Pacientes produtores ativos de saúde (prosumo)

Essa avalanche de informações e conhecimento relacionada à saúde e despejada todos os dias sobre os indivíduos sem a menor cerimônia varia muito em termos de objetividade e credibilidade. Porém, é preciso admitir que ela consegue atrair cada vez mais a atenção pública para assuntos de saúde - e muda o relacionamento tradicional entre médicos e pacientes, encorajando os últimos a exercer uma atitude mais participativa na relação. Ironicamente, enquanto os pacientes conquistam mais acesso às informações sobre saúde, os médicos têm cada vez menos tempo para estudar as últimas descobertas científicas ou para ler publicações da área - on-line ou não -, e mesmo para se comunicar adequadamente com especialistas de áreas relevantes e/ou com os próprios pacientes. Além disso, enquanto os médicos precisam dominar conhecimentos sobre as diferentes condições de saúde de um grande número de pacientes cujos rostos eles mal conseguem lembrar, um paciente instruído, com acesso à internet, pode, na verdade, ter lido uma pesquisa mais recente do que o médico sobre sua doença específica. Os pacientes chegam ao consultório com paginas impressas contendo o material que pesquisaram na internet, fotocópias de artigos da Physician's Desk Reference, ou recorte de outras revistas e anuários médicos. Eles fazem perguntas e não ficam mais reverenciando a figura do médico, com seu imaculado avental branco. Aqui as mudanças no relacionamento com os fundamentos profundos do tempo e conhecimento alteraram completamente a realidade médica. Livro: Riqueza Revolucionária - O significado da riqueza no futuro

Aviso!

Aviso! A maioria das drogas psiquiátricas pode causar reações de abstinência, incluindo reações emocionais e físicas com risco de vida. Portanto, não é apenas perigoso iniciar drogas psiquiátricas, também pode ser perigoso pará-las. Retirada de drogas psiquiátricas deve ser feita cuidadosamente sob supervisão clínica experiente. [Se possível] Os métodos para retirar-se com segurança das drogas psiquiátricas são discutidos no livro do Dr. Breggin: A abstinência de drogas psiquiátricas: um guia para prescritores, terapeutas, pacientes e suas famílias. Observação: Esse site pode aumentar bastante as chances do seu psiquiatra biológico piorar o seu prognóstico, sua família recorrer a internação psiquiátrica e serem prescritas injeções de depósito (duração maior). É mais indicado descontinuar drogas psicoativas com apoio da família e psiquiatra biológico ou pelo menos consentir a ingestão de cápsulas para não aumentar o custo do tratamento desnecessariamente. Observação 2: Esse blogue pode alimentar esperanças de que os familiares ou psiquiatras biológicos podem mudar e começar a ouvir os pacientes e se relacionarem de igual para igual e racionalmente. A mudança de familiares e psiquiatras biológicos é uma tarefa ingrata e provavelmente impossível. https://breggin.com/the-reform-work-of-peter-gotzsche-md/

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A estética da degeneração mental

Juntando-se a avaliação estética de atitudes sociais com o modelo médico é comum socialmente se julgar uma pessoa mentalmente degenerada (doente mental) por não adotar atitudes esteticamente bonitas. Tamanho o grau de medicalização que ninguém mais pode desagradar, ser desaprovado, ir contra a corrente, adotar atitudes socialmente feias sem isso ser considerado o sintoma de algum defeito no cérebro. Uma atitude feia socialmente é apenas uma atitude feia socialmente. Não é necessário uma avaliação nazista da estética da degeneração mental no pacote. O grau de normalização exigido é altíssimo. Isso é resultado da cultura psi e de engenharia social.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?

http://www.pnmedycznych.pl/wp-content/uploads/2014/08/pnm_2013_010-021.pdf

Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?

Medicalization of Depression, Anxiety, Schizophrenia, ADHD, Childhood Bipolar Disorder and Tantrums: Scientific Breakthrough, or Broad-Based Delusion?


Department of Psychology, Marshall University, USA Head of Department: Steven P. Mewaldt, PhDSummary

Clearly, a number of psychological and behavioral disorders arise within our biology. These include autism, Down’s syn-drome, those due to toxin exposure, metabolic and endocrine difficulties, and several others. In contrast, there is minimal re-search evidence to support biological origins of the vast number of common disorders such as depression, anxiety disorders, schizophrenia or child problems such as conduct disorders, attention deficit hyperactivity disorder (ADHD), childhood bipolar disorder, oppositional behaviors or tantrums. These disorders have been medicalized when, in the absence of supportive research evidence, they are said to be caused by genetic defects, chemical imbalances or other biological phenomena.The roots of contemporary medicalization in the U.S. are traced to two primary factors – psychiatry’s efforts to re-gain lost sta-tus, and profit motive in the pharmaceutical industry. Given that both psychiatry and the drug industry are global enterprises, medicalization threatens to escape the boundaries of the U.S. and spread to other nations. There are a number of unfortunate by-products of medicalization including patients’ feelings that there is less hope for improvement and increased community prejudice, when disorders are thought to be rooted in biology. Another by-product is that validated behavioral treatments may be overlooked, as drugs with unfortunate side effects become the treatment of choice. Research in support of biological causa-tion is discussed and found to be relatively weak. Efforts at pushback against medicalization are discussed.

Key words: medicalization, psychiatry, pharmaceutical industry, drug industry

Psychopathology According to Behaviorism: A Radical Restatement

 Psychopathology According to Behaviorism: A Radical Restatement

 https://revistas.ucm.es/index.php/SJOP/article/download/SJOP0404220171A/29234

Abstract

This article is a radical restatement of the predominant psychopathology, which is characterized by nosological systems and by its approach towards a neurobiological conception of the so-called mental disorders. The “radical” sense of this restatement is that of radical behaviorism itself. As readers will recall, “radical” applied to behaviorism means total (not ignoring anything that interests psychology), pragmatic (referring to the practical sense of knowledge), and it also derives from the Latin word for “root” (and thus implies change beginning at a system's roots or getting to the root of things, in this case, of psychological disorders). Based on this, I introduce the Aristotelian distinction of material and form, which, besides being behaviorist avant la lettre, is used here as a critical instrument to unmask the hoax of psychopathology as it is presented. The implications of this restatement are discussed, some of them already prepared for clinical practice.

[Artigo incrível]

domingo, 13 de setembro de 2020

The Marketing of the New Bipolar Disorder

The concept of bipolar disorder has undergone a transformation over the last two decades. Once considered a rare and serious mental disorder, bipolar disorder is being diagnosed with increasing frequency in Europe and North America, and is suggested to replace many other diagnoses. The current article shows how the modern concept of bipolar disorder has been created in the course of efforts to market new antipsychotics and other drugs for bipolar disorder, to enable these drugs to migrate out of the arena of serious mental disorder and into the more profitable realm of everyday emotional problems. A new and flexible notion of the condition has been created that bears little resemblance to the classical condition, and that can easily be applied to ordinary variations in temperament. The assertion that bipolar disorder is a brain disease arising from a biochemical imbalance helps justify this expansion by portraying drug treatment as targeted and specific, and by diverting attention from the adverse effects and mind-altering properties of the drugs themselves. Childhood behavioural problems have also been metamorphosed into “paediatric bipolar disorder,” under the leadership of academic psychiatry, with the assistance of drug company financing. The expansion of bipolar disorder, like depression before it, medicalises personal and social difficulties, and profoundly affects the way people in Western nations conceive of what it means to be human.

https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1363461514530024?url_ver=Z39.88-2003&rfr_id=ori%3Arid%3Acrossref.org&rfr_dat=cr_pub++0pubmed&

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A reforma psiquiátrica e seus críticos: doença mental

A reforma psiquiátrica e seus críticos:considerações sobre a noção de doença mental e seus efeitos assistenciais
[Artigo incrível resumido]

Além de desqualificar serviços sem prova empírica, essa afirmação se baseia na ideia de que os profissionais dos serviços de base comunitária pensam que o padecimento do paciente é apenas uma situação social. Os CAPS, de fato, levam muito em conta os aspectos sociais implicados no adoecimento psíquico, como os laços sociais e familiares, a relação com a vizinhança, os vínculos de trabalho e cooperação, as trocas amistosas e amorosas. A razão disso, ao lado da defesa da cidadania devida a todos, é que os laços sociais podem ser foco de tensão e desestabilização, mas também podem se tornar fatores protetores, evitando o agravamento, ajudando na recuperação e no cuidado. Entretanto, esse entendimento não desconsidera os aspectos individuais, sejam eles biológicos ou psicológicos do adoecimento.

Acreditamos que o debate sobre política de cuidados psiquiátricos no Brasil possui pressupostos sobre a noção de patologia mental que não estão explicitados. 

Uma das questões centrais da crítica à reforma no Brasil baseia-se na ideia de que os hospitais psiquiátricos são imprescindíveis na composição da rede de saúde mental. Como o processo de reforma contesta essa ideia e vem gradativamente reduzindo o tamanho e o número de hospitais (BRASIL, 2011, p. 16), logo estaria havendo desassistência e “despsiquiatrização” (ABP, 2006, p. 21-23). Esse argumento é, por assim dizer, defensivo. Pretende defender uma estrutura de tratamento, visto como local privilegiado da terapêutica e do ensino. Essa defesa, em geral, se segue uma estratégia de ataque. O alvo desse ataque são os serviços que estão ocupando o posto estratégico na organização da rede assistencial e atendimento a casos graves, que antes da reforma seguiam para hospitais psiquiátricos, os centros de atenção psicossocial (CAPS). 

A diferença fundamental com relação ao modelo centrado no hospital psiquiátrico é que a gravidade sintomática não é considerada um fator impeditivo para o uso de um serviço comunitário aberto, visando à reinserção social possível ao lado do tratamento farmacológico e psicológico disponível. 

Estruturas hospitalares com grande número de leitos tendem a gerar exclusão, estigma, exposição à violência, longo tempo de internação e baixo potencial terapêutico (CFP; OAB, 2004). O foco da assistência concentra-se quase que exclusivamente na medicação, muitas vezes de forma excessiva, além do uso errático de estratégicas psicossociais e ausência de projetos terapêuticos individualizados e consistentes.2 

Entretanto, a defesa do hospital psiquiátrico como local de atendimento, ensino e pesquisa é desprovida de justificativas científicas. Embora não haja estudos profundos sobre o tema, nada impede que os serviços de base comunitária possam suprir a demanda por formação, pesquisa e treinamento, e com maior capilaridade no território nacional. Mais importante que o hospital especializado é a equipe de trabalho coesa, a complexidade do ambiente terapêutico, a disponibilidade de medicamentos, a prontidão do acolhimento e o respeito integral aos direitos de cidadania que definirão a qualidade da assistência e do ensino. 

Hoje, um dos principais problemas da psiquiatria concerne à validade de determinadas categorias diagnósticas, sendo um tópico discutido intensamente pelos profissionais sem obtenção de consenso. A acalorada discussão sobre o DSM-V demonstra a dificuldade. Associado a isso, estudos indicam a probabilidade muito grande de diagnósticos falso-positivos em testes de screening (rastreamento de diagnósticos), principalmente em crianças (HORWITZ; WAKEFIELD, 2009). O risco apontado é que muitos diagnósticos seriam equivocados, gerando estigma e medicalização sem nenhuma garantia de benefícios cientificamente reconhecidos. Esse risco seria ainda maior com questionários simplificados e padronizados na atenção primária. Em resumo, as propostas de mudanças do modelo assistencial preconizadas pela ABP mostram-se redundantes ou inconsistentes. Defende-se a manutenção de um local de tratamento que mostrou seu esgotamento, enquanto se aponta para a criação de serviços alternativos já existentes. Criticam-se equipes e serviços sem conhecer seu funcionamento efetivo. E afirmam-se pontos de vista sem justificá-los científica ou filosoficamente.

Os avanços nas pesquisas em neurociências são importantes para o conhecimento de aspectos fundamentais dos transtornos mentais e tem avançado rapidamente. Entretanto, a afirmação acima, defendida como um princípio contém problemas que necessitam ser explicitados, pois, caso contrário, corremos o risco de começarmos a fazer afirmações ideológicas, chamando-as inapropriadamente de científicas.

[Neurociências] É um campo de pesquisa novo, multiforme e ainda não coeso (MALABOU, 2004). Mesmo assim, os autores se referem às neurociências como um campo homogêneo, passando ao largo das dificuldades próprias dos pesquisadores da área.

Um dos princípios contido em “Diretrizes” afirma que a prática psiquiátrica deriva de “conhecimentos científicos que foram se construindo na base de estudos científicos rigorosos”, sendo que esses estudos “contrastam e se opõem às interpretações discursivas e impressionistas dos fenômenos psíquicos e dos problemas do funcionamento mental” (ABP, 2006, p. 7). Embora se afirme também que “é tarefa da Psiquiatria Científica e da sua pesquisa, bem como de outras especialidades médicas e de outras ciências da saúde e do homem, investigar suas causas, diagnósticos e tratamentos mais efetivos e seguros” (ABP, 2006, p. 7), as ciências do homem, contraditoriamente, estão excluídas do processo, pois seus estudos científicos são baseados em narrativas e interpretações discursivas. Não poderia ser de outro modo.

Da mesma forma, o que seria uma psiquiatria científica? Ela se oporia a uma psiquiatria discursiva? As pesquisas de causas de doenças mentais e seus tratamentos estariam restritas a uma única descrição dos fatos mentais? Os autores das “Diretrizes” não explicitam até que ponto a investigação da rede causal dos problemas psíquicos está sendo levada em conta. Se a causalidade considerada válida se concentra apenas no nível biológico ou se a rede causal deve ser ampliada a uma gama mais ampla de causalidades possíveis. Em resumo, os autores não deixam claro quais são suas próprias redes de crenças sobre o mental.

Existem duas questões embutidas na afirmação acima. A primeira diz respeito aos fatores determinantes dos transtornos mentais. A segunda questão é sobre a relação entre cérebro e psiquismo. Observemos melhor cada um desses pontos. Com respeito à primeira questão, quando falamos em doença, quando a descrevemos, catalogamos, explicamos suas origens e propomos tratamentos, estamos falando de uma experiência antropológica. Dentro dessa perspectiva, a doença é sempre uma produção humana, ela só existe sob descrição, como narrativa que visa a determinados fins em uma dada comunidade e em determinado contexto histórico.

A doença mental, nessa concepção (de Canguillhem), seria uma variação biológica e comportamental na experiência com o mundo e consigo mesmo que, sendo pouco normativa, impede o sujeito de variar suas respostas, empobrecendo seu repertório de ações e constrangendo a subjetividade na sua capacidade de ação. A experiência do adoecimento mental é, por assim dizer, o fiel da balança. É essa experiência que aponta para o pathos, em que a narrativa do paciente sobre seu adoecimento possibilita que a clínica se construa. Toda explicação científica repousa sobre essa experiência e sobre a relação clínica. É em função dessa experiência que as descrições psiquiátricas e as teorias causais se fundamentam. A enfermidade psíquica só é identificada como doença após a percepção da dificuldade normativa ter se estabelecido na consciência de quem sofre e devido à incapacidade de variar suas respostas comportamentais em decorrência da infidelidade do meio. Ela não é, portanto, nem uma entidade prévia à experiência de constrangimento vital de um indivíduo, nem um dado bruto da realidade independente da descrição realizada, descrição essa informada por valores e crenças.
 
O problema central, entretanto, repousa na concepção subjacente de que os únicos estudos válidos para a prática psiquiátrica são os que advêm da biologia molecular, da neuroimagem e da genética. Está implícita nessa ideia a crença de que podemos dispensar abordagens discursivas do sofrimento mental sem perdas significativas. Esse é um princípio propriamente fisicalista e reducionista, que defende que a única teoria psiquiátrica válida é aquela que descreve as patologias mentais como alterações cerebrais. Há nessa vertente um enfoque exclusivo no cérebro, não apenas como órgão privilegiado de estudos e intervenção, mas como entidade que explicaria todo e qualquer evento mental normal ou patológico. Está implicada nessa posição a crença de que podemos abrir mão da aproximação do sofrimento mental através da linguagem psicológica, fenomenológica, psicanalítica ou sociológica da causalidade baseada em narrativas, em prol de descrições puramente fisicalistas. Essa maneira de abordar o adoecimento mental caracteriza-se pela busca de explicações causais dos problemas mentais exclusivamente através da descrição de alterações neuronais e genéticas. Seu pressuposto é o de um materialismo ontológico e reducionista (Cf. SERPA JR, 1998; BRENDEL, 2006; GHAEMI, 2003; RAMBERG, 2008). Vejamos melhor por que diversos autores criticam essa abordagem.

O materialismo ontológico-reducionista na psiquiatria pressupõe que possamos reduzir a mente ao cérebro, isto é, preconiza que tudo o que podemos dizer sobre a subjetividade através do vocabulário psicológico-narrativo pode ser formulado através do vocabulário neuronal-científico, o único que realmente tem a chave explicativa para os fenômenos mentais. As abordagens baseadas em narrativas são consideradas descrições subalternas porque o que está em jogo, de fato, é o constituinte físico do comportamento. Nesse tipo de descrição fisicalista, se buscaria uma identidade tipo a tipo (identidade type-type) entre a descrição neuronal e a mental, isto é, eventos mentais se relacionariam a eventos cerebrais de maneira específica, circunscrita e unicausal. A mente, nas suas diferentes expressões, seria um efeito do cérebro. Portanto, as teorias sobre fenômenos psíquicos descritas no vocabulário subjetivo errariam o alvo, porque buscariam nessas expressões imprecisas e superficiais as causas patológicas que, na verdade, estariam no nível mais profundo, o nível neuronal, genético ou molecular.

Entretanto, para pensamentos, sentimentos, sensações e afetos tais como o prazer, dor, angústia, delírio ou depressão faltam eventos cerebrais delimitados correspondentes (BRENDEL, 2006, p. 87). Mesmo que observemos áreas cerebrais ativadas com determinada emoção ou cognição, não podemos afirmar que a causalidade é sempre cerebral, mas apenas que ela é concomitante ao evento. Existem evidências de eventos cerebrais alterando a subjetividade, assim como eventos interpessoais alterando padrões neuronais (FUCHS, 2012). Mas, em geral, o surgimento de emoções, sentimentos e pensamentos é contextual e relacional, ocorre com um indivíduo na relação com um meio que é específico, marcado por sua biografia (KIRMAYER; GOLD, 2012). Com isso podemos dizer que o cérebro é necessário e concomitante ao evento, mas não que ele explica ou causa o evento.

Como mostra Ramberg (2008), os vocabulários utilizados nas descrições da subjetividade e do cérebro são muito diferentes. Vocabulários são construídos diferentemente porque possuem propósitos diversos, suas proposições lidam com problemas que são descritos com mais eficácia naqueles termos e não em outros. Embora seja logicamente aceitável, e até provável, que eventos mentais sejam concomitantes a eventos cerebrais e vice-versa, descrever exclusivamente os problemas mentais como alterações cerebrais pode ser uma maneira de enfatizar o lado errado da equação. Pode ser apenas uma maneira de interromper o diálogo clínico, sendo que esse diálogo só poderá ser adequadamente construído sobre um contexto que se baseia em narrativas, interpretações e abordagens “impressionistas”.

É toda essa estrutura contextual e relacional que se perde ao reduzir a descrição mental à descrição neuronal. E essa perda implica uma psiquiatria amputada de suas características humanistas e uma equiparação indevida do indivíduo ao seu cérebro. Além disso, a abordagem fisicalista-reducionista dispensa a possibilidade de níveis hierárquicos de organização do mental, pelos quais diferentes estratos de organização possuiriam regras de causalidade próprias. Como mostram Kirmayer e Gold (2012) e Fuchs (2012), a base neuronal serve de apoio e precede cronológica e logicamente organizações mentais fenomenológicas, simbólicas e linguísticas, que por sua vez organizam formas de sociabilidade complexas. Os autores defendem, portanto, que a melhor maneira de compreender os fenômenos mentais deve englobar sistemas hierárquicos que envolvem o cérebro, a linguagem e a sociedade. Cada sistema emergindo com a complexificação do sistema anterior, com funcionamentos específicos e influenciando-os reciprocamente (KIRMAYER; GOLD, 2012; SERPA JR, 2011).

Essa maneira de estudar o fenômeno mental e a doença psiquiátrica leva em conta os vários níveis de complexidade e a forma como eles interagem. As dimensões genéticas e neuronais produzem a abertura para o simbólico e o social. Cada sistema opera num nível ontológico próprio, que descrevemos com mais ou menos acurácia pragmática. E cada sistema afeta o outro em algum nível de profundidade. Os processos epigenéticos, pelos quais o ambiente modula e altera a expressão dos genes, e os fatores sociais, culturais, familiares e simbólicos que expõem vulnerabilidades herdadas disparando processos psicopatológicos, são exemplos dessa inter-relação. Embora, evidentemente, existam processos que são descritos e manejados dentro de determinado nível com grau importante de clareza e perícia, de maneira suficiente e independente (KIRMAYER; GOLD, 2012). As patologias mentais envolveriam processos neurobiológicos (genes, moléculas e neurônios), corporais (fenomenológico-intencionais) e simbólicos (interpessoais e sociais) numa interação complexa e circular.

Nosso ponto de vista é que estudos neurobiológicos não se opõem às interpretações discursivas. É aceitável um materialismo metodológico, isto é, a redução, para estudo empírico e circunstancial, do sujeito humano a uma descrição fisicalista com vistas à produção de um discurso que vise estudar e manejar comportamentos com alto grau de sofrimento. A abordagem biológica, na perspectiva do materialismo metodológico, é uma possibilidade descritiva como qualquer outra. É um procedimento útil e interessante, mas que não elimina outras abordagens do fenômeno psíquico.

O materialismo não-reducionista pressupõe que sem a narratividade, sem a descrição do sofrimento em termos psicológicos, ocorreria uma indesejável restrição descritiva. Termos como “desejos”, “crenças” e “fantasias” são constitutivos da rede linguística que nos estrutura, mas são fundamentais não apenas porque sua eliminação levaria ao empobrecimento subjetivo, mas porque impossibilitaria fazer uma boa clínica.

No início deste trabalho, ressaltamos a frase crítica das “Diretrizes” dirigida à atual política de saúde mental, em que a palavra “realmente” era colocada no contexto de que alguns profissionais tratam mais do que outros, isto é, aqueles que “realmente” tratam. Esse, digamos, é um implícito não pensado, e pernicioso. Se tivermos seriedade na discussão sobre a rede causal dos problemas mentais, portanto, de influências complexas e circulares na produção dos transtornos mentais, deixa de fazer sentido a prioridade de um ramo de conhecimento e de investigação sobre outro. Quem trata? Todos que se inserem nas relações de um paciente com seu mundo subjetivo e objetivo produzindo alterações na ampla rede causal: neuronal, fenomenal, simbólica e social.

Finalmente, é fundamental considerar que, historicamente, a psiquiatria se constituiu como uma tentativa de nunca pronunciar a incurabilidade de um paciente (GAUCHET; SWAIN, 1999), de nunca renunciar ao potencial saudável da mente de cada indivíduo. A psiquiatria nasceu como um produto das melhores esperanças utópicas. Portanto, os serviços postos em marcha pela reforma, dentro dessa perspectiva, devem ser considerados os legítimos herdeiros da melhor tradição pineliana.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O que seleciona a psiquiatria biológica?

Algumas reflexões tentando relacionar as práticas da psiquiatria biológica com o conceito de metacontingências:

Conceito de metacontingência: (contingências entrelaçadas recorrentes + produto agregado) -> Seleção

Contingências entrelaçadas recorrentes: práticas da indústria farmacêutica, dos hospitais psiquiátricos e da indústria de equipamentos médicos.

Produto agregado: serviços médicos, medicalização, ingestão de drogas psiquiátricas, internações psiquiátricas e sessões de eletroconvulsoterapia.

[Seria preciso uma análise muito mais minuciosa das relações contingentes entre eventos]

Acredito que as intervenções relacionadas à psiquiatria biológica ou modelo biomédico na saúde mental são práticas sociais selecionadas (consumida por pessoas) porque os problemas de sofrimento psicológico ou de comportamento não são resolvidos de outras maneiras e no desespero as pessoas fazem qualquer coisa para tentar resolver seus problemas. A assimetria de informação (conceito da economia) sobre os possíveis riscos de medicalizar o sofrimento psicológico ou comportamentos e da ineficácia das drogas psiquiátricas também é um fator importante no consumo de serviços médicos psiquiátricos.

Mesmo quando os problemas são resolvidos o discurso psiquiátrico ainda ameaça de ruína quem não seguir cegamente os conselhos dos médicos psiquiatras (ameaça de cronificação, morte e marginalização). Essa prática social é organizada devido à renda previsível e estável fornecida pelo cliente a longo prazo e é selecionada porque há assimetria de informação (conceito da economia) sobre a necessidade de uso contínuo do serviço médico.

Aquilo que leva a ganhar dinheiro tem forte impacto selecionador de práticas sociais. Logo, práticas sociais são organizadas visando o lucro em primeiro lugar em detrimento de práticas mais sóbrias e éticas. 

A organização de práticas sociais sociais visando o lucro por parte dos psiquiatras biológicos é demonstrada no livro Psiquiatria sob influência do autor Robert Whitaker. 

A prática de medicar ao invés de fazer psicoterapia é selecionada pois é possível fazer consultas mais curtas e em maior quantidade e também cobrar mais pelas consultas. Também porque com a prática privativa de prescrever medicamentos, internações psiquiátricas e eletroconvulsoterapia sendo uma atribuição somente do médico é possível fortalecer e manter a assimetria de informação (conceito da economia).

A prática de banalizar internações psiquiátricas é selecionada devido ao alto custo do procedimento. Também a prática da eletroconvulsoterapia é selecionada devido ao alto custo do procedimento e do equipamento.

A corrupção envolvida na organização dessas práticas e o resultado ineficaz/prejudicial está sendo atualmente bastante denunciado por profissionais e pessoas prejudicadas. Esses resultados ineficazes e prejudiciais constituem uma ferida social não resolvida. Profissionais ou pessoas afetadas buscam justiça e trabalham para que essas práticas sejam menos consumidas ou para que a organização das práticas sejam mais éticas. A tendência histórica é fazer o mesmo que foi feito com a indústria do tabaco (fumo).

Observação:

As práticas psi (psiquiátricas e psicológicas) de controle social são selecionadas (consumidas) porque é do interesse de pessoas envolvidas (os pacientes, os familiares ou outra subcategoria da classe pessoas) ajam de maneira socialmente esperada segundo os critérios dessas pessoas ou critérios gerais da sociedade.

As práticas psi (psiquiátricas e psicológicas) também são selecionadas (consumidas) visando eficiência e competência no manejo de situações e emoções.

domingo, 6 de setembro de 2020

Possíveis usos do blogue

- Formação de profissionais e diálogo entre profissionais de diferentes áreas

- Superar assimetria de informação entre profissionais e clientes; melhor escolha de profissionais

- Faça você mesmo: entender os assuntos por si mesmo para resolver problemas sozinho; lidar com familiares e profissionais

- Aumento de influência política e social desse tipo de conhecimento; formação de usuários e ex-usuários

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O reforçamento positivo em instituições

Aqueles que representam ameaças para si mesmos ou para a

sociedade em geral, freqüentemente, são entregues às instituições.

Ali, permitimos a eles apenas relações sociais limitadas, privamos os

mesmos de liberdade de movimento e de oportunidades de tomar

decisões; proibimos, ainda, a maioria das comodidades que eles

desfrutariam no mundo exterior. Freqüentemente justificamos estas

instituições como instrumentos para mudanças benéficas: "escolas"

para deficientes supostamente ensinam a seus alunos novas habili-

dades para ajudá-los a superar suas limitações, "hospitais" para

doentes mentais supostamente curam-nos, "instituições" correcio-

nais supostamente reabilitam infratores.

Entretanto, a localização destas instalações em áreas relati-

vamente despovoadas e de difícil acesso (pelo menos inicialmente,

antes que as cidades ou subúrbios tenham crescido à sua volta)

indicam o que realmente pretendemos com elas. Espera-se que elas

mantenham o retardado, o louco e o criminoso fora de circulação.

Entregamos estas instalações "humanas" a membros de profissões

assistenciais — médicos, enfermeiros, psicólogos, analistas do com-

portamento, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, professores, assistentes

sociais e funcionários penitenciários — e lavamos nossas mãos dos

problemas.

Seu isolamento geográfico, seus muros, grades, portões e

torres de segurança e a tendência pública de ignorar o simples fato

de sua existência deixam essas instituições quase que completamen-

te sem controle externo. Sejam quais forem os impulsos humanitá-

rios que possam de início ter gerado seu estabelecimento, sua isen-

ção da obrigatoriedade de prestar contas ao público transforma a256

Murray Sidrrvan

maioria delas em um pouco mais dos que depósitos para os social-

mente desajustados. As prioridades imediatas das equipes de fun-

cionários, a conveniência administrativa, a docilidade do interno e a

obediência às normas e regulamentos substituem os objetivos edu-

cacionais, terapêuticos ou correcionais de longo prazo. A coerção

torna-se a técnica preferida para fazer os internos "se comportarem".

Uma instituição que funciona principalmente para o benefí-

cio do corpo de funcionários dá pouca importância aos nocivos efei-

tos colaterais da coerção. Desta forma, encontramos a predominân-

cia da coerção no tratamento de pessoas retardadas, dos doentes

mentais e de criminosos de todos os tipos. Quando a pressão públi-

ca ou judicial por reforma surge efetivamente, ela é efêmera e geral-

mente ineficaz, já que concentra a atenção nas instalações físicas e

nos procedimentos administrativos. Raramente uma investigação

avalia de fato a racionalidade e a aplicação das técnicas de controle

do comportamento. Por causa da incompreensão e da incompetên-

cia, alguns dirigentes institucionais e membros das profissões assis-

tenciais deturpam e alteram o conceito de reforçamento, tornando-o

irreconhecível, tentando transformar até mesmo o reforçamento po-

sitivo em um instrumento de coerção.


Coerção e suas implicações - Sidman

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Mídia e corporações

 A imagem pode conter: texto que diz "0 propósito da mídia não é de informar o que acontece... ...mas sim de moldar a opinião publica de acordo com a vontade do poder corporativo dominante. NOAM CHOMSKY"

Caridade prejudicial / incapacidade / socialismo

Caridade. A inerente coercitividade da competição está sufi-

cientemente clara. Um resultado de competitividade desenfreada é o

nosso mundo partido em possuidores e despossuídos, uma estrutu-

ra que agora se prova instável. A caridade institucionalizada e priva-

da e as "redes de segurança" governamentais tentam prover níveis

mínimos de apoio para os mais severamente privados, mas eles nem

impediram o alargamento da lacuna econômica nem reduziram a

ameaça de instabilidade social.

Uma solução muito defendida para o problema de uma socie-

dade dividida em dois é impor a igualdade por meio da redistribui-

ção de toda a riqueza e recursos. Esta proposta toma uma de duas

formas, ambas coercitivas: uma é simplesmente tomar todas as pos-

ses das duas metades e dividi-las entre os despossuídos; a outra é a

pesada taxação pelo governo, o suficiente para prover estabilidade

para todos. Aqueles que exigem uma destas soluções não as pensa-

ram até seus resultados finais.

Redirecionar o desequilíbrio atual confiscando e redistribuin-

do, embora possa apelar para o sentido de justiça de alguns, não

produzirá estabilidade. Dada a continuidade da competitividade,

apenas veríamos ciclos repetitivos de concentração e subseqüente

redistribuição forçada de riqueza. Quais são as contingências aqui?

Vencer, embora seja recompensado de início, é finalmente punido;

perder, embora punido de início, é finalmente recompensado. Uma

conseqüência destas contingências serão ondas crescentes de opressão severa

crescente por parte daqueles que ganharam tudo e desejam mantê-lo e

contramedidas crescentemente violentas por parte daqueles que nada têm a

perder.

Tais ciclos de ganho e perda, perda e ganho simplesmente manteriam

eternamente os grupos em disputa, primeiro um dominando e, então, o outro.

Quão freqüentemente vimos este processo se repetindo no terreno da

propriedade? O governo se apropria de toda a terra e a devolve para "o

povo" — os pequenos agricultores. Não demora muito e alguns agricultores

ganharam tudo para si e mais uma vez o governo e os ricos experienciam

ataques violentos de proponentes revolucionários da reforma agrária.

Podemos ver um processo semelhante se iniciando em nossas cidades, onde

a falta de moradia popular está levando governos locais a impor pressões

confiscatórias contra proprietários de terra. A ferramenta coercitiva produzirá

apenas uma nova geração de monopolistas, aqueles que pegaram as menores

parcelas e a juntam novamente para seu próprio beneficio.

A política governamental de bem-estar, que pretende eliminar pelo

menos os extremos de riqueza e pobreza, acabará em uma sociedade dividida

em dois de um outro tipo, não mais satisfatória e produtiva e provavelmente

não mais estável que a atual. Já podemos ver os primeiros resultados da

segurança econômica, habitacional e de saúde que é provida

independentemente de qualquer coisa que o indivíduo faça ou deixe de fazer

— o que quer dizer, sem relação contingente entre conduta e conseqüência.

O que se supõe vir a ser uma sociedade sem classes está a meio caminho de

tornar-se uma nova estrutura de dois níveis, hospedeiro e parasita,

freqüentemente visto na natureza, mas raro, em grande escala, entre humanos.

Isto não é um julgamento de valor, nem um ataque ao liberalismo (nome do esquerdismo nos EUA). 

É uma conclusão que a análise do comportamento torna inevitável. Um estado

de bem-estar viola a primeira lei da conduta: o que as pessoas fazem é ditado

pêlo que acontece. Naturalmente, outros fatores modulam esta primeira lei;

conseqüências não agem isoladamente. Mas, é freqüentemente revelador

examinar projeções que não reconhecem como fontes de interferência os

processos básicos de reforçamento. Tais análises podem ser úteis por nos

mostrar para onde nos dirigimos se não modificarmos as contingências.

N o futuro , sem intervenção , quais são os dois níveis a serem

esperados do compartilhar não-contingente de todos os recursos da

comunidade e como surairão estes dois níveis? Um lado da socieda

de do bem-estar conterá produtores, ou outro, parasitas. Pessoas da

classe trabalhadora irão se engajar interativamente em seu ambien-

te, mudando-o, deixando nele sua marca, construindo repertórios de

conduta variados em resposta às contingências naturais e sociais;

os trabalhadores levarão vidas produtivas e potencialmente satisfa-

tórias. Aqueles da classe de parasitas receberão tudo em troca de

nada, recostados com suas bocas abertas à espera de alimento, não

interagindo com e, até mesmo, alienados de seus ambientes; os

parasitas permanecerão infantis e não-produtivos. Este bem conhe-

cido problema familiar, a criança mimada, há de se generalizar para

toda uma sociedade.

Parasitas, com suas necessidades básicas satisfeitas, têm

pouco incentivo para mudar. Por que ser um produtor quando ou-

tros estão dispostos a fazê-lo por você? Por quanto tempo os produ-

tores vão se manter produtivos nestas circunstâncias? Por quanto

tempo vão se manter dispostos a dividir, quando virem os frutos de

seu trabalho desviado para aqueles que os obtêm simplesmente pa-

rando e esperando? A relação é inerentemente instável.

Problemas que se originam de acesso desigual aos recursos

do mundo não serão resolvidos aplicando-se medidas cada vez mais

severas para manter os despossuídos em seu lugar ou, simplesmen-

te, entregando-lhes uma parte. Ambas as soluções abordam o pro-

blema ao contrário, tentando impedir contra-reações, seja eliminan-

do os despossuídos, seja reforçando a passividade. Vimos que tenta-

tivas para eliminar comportamento são finalmente autoderrotadas.

Caridade não-contingente pode ser igualmente devastadora, tornan-

do doadores em hipócritas e recebedores em seres vegetativos.

A satisfação de nossas necessidades independentemente do

que quer que seja que façamos ou deixemos de fazer tornar-nos-á

essencialmente sem comportamento. Contingências ambientais ge-

ram novo comportamento; quando nossos atos produzem conse-

qüências, nós aprendemos. Quando essas conseqüências vêm inde-

pendentemente do que quer que seja que façamos ou deixemos de

fazer, nós ou não conseguimos aprender ou aprendemos, na realida-

de, a fazer nada.

Embora seja sensato e, freqüentemente, satisfatório compar-

tilhar os frutos do sucesso com os menos afortunados, está longe de

ser càritativo tornar este compartilhar não-contingente. Doar cega-

mente, em nome do humanitarismo, garante que aqueles que preci-

sam de caridade porque não têm capacidades produtivas manter-se-

ão incapazes. Não importa quão desagradável consideremos a noção

de controlar os outros por meio de doação contingente, nós os con-

trolamos de qualquer modo—inadvertidamente, mas da mesma forma efetivamente

—por meio de caridade que não está relacionada a qualquer coisa que eles aprendam

ou consigam fazer. A caridade não-contingente produz e perpetua a pobreza.

Portanto, a caridade em si mesma não prove solução para os problemas

que a coerção competitiva coloca. Manter as pessoas sem comportamento não é

um favor para elas, as destrói. Uma classe social definida por incompetência e

ignorância, com a conseqüente inabilidade de seus membros para deixar essa classe

ou mesmo para se sustentarem a si mesmos dentro dela, finalmente tornará o

restante da sociedade ressentido. Tendo sido forçados, em nome da humanidade, a

se manterem no mesmo estado que os torna objetos de caridade, eles finalmente se

tornam alvo de hostilidade e repressão.


Coerção e suas implicações - Sidman

Drogas psiquiátricas e restrição química (coerção)

 A sociedade também pratica ou sustenta outras formas de contracon-

trole, nem todas elas justificáveis como medidas protetoras. Nas

instituições, onde a pressão pública reduziu enormemente o uso de

restrição física para controlar o retardado ou o psicótico, restrição

química é ainda praticada extensivamente. Drogas têm substituído a

camisa de força como uma maneira de controlar pacientes que não

colaboram.

Pacientes institucionalizados que mostram distúrbio visível

— talvez justificado — com relação à alimentação, a programas

terapêuticos ou à dignidade de suas interações com a equipe prova-

velmente receberão drogas "para acalmá-los". E uma vez que uma

droga se demonstre bem-sucedida em tornar o paciente cooperativo

é improvável que alguém faça mais tarde um teste para determinar

se a dose é muito alta ou se a droga ainda é, de todo, necessária.

Drogas psiquiátricas são, elas mesmas, uma técnica de contracon-

trole particularmente útil para terapeutas que são incapazes de ou

que não estão dispostos a identificar as causas ambientais da con-

duta que supostamente devem tratar.


Não-cientes de que técnicas comportamentais estão

disponíveis, médicos desesperados recorrem à restrição química

como uma última medida de contracontrole.


Coerção e suas implicações - Sidman

domingo, 30 de agosto de 2020

Consciência forte, conservadorismo e rejeição da singularidade/criatividade

Assim como o animal de laboratório, que gasta todo seu tem-
po esquivando-se de choques, pessoas que têm uma consciência forte
podem andar em um curso estreito. Elas obedientemente fazem o
que é esperado, raramente tentando algo novo. Elas são confiáveis,
corajosas, transparentes e reverentes. Junto com estas inquestioná-
veis virtudes pessoais, entretanto, elas freqüentemente consideram
criatividade uma coisa perigosa, desaprovando-a em si mesmas e nos
outros. Elas freqüentemente consideram a singularidade perturbadora;
ação, crença ou aparência não-convencionais ameaçam sua seguran-
ça. E quando as condições mudam, quando a sociedade relaxa algu-
mas contingências e estreita outras, elas freqüentemente são incapa-
zes de adaptar-se; mudanças as ultrapassam. Estes subprodutos
infelizes de coerção "efetiva" também devem ser esperados quando a
comunidade constrói consciências individuais por meio de punição.

Se frutos proibidos continuam a nos atrair, a comunidade
haverá de nos considerar como tendo consciência fraca e sendo,
portanto, perigosos. Mesmo sem burlar a lei, podemos nos descobrir
com problemas. Simplesmente adotar um estilo de vida incomum
pode nos colocar em conflito com a comunidade mais ampla; ela
considera o diferente como não-confiável. Também podemos nos
sentir em guerra conosco quando somos fortemente tentados a fazer
coisas que aprendemos a chamar de "ruins" ou "perigosas", ou
quando nos descobrimos realmente "indo contra nossa consciência".
Não apenas a comunidade deixa de confiar em nós porque não
podemos nos controlar, mas é provável que não confiemos ou que
desprezemos a nós mesmos. Estas características distintivas de de-
sordens de personalidade e de neuroses são subprodutos adicionais
das práticas coercitivas que a comunidade usa para estabelecer a
consciência individual.

Coerção e suas implicações - Sidman

Loucura dos não loucos (Foucault)

 "Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco significaria ser louco de um outro tipo de loucura." Pascal, Pensamentos, apud Foucault, História da loucura.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Ajustar relógio biológico com exercício

 https://www.runnersworld.com/news/a26590745/exercise-body-clock/

Eles descobriram que o exercício é às 7h ou entre 13h e 16h00 avançou o relógio biológico o suficiente para que as pessoas pudessem iniciar as atividades no dia seguinte. Isso significa que eles se sentiram mais revigorados e prontos para malhar mais cedo depois de acordar. Em contraste, exercitar-se à noite entre 19h00 e 22:00 atrasou o relógio biológico, o que significa que eles tiveram mais dificuldade em chegar ao modo de desempenho máximo até mais tarde no dia seguinte. Então, eles se sentiram mais lentos e propensos à soneca ao acordar pela primeira vez, mas tiveram energia depois.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O que é "anormal"?

O que é "anormal"?


Já deveria ser evidente que a crise comportamental é um

resultado direto de processos de controle normais; conduta anormal,

também, é regida por leis. Assim como a pesquisa sobre reações

corporais normais a ataques virais levou à possibilidade de prevenir

a influenza, a pesquisa sobre ajustamentos comportamentais nor-

mais ao controle coercitivo tem levado à possibilidade de melhorar

algumas formas de doença mental.

Claramente, muitos fatores podem contribuir para a doença

mental e qualquer caso particular requer a consideração de todas as

possibilidades: sociais e individuais, internas e externas. Mas no

final, vemos doença mental na conduta. Compreender e fazer algo

sobre a anormalidade requer análise comportamental. Quando efe-

tuamos essa análise, freqüentemente descobrimos que as leis do

controle coercitivo, atuando por meio de contingências de punição,

fuga e esquiva, fornecem bases efetivas para tratamento.

Embora uma compreensão do caráter ordenado do comporta-

mento possa trazer a prevenção e a cura de muitas doenças men-

tais, muitos psiquiatras e psicólogos agem como se tal compreensão

não fosse possível. Para definir anormalidade eles não especificam

processos comportamentais mas, em vez disso, usam grosseiros cri-

térios estatísticos. Eles vêem com suspeita e tentam curar qualquer

ação que se desvie do usual.

Para onde nos teria trazido a medicina científica se tivesse

considerado a influenza anormal apenas porque era relativamente

rara? A lógica teria nos dito, então, que o problema da influenza

poderia ter sido resolvido do modo mais duro — livrando-se dela —

ou do modo mais fácil — passando-a para todo mundo e, assim,

tornando-a "normal". A doença mental, também, definida estatistica-

mente, poderia logicamente ser eliminada como um problema tor-

nando todo mundo mentalmente doente.

A definição estatística de anormalidade levanta mais do que

um problema simplesmente lógico. Vivemos em uma sociedade com-

plexa e o que uma comunidade admira ou tolera, uma outra conde-

na ou proíbe. Conduta que seria ricamente recompensada em Los

Angeles, envia os cidadãos de Boston para terapia. Sob a capa do

cuidado acadêmico, encontros universitários encorajam detalhismo

e sofisticação que não seriam tolerados em qualquer reunião de

negócios entre executivos; universidades e empresas atraem pessoas

que não poderiam aceitar ou sobreviver aos costumes uns dos ou-

tros. Quem deve dizer que ambiente, que grupo, é anormal — se

algum o é? Na prisão a sociedade releva e até mesmo encoraja a

mesma violência — pelos que a guardam e a habitam, igualmente —

que condena em todos os outros lugares; ações que são anormais

fora da prisão são normais dentro dela.

Porque não conseguimos nos conformar aos costumes de um

segmento particular da sociedade, isto torna nosso comportamento

doente? Precisamos de tratamento? Seguir estritamente este critério

eliminaria toda criatividade; por definição, criatividade é a produção

do não-usual. Infelizmente, a rotulação da criatividade como anor-

mal realmente ocorre mais freqüentemente na arte, literatura e ciên-

cias do que é comumente assumido. Isto também rotularia todo

desempenho superior como anormal. Mais uma vez, infelizmente, os

mais competentes são freqüentemente rotulados como anormais:

atletas excepcionais freqüentemente são vistos como estranhos, per-

formers para nosso divertimento; os mais capazes dentre os alunos

de segundo grau são colocados no ostracismo e até mesmo persegui-

dos por seus colegas menos intelectualizados; o gênio científico é

estereotipado como superespecializado, limitado na sua adaptabili-

dade geral — um tipo de sábio desligado e idiota.

Tentativas de quebrar o raciocínio circular não-produtivo.

que rotula qualquer coisa não-usual como anormal, têm levado a

outras definições de anormalidade. Algumas organizações profissio-

nais listam critérios absolutos para o que é normal. Usando seus

critérios, elas estabelecem padrões de saúde mental. Estes padrões

absolütos de normalidade, embora baseados nos vocabulários da

medicina e da psicologia, não são, freqüentemente, menos arbitrá-

rios que os critérios estatísticos. Eles quase sempre requerem con-

formidade a crenças que são pouco mais que preconceitos pessoais

sobre o que é e o que não é saudável. Embora banhados em respei-

tabilidade profissional, eles raramente têm validade científica ou

clínica.

Muitos psiquiatras estão descobrindo que suas teorias sobre

relações "normais" entre sexos, estão sendo desafiadas por mulheres

que se recusam a desempenhar papéis tradicionais. E assim, eles

rotulam o feminismo moderno como não-saudável, necessitando de

tratamento, precisando ser curado. A própria coerção que a socieda-

de coloca sobre as mulheres que seguem caminhos diferentes da-

queles que foram mapeados para elas é citada como prova da anor-

malidade feminista: "Elas estão apenas procurando problemas." Os

padrões absolutos de normalidade feminina são baseados em tradi-

ção cultural, não em análise científica.

Uma situação semelhante existe com relação à preferência

sexual. Muitos psicólogos, refletindo a hostilidade pública em rela-

ção à homossexualidade, a pronunciam como desviante e oferecem

curas. Tentativas de impor critérios absolutos de normalidade se-

xual não consideram que muitos homossexuais se sentem perfeita-

mente bem consigo mesmos e que muitos outros iriam se sentir bem

se não fosse pelas pressões coercitivas que são exercidas sobre eles.

Dizer que as fontes de todo comportamento, normal ou anor-

mal, são elas mesmas normais, não é negar a existência da anorma-

lidade. Algumas condutas chamadas de anormais, ou doentes, po-

dem ser valiosas para a comunidade, ou podem simplesmente ser

diferentes. Nesses casos, o rótulo "doença" mais provavelmente cau-

sará sofrimento, do que curará sofrimento. No entanto, muitas for-

mas incomuns de comportamento nos incomodam não apenas por-

que são diferentes, mas porque realmente causam sofrimento. Ainda

que elas sejam freqüentemente difíceis de classificar, não podemos

negar a realidade da depressão, das fobias e de outros "mecanismos

de defesa" e de vários tipos de esquizofrenia; todas elas precisam ser

tratadas tão efetivamente quanto saibamos.

E, algumas vezes, a segurança da comunidade está em jogo.

Assassinos de massa, espancadores de mulheres, molestadores de

crianças, criminosos sexuais e outros casos de violência patológica

são seguramente anormais com bases outras do que sua relativa

raridade. Também precisamos tratá-los, mesmo que eles não dese-

jem aceitar tratamento. Se não sabemos como chegar às fontes de

suas anormalidades, apenas podemos admitir nossa ignorância e

colocá-los onde eles não possam nos machucar.

Mas se uma anormalidade é desejável ou não, e se deveria

ser tratada, sempre envolve julgamentos de valor. E o mais efetivo

dos tratamentos sempre surgirá de uma compreensão do estado

normal. Na medicina, a definição de uma doença requer a identifica-

ção de processos internos que estão produzindo os sintomas exter-

nos. Na análise do comportamento, a definição de doença requer a

identificação de processos que estão produzindo e mantendo quais-

quer ações que consideremos como nos incomodando. Identificando

as contingências normais que sustentam o que decidimos ser um

comportamento-problema, abrimos a possibilidade de ir além de

nossos julgamentos de valor.


Coerção e suas implicações - Sidman

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Vida alternativa como esquiva da vida normal

 Permanecendo fora do mundo


Uma vez que desistentes tenham fugido de suas famílias,

escolas, ou comunidades coercitivas, eles mantêm sua distância.

Tendo se libertado de um ambiente aversivo, eles então fazem tudo

que estiver ao seu alcance para impedir que esse ambiente restabe-

leça seu domínio. Manter-se sem envolvimento é um ato de esquiva.

Jovens desistentes podem adotar um estilo de vida tão dife-

rente daquele do qual fugiram que sua comunidade original os julga

como tendo se tornado indesejáveis e até mesmo perigosos. Ambien-

tes pobremente mantidos e insalubres trazem perigos para os fugiti-

vos mas servem para uma importante função; eles mantêm o resto

da sociedade a uma certa distância. Famílias, considerando a nova

filosofia, os novos costumes, o novo ambiente e a aparência física de

seus filhos objetáveis e assustadores, abandonam tentativas de tra-

zer de volta a ovelha desgarrada.

Tendo fugido de indivíduos e instituições sociais coercitivos,

desistentes freqüentemente são atraídos para comunidades "margi-

nais" que afirmam que reforçadores mundanos, como pagamento

por trabalho ou talento, são incompatíveis com reforçadores como o

amor, a afeição e o compartilhar que se originam de relações pes-

soais não-egoístas. Juntando-se a uma comunidade com estilo de

vida alternativo, eles se oferecem a um líder carismático para explo-

ração, em troca de proteção contra a sociedade que rejeitaram. Toda

a renda vai para o guru que é, presumivelmente, incorruptível por

dinheiro e pelos confortos que ele torna disponíveis.

O que isto significa é que a sua abdicação de responsabilida-

de e de tomada de decisões permite aos membros de cultos ignorar

e, portanto, se esquivar de pressões para voltar à cena da qual eles

desistiram. Uma atração importante de comunidades e seitas margi-

nais é seu sucesso em proteger membros daquele outro mundo onde

suas vidas foram dominadas por fuga e esquiva. Pode levar tempo

pafa que eles descubram que seus novos reforçadores também são,

na sua maioria, negativos.

Quando a dor de um choque é atrasada, a aprendizagem da

esquiva será lenta; podemos ter de aceitar muitos choques antes de

aprender a evitá-los. Com drogas, também, um longo tempo pode se

passar entre causa e efeito. Drogas que causam adição têm compo-

nentes reforçadores que tornam ainda mais difícil aprender a se

esquivar delas. Também relações pessoais destrutivas freqüente-

mente contêm elementos positivos que por algum tempo sobrepujam

nossas inclinações de nos esquivarmos de situações aversivas. Viver

utria vida de isolamento social ou intelectual pode impor privações,168

Murray Sidrnan

desconfortos físicos e estresses biológicos que terminam em doença

e inabilidade para manter nossa independência. Desistentes do veio

central da sociedade freqüentemente sofrem desses resultados atra-

sados. Eles descobrem que seu novo ambiente desaprova curiosida-

de intelectual, faz com que se sintam culpados por qualquer sinal de

individualidade e considera desconforto e doença como formas de

distinção. Aquilo que primeiro pareceu afetuoso paternalismo torna-

se uma outra forma de exploração. Quando os elementos destrutivos

de seus novos estilos de vida se tornam óbvios o suficiente para

gerar um novo ciclo de esquiva, jovens desistentes podem já ter se

prejudicado irrecuperavelmente.

Mesmo que se mantenham saudáveis, portas terão se fecha-

do para eles, fechando seu acesso à oportunidade para inde-

pendência intelectual, econômica ou política mais convencionais,

ainda assim mais construtivas. Os componentes aversivos de suas

novas vidas podem finalmente tomar-se suficientemente fortes para

sobrepujar os atrativos originais, mas freqüentemente é muito tarde

para ação efetiva.

O reconhecimento dos componentes de esquiva na conduta

dos desistentes da sociedade torna-se mais importante quando que-

remos trazê-los de volta. Tendemos a colocar a culpa nas comunida-

des ou contraculturas que atraem os desistentes, ou em seus estilos

de vida alternativos. Mas a falha está na coerção que permeia as

interações sociais "normais". Ainda que um observador não-envolvido

possa ver as novas formas de coerção a que muitos desistentes se

submetem, permanece o fato de que eles consideram a nova coerção,

pelo menos temporariamente, menos aversiva que a antiga.

Se a sociedade pretender ter uma abordagem construtiva

para o problema de ganhar de volta seus membros perdidos, parti-

cularmente seus jovens, um primeiro passo necessário é admitir que

o comportamento de desistir é esquiva. Compreender as origens da

esquiva iria nos levar a examinar nosso próprio ambiente. Então,

poderemos identificar os choques que tornam as barrar de "desistir"

efetivas. A falha corrigível não está na aparente atratividade dos

alternativos, mas na relativa coercitividade da linha de base "nor-

mal". Em vez de perguntar "para onde foram os desistentes?", deve-

mos perguntar: "De onde eles vieram?"


Coerção e suas implicações - Sidman

Saúde mental, direitos humanos e modelo biomédico

 Os sistemas de saúde mental no mundo todo são dominados por um modelo biomédico reducionista que usa a medicalização para justificar a coerção como uma prática sistêmica e qualifica as diversas respostas humanas a determinantes sociais prejudiciais (tais como desigualdades, discriminação e violência) como sendo “transtornos psiquiátricos” que precisam de tratamento. Neste contexto, os mais importantes princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência são ativamente minados e negligenciados. Esta abordagem ignora as evidências de que investimentos efetivos devem visar populações, relacionamentos e outros determinantes, em vez de indivíduos e seus cérebros.

A combinação de um modelo biomédico dominante, assimetrias de poder e o amplo uso de práticas coercitivas mantêm não apenas as pessoas com problemas de saúde mental, mas também todo o campo da saúde mental, reféns de sistemas desatualizados e ineficazes. Os Estados e outras partes interessadas, especificamente o grupo profissional da psiquiatria, devem refletir criticamente sobre esta situação e unir forças no caminho para o abandono da herança de sistemas baseados na discriminação, exclusão e coerção.
O RS adverte contra o “excesso de medicalização” que é refletida nos rótulos que são atribuídos com base em “fronteiras impostas em torno de comportamentos e experiências normais ou aceitáveis.” Ele afirma que as respostas medicalizadas à exclusão social e à discriminação “muitas vezes podem afetar desproporcionalmente os indivíduos que enfrentam a marginalização social, econômica ou racial”.
A medicalização pode mascarar a capacidade de localizar a si mesmo e as experiências dentro de um contexto social, alimentando a falta de reconhecimento das fontes legítimas do sofrimento (determinantes da saúde, trauma coletivo) e produzindo alienação. Na prática, quando as experiências e problemas são vistos como médicos ao invés de sociais, políticos ou existenciais, as respostas são centradas em torno de intervenções em nível individual que visam retornar um indivíduo a um nível de funcionamento dentro de um sistema social, em vez de abordar os legados de sofrimento e a mudança necessária para enfrentar esse sofrimento no nível social. Além disso, a medicalização corre o risco de legitimar práticas coercitivas que violam os direitos humanos e pode consolidar ainda mais a discriminação contra grupos já em situação marginalizada ao longo de suas vidas e através de gerações.
Ele, portanto, faz um apelo para que se afaste das “intervenções individuais”, refletindo criticamente sobre as estruturas sociais excludentes e discriminatórias que causam o sofrimento. Este é um ponto importante, que nos impele a parar de olhar para os indivíduos através de uma lente de doença, de uma lente sobre o que está errado com você (que individualiza) para uma lente da sociedade – o que pode ter acontecido para fazer este indivíduo sentir ou reagir desta maneira?

Modelo integrativo da deficiência (na saúde mental)

Nota-se, ainda, segundo Sassaki (2002, p.35), ao caracterizar as condições de integração das pessoas com deficiência: 

No modelo integrativo, a sociedade, praticamente de braços cruzados, aceita receber portadores de deficiência desde que estes sejam capazes de: 

- moldar-se aos requisitos dos serviços especiais separados (classe especial, escola especial, etc.); 43 

- acompanhar os procedimentos tradicionais (de trabalho, escolarização, convivência social, etc.); 

- lidar com as atitudes discriminatórias da sociedade, resultantes de estereótipos, preconceitos e estigmas,  

- desempenhar papéis sociais individuais (aluno, trabalhador, usuário, pai, mãe, consumidor, etc.) com autonomia, mas não necessariamente com independência.

https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/12971/1/Pr%C3%A9-textuais%20revisados%20final.pdf 

[Comentário: O modelo integrativo se define pela responsabilidade de a pessoa com deficiência parecer o mais normal possível e pelos esforços exagerados que isso acarreta. Na saúde mental o modelo integrativo é muito usado. O paciente é visto como o problema, o doente mental, que precisa se desdobrar e fazer esforços especiais que uma pessoa "normal" não precisaria fazer para se adaptar/se ajustar às barreiras atitudinais na sociedade (na psiquiatria tradicional, família e sociedade). A sociedade não quer se implicar nos problemas do paciente pois julga que é natural que as coisas sejam assim, tem seus interesses e acredita que o problema de quem não se ajusta está dentro da própria pessoa (modelo médico em saúde mental). Essas exigências especiais podem desanimar o paciente de querer participar da sociedade e podem gerar a impressão de deficiência psicossocial. A deficiência psicossocial é uma percepção social de que um indivíduo é deficiente em termos mentais e no modelo integrativo vai lá o paciente humilhado servir as pessoas normais por mais que elas façam absurdos. Essas pessoas "normais" podem impor tantas barreiras atitudinais que o diagnóstico psiquiátrico pode ter sido feito totalmente por conta dessas barreiras e a sociedade e psiquiatria tradicional culpa a lesão cerebral ou o organismo dessa pessoa.]

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Adolescência e cuidado dos pais

 Atenção, por exemplo, usualmente um reforçador positivo para uma criança, pode

colocar problemas delicados depois que a criança tornou-se um

adolescente. Pais que cuidam demais, ou muito intensamente, podem 

ser vistos como intrometidos e controladores. Atenção, então,

funcionará como um reforçador negativo; é provável que os pais

notem que sua filha de 16 anos não parece mais querer falar com

eles, fica fora de casa tanto quanto possível e, quando em casa,

permanece calada.


Tendemos a ver o que queremos ver. Portanto, os pais podem precisar

da ajuda de um observador não-envolvido.

O observador pode recomendar que eles respondam às confidencias

de sua filha com afetuoso interesse, mas sem bisbilhotar; que eles

mostrem não apenas seus temores em relação ao seu bem-estar,

mas sua confiança em sua integridade e capacidade de julgar. Se

modular sua atenção a transformar um reforçador negativo em um

reforçador positivo, eles descobrirão que a conduta de sua filha

muda. Desligar-se de seus pais, afastar-se deles e evitar comunicação 

não mais será reforçador. Em vez disso, ela interagirá mais

freqüentemente, compartilhando experiências, confidenciando, confiando, 

mudando de fuga e esquiva para aproximação.


Coerção e suas implicações - Sidman

Antidepressivos e ambiente

 Companhias farmacêuticas destinam imensos orçamentos para o desenvolvimento e teste clínico de drogas antidepressivas. Alguns psiquiatras tornaram-se pouco mais que passadores de pílulas, prescrevendo drogas para ajudar a atenuar sentimentos de ansiedade que acompanham a depressão e, então, prescrevendo drogas adicionais na esperança de eliminar efeitos indesejáveis e mesmo perigosos dos agentes ansiolíticos.

Drogas que agem somente para reduzir estados fisiológicos de ansiedade podem fazer os severamente deprimidos relatarem que eles se sentem melhor, mas o remédio não necessariamente restaura atividade construtiva. Uma droga que acalma o sistema nervoso autônomo, embora deixando o paciente comportamentalmente deprimido, pode produzir um comentário como: "Oh sim, o remédio ajuda. Eu ainda estou deprimido, mas agora não me incomoda." Não mais trêmulo, sentindo dor, chorando, o paciente, entretanto, pode ainda passar todo o dia na cadeira de balanço, evitando com sucesso choques reais ou imaginários.

Se, em vez de tentar abrandar sua angústia interna, seu terapeuta se concentrasse em tentar identificar os choques e os reforçadores que estavam mantendo sua ausência de comportamentos, alguma coisa poderia ter sido feita para colocá-la de pé e movendo-se novamente.

Coerção e suas implicações - Sidman

The Anti-Authoritarian Mind

https://www.corbettreport.com/interview-474-the-anti-authoritarian-mind-with-dr-bruce-levine/

Interview 474 – The Anti-Authoritarian Mind with Dr. Bruce Levine

03/07/2012

Dr. Bruce Levine is a practicing clinical psychologist and an author, speaker and educator about the ways that society, culture, politics and psychology intersect. Often at odds with the mainstream of his profession, his writing has appeared in numerous online publications and he is the author of numerous books including Get Up, Stand Up: Uniting Populists, Energizing the Defeated, and Battling the Corporate Elite. Today he joins us to discuss the pathologization of anti-authoritarianism and how mainstream psychology attempts to limit the boundaries of “acceptable” political dissent. We also discuss the learned helplessness and pessimism of the anti-authoritarian mindset and how critical thinking can help people overcome their hopelessness and begin to effect change.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Culto à perfomance

[É necessário se adaptar às ideologias]


 O objetivo do livro é explicar que o culto à performance é uma

maneira de enfrentarmos as transformações ocorridas na noção

de igualdade. Em outras palavras: toda sociedade democrática

possui princípios para resolver a contradição entre o justo e o

injusto, entre igualdade de princípios e desigualdades reais: de

oportunidades, de renda e de acesso ao poder. A sociedade fran-

cesa do pós-guerra, por exemplo, baseava-se em um modelo de

igualdade que opunha concorrência e justiça, ou seja, era uma

sociedade que buscava limitar as conseqüências negativas da

concorrência, preservando a justiça na distribuição de recom-

pensas e sanções. No entanto, ao longo da década de 1980, a

sociedade francesa se converteu aos valores da concorrência, da

competição e da conquista. Esportistas, aventureiros, inventores,

profissionais autônomos, trabalhadores abrindo suas próprias

empresas e outros “combatentes” tornam-se figuras populares.

Um novo modelo de igualdade apareceu, um que fazia com que

o que era considerado “justo” era um produto direto da concor-

rência. Pois é exatamente isso que representa a competição es-

portiva: ela é a única atividade social que encena a união har-

moniosa da concorrência com a justiça. Ela é a própria imagem do

que é uma igualdade justa. Roberto da Matta mostrou muito bem

isso em relação ao futebol no Brasil. Os novos objetos de identifi-

cação e as novas normas tinham como elemento comum o fato de

que saímos do mundo da disciplina para entrar no da autonomia.


Hoje, empreender se tornou o único modelo de conduta possí-

vel. Em contrapartida, as desigualdades se mantêm, embora te-

nham mudado de estilo e de formato. Há hoje um novo debate

sobre as desigualdades, pois em um mundo que promete, antes

de qualquer coisa, o sucesso individual, as desigualdades são

cada vez mais encaradas como uma falha pessoal. As expectati-

vas aumentaram, mas não as possibilidades de realizá-las. Na

prática, sabemos que a realidade da vida social não funciona

com base em uma concorrência justa.

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/gvexecutivo/article/download/34605/33411

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Desistir

 Desistir de aspectos coercitivos, mas importantes, da vida

pode empobrecer severamente nossa existência. A sociedade tam-

bém é a perdedora quando um indivíduo pára de participar. Usar

uma barra de desistência para fugir da coerção é uma adaptação

não-produtiva. Desistentes não contribuem, seja para o seu bem

estar, seja para o bem-estar geral.


Murray Sidman - Coerção e suas implicações

Desistindo da família

 Desistindo da família. Um outro fugitivo trágico é o que desis-

te da família. Muitos jovens vivem com punição freqüente em casa.

Se a maior parte da atenção que obtêm vem na forma de punição,

com pouco reforçamento positivo compensatório, é provável que eles

deixem a velha casa paterna assim que surja uma oportunidade.

Eles podem começar prestando pouca atenção ao que é dito a eles e

ainda menos ao que é dito à sua volta em casa; eles não assumem

maiores responsabilidades na casa além das que são forçados; eles

nem dão nem solicitam afeto. Eles primeiro se desligam da vida

familiar e, então, quando se torna possível desistir, eles se vão.

A sociedade provê um conjunto de desculpas aceitáveis para

deixar a família. Ir para escola longe de casa é uma técnica de fuga

aprovada, assim como encontrar um bom emprego muito distante.

Gravidez é um modo tradicional para adolescentes conseguirem per-

missão para se casarem, até mesmo dos pais mais relutantes. Casa-

mento, possibilitado por gravidez precoce, ou por atingir a idade

legal, é uma rota de fuga da família socialmente aceita. Em muitos

estados, ser mãe solteira permite a uma garota fugir de sua família

para os braços da previdência pública, que a sustenta em seu pró-

prio domicílio.

Sair de casa para a escola, o trabalho, o casamento ou a

previdência pode, naturalmente, produzir reforçadores positivos e

nem sempre é o resultado de controle coercitivo. Mesmo quando o é,

tal rota de fuga pode tornar possível uma vida melhor para o fugiti-

vo. Entretanto, não podemos deixar de nos entristecer quando ve-

125

mos jovens terem de fugir para as responsabilidades da vida adulta,

freqüentemente muito cedo e despreparados, em vez de serem capa-

zes de aproveitar aquele estágio da vida como uma fonte de novas

satisfações.

Um dos problemas mais difíceis da paternidade é segurar os

filhotes até que eles estejam prontos para voar, nem forçando-os a

ir-se cedo demais, nem fazendo-os ficar tempo demais. Como pais,

sempre temos que estabelecer limites para nossos filhos e esta ne-

cessidade pode facilmente nos jogar na armadilha do controle coerci-

tivo. Mas não precisamos tornar o "Não" um punidor; podemos ensi-

nar nossos filhos a aceitar ambos, "Sim" e "Não", como um conselho

de alguém querido sobre o que funcionará e o que não funcionará,

como um auxílio na aprendizagem das regras pelas quais o mundo

opera. Algumas vezes, entretanto, eles insistem em descobrir coisas

por si mesmos, especialmente quando amigos os convenceram de

que os pais não podem em qualquer hipótese compreender suas

necessidades. Nada podemos fazer quando isso acontece, a não ser

esperar e observar; se já não os tivermos desligado por tentar coagi-

los a fazer as coisas à nossa maneira, então, se eles cometerem um

erro, não hesitarão em vir a nós para ajuda.

O problema se estabelece quando pais desistem da família.

Intuitivamente reconhecendo divórcio e separação como fuga, as

crianças freqüentemente se culpam pela partida de um dos pais.

Mas, mesmo que um dos pais fuja apenas em espírito — por meio de

doenças psiquiátricas incapacitadoras, alcoolismo, excesso de traba-

lho ou excesso de televisão — o modelo de fuga está ali para as

crianças imitarem quando elas criarem suas próprias famílias. Fuga

da família tem um modo de se perpetuar. Podemos fugir do ambien-

te coercitivo de nossa família, mas, a menos que tenhamos um outro

modelo para seguir, criamos nossa própria cópia. E então, nossos

filhos mantêm a tradição coercitiva viva.


Murray Sidman - Coerção e suas implicações

Desistindo da sociedade

Desistindo da sociedade


Fugitivos de um outro tipo desistem 

completamente do fluxo principal da sociedade. Alguns apenas flu-

tuam nas águas estagnadas, alguns lutam em águas turbulentas,

alguns tentam mudar a direção da corrente e alguns tentam explodir

os diques e afundar todos nós. Eles vão das crianças "da paz e do

amor" dos anos 60 e seus sucessores guiados por gurus — autocen-

trados, mas pacíficos, perturbadores em sua disposição de ser explo-

rados — ao extremo oposto do continuam de desistentes, os terroris-

tas de hoje — autocentrados e violentos, amedrontadores por causa

de seu total desprezo pela vida humana e pelos seus produtos.

Também encontramos muitos em estágios intermediários. Alguns se

retiraram apenas dos aspectos abertamente competitivos da vida130

Murray Sidrnan

mas mantêm-se artística ou intelectualmente criativos. Outros devo-

tam suas energias não tanto para a produtividade, como para a

preservação. Ainda outros tentam mudar o sistema por meio de

mecanismos socialmente aceitos como legislação, campanhas publi-

citárias, apoio a candidatos políticos, filiação em partidos ou de-

monstrações não-violentas.

A sociedade, rotulando como caronas aqueles que adotam

estilos de vida não-produtivos, dirige abuso social e político a eles. A

comunidade vê desistentes que encontram segurança nos rituais e

despotismo benevolente de um auto-intitulado profeta como amea-

ças a modos estabelecidos de conduta. Ela interpreta sua fuga como

um tapa na cara dos pais e outros responsáveis por integrar os

jovens na comunidade. Freqüentemente, pessoas que são rejeitadas

pelos desistentes voltam-se contra eles, tentando tirar sua liberdade,

classificando-os como mentalmente doentes ou incompetentes. A so-

ciedade se opõe até mesmo àqueles que podem ser chamados de

desistentes construtivos — aqueles que usam recursos-padrão e mo-

ralidade convencional na tentativa de mudar a estrutura da socieda-

de — invocando os mesmos mecanismos e moralidade socialmente

aprovados para preservar o status quo. Dissidentes, tratados como

desistentes, descobrem-se alvos de abuso verbal, físico e econômico.

"Se as conseqüências de desistir são tão opressivas e mesmo

perigosas", pode-se perguntar, "por que tantos tomam este cami-

nho?" Quando indivíduos insistem em abrir mão dos reforçadores

positivos que uma sociedade torna disponíveis, até mesmo trazendo,

em vez disso, punição severa sobre si mesmos, uma análise compor-

tamental dos indivíduos e sua sociedade torna-se necessária. Histó-

rias individuais revelarão que muitos que são classificados como

desistentes jamais foram realmente admitidos nos grupos dos quais

eles supostamente se retiraram. Eles podem, na verdade, ser fugiti-

vos da coerção, mas podemos chamá-los de desistentes se a socieda-

de nunca os assumiu como membros, para começar? Eles não esco-

lheram uma vida de opressão; eles não tiveram alternativa. Embora

tratados como desistentes, eles realmente são banidos.

É provável que descubramos, então, que muitos que parecem

tér desistido jamais tiveram acesso a reforçadores positivos suposta-

mente disponíveis. Crianças de minorias sociais freqüentemente

crescem sem escolarização efetiva, especialmente se repressão so-

cial, política e econômica impediu sua comunidade de desenvolver

uma tradição de mobilidade social ascendente. Longe de desistir,

elas foram excluídas do grupo.Coerção e suas implicações

131

Em famílias economicamente bem-sucedidas, o único apoio

paterno que alguns adolescentes conhecem é o monetário e mesmo

esse apoio não é contingente a qualquer coisa que eles façam ou

deixem de fazer. Estes jovens emocionalmente privados, a quem

jamais se ensinou responsabilidade social ou financeira, jogarão fora

seus recursos facilmente obtidos em busca de quaisquer reforçado-

res positivos que passem ao seu alcance. E assim encontramos

muitas crianças privilegiadas, cortadas dos laços familiares normais,

movendo-se para fora de seu vazio social e emocional em direção à

cultura da droga.

Por outro lado, também encontramos muitos para quem pu-

nição e reforçamento negativo anularam quaisquer reforçadores po-

sitivos disponíveis. Eles vão dos que sofreram abusos físicos e se-

xuais a aqueles que simplesmente descobriram como repulsivas as

inconsistências e hipocrisias da civilização. Para eles, sair do fogo

para cair na frigideira pode ser um ato de desespero. Controle coer-

citivo que faz isso desperdiça vidas. O crescimento do indivíduo

cessa e a sociedade perde as contribuições potenciais de seu mem-

bro desistente.

Embora esses desistentes possam apenas trocar uma situa-

ção ruim por outra, eles ainda podem obter acesso a reforçadores

dos quais anteriormente estavam excluídos, ou podem encontrar

novos tipos de reforçadores para substituí-los; estes podem recom-

pensar as novas dificuldades. Ao tentar entender por que os desis-

tentes parecem tão desejosos de trazer para si a ira da sociedade,

temos que considerar todas as alternativas e opções que desistir

torna disponíveis. Amizade e afeição, abertamente dadas e recebi-

das, mesmo em um refúgio onde a fome e o desconforto físico preva-

lecem, podem facilmente contrabalançar um ambiente anterior que

provia todas as necessidades físicas, mas punia calor emocional.

Desistentes de setores privilegiados da sociedade, algumas vezes se

descobre, sacrificaram segurança econômica por segurança emocio-

nal.

<

Considera-se que certas drogas "aumentam a consciência",

embora na realidade reduzam a acuidade sensorial, distorçam a

percepção e prejudiquem o julgamento. Entretanto, junto com estas

desvantagens, as drogas também podem produzir esquecimento das

restrições, repressões e agressões da vida. Portanto, drogas podem

ajudar a mitigar ambos, os desconfortos de um estilo de vida alter-

nativo e o abuso adicional que um ambiente coercitivo aplica ao

tentar reclamar de volta seus desistentes.132


A longo prazo, sair da sociedade não funciona, seja generica-

mente ou para o indivíduo. A sociedade sobrevive a seus membros e

sua paciente coerção esmaga rebeliões não-construtivas. Embora

aqui e acolá indivíduos realmente encontrem um nicho não-tradicio-

nal para si mesmos, ocasionalmente até tendo sucesso na alteração

de práticas de comunidades, o destino usual de um desistente é a

inefetividade — verdadeiro esquecimento. O desperdício é enorme.


Murray Sidman - Coerção e suas implicações

domingo, 16 de agosto de 2020

A ABRATA e o "preconceito"

A associação de pacientes de transtornos afetivos (ABRATA) faz propaganda contra preconceito que na verdade é pretexto para medicalizar comportamentos não esperados socialmente. O discurso subjacente é que o único caminho é o modelo biomédico e que esse necessariamente é benéfico. Associações de pacientes tem ligações com a indústria farmacêutica: é assim que conseguem se manter.

Sobrecarga de dopamina e abstinência de neurolépticos

Ao tomar neurolépticos que reduzem a dopamina por um período de tempo a quantidade de receptores de dopamina no cérebro aumenta. Então quando o neuroléptico é retirado acontece uma sobrecarga de dopamina pois a droga não está mais reduzindo a quantidade de dopamina e a quantidade de receptores de dopamina se tornou maior. Assim como levou tempo para o cérebro se ajustar à introdução do neuroléptico (e quando surgem sintomas parkinsonianos), também é necessário tempo para o cérebro se ajustar à retirada de neurolépticos reduzindo a quantidade de receptores de dopamina.

sábado, 15 de agosto de 2020

Invega / Sustenna / Trinza

 Invega


Tempo para início da ação

• Os sintomas psicóticos podem melhorar dentro

de 1 semana, mas pode levar várias semanas

para efeito completo no comportamento e na

cognição

• Classicamente é recomendado esperar pelo me-

nos 4 a 6 semanas para determinar a eficácia da

substância, mas, na prática, alguns pacientes

podem requerer até 16 a 20 semanas para apre-

sentar uma boa resposta, especialmente nos sin-

tomas cognitivos


• A maioria dos pacientes com esquizofrenia não

tem uma remissão total dos sintomas, mas uma

redução de aproximadamente um terço

• Talvez 5 a 15% dos pacientes com esquizofrenia

possam experimentar uma melhora geral de mais

de 50 a 60%, especialmente se receberem trata-

mento estável por mais de 1 ano

• Esses pacientes são considerados super-respon-

dedores ou “awakeners”, já que podem ficar su-

ficientemente bem para obter emprego, viver de

forma independente e manter relações de longa

duração


Mesmo em indivíduos sem diabetes conhecida,

manter vigilância para o início raro, mas potencial-

mente fatal, de cetoacidose diabética, que sempre

requer tratamento imediato, monitorando o início

súbito de poliúria, polidipsia, perda de peso, náu-

sea, vômitos, desidratação, respiração rápida, fra-

queza e turvação da consciência, até mesmo coma

• Deve ser verificada a pressão arterial em idosos

antes de iniciar o tratamento e durante as primei-

ras semanas de tratamento

• O monitoramento dos níveis elevados de prolacti-

na é de benefício clínico questionável

• Pacientes com baixa contagem de leucócitos

ou história de leucopenia/neutropenia induzida

por substância devem ter hemograma completo

monitorado frequentemente durante os primeiros

meses, e a paliperidona deve ser descontinuada

ao primeiro sinal de declínio de leucócitos na au-

sência de outros fatores causativos


Efeitos colaterais potencialmente fatais ou

perigosos

• Hiperglicemia, em alguns casos extrema e as-

sociada a cetoacidose ou coma hiperosmolar ou

morte, foi relatada em pacientes que tomavam

antipsicóticos atípicos


Ganho de peso: comum

• Muitos pacientes experimentam e/ou pode ocor-

rer em quantidade significativa

• Pode ser dose-dependente

• Pode ser menor do que com alguns antipsicóticos

e maior do que com outros


Sedação: comum

• Muitos experimentam e/ou pode ocorrer em

quantidade significativa

• Pode ser dose-dependente

• Pode ser menor do que com alguns antipsicóticos

e maior do que com outros


O tratamento deve ser suspenso se a contagem

de neutrófilos absolutos cair abaixo de 1.000/mm3


• As doses orais correspondem às doses com inje-

ção da seguinte maneira: 3 mg orais para 39 a 78

mg de injeção, 6 mg orais para 117 mg de injeção,

12 mg orais para 234 mg de injeção


Disfagia foi associada ao uso de antipsicóticos,

e a paliperidona deve ser utilizada com cautela

em pacientes em risco para pneumonia por as-

piração


Entretanto, a polifarmácia de longo prazo com

combinação de 1 antipsicótico convencional

com 1 atípico pode combinar seus efeitos cola-

terais sem claramente potencializar a eficácia de

cada um

• Embora seja uma prática frequente por parte de

alguns prescritores, o acréscimo de 2 antipsicóti-

cos convencionais em conjunto faz pouco sentido

e pode reduzir a tolerabilidade sem um claro au-

mento na eficácia