psychology may have thrown away one of its
most important methodological tools—a critical analysis of the
fundamental assumptions that underlie day-to-day empirical research. In
this book Uttal addresses the question of localization: whether
psychological processes can be defined and isolated in a way that
permits them to be associated with particular brain regions.
New, noninvasive imaging technologies allow us to observe the brain
while it is actively engaged in mental activities. Uttal cautions,
however, that the excitement of these new research tools can lead to a
neuroreductionist wild goose chase. With more and more cognitive
neuroscientific data forthcoming, it becomes critical to question their
limitations as well as their potential. Uttal reviews the history of
localization theory, presents the difficulties of defining cognitive
processes, and examines the conceptual and technical difficulties that
should make us cautious about falling victim to what may be a
"neo-phrenological" fad.
About the Author
William R. Uttal is Professor Emeritus (Engineering) at Arizona
State University and Professor Emeritus (Psychology) at the University
of Michigan. He is the author of many books, including The New Phrenology: On the Localization of Cognitive Processes in the Brain (MIT Press).
Reviews
"This is an exciting book....", Vanja Kljajevic, Metapsychology
A loucura internada, institucionalizada, passaria a ser moldada pela
própria ação da institucionalização: – És um demente precoce! é o que
afirmava o alienismo. E, após alguns longos anos de institucionalização,
a demência nele se assentava. Em analogia à Stengers tratar-se-ia do
fenômeno da testemunha fidedigna: o efeito é produzido tanto pela teoria
quanto por sua ação prática.
Para Rotelli , “o mal obscuro da psiquiatria está em haver separado um
objeto fictício, a doença, da existência global e complexa dos utentes e
do corpo social. Sobre esta separação artificial se construiu um
conjunto de aparatos científicos, legislativos, administrativos
(precisamente a instituição) todos referidos ã doença.” (Rotelli, 1990,
28).
Este tem sido um princípio importante no âmbito da Reforma Psiquiátrica, pois representa uma ruptura fundamental.
O resultado prático da psiquiatria clássica, ao considerar a loucura
doença, erro absoluto, distúrbio da razão, perda do juízo, incapacidade
civil, irresponsabilidade social e jurídica, foi criar para o louco um
lugar de exclusão, um lugar zero de trocas sociais (Rotelli, 1990), cuja
expressão mais radical é o manicômio.
Colocar a doença entre parênteses não significa a sua negação; a negação
de que exista algo que possa produzir dor, sofrimento, diferença ou
mal-estar. Significa a recusa à explicação psiquiátrica; à capacidade de
a psiquiatria dar conta do fenômeno com a simples nomeação abstrata de
doença. A doença entre parênteses é, ao mesmo tempo, a denúncia social e
política da exclusão, e a ruptura epistemológica com o saber naturalístico da psiquiatria.
Paulo Amarante - Reforma Psiquiatrica e Epistemologia
A psiquiatria colocou o sujeito entre parênteses para ocupar-se da
doença; para Basaglia a doença é que deveria ser colocada entre
parênteses para que pudéssemos ocupar-nos do sujeito em sua experiência.
Portanto, no bojo mais profundo do processo de Reforma Psiquiátrica
existe uma importante e contemporânea discussão, que é sobre as
ciências. A psiquiatria foi fundada num contexto epistemológico em que a
realidade era um dado natural, capaz de ser apreendido, mensurado,
descrito e revelado. Num contexto em que a ciência significava a
produção de um saber positivo, neutro e autônomo: a expressão da verdade! A partir de então a psiquiatria vem contribuindo de forma
importante, tanto no aspecto conceitual (com a construção de tantos
outros conceitos - degeneração, cretinismo, idiotia), quanto no aspecto
de suas práticas (pela invenção do manicômio, do tratamento moral, das
terapias de choque), para a consolidação de um imaginário social no qual
a diferença seja associada à anormalidade.
Por exemplo, se adotamos a noção de complexidade para lidar com o
conceito de doença, este deixa de ser um objeto naturalizado, reduzido a
uma alteração biológica ou de outra ordem simples, para tornar-se um
processo saúde/enfermidade.
Embora o conceito de alienação não significasse ausência abstrata da Razão,
mas somente contradição na Razão, como atentava Hegel, essa contradição
impossibilitaria a Razão Absoluta. Portanto, àquele em cuja Razão existisse tal
contradição seria um alienado, o que o tornaria incapaz de julgar, de
escolher; incapaz mesmo de ser livre e cidadão, pois a Liberdade e a
cidadania implicavam no direito e possibilidade à escolha.
Em conseqüência, em uma dimensão técnico-assistencial,
podemos argüir: qual o modelo assistencial decorrente de um conceito
que pressupõe tal contradição na Razão, tal falta de Juízo? Não seria o
seqüestro deste não-mais-sujeito ou ainda-não-sujeito? A resposta seria
óbvia: o manicômio, como expressão de um modelo que se calca na tutela,
na vigilância panóptica, no tratamento moral, na disciplina, na
imposição da ordem, na punição corretiva, no trabalho terapêutico, na
custódia e interdição. Enquanto alienado (alheio, ausente), ele estaria
incapaz até mesmo de decidir pelo seu tratamento, motivo este que
justificaria que fosse tomada tal decisão em seu lugar. O
tratamento, no caso, deveria ser realizado numa instituição fechada,
tanto porque o isolamento favoreceria a observação do “objeto em seu
estado puro” - sem as indesejáveis interferências da vida social -,
quanto porque o isolamento seria, em si, terapêutico, pois as mesmas
interferências que prejudicavam a observação, contribuiriam também para
as causas da loucura.. O asilo, este espaço cientificamente ordenado,
como insistiam Pinel e Esquirol seria, portanto, o lugar ideal para o
exercício do tratamento moral, da reeducação pedagógica, da vigilância e
da disciplina. Tratado, o alienado perderia esta condição miserável e,
somente então poderia ser considerado cidadão, homem livre, pleno de
direitos e deveres. Passamos assim à dimensão jurídico-política do
processo: rediscutir e redefinir as relações sociais e civis em termos
de cidadania, de direitos humanos e sociais. Numa dimensão cultural do
processo de Reforma Psiquiátrica, poderíamos resumir da seguinte
forma: o objetivo maior deste processo não é a transformação do modelo
assistencial (que, como vimos, é um elemento apenas de uma de suas dimensões), mas a transformação do lugar social da loucura, da diferença e da divergência.
Paulo Amarante - Reforma Psiquiatrica e epistemologia
Usar benzodiazepínicos, como o Rivotril, por mais de três meses aumenta risco de demência
Além dos efeitos adversos já conhecidos (como diminuição de funções
cognitivas e a dependência), agora esses medicamentos estão sendo
correlacionados ao aumento do risco de desenvolver demências.
"Pacientes que tomam medicamentos do tipo benzodiazepínicos para tratar
condições psiquiátricas devem considerar a transição para outras
terapias pelos riscos aumentados de demência, ressaltam especialistas do American College of Osteopathic Neurologists and Psychiatrists."
[...]
"As benzodiazepinas incluem medicamentos como o diazepam (nome
comercial Valium), clonazepam (nome comercial Rivotril), bromazepam
(nome comercial Lexotan) e alprazolam (nome comercial Frontal). Eles são
usados como tratamento primário para a insônia, ansiedade, transtorno
de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo e outras
condições."
Uma revisão dos dados de 9.000 pacientes canadenses
descobriu que aqueles que tomaram a droga por um período superior a três
meses, mas inferior a 180 dias, tiveram risco aumentado de desenvolver a
doença em 32%. Quando o período de uso de um benzodiazepínico passa de
seis meses, o risco chega a 84%. Resultados semelhantes foram
encontrados por pesquisadores franceses que estudaram mais de 1.000
pacientes idosos.(http://www.bmj.com/content/349/bmj.g5205)
“Embora seja apenas uma correlação, e não uma demonstração de que
realmente os remédios sejam responsáveis pelo surgimento do Alzheimer,
há muitas razões para evitar essa classe de drogas como primeira opção.”
Fonte: http://brasileiros.com.br/…/uso-de-benzodiazepinicos-como-…/
SM – O conflito de interesses na relação
instituições/pesquisadores/indústria pode ser superado? De que forma? Os
médicos têm força suficiente para não sucumbir ao assédio dos
laboratórios? Um dos argumentos usados para justificar eventual
dependência é que “as companhias propiciam educação médica continuada”. Angell – Laboratórios
farmacêuticos não deveriam participar da “educação” de médicos, pois
não se espera que forneçam informações objetivas a respeito de produtos
comercializados por eles próprios. Ou seja, cabe à profissão médica a
responsabilidade pela sua própria educação. Para que as coisas
caminhassem de maneira imparcial, penso que o patrocinador das pesquisas
em universidades deveria ficar absolutamente fora dos estudos, o que
significa não opinar nos desenhos, não tomar parte na análise dos dados
ou na elaboração de artigos. Além disso, pesquisadores não poderiam ter
outros vínculos financeiros, como aquele que os obriga a prestar
consultorias patrocinadas pelos laboratórios financiadores de remédios.
Finalmente, em suas práticas, os médicos não deveriam aceitar brindes da
indústria farmacêutica. Nem mesmo os considerados insignificantes, pois
a literatura mostra que, mesmo pequenos presentes, especialmente
aqueles dados aos médicos em formação, criam o desejo de retribuir de
alguma forma. Reconheço que essas sugestões parecem radicais hoje,
porque médicos envolvidos nos âmbitos práticos e acadêmicos estão bem
acostumados a receber grandes somas de dinheiro, jantares e presentes da
indústria. Incidentalmente, isso provém do orçamento de marketing das
companhias, pois não há verbas para “educação”. SM – Atualmente, suas críticas em artigos e entrevistas
direcionam-se aos tratamentos alternativos e ao uso de drogas
psiquiátricas em crianças. Medicina alternativa é ruim? Há abusos na
prescrição de antipsicóticos a crianças? Angell – Discordo
de toda a prática de medicina que não se baseie em boa pesquisa ou,
pelo menos, em forte plausibilidade biológica. Por isso, tenho postura
crítica em relação à medicina alternativa. Se tais práticas fossem
testadas cientificamente, não seriam chamadas de alternativas. Quanto à
segunda questão, drogas psiquiátricas certamente estão sendo prescritas
de forma abusiva a crianças. Digo isso baseada em pronunciamentos de
especialistas que, muitas vezes, contam com vínculos financeiros com
laboratórios farmacêuticos, em vez de comprometimento com estudos
científicos. Nos EUA, por exemplo, observa-se que problemas de
comportamento motivados por fatores sociais, econômicos e familiares
passaram a ser enquadrados na categoria “distúrbios psiquiátricos”
porque os psiquiatras que definem essas doenças têm conflitos
financeiros de interesse.
Tentarei fazer algumas considerações a respeito das implicações da formulação de diagnósticos em psiquiatria e demais disciplinas que seguem o mesmo protocolo. Estas reflexões certamente parecerão extremamente polêmicas ou mesmo absurdas àquelas mentes formatadas por um discurso cientificista e desumanizado. Mas as ciências da saúde estão sofrendo de um déficit crônico de sutileza – e esta carência está tendo conseqüências catastróficas para a vida e o futuro das pessoas. Antes de tudo, é preciso fazer alguns esclarecimentos. Os sintomas médicos exigem e demandam um diagnóstico. Quanto antes ocorrer a prescrição do correto diagnóstico, tanto melhor para a eficácia do tratamento. Já os transtornos mentais, não. E aqui é preciso fazer uma diferenciação entre as doenças do cérebro – as quais podem ser tratadas com medicamentos ou cirurgia – e as “doenças” ou transtornos mentais, que demandam um protocolo diferenciado e um tratamento específico. Todo o esforço da psiquiatria e de boa parte dos neurocientistas é tentar demonstrar que os transtornos mentais são doenças ou desequilíbrios do cérebro. Conversa pra boi dormir. Por que afirmo que o diagnóstico, no caso dos transtornos mentais, exigem um tratamento diferenciado? É que, em psiquiatria, o diagnostico vem sempre acompanhado de uma trilogia maligna: (a) descontextualização, (b) naturalização e (c) perenização do sofrimento psíquico. A fim de ilustrar e embasar a argumentação, vou citar dois casos clínicos – o de Roberta (fictício) e o de Márcia (real). ROBERTA: Trata-se de uma adolescente que apresenta acessos freqüentes de fúria incontrolável. Seu comportamento tanto na escola quando em casa é caracterizado por atitudes ríspidas quando não extremamente agressivas. Além de não respeitar os pais e questionar-lhes a autoridade, por vezes quebra objetos e agride fisicamente a mãe. Ameaça fugir de casa ou se matar. Preocupada, a família a leva ao psiquiatra. Na consulta, após analisar os seus sintomas, ela é diagnosticada como portadora do Transtorno Explosivo Intermitente (TEI). São-lhe prescritos ansiolíticos e calmantes. MÁRCIA: Sempre fora muito apegada à família. Com a morte do pai, fica profundamente triste e desconsolada. Levam-na a um psiquiatra. Ela é diagnosticada como sofrendo de Depressão, e prescrevem-lhe três medicamentos. Ela começa a tomá-lo e sua vida piora a cada dia. Sua relação como marido, que não ia bem, se deteriora. Eles se separam. Surgem os sintomas de pânico. Não consegue mais trabalhar. Vive durante dez anos afastada de suas atividades profissionais em função do pânico e da depressão. Freqüentemente padece de fome em casa por não conseguir atravessar a rua para comprar alimentos na venda da esquina. Chega ao consultório andando com dificuldade, amparada e auxiliada por dois familiares. Seus movimentos são lentos, sua voz carregada. A) Descontextualização. Ocorre quando se supõe que os transtornos mentais são decorrentes de alterações químicas no cérebro. Não há dúvida de que todo pensamento e todo sentimento vem acompanhado de uma alteração química no cérebro. Mas a alteração química explica o surgimento do pensamento, do sentimento e do transtorno? Não. E por que não? A razão é que o surgimento de um hormônio ou substância no cérebro se dá por alguma razão. E a razão é de ordem psíquica. Voltemos aos nossos exemplos. Roberta vivia com o padrasto e a mãe. O padrasto estava abusando sexualmente de sua enteada há meses. A mãe parecia não se dar conta do que se passava dentro de casa. Não havia intimidade entre a mãe e o padrasto. A mãe sofrera no passado de violência sexual, o que a fazia ter pavor de sexo. Desta forma, consciente ou inconscientemente, deixar de ser solicitada pelo padrasto foi para ela um alívio. A filha ensaiou denunciar os abusos que sofria à mãe, mas esta os desconsiderou. Foi aí que os acessos de raiva começaram. Já o calvário de Márcia teve início quando ela foi diagnosticada como deprimida, após a morte do pai. Sempre fora uma jovem dinâmica, independente e trabalhadora. Era para ela se sentir feliz com a morte da pessoa que mais amava? A sua tristeza foi patologizada. Tanto num caso como no outro, o diagnóstico psiquiátrico operou um psicocídio: ao ser formulado, colocou “entre parênteses” todo o contexto que levou ao surgimento dos sintomas e transformou os seus portadores em coisas, em animais sem vida própria, sem história, sem fala e dignidade. O diagnóstico matou a subjetividade, restando apenas um corpo com uma patologia. B) Naturalização. O ser humano é um animal cultural. Quando se supõe que um transtorno psíquico decorre de um desequilíbrio químico no cérebro, reduz-se o homem a um código de barras, a uma simples mercadoria, a uma coisa. Toda doença e principalmente todo transtorno decorre da confluência de múltiplos fatores. Quando a psiquiatria envereda por esse caminho reducionista sem escutar o sujeito e sem levar em conta o histórico de sofrimentos que se ocultam por trás do sintoma, morre enquanto tal. Converte-se em encefalatria. C) Perenização. “Quando o psiquiatra enquadra, classifica e diagnostica, distancia-se inevitavelmente de uma postura terapêutica aberta, prospectiva e amorosa. Seu olhar é retrógrado e petrificador - petrifica o paciente num estigma, e congela o próprio olhar do psiquiatra no diagnóstico realizado num determinado momento, dificultando-lhe a percepção da evolução ou variação da sintomatologia do mesmo paciente ao longo do tempo, centrando-se no que já está posto, ou seja, atua no sentido de capturar o paciente numa classificação nosológica”. (A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito, Natal (RN), Sapiens: 2012. Segundo Ato, Das Classificações). Voltemos ao caso de Márcia, afastada do trabalho por uma Junta Médica há uma década. Quando, na segunda sessão, o terapeuta, através de um trabalho vivencial e reflexivo acerca do papel que ela estava representando na sua própria vida, a faz ver que ela estava assumindo um papel de vítima, de doente, acobertado e justificado pela psiquiatria, ela se DESCOLA do rótulo. Toma consciência que o rótulo a escava colocando numa jaula simbólica ad infinitum. Na terceira sessão, ela afirma: “Vou voltar a estudar! Vou pegar carona com a minha sobrinha, que passou no vestibular. Não vou perder essa oportunidade!” Nesta conformidade, ela se sentia “doente” simplesmente porque se colocava e aceitava o papel de doente. No momento que percebe que ela mesma alimentava aquele papel que a fazia vegetar, decide mudar. E volta a viver. Se o transtorno psíquico é causado por um desequilíbrio químico do cérebro, quando o tratamento vai acabar? Nunca se sabe. Supondo-se que a atividade cerebral seja regulada pela genética, a resposta é: nunca. O paciente precisa ser medicado para todo o sempre. E, mesmo que os sintomas estejam ausentes, pode ser prudente medicar-se “de forma preventiva” para evitar uma recidiva. Essa trilogia maligna é uma expressão inequívoca do processo de medicalização da vida. O Transtorno de Explosividade Intermitente poderia ser considerado uma piada, se não fosse uma tragédia. E aí, para finalizar, temos algumas possibilidades. Primeira: Diagnóstico + medicação (sem tratamento). Esse procedimento é o mais usual, especialmente na rede pública. O sujeito vai ao psiquiatra e sai com um remédio na mão. Esse holocausto da subjetividade é perpetrado diariamente nos postos de saúde e rede pública. Segunda: Diagnóstico + medicação + tratamento. Pode-se fazer uso do diagnóstico, ou seja, de um procedimento simbolicamente cruel, para a obtenção de dois direitos – o remédio e o tratamento psicológico. Isso funciona? Cito outro trecho (é longo, mas é importante): "(...) Ao medicar um paciente sob a alegação de ajudá-lo em seu tratamento, os psiquiatras não estão se colocando do lado daquele que sofre, mas sim a favor do pharmacolonialismo, que se move predominantemente na lógica do capital. Isto porque a medicalização suprime a ética do cuidado de si, a estética e a motivação que poderia levar à cura, sendo, portanto, inimiga da subjetivação. Com efeito, os medicamentos não funcionam da mesma maneira para todos. Os indivíduos são diferentes e reagem de forma desigual aos estímulos. Da mesma forma do que ocorre em relação à nutrição, onde um alimento saudável pode ser danoso para alguém que possua alguma rejeição aos ingredientes dele, os indivíduos apresentam reações diversas em relação a uma mesma droga. Uma substância administrada para amenizar a depressão pode, por exemplo, induzir ao suicídio a determinadas pessoas. Assim, o princípio ativo pode provocar reações inversas às pretendidas. Confiar num medicamento é sempre uma aposta perigosa e imprevisível. O CORO: “O que é válido para alguns, pode não ser válido para todos.” Contudo, o discurso biomédico sustenta, e com razão, que o uso dos medicamentos, apesar dessas “anomalias”, dessas variações individuais indesejáveis, efetivamente funciona para um bom número de pessoas. Entretanto, como a medicação está dissociada de uma dietética existencial, ou seja, de um estilo de vida, quando o indivíduo é medicado (ou se automedica) e constata um efeito positivo no melhoramento dos seus sintomas, sente-se imediatamente autorizado a desequilibrar-se ainda mais, já que tem à mão um recurso que pode contornar e aliviar os excessos cometidos.O remédio converte-se na senha para empreender toda a sorte de desatinos(1). Assim, por exemplo, um portador de diabetes, ao tomar um remédio que diminui as taxas de glicose no sangue, sente-se livre para abusar dos docinhos. Um viciado em bebidas alcoólicas, ao perceber que suas dores abdominais diminuem com um remédio para o fígado, permite-se abusar mais ainda do álcool. Ao receber um transplante de coração, um pedreiro, ao sair da sala de cirurgia, falou para um repórter: “Estou me sentindo tão bem que vou comemorar comendo um churrasco!” O mesmo vale para os psicofármacos: aquele que se sente ansioso, ao ver a sua ansiedade ser suavizada por um ansiolítico, permite-se adotar um estilo de vida mais agitado e frenético do que antes, graças às conquistas da farmacologia. Alguém que esteja triste pela perda de um ente querido, ao tomar um antidepressivo pode indefinidamente sentir-se propenso a apegar-se à lembrança do morto, cuja perda acha inaceitável e intolerável, impedindo-lhe a elaboração do luto. Ou seja, mesmo que funcione, o remédio ainda assim é danoso para um grande número de pessoas, já que o tratamento é focado nos sintomas e não em cima de suas causas que continuam ativas e atuantes, embora ocultas. O CORO: “Quanto melhor o remédio, tanto pior será!” Porém, há ainda, por último, o restrito grupo daqueles que tomam um psicoativo e ele efetivamente funciona, os quais não se autorizam a praticar nenhum tipo de excessos, seguindo fielmente o protocolo médico prescrito. Benditos, esses bons pacientes! O sonho de todos os psiquiatras! Para esses, o medicamento, quando ingerido, age como uma máscara trágica a se interpor entre o sujeito e os seus sentimentos e emoções. A máscara dá a ele uma aparência de universal normalidade, e a sua individualidade é eclipsada por trás dela. E mais: ele não mais consegue sentir-se e perceber-se como outrora: o medicamento altera o seu humor, tornando-o “adequado” ou “saudável” dentro de normalizações socialmente determinadas. A consequência desta acomodação clínica do sintoma é evitar que o indivíduo entre em contato com as verdadeiras causas de seu malestar. Ora, ora! Nenhum psiquiatra bem intencionado e esclarecido sustentaria que o remédio por si só possa resolver todos os males! O ideal é que ele venha acompanhado de uma psicoterapia a fim de reforçar e retroalimentar os efeitos positivos da medicação. Terapia e remédio, remédio e terapia: remédio para o corpo, terapia para a alma! No entanto, ao contrário de todos aqueles que pregam que a medicação e a terapia caminham muito bem juntas, na verdade a medicação é o maior empecilho para um efetivo avanço terapêutico. E o motivo é óbvio e irrefutável: nós nunca desejamos tanto estar saudáveis como ao nos sentirmos doentes; nós nunca desejamos tanto comer um alimento como quando sentimos nas vísceras a fome nos corroer por dentro; nós nunca ansiamos tanto por carinho como nos momentos em que nos sentimos sós e desamparados. Ora, se o medicamento diminui ou cessa o mal-estar, elimina também aquilo que poderia ser a motivação para a busca do bem-estar(2). Se o medicamento minimiza o sofrimento, diminui também a capacidade de sentir prazer. Isto porque há uma harmonia entre os opostos em todas as coisas, e um oposto remete para o seu pólo oposto e complementar."
Terceira possibilidade: Diagnóstico + tratamento (sem medicação) É, na maioria dos casos, preferível a todas as outras. Evita os efeitos colaterais da medicação e não atrapalha no tratamento. Só em casos especiais não seria recomendável. Por fim, a guisa de conclusão, cito um trecho do livro “A Tragicomédia da Medicalização”, onde a violência simbólica do diagnóstico é resumida: “Eis – antecipando o que diremos ao longo deste opúsculo - as etapas da violência simbólica à qual o paciente é submetido: primeiro, ele é nomeado pelo diagnóstico como portador de algum distúrbio ou perturbação; segundo, pelo diagnóstico o rótulo adere ao paciente como um estigma, tal como as marcas de identificação apostas aos animais quando são ferrados; terceiro, ele é rebanhizado, ou seja, as referências se deslocam de sua personalidade individual e única para o rebanho anônimo e indistinto da categoria nosológica em que é agrupado. As consequências desta rebanhização são, de um lado, a despersonalização e perda de referenciais internos; e, de outro, a terapêutica medicamentosa indicada será aquela aplicável não ao indivíduo na sua singularidade, mas sim ao rebanho no qual ele foi inserido, ou seja, aplicar-se-á um remédio inespecífico para um indivíduo genérico que não existe enquanto tal”. Em suma, para não cansar demais os leitores: a formulação precipitada de um diagnóstico para um transtorno psíquico é um desserviço àqueles que buscam o autoconhecimento e a autotransformação, tendo apenas uma função de viabilizar um controle biopolítico sobre os corpos e as mentes dos pacientes. Saudações, José Ramos Coelho (1)“(...) a educação age sobre o nível de vida em uma proporção duas vezes e meia mais importante do que o consumo médico” – afirma Michel FOUCAULT, retomando a tese de Ivan Illich. – “Conclui-se que, para viver mais tempo, um bom nível de educação é preferível ao consumo médico” (2011, p.390) (2) Com profunda sabedoria, pontifica o Dr. Edward BACH: “... a doença, posto que pareça tão cruel, é benéfica e existe para nosso próprio bem; se interpretada de maneira correta, guiar-nos-á em direção aos nossos defeitos principais. Se tratada com propriedade, será a causa da supressão desses defeitos e fará de nós pessoas melhores e mais evoluídas do que éramos antes. O sofrimento é um corretivo para se salientar uma lição que de outro modo não haveríamos de aprender, e ele jamais poderá ser dispensado até que a lição seja totalmente assimilada”. (2010, p.18). O combate precipitado aos sintomas está a serviço da manutenção da ignorância e da cegueira. - See more at: http://www.redehumanizasus.net/84706-a-crueldade-simbolica-do-diagnostico-psiquiatrico-e-similares#sthash.PXGMTufA.dpuf
CRUELDADE SIMBÓLICA DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO (E SIMILARES).
Ramos Natal, Rio Grande do Norte dom, 08/06/2014 - 06:34
Tentarei fazer algumas considerações a respeito das implicações da formulação de diagnósticos em psiquiatria e demais disciplinas que seguem o mesmo protocolo. Estas reflexões certamente parecerão extremamente polêmicas ou mesmo absurdas àquelas mentes formatadas por um discurso cientificista e desumanizado. Mas as ciências da saúde estão sofrendo de um déficit crônico de sutileza – e esta carência está tendo conseqüências catastróficas para a vida e o futuro das pessoas. Antes de tudo, é preciso fazer alguns esclarecimentos. Os sintomas médicos exigem e demandam um diagnóstico. Quanto antes ocorrer a prescrição do correto diagnóstico, tanto melhor para a eficácia do tratamento. Já os transtornos mentais, não. E aqui é preciso fazer uma diferenciação entre as doenças do cérebro – as quais podem ser tratadas com medicamentos ou cirurgia – e as “doenças” ou transtornos mentais, que demandam um protocolo diferenciado e um tratamento específico. Todo o esforço da psiquiatria e de boa parte dos neurocientistas é tentar demonstrar que os transtornos mentais são doenças ou desequilíbrios do cérebro. Conversa pra boi dormir. Por que afirmo que o diagnóstico, no caso dos transtornos mentais, exigem um tratamento diferenciado? É que, em psiquiatria, o diagnostico vem sempre acompanhado de uma trilogia maligna: (a) descontextualização, (b) naturalização e (c) perenização do sofrimento psíquico. A fim de ilustrar e embasar a argumentação, vou citar dois casos clínicos – o de Roberta (fictício) e o de Márcia (real). ROBERTA: Trata-se de uma adolescente que apresenta acessos freqüentes de fúria incontrolável. Seu comportamento tanto na escola quando em casa é caracterizado por atitudes ríspidas quando não extremamente agressivas. Além de não respeitar os pais e questionar-lhes a autoridade, por vezes quebra objetos e agride fisicamente a mãe. Ameaça fugir de casa ou se matar. Preocupada, a família a leva ao psiquiatra. Na consulta, após analisar os seus sintomas, ela é diagnosticada como portadora do Transtorno Explosivo Intermitente (TEI). São-lhe prescritos ansiolíticos e calmantes. MÁRCIA: Sempre fora muito apegada à família. Com a morte do pai, fica profundamente triste e desconsolada. Levam-na a um psiquiatra. Ela é diagnosticada como sofrendo de Depressão, e prescrevem-lhe três medicamentos. Ela começa a tomá-lo e sua vida piora a cada dia. Sua relação como marido, que não ia bem, se deteriora. Eles se separam. Surgem os sintomas de pânico. Não consegue mais trabalhar. Vive durante dez anos afastada de suas atividades profissionais em função do pânico e da depressão. Freqüentemente padece de fome em casa por não conseguir atravessar a rua para comprar alimentos na venda da esquina. Chega ao consultório andando com dificuldade, amparada e auxiliada por dois familiares. Seus movimentos são lentos, sua voz carregada. A) Descontextualização. Ocorre quando se supõe que os transtornos mentais são decorrentes de alterações químicas no cérebro. Não há dúvida de que todo pensamento e todo sentimento vem acompanhado de uma alteração química no cérebro. Mas a alteração química explica o surgimento do pensamento, do sentimento e do transtorno? Não. E por que não? A razão é que o surgimento de um hormônio ou substância no cérebro se dá por alguma razão. E a razão é de ordem psíquica. Voltemos aos nossos exemplos. Roberta vivia com o padrasto e a mãe. O padrasto estava abusando sexualmente de sua enteada há meses. A mãe parecia não se dar conta do que se passava dentro de casa. Não havia intimidade entre a mãe e o padrasto. A mãe sofrera no passado de violência sexual, o que a fazia ter pavor de sexo. Desta forma, consciente ou inconscientemente, deixar de ser solicitada pelo padrasto foi para ela um alívio. A filha ensaiou denunciar os abusos que sofria à mãe, mas esta os desconsiderou. Foi aí que os acessos de raiva começaram. Já o calvário de Márcia teve início quando ela foi diagnosticada como deprimida, após a morte do pai. Sempre fora uma jovem dinâmica, independente e trabalhadora. Era para ela se sentir feliz com a morte da pessoa que mais amava? A sua tristeza foi patologizada. Tanto num caso como no outro, o diagnóstico psiquiátrico operou um psicocídio: ao ser formulado, colocou “entre parênteses” todo o contexto que levou ao surgimento dos sintomas e transformou os seus portadores em coisas, em animais sem vida própria, sem história, sem fala e dignidade. O diagnóstico matou a subjetividade, restando apenas um corpo com uma patologia. B) Naturalização. O ser humano é um animal cultural. Quando se supõe que um transtorno psíquico decorre de um desequilíbrio químico no cérebro, reduz-se o homem a um código de barras, a uma simples mercadoria, a uma coisa. Toda doença e principalmente todo transtorno decorre da confluência de múltiplos fatores. Quando a psiquiatria envereda por esse caminho reducionista sem escutar o sujeito e sem levar em conta o histórico de sofrimentos que se ocultam por trás do sintoma, morre enquanto tal. Converte-se em encefalatria. C) Perenização. “Quando o psiquiatra enquadra, classifica e diagnostica, distancia-se inevitavelmente de uma postura terapêutica aberta, prospectiva e amorosa. Seu olhar é retrógrado e petrificador - petrifica o paciente num estigma, e congela o próprio olhar do psiquiatra no diagnóstico realizado num determinado momento, dificultando-lhe a percepção da evolução ou variação da sintomatologia do mesmo paciente ao longo do tempo, centrando-se no que já está posto, ou seja, atua no sentido de capturar o paciente numa classificação nosológica”. (A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito, Natal (RN), Sapiens: 2012. Segundo Ato, Das Classificações). Voltemos ao caso de Márcia, afastada do trabalho por uma Junta Médica há uma década. Quando, na segunda sessão, o terapeuta, através de um trabalho vivencial e reflexivo acerca do papel que ela estava representando na sua própria vida, a faz ver que ela estava assumindo um papel de vítima, de doente, acobertado e justificado pela psiquiatria, ela se DESCOLA do rótulo. Toma consciência que o rótulo a escava colocando numa jaula simbólica ad infinitum. Na terceira sessão, ela afirma: “Vou voltar a estudar! Vou pegar carona com a minha sobrinha, que passou no vestibular. Não vou perder essa oportunidade!” Nesta conformidade, ela se sentia “doente” simplesmente porque se colocava e aceitava o papel de doente. No momento que percebe que ela mesma alimentava aquele papel que a fazia vegetar, decide mudar. E volta a viver. Se o transtorno psíquico é causado por um desequilíbrio químico do cérebro, quando o tratamento vai acabar? Nunca se sabe. Supondo-se que a atividade cerebral seja regulada pela genética, a resposta é: nunca. O paciente precisa ser medicado para todo o sempre. E, mesmo que os sintomas estejam ausentes, pode ser prudente medicar-se “de forma preventiva” para evitar uma recidiva. Essa trilogia maligna é uma expressão inequívoca do processo de medicalização da vida. O Transtorno de Explosividade Intermitente poderia ser considerado uma piada, se não fosse uma tragédia. E aí, para finalizar, temos algumas possibilidades. Primeira: Diagnóstico + medicação (sem tratamento). Esse procedimento é o mais usual, especialmente na rede pública. O sujeito vai ao psiquiatra e sai com um remédio na mão. Esse holocausto da subjetividade é perpetrado diariamente nos postos de saúde e rede pública. Segunda: Diagnóstico + medicação + tratamento. Pode-se fazer uso do diagnóstico, ou seja, de um procedimento simbolicamente cruel, para a obtenção de dois direitos – o remédio e o tratamento psicológico. Isso funciona? Cito outro trecho (é longo, mas é importante): "(...) Ao medicar um paciente sob a alegação de ajudá-lo em seu tratamento, os psiquiatras não estão se colocando do lado daquele que sofre, mas sim a favor do pharmacolonialismo, que se move predominantemente na lógica do capital. Isto porque a medicalização suprime a ética do cuidado de si, a estética e a motivação que poderia levar à cura, sendo, portanto, inimiga da subjetivação. Com efeito, os medicamentos não funcionam da mesma maneira para todos. Os indivíduos são diferentes e reagem de forma desigual aos estímulos. Da mesma forma do que ocorre em relação à nutrição, onde um alimento saudável pode ser danoso para alguém que possua alguma rejeição aos ingredientes dele, os indivíduos apresentam reações diversas em relação a uma mesma droga. Uma substância administrada para amenizar a depressão pode, por exemplo, induzir ao suicídio a determinadas pessoas. Assim, o princípio ativo pode provocar reações inversas às pretendidas. Confiar num medicamento é sempre uma aposta perigosa e imprevisível. O CORO: “O que é válido para alguns, pode não ser válido para todos.” Contudo, o discurso biomédico sustenta, e com razão, que o uso dos medicamentos, apesar dessas “anomalias”, dessas variações individuais indesejáveis, efetivamente funciona para um bom número de pessoas. Entretanto, como a medicação está dissociada de uma dietética existencial, ou seja, de um estilo de vida, quando o indivíduo é medicado (ou se automedica) e constata um efeito positivo no melhoramento dos seus sintomas, sente-se imediatamente autorizado a desequilibrar-se ainda mais, já que tem à mão um recurso que pode contornar e aliviar os excessos cometidos.O remédio converte-se na senha para empreender toda a sorte de desatinos(1). Assim, por exemplo, um portador de diabetes, ao tomar um remédio que diminui as taxas de glicose no sangue, sente-se livre para abusar dos docinhos. Um viciado em bebidas alcoólicas, ao perceber que suas dores abdominais diminuem com um remédio para o fígado, permite-se abusar mais ainda do álcool. Ao receber um transplante de coração, um pedreiro, ao sair da sala de cirurgia, falou para um repórter: “Estou me sentindo tão bem que vou comemorar comendo um churrasco!” O mesmo vale para os psicofármacos: aquele que se sente ansioso, ao ver a sua ansiedade ser suavizada por um ansiolítico, permite-se adotar um estilo de vida mais agitado e frenético do que antes, graças às conquistas da farmacologia. Alguém que esteja triste pela perda de um ente querido, ao tomar um antidepressivo pode indefinidamente sentir-se propenso a apegar-se à lembrança do morto, cuja perda acha inaceitável e intolerável, impedindo-lhe a elaboração do luto. Ou seja, mesmo que funcione, o remédio ainda assim é danoso para um grande número de pessoas, já que o tratamento é focado nos sintomas e não em cima de suas causas que continuam ativas e atuantes, embora ocultas. O CORO: “Quanto melhor o remédio, tanto pior será!” Porém, há ainda, por último, o restrito grupo daqueles que tomam um psicoativo e ele efetivamente funciona, os quais não se autorizam a praticar nenhum tipo de excessos, seguindo fielmente o protocolo médico prescrito. Benditos, esses bons pacientes! O sonho de todos os psiquiatras! Para esses, o medicamento, quando ingerido, age como uma máscara trágica a se interpor entre o sujeito e os seus sentimentos e emoções. A máscara dá a ele uma aparência de universal normalidade, e a sua individualidade é eclipsada por trás dela. E mais: ele não mais consegue sentir-se e perceber-se como outrora: o medicamento altera o seu humor, tornando-o “adequado” ou “saudável” dentro de normalizações socialmente determinadas. A consequência desta acomodação clínica do sintoma é evitar que o indivíduo entre em contato com as verdadeiras causas de seu malestar. Ora, ora! Nenhum psiquiatra bem intencionado e esclarecido sustentaria que o remédio por si só possa resolver todos os males! O ideal é que ele venha acompanhado de uma psicoterapia a fim de reforçar e retroalimentar os efeitos positivos da medicação. Terapia e remédio, remédio e terapia: remédio para o corpo, terapia para a alma! No entanto, ao contrário de todos aqueles que pregam que a medicação e a terapia caminham muito bem juntas, na verdade a medicação é o maior empecilho para um efetivo avanço terapêutico. E o motivo é óbvio e irrefutável: nós nunca desejamos tanto estar saudáveis como ao nos sentirmos doentes; nós nunca desejamos tanto comer um alimento como quando sentimos nas vísceras a fome nos corroer por dentro; nós nunca ansiamos tanto por carinho como nos momentos em que nos sentimos sós e desamparados. Ora, se o medicamento diminui ou cessa o mal-estar, elimina também aquilo que poderia ser a motivação para a busca do bem-estar(2). Se o medicamento minimiza o sofrimento, diminui também a capacidade de sentir prazer. Isto porque há uma harmonia entre os opostos em todas as coisas, e um oposto remete para o seu pólo oposto e complementar."
Terceira possibilidade: Diagnóstico + tratamento (sem medicação) É, na maioria dos casos, preferível a todas as outras. Evita os efeitos colaterais da medicação e não atrapalha no tratamento. Só em casos especiais não seria recomendável. Por fim, a guisa de conclusão, cito um trecho do livro “A Tragicomédia da Medicalização”, onde a violência simbólica do diagnóstico é resumida: “Eis – antecipando o que diremos ao longo deste opúsculo - as etapas da violência simbólica à qual o paciente é submetido: primeiro, ele é nomeado pelo diagnóstico como portador de algum distúrbio ou perturbação; segundo, pelo diagnóstico o rótulo adere ao paciente como um estigma, tal como as marcas de identificação apostas aos animais quando são ferrados; terceiro, ele é rebanhizado, ou seja, as referências se deslocam de sua personalidade individual e única para o rebanho anônimo e indistinto da categoria nosológica em que é agrupado. As consequências desta rebanhização são, de um lado, a despersonalização e perda de referenciais internos; e, de outro, a terapêutica medicamentosa indicada será aquela aplicável não ao indivíduo na sua singularidade, mas sim ao rebanho no qual ele foi inserido, ou seja, aplicar-se-á um remédio inespecífico para um indivíduo genérico que não existe enquanto tal”. Em suma, para não cansar demais os leitores: a formulação precipitada de um diagnóstico para um transtorno psíquico é um desserviço àqueles que buscam o autoconhecimento e a autotransformação, tendo apenas uma função de viabilizar um controle biopolítico sobre os corpos e as mentes dos pacientes. Saudações, José Ramos Coelho (1)“(...) a educação age sobre o nível de vida em uma proporção duas vezes e meia mais importante do que o consumo médico” – afirma Michel FOUCAULT, retomando a tese de Ivan Illich. – “Conclui-se que, para viver mais tempo, um bom nível de educação é preferível ao consumo médico” (2011, p.390) (2) Com profunda sabedoria, pontifica o Dr. Edward BACH: “... a doença, posto que pareça tão cruel, é benéfica e existe para nosso próprio bem; se interpretada de maneira correta, guiar-nos-á em direção aos nossos defeitos principais. Se tratada com propriedade, será a causa da supressão desses defeitos e fará de nós pessoas melhores e mais evoluídas do que éramos antes. O sofrimento é um corretivo para se salientar uma lição que de outro modo não haveríamos de aprender, e ele jamais poderá ser dispensado até que a lição seja totalmente assimilada”. (2010, p.18). O combate precipitado aos sintomas está a serviço da manutenção da ignorância e da cegueira. - See more at: http://www.redehumanizasus.net/84706-a-crueldade-simbolica-do-diagnostico-psiquiatrico-e-similares#sthash.PXGMTufA.dpuf